Entrevista de Impacto-Philip Yancey-Autoridade ou Questionador?

Data de publicação: 16/07/2011
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Edição 57 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 57

Escritor cristão, Philip Yancey fala sobre os livros que escreveu, o novo projeto literário e comenta efeitos positivos e negativos que a igreja pode causar na nossa vida.

Nem mesmo os maiores gênios da história tiveram respostas para todas as questões da humanidade. Artistas como Michelangelo tiveram seus momentos de “será?” enquanto pincelavam ou esculpiam obras clássicas. Dostoiévski exorcizou os demônios de sua alma ao escancarar o coração às dúvidas que o aprisionavam. O mundo carece das guerras interiores que inquietavam o espírito de Tolstói e Gandhi. Faltam questionadores calibrados como G. K. Chesterton e C. S. Lewis que surpreendiam (e foram surpreendidos) pela alegria de obter respostas em meio a tantas dúvidas sinceras, aceitas graciosamente diante de Deus.

O jornalista e escritor cristão norte-americano Philip Yancey, de 59 anos, engrossa a lista dos articuladores do ponto de interrogação. Desde quando estreou na literatura, em 1977, o autor, natural de Atlanta, Estados Unidos, vendeu mais de 14 milhões de exemplares em cerca de 25 idiomas. Títulos como “Igreja: por que se importar?” (Editora Sepal) ou “Oração: ela faz alguma diferença?” (Editora Vida) nasceram de um espírito contrito e decepcionado com o racismo de uma igreja fundamentalista no sul dos EUA, onde foi criado na década de 1960.

O autor de “Alma Sobrevivente – sou cristão apesar da Igreja” (Editora Mundo Cristão) é sincero ao conversar com o Grupo News1 por e-mail. Aborda seu novo projeto literário, fala sobre a importância da comunhão na igreja, revela o que faz com a grana que recebe da venda de seus livros… E, para variar, só para variar, termina esta entrevista exclusiva levantando uma questão – dessa vez, sem causar polêmicas.

Grupo News: Existe algum plano para escrever um livro sobre tema ainda inédito para você?

Philip Yancey: Estou começando a trabalhar em uma espécie de autobiografia com reflexões sobre minha vida, especialmente minha criação em uma família difícil e uma igreja que eu chamaria de “tóxica”. Quase todos os dias, recebo mensagens de leitores querendo achar a cura de feridas causadas por família ou igreja. Em contrapartida, boa parte dos livros cristãos tenta cobrir a triste realidade com falso verniz, com uma mensagem que soa mais como propaganda. Até agora, à medida que trabalho nesse projeto, estou encontrando saúde interior ao remontar os diversos retalhos do meu passado.

Ainda estou nos primeiros estágios do livro, lendo várias outras autobiografias e estudando os estilos e características. Em contraste com meu estilo normal, esse livro se assemelhará mais à ficção, por utilizar-se de narrativa e diálogos, embora meu objetivo seja registrar, da forma mais fiel possível, o que realmente aconteceu comigo.

GN: Seus livros são bem aceitos no mercado editorial cristão, vendendo milhares de cópias. O que faz com a verba que recebe?

PY: Antes de começar a escrever livros, eu pretendia, junto com minha esposa, fazer trabalho missionário. Assim, nunca prevíamos ter muito dinheiro. Logo no início, porém, organizamos uma fundação cujo foco é assistência e desenvolvimento em países necessitados e regiões carentes do nosso próprio país. Boa parte dos royalties da venda dos livros vai para essa fundação, para apoiar projetos e trabalhos em que acreditamos.

GN: Em seus livros, você fala sobre pessoas que se sentiram frustradas com a igreja. Em “Deus (in)visível”, por exemplo, comenta a respeito do seu irmão que deixou os caminhos de Deus por ter se decepcionado com a instituição religiosa. O que me diz sobre a sua família? Na sua opinião, qual é a importância da família, hoje, para a implantação do reino de Deus?

