Perigos na Batalha Espiritual

Data de publicação: 28/07/2011
Este artigo pertence a: Edição 53

Da Redação

Uma das coisas mais importantes nestes dias é aprender a distinguir entre uma ênfase ou verdade perdida que o Espírito está restaurando à igreja e uma nova “onda” que exerce uma enorme influência por um tempo, mas logo desaparece, deixando mais estragos do que benefícios em seu rastro.

O problema é que geralmente essas ondas que surgem na igreja são uma mistura das duas coisas: representam a restauração de uma verdade perdida durante os séculos de história e, ao mesmo tempo, geram alguns extremos e exageros cujos estragos acabam decretando a sua rejeição por boa parte da igreja. O que devemos fazer é julgar todas as coisas e reter o que é bom (1 Ts 5.21), para não sermos prejudicados e enfraquecidos pelos excessos, por um lado, nem pela rejeição de aspectos importantes da Palavra de Deus, por outro.

O artigo a seguir foi extraído e adaptado de uma matéria extensa intitulada Spiritual Warfare and Evangelism (Guerra Espiritual e Evangelismo), de Charles Lawless, encontrada no site do Southern Baptist Theological Seminary (www.sbts.edu), e escrita em 2001.

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Por: Charles E. Lawless

Breve Histórico

O livro Este Mundo Tenebroso, de Frank Peretti (Editora Vida), publicado em inglês em 1986, junto com vários outros, principalmente do mesmo autor, teve um papel importante na popularização do tema de Batalha Espiritual em várias partes do mundo. Mais ou menos na mesma época, C. Peter Wagner, professor de Crescimento da Igreja, em Fuller Theological Seminary, nos EUA, começou a pesquisar e escrever sobre o movimento mundial de oração e logo tornou-se um líder no movimento incipiente.

Em 1989, na II Conferência de Evangelização Mundial em Lausanne (Suíça), o movimento de Batalha Espiritual ganhou reconhecimento oficial de líderes evangélicos, o que veio consolidar o crescente interesse popular. Desde então, fortaleceu-se ainda mais através de inúmeras conferências sobre o assunto e mais de 100 livros publicados só na década de 1990.

Um dos aspectos mais importantes da nova ênfase foi a ligação que se fez entre a guerra contra o reino das trevas e o avanço da igreja através da evangelização. Na verdade, isso já fora bem expresso no Pacto de Lausanne, na I Conferência de Evangelização Mundial, em 1974.

Cremos que estamos empenhados num permanente conflito espiritual com os principados e potestades do mal, que querem destruir a igreja e frustrar sua tarefa de evangelização mundial. Sabemos da necessidade de nos revestirmos da armadura de Deus e combater esta batalha com as armas espirituais da verdade e da oração.

De acordo com Peter Wagner, a principal arma para alcançar a evangelização mundial é a oração de batalha espiritual. Seu interesse neste assunto é “diretamente proporcional à sua eficácia para capacitar e facilitar a evangelização”.

De acordo com os proponentes da ênfase em batalha espiritual, a igreja está envolvida em uma guerra, quer ela acredite nisso, quer não. O problema é a falta de conhecimento e a passividade por parte da maioria, que são justamente os instrumentos do inimigo para ganhar vantagem sobre nós. Ignorar a realidade ou a natureza dessa guerra é convidar à derrota perante os poderes das trevas.

O que gostaríamos de fazer aqui é apenas chamar a atenção para algumas áreas de perigo, nas quais excessos ou desequilíbrios só podem favorecer ao próprio inimigo.

1. O Papel do Inimigo em Impedir os Perdidos de Serem Alcançados

Para as pessoas que não crêem, o evangelho está encoberto, porque o “deus deste século” cegou os seus entendimentos (2 Co 4.3,4). As pessoas que queremos alcançar estão em escravidão. Deus já derrotou o inimigo, mas a batalha não é menos real por isso. Nós proclamamos uma mensagem de liberdade e libertação. O inimigo luta com todas suas forças para mantê-las em cadeias.

