Perdão – A Essência do Evangelho

Data de publicação: 01/08/2011
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Edição 52 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 52

Por: Christopher Walker

Se quiséssemos resumir o Evangelho de Jesus, a Nova Aliança, em uma só palavra, provavelmente a primeira que nos viria à mente seria graça. No entanto, uma outra palavra, talvez menos lembrada, pode ser usada igualmente como síntese ou quintessência das boas novas: perdão.

A princípio, parece ser uma palavra menos abrangente do que graça. Certamente, tem muito a ver com conversão, já que fomos aceitos por Deus mediante o cancelamento instantâneo de uma enorme dívida que pesava contra nós, quando aceitamos, sem reservas, o sacrifício redentor de Jesus na cruz.

Pode parecer, entretanto, que perdão tem menos a ver com a substância da nossa vida cristã do que graça. Na verdade, os dois conceitos ou princípios têm muito em comum e são até sinônimos, sob alguns aspectos. Perdão é uma das maiores demonstrações da graça; os dois implicam uma aparente violação da justiça de Deus em favor da sua misericórdia. O nosso maior problema é que tanto um quanto o outro são totalmente antagônicos à nossa mente natural; conseqüentemente, a grande maioria dos cristãos não compreende seu verdadeiro significado espiritual.

No caso do perdão, já é difícil aceitar no sentido bíblico o fato de que fomos perdoados unilateral e incondicionalmente por Deus (Rm 5.6-8; 2 Co 5.19-21; Cl 2.13). Ou achamos que não fizemos nada de tão sério contra Deus (só alguns “pecadinhos”), ou tentamos justificar ou merecer nosso perdão, apresentando atos de compensação ou penitência.

É quando voltamos nossa atenção para a questão do perdão no sentido horizontal, para com nossos irmãos ou semelhantes, que descobrimos que ainda entendemos pouco ou nada do perdão que é essência do Evangelho.

Quem Não Perdoa Não é Perdoado

No seu livro Maravilhosa Graça (Ed. Vida), Philip Yancey cita uma pesquisa feita por Tony Campolo entre estudantes universitários seculares para descobrir o que estes lembravam a respeito do que Jesus ensinou. A resposta mais freqüente foi: “Amar os inimigos”. Mais do que qualquer outro ensinamento de Cristo, esse se destaca para o descrente. E mais do que qualquer outro ensinamento de Jesus, a ordem para amar inimigos e perdoar-lhes (e também a amigos e irmãos!) é a que a igreja mais tem transgredido!

Se você tem dúvida dessa afirmação, pense um pouco na nossa história. Divisão após divisão, por causa de diferenças doutrinárias, ambições e tantas outras motivações carnais; perseguições entre cristãos; racismo, apoiado abertamente pela igreja; transgressores rejeitados e excluídos da sua comunhão; em qualquer época, em qualquer parte do cristianismo, a lista de exemplos seria enorme. Não precisamos ir tão longe: em qualquer igreja, comunidade ou família espiritual hoje, acharíamos pessoas rejeitadas e amarguradas porque não encontraram entre os seguidores de Jesus aquele perdão que foi anunciado inicialmente no Evangelho. Se Deus perdoa de forma tão ampla e gratuita, por que seus filhos têm tanta dificuldade para fazer o mesmo?

A relação entre o perdão que Deus nos concede gratuitamente e o perdão que devemos conceder nas mesmas condições ao nosso próximo é muito clara nas Escrituras. Como escreveu o autor e professor de seminário Lewis Smedes: “Usando palavras que os poderes das trevas querem me levar a ignorar, Jesus afirmou (Mc 11.25) que se não perdoarmos aos nossos semelhantes, não devemos esperar que Deus tampouco nos perdoe”.

Philip Yancey também ressalta essa ordem em Maravilhosa Graça: “No centro da oração do Pai-Nosso, que Jesus nos ensinou, esconde-se furtivo o ato nada natural do perdão. […] Jesus vinculou o perdão divino à nossa disposição de perdoar atos de injustiça. Charles Williams disse o seguinte a respeito da Oração do Pai-Nosso: ‘Nenhuma expressão carrega maior possibilidade de terror do que as palavras assim como nessa cláusula’. O que torna o ‘assim como’ tão aterrorizante? O fato de que Jesus simplesmente conecta nossa absolvição pelo Pai ao nosso perdão contínuo aos outros seres humanos.”

