Onde Estão os Barnabés?

Data de publicação: 26/04/2014
Categorias da Biblioteca:
Edição 76 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 76

Pedro Arruda

Uma breve biografia

Pelas ocorrências que envolvem Barnabé, imaginaríamos a figura de alguém mais velho e sábio, cordato, de poucas palavras, que não desejasse glória para si mesmo. Alias, sabia viver sem ela.

Barnabé, natural da ilha de Chipre, era um homem de posses que, quando se encontrou com o Senhor, tomou uma decisão oposta à do famoso jovem rico, que se recusou a deixar tudo o que tinha para seguir Jesus. Talvez por ter sido ele o primeiro a tomar a iniciativa de vender tudo e depositar o valor aos pés dos apóstolos em favor dos necessitados, é que tenha sido escolhido como ícone desta ação que afetou toda a igreja e até mesmo a sociedade de Jerusalém (At 4.36,37).

Radicado em Jerusalém, admirado e respeitado por todos, Barnabé usou dessa condição para afiançar Saulo e ajudá-lo a ser recebido entre os discípulos. Afinal, ao contrário de Barnabé, o passado desse novo convertido não o recomendava aos irmãos (At 9.26-30).

Tudo transcorria bem em Jerusalém, quando ele aceitou deixar sua zona de conforto em meio a seus irmãos judeus para servir a igreja gentia de Antioquia. Logo que tomou pé da situação ali, propôs-se a não agir sozinho. Discerniu que aquele seria o lugar ideal para desenvolver o ministério de seu amigo Saulo e não hesitou em buscá-lo em Tarso. Com seu caráter desprendido e agregador, conduziu a igreja de Antioquia sob liderança plural, focada em ministrar ao Senhor. Se a igreja tem as características de seus líderes, esse estilo de Barnabé deve ter contribuído para que, naquela ocasião, fosse cunhada a expressão cristão – pequenos cristos – a fim de designar os seguidores de Jesus Cristo (At 11.22-26).

Barnabé, juntamente com Saulo, foi o primeiro a ser apostolado pelo Espírito Santo. Outra vez, aceitou deixar sua condição de conforto conquistado em Antioquia e, em companhia de Paulo e de seu parente João Marcos, partiu naquela que ficou conhecida como a primeira viagem missionária (At 13 e 14). Foram de cidade em cidade, visitando em primeiro lugar as sinagogas. Um pouco mais tarde, ao fazerem o percurso de volta, trocaram as sinagogas pelas casas como base operacional e sedimentação de igrejas, em conformidade com as instruções de Jesus contidas em Mateus 9.35-38 e 10.5-15.

Posteriormente, na ocasião de se fazer a segunda viagem, Barnabé não concordou em excluir João Marcos da comitiva, conforme queria Paulo, devido ao fato de Marcos tê-los abandonado durante a primeira. Isso gerou uma situação muito tensa (At 15.36-39).

Barnabé, Paulo e João Marcos

Se Barnabé estivesse preocupado consigo mesmo, sua opção teria sido a de acompanhar o notável Paulo em detrimento do desconhecido João Marcos, pois isso lhe proporcionaria muito mais prestígio e evitaria o desgaste daquela dissensão. Ou ainda, porque estava à altura de enfrentar Paulo, poderia ter levado adiante a disputa para manter sob seu poder pelo menos parte do legado apostólico que ambos haviam construído juntos. Afinal, foi pelas mãos de Barnabé que Paulo (quando ainda usava o nome Saulo) havia sido introduzido ao círculo de discípulos de Jerusalém, ao ministério local em Antioquia e também ao ministério apostólico para os gentios. Mas isso provocaria uma fissura na Igreja. Definitivamente, essas opções não se ajustavam ao caráter desprendido de Barnabé.

Não levar adiante a disputa com Paulo implicava resignar seu ministério apostólico que estava crescendo em poder e destaque. Ao mesmo tempo, não poderia abandonar João Marcos, que era o mais frágil e de menor relevância naquela situação. Essas duas condições determinaram sua decisão de ir para a terra natal em companhia de João Marcos – que, escolhido no lugar de Paulo, deve ter-se sentido muito valorizado.

