O que a Inglaterra tem a nos ensinar?

Data de publicação: 26/04/2014
Este artigo pertence a: Edição 76

A contribuição inglesa para a restauração da Igreja

por Carolina Sotero Bazzo

Muitas vezes, quando estudamos a história da Igreja, alguns fatos interessantes nos passam despercebidos. Normalmente, isso acontece porque nos detemos ao óbvio, e não atentamos a enxergar além. Algo que me incentiva a estudar a jornada da Igreja, desde Atos até os nossos dias, é observar como Deus deixou suas “pegadas” na história. Isso é muito estimulante, pois leva meus estudos a parecer um trabalho de investigador. E, afinal de contas, quem não deseja ir atrás e descobrir o que Deus já fez, está fazendo ou pretende fazer?

Falo em “pegadas”, principalmente, porque o avanço do cristianismo e o agir de Deus no meio do seu povo, muitas vezes, acontecem em regiões ou países específicos. É claro que, devido à sua onipresença, o Senhor pode atuar em diversos lugares ao mesmo tempo. Mas gostaria de refletir aqui sobre como Deus traz revelações especiais à sua Igreja em lugares e culturas particulares, e como isso pode ser uma forma de unidade do Corpo de Cristo em sua versão global.

Contribuição dos Irmãos Unidos

Acontecimentos interessantes que entraram para a história da Igreja ocorreram, por exemplo, na Inglaterra. Todo o Reino Unido, mas especialmente a Inglaterra, embora tenha sido conhecido por sua frieza e formalidade vazia, também já foi palco de grandes avivamentos históricos. Nomes como John Wycliffe, John Knox, John Bunyan, John Wesley, George Whitefield, Charles Spurgeon, William Booth e Edward Irving fazem parte da grande lista de homens levantados por Deus naquela região.

E, apesar da valiosa herança que esses homens nos deixaram, há outra herança inglesa que precisamos reconhecer e receber. No começo do século 19, na Irlanda, quando o ambiente espiritual da igreja europeia era de letargia, cristãos de denominações diferentes passaram a reunir-se para orar e estudar as Escrituras. A história nos conta que, aos poucos, com o crescimento da comunhão e do entendimento de verdades bíblicas, esses irmãos desligaram-se, cada um, de sua congregação de origem e passaram a reunir-se de forma mais simples sem uma base institucional. Esse movimento que rapidamente cresceu formando outros grupos, principalmente na Inglaterra, é conhecido até hoje como Movimento dos Irmãos Unidos.

Pouco conhecidos pela maioria dos cristãos, os Irmãos Unidos trouxeram uma importante contribuição à Igreja ao enfatizar a simplicidade do cristianismo (sem divisão entre clero e leigo), a necessidade de comunhão e aliança e, principalmente, a restauração de padrões bíblicos como fundamentos para a vida da Igreja. Com um intenso amor pela Palavra, os Irmãos de Plymouth, como também eram chamados, revolucionaram o culto frio e estatal da Inglaterra ao promover avivamento bíblico. Nomes como John Nelson Darby e George Mϋller, por exemplo, fazem parte do movimento. Contudo, apesar das contribuições importantes, o movimento tornou-se sectário com o tempo até culminar, posteriormente, numa divisão.

Arthur Wallis e o início de uma nova corrente

Além desse grupo, outra corrente importante, também pouco conhecida, foi o Movimento de Restauração na Inglaterra que teve início na década de 1950 (para saber mais, leia o capítulo 15 do livro Igreja do Século 20 – A História Que Não Foi Contada, da Editora Impacto). Sua história começa com Arthur Wallis. De certa forma, sua origem espiritual foi no grupo dos Irmãos Unidos, pois seu pai se reunia com eles até decidir sair por não concordar com o sectarismo que sobressaía cada vez mais.