Essa mesma relação é enfatizada várias vezes por Jesus. Uma das mais claras está na parábola do servo que não perdoou (Mt 18.23-35). Depois de ser perdoado pelo seu senhor de uma dívida impagável, o servo saiu e cobrou do conservo uma dívida irrisória. Como este também não podia pagar, o servo perdoado lançou seu conservo na prisão até que pagasse tudo. Com isso, não estava sendo injusto; o companheiro realmente lhe devia. Entretanto, o senhor do servo perdoado ficou muito indignado e revogou o seu perdão. “Assim também meu Pai celeste vos fará, se do íntimo não perdoardes cada um a seu irmão”, disse Jesus, ao concluir a parábola.

“Eu desejaria fervorosamente que essas palavras não se encontrassem na Bíblia”, escreveu Yancey, ao comentar essa parábola, “mas elas estão lá, enunciadas pelos lábios do próprio Cristo. Deus nos garantiu uma terrível influência: negando o perdão aos outros, estamos, de fato, determinando que eles são indignos do perdão de Deus, e da mesma forma, nós. De algum modo misterioso, o perdão divino depende de nós” (veja também Jo 20.23).

Um Ato Nada Natural

Por que temos tanta dificuldade para perdoar? Philip Yancey refere-se ao perdão como um ato “nada natural” ou “antinatural”. Não importa para onde olharmos, não encontraremos perdão como uma característica espontânea ou natural. Entre os animais, certamente que não, com sua cadeia de “um-devora-o-outro”. No mundo secular, seja nas instituições financeiras, esportivas, educacionais ou outras, tudo funciona na base da competição e da sobrevivência dos mais fortes e ambiciosos. Ninguém precisa ensinar o ser humano a ser vingativo, a exigir que o ofensor pague pelos seus erros; parece ser um instinto, profundamente arraigado na nossa natureza. Até na lei de Deus, no Velho Testamento, temos a expressão dessa “justiça linear” quando diz: “olho por olho, dente por dente” (Êx 21.24; Lv 24.20; Dt 19.21). É por isso que a Nova Aliança representou uma mudança tão radical, até para os fiéis discípulos de Moisés no tempo de Jesus.

Seguindo nossos instintos de justiça natural e não-graça, criamos cadeias intermináveis de vingança e relacionamentos quebrados. Em Maravilhosa Graça, Yancey conta a história trágica de três gerações, envolvendo pessoas que ele conheceu pessoalmente, algumas das quais eram cristãs. Na primeira geração, um pai, escravo da bebida, expulsou a mulher de casa e deixou os filhos sem mãe e sem lar. A filha, revoltada e amarga, nunca conseguiu perdoar ao pai, mesmo depois da sua conversão e arrependimento. Embora tivesse jurado não ser como o pai, acabou repetindo a história e expulsou o filho adolescente quando o pegou com maconha. Nunca mais o viu, nem lhe perdoou, condenando-o também a uma vida de relacionamentos quebrados. Existem infinitas histórias semelhantes, em famílias, etnias e nações.

Quebrando o Ciclo Interminável

“Por que Deus exigiria de nós um ato nada natural que desafia cada instinto primevo?”, Yancey exclama. “O que torna o perdão tão importante para que seja o ponto central de nossa fé?”

É justamente para quebrar esse ciclo interminável de não-graça e justiça humana que vem nos escravizando, desde a entrada do pecado. É por isso que perdão faz parte da própria essência do Evangelho, da missão divina de intervir na história humana e nos introduzir na família de Deus.

Não fomos chamados para ser salvos e continuar presos em nossos próprios padrões de certo e errado, acertando contas uns com os outros e esperando que o outro tome iniciativa para pedir desculpa, quando erra. Fomos chamados para uma natureza superior, para carregarmos a semelhança do Filho de Deus.