Pelas mãos de Barnabé, João Marcos veio a amadurecer e desabrochar em seu ministério, sem mágoas ou ressentimento, herdando as características de um “filho das consolações”. É de se admitir que ele fosse bem mais jovem e servisse como um cuidador de idosos, o que era de grande valia a Barnabé, especialmente durante suas viagens. Esse mesmo serviço deve ter sido prestado a Pedro, quando se tornou seu companheiro e de quem recebeu subsídios para escrever o texto considerado como o primeiro dos quatro evangelhos (At 12.12; 1 Pe 5.13). Não é por acaso que, dentre os evangelhos sinóticos, Marcos enfatiza Jesus em sua característica de Servo, diferente de Mateus, que prefere a de Rei, e Lucas, a de Homem.

Graças aos cuidados de Barnabé, João Marcos teve um ministério muito útil, sem, com isso, considerar Paulo como um desafeto. No fim, aceitou a solicitação e integrou a equipe daquele que outrora o rejeitara. Por esse episódio, podemos admitir que, no mínimo, Paulo reconhecia que Barnabé havia sido eficiente em seu trabalho com Marcos (Cl 4.10; 2 Tm 4.11; Fp 1.24).

Importância do ministério (escondido) de Barnabé

Vemos, portanto, que além do valor de seu ministério em si, Barnabé também foi o responsável direto pelo desenvolvimento dos ministérios de Paulo e de Marcos ao oferecer-lhes o apoio oportuno.

A generosidade de Barnabé era, antes de tudo, uma questão de atitude de coração. Ele era desapegado não apenas dos bens materiais (como ficou claro com sua oferta generosa à igreja em Jerusalém), mas também se mostrou solidário ao introduzir Saulo àquela comunidade, arriscando seu prestígio junto a ela. Não se arrogou a desenvolver um ministério singular em Antioquia, preferindo a companhia de outros. Não estava apegado à sua estabilidade, pois deixou Jerusalém e foi para Antioquia e, quando já estava consolidado naquela cidade, partiu para viagens missionárias. Depois que ganhou mais essa experiência, não ousou ferir a unidade da Igreja e demonstrou desapego pessoal ao ministério, preferindo abrir mão dele a prosseguir a contenda com Paulo. Embora a companhia do notável Paulo pudesse lhe proporcionar maior prestígio, optou pela do desconhecido João Marcos.

A atitude de Barnabé foi importante para agregar a igreja em Jerusalém em torno da liberalidade e da generosidade e constituir a de Antioquia numa base missionária, sob uma liderança plural. Também foi fundamental para introduzir e dar suporte a Paulo e Marcos e, assim, propiciar as condições para que os mesmos desenvolvessem seus ministérios de grande alcance geográfico e sem limites cronológicos, alcançando as gerações posteriores e chegando até nós em plena força. Atualmente, há unanimidade em reconhecer a importância do ministério de Paulo para a expansão do cristianismo. Entretanto, os mais atentos não devem deixar passar despercebido que, por detrás do ministério paulino e da expressão “cristianismo”, está a marca do caráter de Barnabé.

Quantos outros Paulos e João Marcos não teriam surgido se contássemos com o ministério de Barnabés no nosso meio? Quantas igrejas missionárias não teríamos se Barnabés as liderassem coletivamente? Quantas igrejas não fariam a diferença social na localidade se generosos Barnabés ofertassem decisivamente em favor dos necessitados? Trata-se de um ministério pouco reconhecido, mas de fundamental importância que está fazendo muita falta à igreja de hoje!

Não podemos imaginar o cristianismo sem esses dois ministérios e, consequentemente, sem o ministério de Barnabé. Precisamos de pessoas agregadoras de atitude (e não apenas de discurso), desapegadas de qualquer ambição (inclusive ministerial), generosas e dispostas a apoiar outros ministérios e que, mesmo que estes venham a adquirir mais visibilidade, não sintam ciúme nem se exaltem com autoritária arrogância sobre eles.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *