Poder e Medo

Data de publicação: 19/09/2011
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Edição 34 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 34

Por Henri Nouwen

Poder e Divisão

Jesus, ao olhar para o nosso mundo, chora. Ele chora porque a cobiça do poder enredou e corrompeu o espírito humano. Em vez de gratidão, há ressentimento; em vez de encorajamento, há críticas negativas; em vez de perdão, há vingança; em vez de compaixão, competição; em vez de cooperação, violência, e em vez de amor, existe por toda parte imenso temor.

Deus chora porque conhece a angústia e a agonia que causamos a nós mesmos, ao querermos tomar o destino nas nossas mãos e impô-lo aos outros.

Olhemos para dentro de nosso próprio coração! Não é verdade que nos preocupamos constantemente se nos sobressaímos ou não, se somos tidos em consideração ou não, se somos premiados ou não? Não estamos sempre perguntando a nós mesmos se somos melhores ou piores, mais fortes ou mais fracos, mais rápidos ou mais vagarosos do que aquele que está ao nosso lado? Não temos considerado os nossos colegas, desde os bancos da escola primária, como rivais na corrida pelo sucesso, pela influência e pela popularidade? E… não nos sentimos tão inseguros em relação ao que somos, que nos agarramos a todas, sim, a todas as formas de poder que nos permitam um pouco de controle sobre o que somos, sobre o que fazemos ou sobre a meta que queremos atingir?

Quando nos dispusermos a olhar para as coisas com os olhos de Deus, imediatamente veremos que o que está acontecendo no Iraque, no Afeganistão, em Israel e na Palestina não é muito diferente do que se passa no nosso coração. Desde que a nossa própria segurança seja ameaçada, seguramos o primeiro pau ou arma que encontramos e dizemos que é a nossa sobrevivência que interessa, mesmo que milhares de outros não consigam o mesmo.

E conheço muito bem as armas que tenho! Algumas vezes, é um amigo mais influente do que eu; outras, é o dinheiro ou um diploma superior; outras ainda, é um pouco de talento que outros não têm; e, outras vezes, são conhecimentos especiais, um segredo escondido ou ainda um olhar frio… e eu me agarro a tudo isso, sem demora e sem qualquer hesitação, quando preciso de algo para manter o controle. E, antes mesmo de dar-me conta disso, já afastei os meus amigos.

Deus olha para nós e chora porque sempre que usamos o poder para nos dar um senso de autoconsciência ou autovalorização, nós nos separamos de Deus e uns dos outros; e, então, a nossa vida torna-se diabólica no sentido literal da palavra: divisória.

Poder Religioso

Mas há algo pior do que o poder econômico ou o poder político: é o poder religioso. Quando Deus olha para o nosso mundo, não só chora como se indigna também; indigna-se porque muitos dos que oram, louvam e dizem a Deus “Senhor, Senhor!”, também se deixam corromper pelo poder.

O poder mais insidioso, divisório e ofensivo que existe é o poder usado no serviço de Deus. É impressionante o número de pessoas que foram “ofendidas pela religião”. Milhares de homens e mulheres separados e divorciados, pessoas rejeitadas pela sociedade, os sem-teto, desajustados ou fracassados, sentindo-se rejeitados nas casas de culto dos seus irmãos e irmãs da família humana, afastaram-se de Deus por terem experimentado o abuso do poder quando, em vez disso, esperavam uma expressão de amor.

A influência devastadora do poder nas mãos dos homens de Deus torna-se evidente quando pensamos nas cruzadas, na política do “apartheid” e na longa história das guerras religiosas até os nossos dias. Mas talvez seja mais difícil perceber o fato de que muitos movimentos religiosos contemporâneos criam terreno fértil para que essas imensas tragédias humanas venham a acontecer novamente.

Nestes tempos de grande incerteza econômica e política, uma das maiores tentações é a de usar a fé como instrumento para exercer poder sobre os outros e, por conseguinte, suplantar o mandamento de Deus com mandamentos humanos. Quando o poder é usado para proclamar a Boa Nova, a Boa Nova depressa torna-se uma Má Nova. E é isso que indigna Deus.

A Teologia de Debilidade

Qual foi, e continua sendo, a resposta de e destrói as pessoas junto com sua própria terra? Deus escolheu a fragilidade. Deus escolheu fazer parte da história humana em completa fragilidade. Essa opção divina constitui o centro da fé cristã. Em Jesus de Nazaré, um Deus sem poder apareceu no meio de nós para desmascarar a ilusão do poder, para desarmar o príncipe das trevas que governa o mundo, levando unidade à raça humana dividida.

É muito difícil – se não mesmo impossível – entrarmos no segredo deste divino mistério. Nós continuamos a orar ao “Deus Todo-poderoso”, mas a força e o poder estavam longe daquele que nos revelou Deus dizendo: “Quando você me vê, você vê o Pai”. Se realmente queremos amar a Deus, temos que olhar para o homem de Nazaré cuja vida esteve revestida de fraqueza. A sua debilidade nos abre o caminho do coração de Deus.

As pessoas com poder não são um convite à intimidade. Nós temos medo das pessoas com poder. Elas podem controlar-nos e forçar-nos a fazer o que nós não queremos. Olhamos para as pessoas com poder como se fôssemos inferiores. Elas têm o que nós não temos e podem dar ou recusar-se a dar conforme lhes apetece. Invejamos as pessoas com poder. Elas podem dar-se ao luxo de ir aonde nós não temos condições de ir e fazer o que nos seria impossível.