No centro das parábolas de Jesus a respeito da graça está um Deus que toma a iniciativa em nossa direção: um pai doente de amor que corre para se encontrar com o filho pródigo, um senhor que cancela uma dívida grande demais para o servo reembolsar, um empregador que paga aos trabalhadores da décima primeira hora o mesmo que pagou aos da primeira hora, um anfitrião que sai pelas estradas e caminhos à procura de convidados que não merecem o banquete.

Deus despedaçou a inexorável lei do pecado e da retribuição, invadindo a terra com seu amor. […] E, mediante a crucificação de Cristo, fez então desse ato cruel o remédio para a condição humana. O Calvário desfez o impedimento entre a justiça e o perdão. Aceitando sobre o seu ser inocente todas as severas exigências da justiça, Jesus quebrou para sempre a corrente da não-graça. (Philip Yancey. Op. cit., p. 94)

Se não pudermos viver esse perdão uns com os outros, devemos reavaliar a nossa própria relação de perdoados diante de Deus. Não adianta anunciarmos as boas novas aos outros, se não as experimentarmos verdadeiramente em nossas próprias vidas. “O que impressiona mais o mundo são vidas transformadas para as quais não há nenhuma explicação natural”, escreveu R. T. Kendall em Total Forgiveness (Perdão Total). E perdão total é uma atitude radical, contrária aos nossos instintos naturais, para a qual não existe uma explicação humana.

Quando alguém realmente perdoa como Deus perdoa, o mundo observa. Um exemplo recente foi o assassinato de 5 garotas da comunidade amish na Pensilvânia, EUA, em outubro de 2006, numa escola. No mesmo dia das mortes, um amish foi à casa da viúva do atirador (que se matou) para confortá-la e oferecer seu perdão pelo acontecimento.

“Seu amor pela nossa família ajudou a suprir a cura de que precisávamos tão desesperadamente”, a viúva, Marie Roberts, escreveu aos amish algum tempo depois. “Sua compaixão alcançou além da nossa família, além da comunidade e está transformando o mundo.”

Observadores da mídia e do mundo secular, que normalmente criticam a religião como irrelevante ou até perigosa para a sociedade, mudaram o seu tom e ficaram admirados.

Emprestando, mais uma vez, as palavras eloqüentes de Philip Yancey:

Em última análise, o perdão é um ato de fé. Perdoando a outra pessoa, estou confiando que Deus é um juiz melhor do que eu. Perdoando, abandono meus próprios direitos de me vingar e deixo toda a questão da justiça nas mãos divinas. Deixo nas mãos de Deus a balança que deve pesar a justiça e a misericórdia.

Embora o mal não desapareça quando perdôo, ele perde o seu poder sobre mim e é assumido por Deus, que sabe muito bem o que fazer. Tal decisão envolve risco, naturalmente: o risco de Deus não lidar com a pessoa como eu gostaria (o profeta Jonas, por exemplo, ressentiu-se porque Deus foi mais misericordioso do que os ninivitas mereciam).

Eu nunca achei que o perdão é fácil e raramente o considero completamente satisfatório. As injustiças importunas continuam, e as feridas ainda doem. Tenho de me aproximar de Deus repetidas vezes, entregando a ele os resíduos do que pensava ter-lhe entregado há muito tempo. Ajo dessa forma porque os evangelhos tornam clara a conexão: Deus perdoa minhas dívidas como eu perdôo a meus devedores. O inverso também é verdadeiro: apenas vivendo na correnteza da graça de Deus, encontrarei forças para reagir com graça para com os outros. (Op. cit., p. 95, 96)

Grande parte deste artigo foi inspirada no livro “Maravilhosa Graça”, Philip Yancey, Editora Vida, 1999.

Uma resposta para “Perdão – A Essência do Evangelho”

  1. Barbara disse:

    Meo’ gloria Deus pela vida de voces, muita benção mesmo ! Essa questão do perdão realmente é complicada, mas quando também á entendemos e uma edificação total ! Gloria Deus

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