O Véu que Cobre Toda a Humanidade

Data de publicação: 11/09/2011
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Edição 39 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 39

Por Harold Walker

“E o Senhor dos exércitos dará neste monte a todos os povos um banquete… E destruirá neste monte a coberta que cobre todos os povos, e o véu que está posto sobre todas as nações. Aniquilará a morte para sempre, e assim enxugará o Senhor Deus as lágrimas de todos os rostos, e tirará de toda a terra o opróbrio do seu povo; porque o Senhor o disse” (Is 25.6-8).

É impressionante notar como enfatizamos algumas diferenças entre o reino de Deus por vir e a nossa vida neste mundo atual, enquanto ignoramos outras de igual importância. Quem não sabe que na vida eterna não existirá mais desânimo, dúvida, depressão, desentendimento, dor ou doença? Mas você sabia que todos nós vivemos agora debaixo de um véu que não permite que enxerguemos corretamente as verdadeiras realidades do universo? Que a nossa visão intelectual e até mesmo espiritual é muito parcial e limitada? Que temos muito mais afinidade com conceitos enganosos e mentirosos do que com a verdade absoluta?

Na passagem de Isaías citada acima, o profeta diz que virá um dia quando esse véu não será apenas removido, mas destruído. Nesse dia, “todo olho o verá” (Ap 1.7), todo joelho dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é Senhor (Fp 2.10,11). Além disso, Isaías nos dá uma dica sobre o que é esse véu, essa coberta que cobre todos os povos, quando dá a entender que a destruição do véu é a mesma coisa que o aniquilamento da morte. Comparando isso com Hebreus 10.19,20 que diz: “Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrarmos no santíssimo lugar, pelo sangue de Jesus, pelo caminho que ele nos inaugurou, caminho novo e vivo, através do véu, isto é, da sua carne…”, podemos concluir que o véu é a nossa existência carnal. Enquanto estivermos nesse corpo, estaremos debaixo desse véu, impedidos por ele de ver as coisas claramente. Quando Deus destruir a morte, o véu também será destruído, e todos, crentes e incrédulos, salvos e não-salvos, sábios e tolos, verão tudo nitidamente como nunca tinham visto antes.

Os olhos estão intimamente ligados ao cérebro pelo nervo óptico e não conseguem funcionar sem uma cooperação total e harmoniosa com ele (a ponto de ser possível a pessoa ter olhos perfeitamente sãos e não enxergar nada se houver algum dano nesse nervo ou na parte do cérebro encarregada de gerenciar essa função). Da mesma forma, nossa visão interior, nossa cosmovisão, depende de duas áreas distintas do nosso ser, ambas afetadas pelo véu, estarem em perfeita sintonia. Além de embotar nossos sentidos de percepção das coisas, o véu também deforma nossa capacidade de interpretação das informações recebidas. Muitas vezes, vemos apenas o que queremos ver e sentimos apenas o que queremos sentir. Também acreditamos no que queremos acreditar e atribuímos lógica e razão àquilo que desejamos.

“Portanto digo isto, e testifico no Senhor, para que não mais andeis como andam os gentios, na vaidade da sua mente, entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração…” (Ef 4.17,18). “Porquanto, tendo conhecido a Deus, contudo não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes nas suas especulações se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se estultos… Trocaram a verdade de Deus pela mentira…” (Rm 1.21,22,25). “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser; e os que estão na carne não podem agradar a Deus” (Rm 8.7,8). Através dessas passagens, entendemos que a mente carnal é obscurecida por natureza e inerentemente impossibilitada de enxergar a verdade.

O Grande Manipulador da Humanidade

Existe, porém, outro aspecto que devemos ressaltar. Além do fato de toda a humanidade estar debaixo de um véu que a impede de enxergar as coisas corretamente, existe uma mente maligna por trás de tudo, que usa essa limitação humana para atingir seus próprios fins. “Mas, se ainda o nosso evangelho está encoberto, é naqueles que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho…” (2 Co 4.3,4). “Nos quais outrora andastes, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência, entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos…” (Ef 2.2,3).

Concluímos, então, que o globo terrestre é coberto por um véu, que nenhum ser humano é livre da influência desse véu e que Satanás, o príncipe das trevas, usa essa situação para manipular toda a humanidade. Nenhuma área da atividade humana está isenta da sua interferência – cultura, educação, artes, filosofia, ciência, política, jornalismo, comércio, indústria, nem mesmo a teologia ou a religião.