A perspectiva de batalha espiritual traz uma dimensão muito importante aqui: o evangelismo é muito mais do que uma estratégia, técnica ou programa; é levar o evangelho para dentro do reino das trevas, é fazer parte de uma guerra contra as forças de Satanás. Sem uma obra sobrenatural da graça de Deus superando o controle do inimigo sobre os que se perdem, o evangelismo é totalmente estéril e não haverá verdadeiros convertidos.

De que maneira o inimigo procura impedir o evangelismo? Ele dispõe as suas forças em duas frentes: (1) enganando as pessoas do mundo a respeito da salvação em Jesus e desviando o seu interesse para outras coisas; e (2) perturbando os cristãos e impedindo o seu testemunho através de seduzi-los para o pecado ou explorar suas fraquezas.

A estratégia principal do inimigo para manter os perdidos sob seu poder é cegar os seus entendimentos. Embora já seja derrotado, ele ainda tem capacidade para assediar a mente humana e para incitá-la a abraçar e exaltar o mal no lugar de Deus. Ele oferece mentiras como “Já sou uma pessoa boa” ou “Posso deixar a decisão para deixar o pecado para depois”. Faz com que o pecado seja atraente e o servir a Deus signifique a perda de prazer. De forma ainda mais específica, promove visões distorcidas do evangelho e de Deus. Na verdade, são as idéias perigosas e enganosas a respeito de Jesus e do seu reino que são chamadas de “fortalezas” (veja 2 Co 10.4,5).

Contra os cristãos, as armas de Satanás são tentação e acusação. Primeiro, ele os seduz para o pecado; se caírem, passa a bombardeá-los com acusações. Se não tiverem revelação da graça, sucumbirão ao ciclo de derrota e desânimo. Como resultado, terão pouca influência perante aqueles que Satanás mantém em sua prisão de ignorância e trevas.

É extremamente importante compreender essas realidades espirituais. O perigo consiste em dar importância desmedida às causas espirituais, negligenciando a responsabilidade e a pecaminosidade do homem (como se pode ver em Ef 2.2,3). Estratégias para quebrar o domínio das forças do mal podem ser erroneamente priorizadas acima da necessidade de evangelizar os perdidos. Não devemos enfatizar a libertação acima da conversão, pois é possível ser liberto e não convertido.

2. A Necessidade de Identificar o Inimigo

Muitas vezes, o argumento é usado: “Precisamos conhecer o nosso inimigo para poder resistir-lhe”. É como numa guerra entre exércitos humanos: quanto mais se conhece o adversário, mais preparado se estará para antecipar seus movimentos.

Na verdade, a exortação bíblica é para conhecermos os “desígnios” ou intenções de Satanás (2 Co 2.11), não os nomes ou hierarquias dos seus comandados. O livro de Efésios é o que mais aplica a linguagem de guerra à vida cristã; entretanto, sua principal ênfase, especialmente nos primeiros capítulos, é mostrar nossa posição em Cristo e o poder que ele tem. Tentar descobrir os nomes e o funcionamento das potestades demoníacas é perder o foco da batalha espiritual. Como mostrou Jesse Penn-Lewis no seu clássico Guerra Contra os Santos, a maior estratégia do inimigo é falsificar o divino. Por isso, a tarefa principal do guerreiro espiritual não é conhecer bem Satanás – é conhecer Deus tão intimamente que a falsificação de Satanás se torne muito óbvia em comparação.

3. A Arma da Unidade

A primeira parte de Efésios 4 fala a respeito da unidade do Corpo de Cristo. Unidade impede que Satanás consiga infiltrar-se no nosso meio, fazendo uma base para nos enfraquecer. O “permanecer firmes” de Efésios 6 é uma posição coletiva, não individual nem fracionada. Quando estamos unidos, Satanás sente-se ameaçado. Assim, ao mesmo tempo, nossas maiores armas contra ele são também seus maiores alvos de ataque. Divisão é uma obra da carne, porém muito explorada pelas forças do maligno que conhecem o potencial para nos derrotar.