PY: Com certeza, a família é importante. Entretanto é também uma demonstração clara de como temos tão pouco controle. Meu irmão considera-se agnóstico – se você conseguisse ir além das camadas exteriores de dúvidas, provavelmente encontraria profundas feridas causadas por uma igreja doente e “tóxica”. No caso dele, a família só agravou ainda mais a disfunção. Conheço muitos pais que se sentem impotentes quando seus filhos rejeitam a fé ou se envolvem em comportamentos autodestrutivos. Não sei de nada que nos ajude melhor a compreender como Deus deve se sentir olhando para essa Terra e vendo a bagunça que fizemos com ela. Mesmo assim, Deus atribui um valor muito elevado à liberdade humana e permite-nos o livre arbítrio, mesmo quando o utilizamos para escolher contra a vontade dele. Esse modelo é importante para as famílias também na minha convicção.

GN: Como você descreveria sua própria jornada espiritual na faculdade? Pode contar-nos uma de suas experiências memoráveis na época de universitário no Columbia Bible College?

PY: Estudei em uma faculdade cristã muito severa que empregava uma forma de controle da mente. “Simplesmente creia, sem questionar!”, diziam. Mas eu questionava sim: sobre o legalismo, a hipocrisia, as estranhas ênfases de alguns professores e alunos ali. Eu não queria ser igual a eles e até os ridicularizava às vezes. Na época, não estava buscando a Deus. Tive uma experiência parecida com a que é descrita no poema The Hound of Heaven (O Cão de Caça do Céu), de Francis Thompson, pois era Deus que estava correndo atrás de mim. Eu esperava conhecer um Deus severo e algoz, mas, ao invés disso, encontrei um Deus de graça e misericórdia. Com certeza, esse novo entendimento sobre a natureza de Deus foi a experiência mais marcante que trouxe de lá.

GN: Para você, qual é a importância de comunhão e comunidade para a igreja?

PY: Quando leio o livro de Atos, vejo que a igreja significa, antes de tudo, comunidade. Um pequeno grupo de pessoas, que vivia em uma cultura judaica nas fronteiras do Império Romano, decidiu que um profeta do primeiro século chamado Jesus tinha a resposta para os problemas da vida. Uniram-se umas às outras para se encorajar e suprir as necessidades ,mútuas. É tão simples – e, ao mesmo tempo, tão complicado! A igreja começou como uma espécie de contracultura, uma união de pessoas com o mesmo pensamento, comprometidas umas com as outras, que se tornavam uma luz na cultura ao seu redor. Um dos primeiros líderes cristãos disse que a igreja é como uma fogueira: tire uma brasa do fogo, e logo se esfriará. Qualquer movimento terá muita dificuldade em se manter separado da comunidade.

GN: Você escreveu que há “Rumores de Outro Mundo” em nosso mundo. A que tipo de rumores você se referiu? Pode dar um exemplo?

PY: Ainda estou procurando entender mais sobre isso. Para mim, a beleza é um poderoso rumor do espírito criativo de Deus. Gosto de citar G. K. Chesterton, quando disse que o pior momento para o ateu é quando sente profunda gratidão e não tem a quem agradecer. Moralidade é outro rumor. Toda sociedade que já foi analisada tem a percepção de que assassinato e incesto são errados; de onde veio tal consciência? Felicidade, prazer, bondade – esses também são rumores que nos oferecem indícios da natureza de Deus. No livro “Rumores de Outro Mundo”, cito o sexo como um exemplo claro. Estude as maneiras como a sexualidade humana difere do sexo animal e verá um forte rumor do que Deus quis que o sexo fosse para nós.

GN: Em seu livro Alma Sobrevivente, você escreveu sobre 13 personalidades que influenciaram sua fé. Por que você não incluiu o pensador cristão C. S. Lewis, já que o cita freqüentemente?

PY: Com certeza, C. S. Lewis merecia um capítulo no meu livro. Eu o deixei de fora por somente um motivo: existem dezenas de livros que descrevem sua influência. Eu queria focar outros que não receberam tanta atenção. Na verdade, escrevi um capítulo sobre a influência de C. S. Lewis em minha vida, mas foi incluído em outro livro. A influência dele é enorme e demonstra o poder das palavras: Lewis tem muito mais impacto depois de sua morte do que antes dela graças aos livros que escreveu.

