Última Palavra-O Que Pode Apagar a Nossa Lâmpada?

Data de publicação: 29/04/2011
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Edição 63 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 63

Por Ezequiel Netto

A parábola das virgens (Mt 25.1-13) é bem conhecida por todos. Dez virgens aguardavam, com expectativa, a chegada do noivo. Porém, como a espera tornou-se prolongada, todas elas cochilaram e dormiram. Quando ele, enfim, chegou, cinco estavam com as lâmpadas se apagando e não puderam participar das bodas. Eu sempre fiquei intrigado com esse texto, pois, nele, poderia estar a chave de todo o mistério que faz com que alguém passe a eternidade com o Senhor e outro seja banido desse privilégio.

A amargura, ou falta de perdão, é um dos principais motivos de insensatez no meio do povo de Deus e tem apagado a lâmpada de muitos crentes. As pessoas têm trocado uma vida abundante e vitoriosa por uma de mediocridade justamente pelo fato de não perdoar a alguém que lhes tenha ferido, traído ou decepcionado. Hoje em dia, até mesmo nos livros seculares de autoajuda, existe um entendimento de que a pessoa deve perdoar a quem lhe ofendeu o mais depressa possível a fim de não ficar presa àquela situação. Como o interesse não está em  buscar que a justiça seja feita nem em esclarecer a situação, enfatizam que o ofendido deve perdoar rapidamente e ficar liberto da prisão psicológica, pois, na grande maioria dos casos, o ofensor está obstinado e não reconhece o seu erro.

Qual o valor de uma ofensa? Como podemos medir o tamanho de um pecado? A parábola do credor incompassivo (Mt 18.23-35) conta a história de um servo que devia ao rei a quantia de dez mil talentos (equivalente a 60 milhões de denários). Como não tinha a menor possibilidade de pagar, foi perdoado pelo rei. Esse mesmo servo tinha um companheiro que lhe devia cem denários (um denário era o pagamento de um dia de serviço braçal). Como este também não tinha condições de quitar sua dívida, o servo sem compaixão, após o sufocar, colocou-o na prisão até que toda a conta fosse paga.

O rei, indignado com esta atitude, chamou o servo e revogou o perdão anteriormente concedido. Assim como recebera misericórdia e perdão de uma dívida enorme, deveria ter perdoado também ao amigo por uma dívida infinitamente menor.

A lição da parábola é que temos uma dívida impagável (nossos muitos pecados) para com Deus, a qual nos foi perdoada por sua graça e bondade. Porém, como somos maus e desprovidos de compaixão, temos dificuldade de perdoar dívidas irrisórias dos nossos semelhantes. E todos os que não perdoam ao próximo passarão a conhecer bem de perto a atuação dos verdugos atormentadores (demônios).

Com o fariseu e a pecadora (Lc 7.36-50), também aconteceu algo parecido. O fariseu, por ser um homem da lei, achava-se justo e bom, e que sua dívida para com Deus era pequena. Mas condenava a mulher, dizendo que era pecadora (como se ele também não o fosse).

A Bíblia mostra que não existe um justo sequer, que todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus (Rm 3.10-12,23). Somos todos imundos, e todos os nossos atos de justiça são como trapo de imundícia (Is 64.6). Contudo, agimos como o fariseu Simão – achamos que somos bons e que, no lugar da outra pessoa, jamais faríamos o que ela fez. Por isso, não devemos perdoar-lhe.

Na realidade, a pessoa que nos ofendeu pode não valer nada. Mas nós também não. O pecado nivelou todos por baixo, seja ele assassinato, prostituição, maledicência, soberba ou egocentrismo. Ficamos profundamente magoados quando ninguém nos visita, quando a pessoa não devolve o livro que emprestamos, quando não somos convidados para uma festa e também por fatos mais graves. Muitas vezes, somos traídos, caluniados, desprezados, discriminados. Ai de nós se Deus tiver um plano para nossa vida, mas o pastor tiver o mesmo plano para seu filho – vamos ser perseguidos! E, à medida que amadurecemos, percebemos que a vida consiste em ofender e ser ofendido, magoar e ser magoado. É só uma questão de tempo: a pessoa mais equilibrada que você conhece vai decepcioná-lo um dia.

Já vi muitas pessoas apressadas em declarar que já perdoaram, que não estão magoadas – mas que não esquecem a ofensa. São movidas por uma atitude religiosa, sabendo que, de acordo com o Pai-nosso, quem não perdoa não é perdoado. E contam, várias vezes, sua história a fim de que todos compreendam seu sofrimento. Não querem resolver o problema com arrependimento e perdão – estão mais interessadas na nossa compaixão e compreensão de sua dor.

Quando a Bíblia fala que Deus não se lembra mais de nossos pecados (Is 43.25), não está querendo dizer que os apagou de sua memória, pois ele é Onisciente e sabe todas as coisas. O que acontece é que Deus não nos trata de acordo com a lembrança do que fizemos nem nos retribui segundo as nossas iniquidades (Sl 103.10).

Vamos parar de ver nossos erros e pecados com um telescópio e os erros do próximo com um microscópio. Após o perdão, que equivale a abrir mão do recebimento de uma dívida, tratemos a pessoa como se sua conta estivesse zerada mesmo que nos lembremos do que ela fez.