Muitas pessoas gostariam de pensar que os cristãos estão livres disso – afinal, não receberam a revelação do evangelho e não foram transportados do reino das trevas para o reino de Jesus? É verdade que quando alguém se converte ao Senhor é porque a luz brilhou em sua mente obscurecida e, ao invés de se afastar da luz e ir para as trevas por amar mais as trevas do que a luz (Jo 3.19-21), essa pessoa creu na luz e se tornou filho da luz (Jo 12.36). Mas é possível começar a se aproximar da luz e parar. E também é possível, no meio do processo de se achegar à luz, ter áreas ainda dominadas pelas trevas e pelo engano.

“Dizia, pois, Jesus aos judeus que nele creram: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.31,32). Jesus não dirigiu estas palavras a incrédulos, mas aos que nele creram! Crente também precisa conhecer a verdade e ser liberto! À medida que permanecemos na luz, permitindo que ela penetre até as profundezas de nossas mentes e corações, iluminando os corredores escuros e escabrosos do nosso interior, a verdade vai desativando as correntes da mentira, Satanás perde seu poder sobre nós e vamos ficando cada vez mais livres, verdadeiramente livres!

A famosa repreensão de Jesus a Pedro, quando este tentou dissuadi-lo da necessidade de ir para a cruz, serve de ilustração de como Satanás pode usar discípulos sinceros de Jesus como instrumentos dos seus propósitos: “Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não estás pensando nas coisas que são de Deus, mas sim nas que são dos homens” (Mt 16.23). Pedro havia deixado tudo para seguir Jesus; diga-se de passagem, uma dedicação muito mais radical do que a da maioria dos cristãos hoje. No entanto, ao pensar segundo os raciocínios naturais, até na interpretação das Escrituras Sagradas que falavam da glória do reinado do Messias (convenientemente esquecendo de todas que falavam do seu sofrimento e morte), Pedro serviu de porta-voz para Satanás! Percebe como não é preciso ser espírita, nem ser possesso, nem ouvir vozes para executar as vontades de Satanás? Não só é possível ser usado pelo inimigo como um político, professor ou empresário cristão, mas também como um pastor ou presbítero! Toda vez que agimos, tomando como base apenas o conhecimento adquirido naturalmente, corremos o risco de resistirmos aos propósitos de Deus e sermos porta-vozes do seu maior inimigo!

Humildade e Quebrantamento como Defesa Contra o Engano

Por que estamos falando tudo isso? Para servir de alerta sobre o perigo que corremos não só de sermos enganados, mas também de enganarmos a outros. Enquanto estivermos neste corpo, não existe uma vacina cem por cento eficaz contra a mentira. Poucos momentos depois de receber uma tremenda revelação de quem Jesus era (“Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!”), Pedro estava servindo como instrumento nas mãos do inimigo, ao tentar minar a determinação de Jesus de ir para a cruz. Quanto mais estivermos cientes do perigo, menos perigo correremos! Uma vez que a luz foi acesa em nossas almas e estamos prosseguindo em direção a ela, temos uma grande esperança e muita segurança.

Nem por isso, entretanto, podemos nos dar ao luxo de pensar que a mentira não tem nenhum poder sobre nós. Precisamos, momento por momento, dia após dia, andar em humildade e quebrantamento profundos, dependendo do Senhor e de cada palavra que procede de sua boca. Se estivermos no Espírito, não corremos perigo, mas é só bobear um minuto que a carne volta a opinar e a dominar nossos pensamentos e ações.

Nunca foi o propósito de Deus que esse véu existisse, obscurecendo a visão de toda a humanidade e abrindo o caminho para o diabo manipular indivíduos e nações. O véu surgiu quando o pecado entrou e, junto com ele, a morte. Mas Deus nunca perde e, apesar de todos os efeitos nefastos que o véu trouxe sobre nós, ele consegue tirar proveito e glória ao seu nome até dessa situação. Por causa do véu, temos de andar por fé e não por vista (2 Co 5.7), e isso traz glória a Deus. Se não houvesse o véu, e se enxergássemos tudo com facilidade, não haveria a escolha de seguir a palavra de Deus contra evidências externas, e Deus não seria glorificado em nossas vidas.