GN: Ainda em Alma Sobrevivente, você escreveu sobre Gandhi, cuja influência no mundo também é descrita por dezenas de livros. Diga-nos: o que um garoto fundamentalista do sul dos Estados Unidos conseguiu aprender com o revolucionário indiano?

PY: Você perguntou há pouco sobre o uso de dinheiro. Gandhi tinha pensamentos profundamente desafiantes nesse assunto. Estava muito à frente de sua época nas preocupações com o meio ambiente e o desperdício. Nunca se tornou cristão, mas não conheço ninguém que tenha tentado com mais intensidade colocar em prática o que Jesus ensinou sobre honrar “os mais pequeninos” (Mt 25.40) e fazer da humildade um objetivo a ser alcançado. Gandhi levou Jesus mais a sério do que 90% dos cristãos que eu conheço. Como hindu, nunca conseguiu aceitar completamente o conceito de graça e, por isso, morreu ainda lutando com o esforço humano sem se livrar da consciência de culpa. Mesmo assim, quanto mais sei a seu respeito, mais sou desafiado. Pessoas como Gandhi, Francisco de Assis e Madre Teresa são marcos importantes para todos nós. Não foi Chesterton que disse que o santo é aquele que exagera o que o mundo negligencia?

GN: Você costuma lidar com as palavras no seu dia-a-dia. Para você, qual é a importância da Palavra de Deus na restauração da igreja?

PY: A própria expressão já diz tudo: a Bíblia é a Palavra de Deus, tem tudo o que Deus quer que leiamos e escutemos como o “manual do fabricante” para a vida neste planeta. Qualquer igreja que deseje seguir a Deus precisa começar nesse ponto.

GN: Qual é o seu autor favorito? Dá para escolher um nome?

PY: Não tenho certeza do quanto ele é conhecido no Brasil, mas admiro muito Frederick Buechner, que ainda está vivo. Ele já escreveu quase 40 livros, metade ficção e metade não-ficção. Amo a maneira como Buechner enobrece a arte de escrever enquanto também incorpora sua fé naquilo que escreve. Eu detestaria ter de escolher apenas um, tanto que escrevi sobre 13 mentores (incluindo Buechner) em Alma Sobrevivente.

GN: Como é sua rotina trabalhando para a revista Christianity Today?

PY: Não tenho propriamente uma rotina. Moro no Colorado, a uns 1.600 km do escritório da revista, que fica perto de Chicago. Recebi a posição “Editor à Distância”, e eu brinco que a única expressão comparável seria “preso à distância” (ou “preso em liberdade”) – pois eles não sabem onde o editor está nem o que está fazendo! Eu escrevo uma coluna para Christianity Today a cada duas edições, ocasionalmente escrevo artigos em algumas das mais de dez outras revistas que o grupo publica e faço consultoria para algumas delas também. A maior parte do meu tempo, porém, eu dedico aos meus projetos de escrever livros.

GN: Você também toca piano. Qual é a sua opinião sobre adoração na igreja?

PY: Como estudei música clássica, sou um tanto antiquado. Aceito plenamente que a igreja precise usar estilos modernos de louvor com os quais as pessoas possam se identificar. Apenas imploro para que não joguemos fora a maravilhosa e rica tradição daqueles que viveram antes de nós. A letra, a estrutura de acordes e a beleza simples de alguns dos grandes hinos dão de 10 a zero na grande parte das “músicas de louvor” que temos hoje. Para dizer a verdade, precisamos hoje de mais excelência e criatividade na adoração.

GN: Quais são suas expectativas, tanto profissionais quanto pessoais, para os próximos dez anos?

PY: Quisera eu pensar lá na frente assim! Eu trabalho com um livro de cada vez, e essa autobiografia provavelmente levará mais dois anos pelo menos. Depois disso, eu não sei. Alguma idéia?

Colaboraram Editora Mundo Cristão e a jornalista Priscila Harumi

Thiago Bronzatto, 21 anos, é jornalista, reside em Barueri, SP, e participa de uma comunhão de grupos familiares espalhados pelo Brasil. Para ler outros textos deste autor, acesse: www.enaptt.blogspot.com

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