O Segredo – de Deus ou do Diabo?

Data de publicação: 14/07/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 58 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 58

Por: Harold Walker

Nas últimas décadas, houve uma explosão de crescimento dos evangélicos no Brasil. Apesar de nos alegrarmos com os milhares de testemunhos de vidas transformadas, junto com esse crescimento exponencial há evidências cada vez maiores de que há “morte na panela” (2 Rs 4.40).

Enquanto o livro de auto-ajuda O Segredo está na lista da Veja dos mais vendidos no Brasil há 71 semanas (setembro de 2008) – até agora foram vendidos mais de 2 milhões de cópias em DVD e 13 milhões de livros no mundo todo –, ouve-se o mesmo tipo de ensinamento de um número cada vez maior de púlpitos evangélicos.

Um artigo da revista Veja (26 de setembro de 2003) ressalta esses dois assuntos (crescimento evangélico e ênfase em auto-ajuda) em um só parágrafo curto: “Enquanto a Igreja Católica não conseguia ordenar mais do que 900 padres por ano, só um único instituto evangélico de São Paulo formava, no mesmo período, 200 pastores. São pastores de uma nova geração, mais centrados na auto-ajuda e menos no sobrenatural do que seus predecessores – nada da ira e dos exorcismos de Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, ou de R. R. Soares, o onipresente telepastor da Internacional da Graça de Deus”.

Mas, afinal, o que há de errado na filosofia de vida defendida por Rhonda Byrne (autora do livro O Segredo) e por tantos outros autores e pregadores de auto-ajuda? Deus não quer tirar-nos do fatalismo passivo, da incredulidade paralisante e da miséria financeira que predominam há séculos neste país? Jesus não disse: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Lc 11.9)? Ele não afirmou em outra ocasião:Tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu” e “Se dois de vós na terra concordarem acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito” (Mt 18.18,19, ênfase acrescentada)?

Não foi por meio de uma revelação pessoal da passagem de Marcos 11.22-24 (“Qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar; e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, assim lhe será feito… Tudo o que pedirdes em oração, crede que o recebestes, e tê-lo-eis”) que Kenneth Hagin foi curado miraculosamente de uma doença terminal em 1934, abrindo o caminho a centenas de outras grandes curas milagrosas testemunhadas por ele durante mais de 50 anos a partir de então? Não foi por seu método de sonhar, de “engravidar” daquilo que se almeja, visualizar e imaginar, em todos os detalhes, o objetivo desejado que David Yonggi Cho levantou a maior igreja do mundo na Coréia do Sul?

Diferenças Fundamentais

É óbvio que, em um artigo curto como este, não é possível dar respostas detalhadas a essas perguntas. Porém, tentaremos ressaltar alguns pontos essenciais que podem ajudar-nos a localizar “a morte na panela” e separar “o joio do trigo”.

1. De onde procede a resposta ao anseio do homem?

A essência da filosofia de auto-ajuda defendida por Rhonda Byrne é: “Pense, acredite, receba”. É a Lei da Atração. “No momento em que você pede alguma coisa, e acredita, e sabe que já a tem no invisível, o Universo inteiro se move para deixá-la visível” (Rhonda Byrne: O Segredo, pág.49. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006).

Há uma diferença vital entre os ensinamentos de Jesus e os dos gurus: Jesus afirma que é do Pai que vem a resposta, enquanto os mestres de auto-ajuda sempre se referem a duas fontes distintas: o universo e o próprio homem. No fim, acabam considerando os dois como um só, porque o homem faz parte do universo. Para eles, a grande dicotomia de Criador e criatura, revelada na primeira frase da Bíblia (“No princípio, criou Deus os céus e a terra” – Gn 1.1), não existe. A criatura é o criador. Deus está em nós e em todo o universo. O universo é Deus. Portanto, baseados nessa falsa premissa fundamental, afirmam que nós somos Deus e podemos mudar nosso destino. Basta querer!

2. Qual é o propósito da vida?

Veja as seguintes citações do livro O Segredo:

Portanto, seu objetivo é o que você determinar. Sua missão é a que você se atribui (Neale Donald Walsch).

