O segundo maior mandamento

Data de publicação: 20/02/2018
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Edição 79 e Revista Impacto - 1998 a 2014.

Como um pastor carioca aprendeu a amar ao próximo como a ele mesmo e transformou-se num líder na luta pelos direitos humanos no Brasil

Por Carolina Sotero Bazzo

A vida de Antônio Carlos Costa mudou radicalmente no dia 28 de dezembro de 2006. Não foi o dia de sua conversão à mensagem de Cristo (este já havia ocorrido algum tempo antes). Segundo ele, esta foi a data de sua “conversão ao próximo”, quando o teólogo e pastor presbiteriano iniciaria uma jornada em que aprenderia a obedecer ao segundo maior mandamento: amar ao próximo como a si mesmo.

A data que não sai de sua memória foi marcada pelos ataques criminosos liderados pelo tráfico, no Rio de Janeiro, que deixaram 18 mortos e mais de 20 feridos. Durante a onda de violência, sete pessoas foram queimadas vivas dentro de um ônibus. “Por causa de tudo o que o evangelho ensina sobre o valor da vida humana e o apego que o cristão deve ter em relação à justiça, eu decidi ir para as ruas”, relembra.

No ano seguinte, ele deu início ao movimento Rio de Paz, fazendo um protesto nas areias de Copacabana com 700 cruzes pretas que representavam o número de vítimas da violência carioca nos primeiros dois meses de 2007. A manifestação pacífica, surpreendentemente, teve a cobertura da imprensa do Brasil e do mundo. E, até hoje, seus protestos vêm sendo assunto em jornais, revistas e noticiários.

Depois dessa manifestação, Antônio não parou. Iniciou outro protesto dentro da favela onde um adolescente de 15 anos, inocente, havia sido morto em uma ação do BOPE (Batalhão de Operações Especiais). A favela ficava numa das áreas mais violentas do Rio de Janeiro, conhecida como “faixa de Gaza”. Ele conta que, após a cobertura da imprensa, a mãe da vítima ganhou um apartamento. “Os moradores da comunidade disseram que as portas estavam abertas para nós, e a partir dali nós não saímos mais de lá.”

Antônio Carlos já tinha um currículo extenso com experiência em plantação de igrejas e ensino teológico. Mas quando foi parar dentro de uma favela, sua prática do cristianismo passou por transformações profundas. Chegou à conclusão de que é impossível um cristão, que teve um encontro com Jesus Cristo, não se preocupar com o seu semelhante. Hoje, para ele, é impossível dissociar o cristianismo da defesa dos direitos humanos.

“Na favela, me deparei com pessoas vivendo problemas cujas soluções eram de ordem política”, ele diz. “Então passei a ver uma dimensão política no amor. Nós temos exemplos disso na História: racismo, segregação racial, escravidão. Todos esses foram problemas enfrentados por milhares de seres humanos, cuja solução era política”, explica. Por isso, Antônio se tornou, sem reservas, um homem de vida pública. Ele não é vereador, deputado, nem deseja ser presidente. Mas decidiu ser alguém que dá voz àqueles que não a têm, num país de miséria e corrupção.

Aos 52 anos, continua exercendo o pastorado e liderando a ONG Rio de Paz, fundada por ele mesmo. Com o objetivo de criar uma cultura de valorização da vida humana, ele e sua equipe (formada por centenas de voluntários) trabalham com uma ampla ação filantrópica. Com sede na favela do Jacarezinho, contam com projetos sociais como os cursos profissionalizantes de construção civil e panificação, direcionados, principalmente, aos jovens que desejam abandonar o tráfico. No local, eles ainda oferecem um serviço de ouvidoria aos moradores que têm a oportunidade de fazer reclamações que serão encaminhadas ao poder público e à imprensa. Por meio desses trabalhos, Antônio conta que surgem muitas oportunidades de falar de Cristo e disseminar os valores cristãos na sociedade. Mas, para ele, o mais importante é amar: “O amor precede a evangelização. Podemos aumentar as nossas igrejas, mas ainda assim não obedecer a um dos maiores mandamentos que é amar o nosso próximo”.

Fruto do seu trabalho incansável foi o fechamento das desumanas carceragens da polícia civil no Rio de Janeiro. Na época, eram apenas 14 unidades para 4 mil homens, o que resultava em celas abarrotadas de presos que enfrentavam temperaturas de quase 60 graus, além de tuberculose, sarna etc. “Em uma conversa com a chefe da polícia civil, nós falamos que, se essas carceragens não fossem fechadas, montaríamos uma réplica em Copacabana como forma de denúncia e protesto.” O preço a se pagar por ser um cristão que está nas ruas, na favela, nos jornais enfrentando o governo em favor do pobre e oprimido tem sido muito alto. “Meu filho já foi preso injustamente, enfrentei muita solidão e incompreensão, mas por outro lado é difícil até mensurar tantos resultados bons e oportunidades que estamos tendo.”

Apesar de ser um homem atuante politicamente, ele critica os setores dentro da igreja que são mais adeptos a pensamentos de direita e esquerda do que propriamente ao evangelho de Jesus Cristo. “O cristão que encarna os ideais do evangelho sempre será um enigma para o mundo. Ora vai parecer marxista, ora vai ser confundido com um conservador de direita. Mas lamentável é ver a igreja defendendo aquilo que não é evangelho”, comenta.