Diferentemente de nós, Deus não tem interesse em tornar as coisas bem elucidadas para que, de posse de todo o conhecimento, possamos tomar as nossas decisões como semideuses ou reis assentados em tronos, fazendo altas deliberações. Pelo contrário, seu sonho é com um povo que desistiu da ilusão de ser dono do conhecimento, que reconhece que não sabe nada e que resolve humildemente confiar na palavra de Deus, mesmo que tudo possa indicar o contrário. Para conseguir isso, Deus se esconde e deixa apenas pistas suficientes para que aqueles que sinceramente o queiram conhecer consigam avançar de pista em pista, até finalmente atingir sua presença inefável. Quanto mais você persegue a verdade a qualquer custo, mais ela se torna parte do seu ser e menos a mentira o consegue dominar.

Por outro lado, se você não ama a verdade e se tem medo das conseqüências de segui-la, menos ela o incomodará e mais a mentira lhe trará satisfação. Este sempre é o processo do engano: começa com pequenas mentiras, com pequenas contemporizações, pequenas distorções, e vai crescendo cada vez mais. Se você não ama a verdade, Deus faz questão de esconder as pistas, e você ficará cada vez mais convicto de que realmente não está enganado. Suas razões e sua lógica lhe parecerão cada vez mais plausíveis e você encontrará uma platéia cada vez maior para aplaudi-lo e para confirmar que está na direção certa.

“Dizendo-se sábios, tornaram-se estultos, e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível… Por isso Deus os entregou… à imundícia… pois trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura antes que ao Criador… Pelo que Deus os entregou a paixões infames… E assim como eles rejeitaram o conhecimento de Deus, Deus, por sua vez, os entregou a um sentimento depravado…” (Rm 1.22-28).

“E então será revelado esse iníquo… cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás com todo o poder e sinais e prodígios de mentira, e com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para serem salvos. E por isso Deus lhes envia a operação do erro, para que creiam na mentira…”(2 Ts 2.8-11).

Os primeiros passos em direção ao engano, é você quem dá. Basta ter outro alvo na vida – aprovação dos homens, riquezas, fama, prosperidade, sucesso, conforto, comodismo, tranqüilidade. Aí, para conseguir isso, você vende a verdade, um pouco aqui, um pouco ali. A mentira vai se instalando em sua alma. Fortalezas e baluartes compostos de raciocínios aparentemente incontestáveis vão sendo edificados como esconderijos para o inimigo.

E, então, surgirá um poderoso Aliado nesse processo: o próprio Deus! Já que você virou as costas para ele e rejeitou sua palavra e seus argumentos, ele mesmo o empurrará mais rápido ainda na direção do erro. Se você não quer saber a verdade e insiste nisso, o próprio Deus fará questão de que você nunca a conheça!

Portanto, a grande mentira que engana toda a humanidade tem seu início no coração depravado do homem que acolheu a semente do pai da mentira, Satanás (Jo 8.44). Mas, depois, tem a contribuição de Deus. Faraó endureceu o coração, logo Deus vem e ajuda a ficar mais duro! Você não ama a verdade e, sim, a injustiça – então Deus lhe manda a operação do erro para que fique realmente enganado.

O diabo acha que o véu favorece a ele, mas no fundo Deus vira o feitiço contra o feiticeiro e ganha mais glória ainda! É estranho, mas até a mentira contribui para a glória de Deus, permitindo que a verdade brilhe mais ainda. Virá o dia quando o véu será destruído e todos verão as coisas como realmente são. Só que nessa hora será tarde demais para se arrepender, para escolher a verdade, para crer. Será o fim da partida e não adiantará mais tentar reverter o placar. Você não quer aproveitar os últimos minutos do jogo para glorificar a Deus, crer no invisível, no improvável, no ilógico, esperar contra a esperança, reconhecer a insuficiência de seu próprio conhecimento, a falibilidade total da autoconfiança humana – e lançar-se sem reservas sobre a palavra de Deus que permanece para sempre?

Harold Walker faz parte do Conselho Editorial da Revista Impacto e reside em Monte Mor – SP.
walkerharold@yahoo.com

Uma resposta para “O Véu que Cobre Toda a Humanidade”

  1. Muito boas essas ponderações, somos primitivos e arcaicos demais para assimilar toda a verdade, mesmo que esta esteja clara à nossa frente!

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