Levei muitos anos para chegar a este ponto, porque fui criado com a noção de que havia algo que eu deveria fazer, e, se eu não fizesse, Deus não ficaria satisfeito comigo. Quando entendi concretamente que minha meta principal era sentir e vivenciar alegria, comecei a fazer só o que me alegrasse. Meu lema é: “Se não é divertido, não faça!” (Jack Canfield).

Faça as coisas que lhe trazem prazer e alegria. Se você não sabe do que gosta, pergunte: “Qual é o meu prazer?” E quando você encontrá-lo e se dedicar a ele, ao prazer, a lei da atração irá derramar em sua vida uma avalanche de coisas, pessoas, situações, acontecimentos e oportunidades alegres, só porque você está irradiando alegria (Jack Canfield).

Como se pode ver, as filosofias de auto-ajuda ensinam que vivemos para o próprio prazer. Somos nós que determinamos o que é bom para nós.

A Bíblia, porém, do princípio ao fim, enfatiza que o homem existe para amar e agradar a Deus. Conseqüentemente, Deus não é apenas aquele que responde nossas orações e anseios, mas também é aquele a quem prestaremos contas pela maneira como conduzimos nossa vida na Terra. Em suma, não estamos na Terra para sermos felizes, mas para fazer Deus feliz. Por outro lado, se isso é verdade, fomos feitos de tal forma que só podemos ser felizes quando ele é feliz. Essa é a essência do amor. O amor se interessa tanto pela felicidade alheia que não consegue ser feliz sem que o outro o seja.

Semelhança Importante

Refletindo sobre esses dois pontos de divergência, devemos concluir o seguinte: a auto-ajuda está errada no que se refere a imputar tanto a origem quanto o destino ao próprio homem – um verdadeiro buraco negro! Já no cristianismo bíblico, entendemos que nossa origem e destino estão em Deus – alguém fora de nós, maior que o universo e distinto dele, Criador de tudo.

Dito isso, porém, devemos também concluir que muitos aspectos do processo de trazer coisas do invisível para o visível, tanto no cristianismo quanto na auto-ajuda, são semelhantes. Se nosso destino (o alvo de nossas orações, petições e anseios) é Deus, e nossa origem (o propósito de nossa vida, nossa missão na Terra, o criador de nossos sonhos e anseios) também é Deus, podemos pedir, visualizar detalhes, sonhar, “engravidar”[U1] , acreditar firmemente (sem duvidar ou vacilar), repetir, confessar, sentir a emoção antecipada como se já o possuíssemos – e o receberemos!

Você consegue ver a diferença? Não é simplesmente querer um diamante, uma casa nova, um iate luxuoso ou chegar à presidência da empresa ou do país. Se a origem é Deus, é ele quem tem de colocar dentro de mim esse forte desejo e convicção, inclusive mostrando como tal desejo contribuirá para o seu prazer e o cumprimento da missão que ele me deu. Nas palavras de Davi: “Deleita-te também no Senhor, e ele te concederá  o que deseja o teu coração” (Sl 37.4), e de Agostinho: “Ama a Deus e faze o que quiseres”. Qualquer coisa é possível para aquele que se une a Deus em amor de tal modo que só deseja aquilo que ele deseja!

Os Extremos

Nesse caso, assim como em tantos outros, precisamos tomar muito cuidado para não ir nem para um extremo nem para outro. Não devemos “jogar fora o bebê junto com a água suja”! Por um lado, temos o fatalismo religioso que mascara a ausência de fé com argumentos “piedosos”: “Deus é soberano e você tem de aceitar tudo o que acontece como a vontade dele”, “Se você está doente, deve ser porque ele quer santificá-lo!”, “O importante não é ter riquezas ou conforto material; Deus olha para o espírito” e “Pessoas que têm alegria e curtem a vida são menos espirituais do que as que vivem sofrendo!” O Movimento da Fé e irmãos como Kenneth Hagin e David Cho têm combatido, com propriedade, essa defesa doentia de miséria e desgraça como se fossem inevitáveis ou resultados da vontade irrevogável de Deus.

A Bíblia, de modo geral, e Jesus, de forma especial, enfatizam que Deus opera dentro e por intermédio do homem, e que este tem autoridade para reverter situações aparentemente impossíveis. Veja os seguintes exemplos:

·  Josué não perguntou para Deus se podia parar o Sol e a Lua! Ele simplesmente ordenou (Js 10.12,13), e assim aconteceu!