Ao resumir, em poucas palavras, o caráter de Jesus, Isaías disse (42.3) que ele não esmagaria a cana quebrada e nem apagaria o pavio da lamparina que fumega (em vez de oferecer um fogo vibrante, soltava fumaça e mau cheiro). Assim como a cana (uma espécie de caniço), o valor de um pavio que se apagava não poderia ser medido. Quanto valem alguns centímetros de barbante? Comparando-nos com esse pavio, ele entendeu que Jesus não jogaria fora as pessoas que estivessem fracas, esgotadas, no limite, mas recuperaria cada uma delas. E sabe como Jesus faz esse milagre em nós? Limpando-nos de todas as ofensas, tanto as que praticamos quanto as que sofremos.

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Perdoar como Jesus

Por Pedro Arruda

Nós damos tanto valor à formalidade do perdão que, sutilmente, criamos uma lei em que o ofensor deve expressar seu pedido de perdão com a maior clareza possível para que o ofendido sinta-se comovido a perdoar. Mas isso pode facilmente descambar para uma atitude velada de vingança, desejando-se a humilhação do ofensor, como uma penitência prévia que o torne merecedor do perdão, e o reconhecimento da bondade de quem está perdoando. Há ainda o risco de tudo não passar de um jogo de cena farisaico e de interesses das partes, sem um verdadeiro arrependimento do ofensor ou um verdadeiro perdão do ofendido.

Jesus não esperava o pedido formal de perdão. Perdoava como valorização da atitude que sabia estar nos corações sem impor qualquer humilhação. Com essa iniciativa, ele demonstrava o verdadeiro valor da graça. Foi assim que procedeu para com aquela que lhe apresentaram como adúltera, com o aleijado descido pelo telhado e até mesmo com os algozes que o pregaram na cruz. Entendia que não necessitavam de mais humilhação do que o próprio pecado já lhes impusera; precisavam agora de libertação. A mesma lição pode ser vista no pai do filho pródigo que não impôs condição alguma para recebê-lo de volta.

Nossa dívida para com Deus é eternamente impagável por causa do que ele nos agraciou por meio de Jesus. Tamanha é essa dívida que não permite esperar qualquer espécie de pagamento ou retribuição. Contudo, Deus tem expectativas a nosso respeito, especialmente quanto ao perdão, a ponto de condicioná-lo à expressão “assim como”. Para não cairmos novamente na tentativa de oferecer uma troca ou pagamento a Deus, precisamos entender que é uma condicionalidade vinculada à graça. Assim como recebemos, devemos dar sem preço e sem condições.

A expressão assim como não deve ser entendida no sentido comparativo, como se alguém pudesse ser tão bom quanto Deus e, de si mesmo, emanar o perdão ao outro. Pelo contrário, assim como refere-se, antes de tudo, à origem e à natureza do perdão. Ou seja, o perdão incondicional que recebemos de Deus tem sua origem e natureza no próprio Deus, e é esse mesmo que deve ser oferecido ao ofensor.

Em outras palavras, não nos cabe julgar se o ofensor merece o perdão; aliás, se fosse merecedor, nem seria necessário perdoar-lhe, pois o perdão só cabe a quem não o merece. Quem faz por merecer, recebe o que lhe é devido, e isso não é perdão, é retribuição. Portanto, nosso coração não pode ser contaminado com qualquer retenção de perdão à espera de solicitação formal do ofensor.

A expectativa de Deus quanto à nossa atitude de perdoar é tão intensa que, após nos tornarmos conscientes de que fomos perdoados incondicionalmente, ele deseja que, por livre e espontânea vontade, ofereçamos a mesma graça imerecida àqueles que nos devem. Mais do que isso, ele condiciona nosso recebimento desse perdão ao que ofereceremos daquele momento em diante. É isso que encontramos no texto conhecido como o Pai-nosso: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores” (Mt 6.12). É também o que aprendemos na parábola do servo incompassivo (Mt 18.23-35).

Estêvão demonstrou exatamente essa relação ao fazer sua última oração enquanto sofria apedrejamento: “E apedrejaram a Estêvão que invocava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito! Então, ajoelhando-se, clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. Com estas palavras adormeceu” (At 7.59-60). Estêvão estava seguindo o modelo de Jesus: “E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. […] E, clamando Jesus com grande voz, disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, havendo dito isto, expirou” (Lc 23.34,46). A atitude de Estêvão, com certeza, foi determinante na conversão de Saulo.

A liberação graciosa e incondicional do perdão é uma prova inequívoca de que somos libertos. Somente os verdadeiramente libertos podem ser agentes autênticos e eficazes de libertação. É um ato de misericórdia que excede a justiça por maior que ela seja.

Nos dias de seu ministério na Terra, Jesus recebia assim as pessoas porque sabia que o Pai as tinha enviado (Jo 6.44). Nos dias de hoje, o Pai continua enviando-as a Jesus; entretanto, a única maneira de Jesus recebê-las é por nosso intermédio. Como sabemos que Jesus não mudou, daremos um testemunho mais autêntico da graça de Deus à medida que praticarmos o perdão com a mesma atitude de Jesus. Essa demonstração viva alcançará o pecador com muito mais eficiência do que as elaboradas pregações e os megaprojetos evangelísticos em curso naquilo que chamamos de “obra do Senhor”.

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