Mas Deus não quer que tenhamos medo, nem deseja que nos mantenhamos distantes ou que sejamos invejosos. Deus quer, isso sim, aproximar-se de nós, aproximar-se de tal maneira que possamos ter intimidade com ele, como um menino nos braços da sua mãe.

Por isso, Deus fez-se um bebê. Quem pode ter medo de um bebê? Sim, Deus quis ser tão frágil que não pôde comer ou beber, caminhar ou falar, descansar ou trabalhar sem a ajuda de muita gente. Deus escolheu fazer-se tão carente de poder que a realização da sua própria missão no meio de nós dependia do apoio humano. É o mistério da encarnação. Deus fez-se humano, de maneira nenhuma diferente dos outros seres humanos, para abater os muros do poder em total fragilidade. Essa é a história de Jesus.

Como Podemos Viver Sem Medo?

O nosso mundo é governado por poderes diabólicos que dividem e destroem. Mas, em e através de um Jesus sem poder, Deus desarmou esses poderes. Todavia, este mistério nos confronta com uma nova e difícil questão: Como viver neste mundo como testemunhas de um Deus investido de debilidade e impotência e construir o Reino de amor e de paz?

Uma teologia da debilidade desafia-nos a olhar para a fraqueza não como fraqueza mundana que permite que sejamos manipulados pelos poderosos na sociedade e na igreja, mas como uma total e incondicional dependência de Deus, capaz de abrir-nos os autênticos canais do poder divino que cura as feridas da humanidade e renova a face da terra. A teologia da debilidade reclama um poder, o poder de Deus, o poder todo-transformador do amor.

Com efeito, a teologia da debilidade é uma teologia que mostra um Deus que chora pelo gênero humano que continua envolvido nos seus jogos de poder, e que fica indignado por estes mesmos jogos de poder serem tão cobiçosamente reclamados pelos chamados homens religiosos. Mostra também como Deus desmascara os jogos de poder do mundo e da igreja, entrando na história numa completa situação de fragilidade. Porém, a teologia da debilidade tem por objetivo, em última análise, mostrar que Deus oferece a nós, seres humanos, o poder divino de caminhar pela terra com confiança e com a cabeça levantada.

A teologia da debilidade é uma teologia de capacitação divina. Não é uma teologia para fracotes, digamos assim, mas uma teologia para homens e mulheres que reclamam para si o poder do amor que os liberta do medo e os capacita a colocar as suas lâmpadas em lugares visíveis e a fazer a obra do Reino.

Sim, nós somos pobres, mansos, choramos, temos fome e sede de justiça, somos misericordiosos, puros de coração, pacíficos e perseguidos por este mundo hostil. Mas nada de fracotes ou covardes, nada de capachos! O Reino dos Céus é nosso, e a terra é nossa herança. Somos consolados, saciados, experimentamos a misericórdia e somos reconhecidos como filhos de Deus e… vemos a Deus. E isso é poder, poder verdadeiro, poder que vem de cima.

Fomos chamados para sair do poder tirânico produzido pela força humana, e para andar em direção ao poder que vem através da fragilidade. Como pessoas temerosas, ansiosas, inseguras e feridas, somos constantemente tentados a apropriar-nos da mais pequena parcela de poder que o mundo à nossa volta oferece a torto e a direito, aqui e acolá, a todo o momento. Se as aceitarmos, essas partículas de poder farão de nós pequenos joguetes, movidos para cima e para baixo por fios até nos levarem à morte.

Todavia, à medida em que tivermos a coragem de ser batizados na fragilidade, indo sempre em direção aos pobres que não dispõem de tal poder, seremos mergulhados diretamente no coração da infinita misericórdia de Deus. Seremos livres para reentrar no nosso mundo com o mesmo poder divino com que Jesus entrou e seremos capazes de caminhar no vale de escuridão e de lágrimas, em comunhão incessante com Deus, com a nossa fronte levantada, confiantemente erguidos sob a cruz da nossa vida.

É este poder que gera líderes para as nossas comunidades, mulheres e homens que não receiam correr riscos e tomar novas iniciativas. É este poder que nos capacita a ser não só simples como as pombas, mas também inteligentes como as serpentes, no nosso relacionamento com os governos e com as instituições religiosas. É este poder que nos capacita a falar de modo direto e sem hesitações sobre dinheiro com pessoas que têm capacidades financeiras, a chamar homens e mulheres para uma entrega radical, a desafiar as pessoas a se comprometerem por prazos indeterminados e a continuar a anunciar a Boa Nova em toda a parte e em todos os tempos. É este poder divino que faz de nós santos – destemidos – e que também pode fazer novas todas as coisas.

Extraído de O Caminho do Poder, Henri Nouwen, Edições Paulinas.

Para pedir o livreto completo, ligue para: 19-3462-9893

Henri Nouwen (1932-1996) abandonou uma brilhante carreira de professor nas melhores universidades do mundo e viveu seus últimos anos servindo deficientes mentais numa comunidade em Toronto, Canadá. Seus livros continuam a abençoar e impactar pessoas em todo o mundo.

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