· Quando o profeta Isaías desafiou o rei Acaz a pedir qualquer sinal que quisesse nos céus ou na terra, e este bancou o piedoso conformado, dizendo: “Não pedirei; não porei o Senhor à prova”, Isaías o repreendeu, dizendo: “Não basta abusarem da paciência dos homens? Também vão abusar da paciência do meu Deus?” (Is 7.10-13, NVI).

· Quando os fariseus, que se orgulhavam de sua teologia aparentemente impecável, comentaram: “Quem é este que profere blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senão só Deus?”, Jesus respondeu enfaticamente: “Para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados (disse ao paralítico), a ti te digo: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa” (Lc 5.20-25, ênfase acrescentada).

Deus não quer que o homem permaneça passivo, aceitando tudo o que acontece de forma fatalista como sendo a vontade dele, “terceirizando” sua responsabilidade diante das circunstâncias da vida.

No extremo oposto, temos os que ficam tão entusiasmados com o poder da fé que se esquecem de que é Deus quem tem a palavra final em tudo. Ele é soberano, somente a sua vontade deve ser feita, e nós existimos para sua glória e seus propósitos. “Todas as coisas cooperam para o bem [de quem?] daqueles que amam a Deus e são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28, ênfase acrescentada). “E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve” (1 Jo 5.14, ênfase acrescentada). Portanto, não temos licença para usar a fé em prol das nossas ambições egoístas e carnais. “Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites” (Tg 4.3).

A própria história do mundo nos últimos séculos revela os frutos desses dois extremos. As filosofias e religiões orientais (principalmente hinduísmo e budismo), com seu fatalismo e teorias de carma e reencarnação, não permitiram o desabrochar do potencial do homem para interagir produtivamente com o ambiente. De certa forma, o próprio catolicismo, que também defendia a passividade diante da soberania de Deus, resultou no mesmo tipo de estagnação na parte do mundo que se manteve sob seu domínio na Idade Média.

Foi o protestantismo, com a fé irreprimível na possibilidade de cada homem ter contato direto com Deus e usar a imaginação e criatividade para melhorar o mundo visível, que trouxe a explosão de ciência e tecnologia que hoje predomina sobre toda a face da Terra. Ao mesmo tempo, porém, que esse tremendo poder criativo que permaneceu preso dentro do homem por tantos séculos foi liberado, o senso de assombro e reverência diante da soberania e grandeza de Deus foi praticamente anulado, gerando assim a cultura capitalista, consumista, hedonista e anti-Deus que acompanha os avanços tecnológicos no atual processo inexorável de globalização.

Ao meditar sobre essas coisas, fico emocionado. Sinto o Senhor olhando para seu povo com muito amor e zelo paternal e dizendo:

Oh, minha igreja! Os últimos dias já chegaram! Não olhem nem para a direita nem para a esquerda! Olhem firmemente para o Autor e Consumador de sua fé! Creiam no tremendo potencial que há dentro de vocês para mudar circunstâncias, chamar à existência aquilo que não é e tornar visível o invisível. Porém não se esqueçam de que tudo o que existe fui eu que fiz para minha glória! Prostrem-se diante de mim! Desistam de seus próprios sonhos terrenos! Abram o coração para meus sonhos que são muito maiores! Haverá novos céus e nova terra nos quais habita a justiça! E o poder desse mundo vindouro já está dentro de vocês! É o Espírito Santo, o penhor da sua herança! Vocês serão o instrumento por meio do qual meu poder agirá para trazer meu reino para a Terra! Não fiquem olhando para este ou aquele lado, perguntando de onde virá o socorro! A palavra está dentro de vocês, na sua boca, no seu coração! O meu sonho é um povo totalmente submisso e rendido a mim, sem um pingo de autopromoção ou egoísmo, que só deseje a minha glória e o meu prazer, mas que, ao mesmo tempo, seja ousado, corajoso, intrépido para desafiar meus inimigos, fazer proezas em meu nome e exercer minha autoridade sobre a Terra! Esse sonho há de se realizar!

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