Estratégias de batalha espiritual que ignoram os problemas que causam divisão serão ineficazes para derrotar o inimigo. Os poderes que controlam regiões e os espíritos de engano jamais serão derrotados por uma igreja dividida.

5. As Armas da Santidade e dos Relacionamentos

Outras armas que encontramos em Efésios 4 e 5 são a santidade, ou o andar na luz, e os relacionamentos entre familiares e entre patrões e empregados. Andar na luz é separar-se das trevas e reprovar as suas obras (5.11-13). A ênfase em dons sobrenaturais e batismo no Espírito que dominou grande parte do século passado foi muito importante; porém, em muitos casos, levou igrejas e movimentos a negligenciarem a base da Palavra e do “andar digno da vocação” (Ef 4.1).

Satanás perde a guerra quando os cristãos vivem vidas santas. Sente-se muito mais alarmado pela graça operando em nós do que por técnicas e fórmulas de batalha espiritual. Isso não significa que devemos ignorar a realidade da guerra espiritual; como em todas as coisas, devemos manter o equilíbrio. A batalha espiritual terá grande eficácia quando for baseada nos fundamentos certos.

6. O Uso da Oração

Depois de enumerar as diferentes peças da armadura de Deus em Efésios 6, Paulo fala a respeito da oração. Embora a oração não conste claramente como uma parte da armadura, o contexto mostra claramente que a oração acompanha o uso da armadura no meio da guerra espiritual.

O importante a destacar aqui é que não houve menção de algumas das estratégias usadas hoje na batalha espiritual, como amarrar forças demoníacas, expulsar espíritos territoriais ou fazer mapeamento espiritual. Não podemos afirmar que tudo isso seja errado, porém o fato de a Palavra não dizer nada sobre isso justamente na passagem em que esses assuntos são tratados é significativo. Paulo reconhece aqui a presença das forças malignas, entretanto exorta os crentes de Éfeso a orarem “por todos os santos” e por ele mesmo, para que pudesse proclamar as boas novas com mais intrepidez e revelação.

O perigo de excessos sempre ocorre quando entramos em áreas não muito fundamentadas ou explícitas na Palavra.

7. Um Exemplo Clássico do que Não se Deve Fazer

O livro de Atos nos oferece um exemplo claro de “como não fazer batalha espiritual”, nas palavras de Peter Wagner. Alguns exorcistas judeus tentaram expulsar demônios “por Jesus a quem Paulo prega” (At 19.13-18). O espírito maligno conhecia o nome de Jesus e o nome de Paulo, mas desconhecia os exorcistas e os pôs para correr.

Um dos pontos mais notáveis da história é que o discernimento do espírito maligno não lhes trouxe vitória. A questão essencial era se o espírito maligno conhecia os exorcistas! Como não eram conhecidos, não representavam ameaça alguma para o reino das trevas. Nós também devemos ficar alarmados quando o inimigo pergunta a nós: “Conheço a Jesus e conheço a Paulo; mas quem são vocês?”

É perigoso engajar-se em batalha espiritual sem uma posição firme em Cristo, que inclua tanto o conhecimento da vitória legal obtida por ele em nosso favor, quanto a experiência prática de andar em santidade. Nosso alvo deve ser levar toda a igreja à posição espiritual em que o inimigo sente-se ameaçado até por nossa presença. Isso não acontecerá se focarmos mais o inimigo do que Deus. A força para ameaçar o inimigo vem justamente do foco acertado na vida e vitória de Cristo.

Charles Lawless é Professor Associado de Evangelismo e Crescimento da Igreja no “The Southern Baptist Theological Seminary”, em Louisville, Kentucky, EUA.

Uma resposta para “Perigos na Batalha Espiritual”

  1. ricardo disse:

    Tremendo. Obrigado a todos da Revista Impacto por liberar as leituras anteriores, Deus os abençoe.

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