Posteriormente, Wallis teve contato com duas influências importantes. A primeira veio de G. H. Lang, um ministro da Palavra dos Irmãos Unidos que lhe ensinou muito sobre os princípios bíblicos que devem nortear a Igreja de Cristo. O segundo veio do Movimento Carismático, especialmente por meio de um homem chamado David Lillie, que o ajudou a ter experiências com o Espírito Santo e a buscar fervorosamente o avivamento de Deus. Com origem também nos Irmãos Unidos, David Lillie havia saído e estava desenvolvendo uma experiência de igreja nos padrões neotestamentários.

O Movimento de Restauração na Inglaterra nasceu quando diversos irmãos, além de Wallis e Lillie, passam a reunir-se e a procurar vínculos um com o outro sem nenhuma estrutura denominacional para lhes dar identidade ou união. Passaram a buscar avivamento junto com a restauração de princípios bíblicos que haviam sido esquecidos e desvalorizados pela Igreja durante a história.

Uma das verdades mais importantes que redescobriram talvez tenha sido o princípio de aliança e discipulado que a liderança desenvolveu entre eles próprios. A falta de comunhão, aliança e cuidado um com o outro nas lideranças tem sido um dos problemas mais graves na história da Igreja. Constantemente, até hoje, vemos líderes solitários, pastores sem pastoreamento e divisões entre ministérios; o resultado, infelizmente, tem sido líderes desistindo ou caindo em pecado.

Em 1972, sete dos principais líderes do movimento na Inglaterra assumiram um compromisso de aliança e cuidado mútuo que rapidamente resultou em “um golpe mortal à independência que havia caracterizado seus ministérios por anos e a qualquer tentativa de edificar pequenos impérios[1]. Apesar de desavenças posteriores, podemos dizer que o que aconteceu entre esses irmãos naquela época foi um testemunho e ensinamento fantástico para todo o povo de Deus ao redor da Terra: o de que, se queremos uma igreja saudável, precisamos ter líderes saudáveis. E, para isso, é necessário haver relacionamentos de alianças que nos permitam cuidar uns dos outros.

Além disso, outra contribuição importante foi na área de eclesiologia. Além da herança dos Irmãos Unidos, os ingleses também sofreram influência do movimento canadense Chuva Serôdia que enfatizava a necessidade de apóstolos e profetas para o fundamento da Igreja. Esta, por exemplo, era uma verdade bíblica desprezada pela maioria das denominações da época. Hoje, é comum ouvir falar do ministério apostólico e profético, mas, há poucas décadas, era considerada praticamente uma heresia. Se hoje muitos acreditam que Deus edificará a sua Igreja pelos cinco ministérios (apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres), em grande medida, devemos essa revelação à contribuição dos dois movimentos: da Chuva Serôdia e da Restauração na Inglaterra.

Fica muito clara a ênfase que se dava a esses assuntos quando observamos os temas das conferências que eram realizadas por esses irmãos na Inglaterra entre 1961 e 1965: “O propósito divino na instituição da igreja”, “Como edificar uma igreja neotestamentária cheia do Espírito Santo” e “A comissão apostólica”. É interessante perceber que, durante um bom tempo, eles também foram conhecidos por Movimento das Igrejas nos Lares.

Odres novos para o vinho novo

Havia entre eles um anseio por entender qual era o próximo passo de Deus para a Igreja naquela geração. Se Deus já havia derramado seu Espírito no século 20, qual seria o seu próximo mover na Terra? Foi assim que Arthur Wallis, estudando as Escrituras com vários outros irmãos, chegou à convicção de que Deus estava restaurando a sua Igreja para que, nos últimos dias, antes da volta de Jesus, fosse uma Igreja gloriosa (Ef 5.27). Parte dessa restauração consistia, não apenas em revestimento de poder (batismo no Espírito Santo, ênfase forte naquela época), mas em redescobrir uma estrutura bíblica de vida da igreja. Eles criam que os avivamentos do Espírito Santo que haviam acontecido durante o Movimento Pentecostal e Carismático eram o “vinho novo” que o Senhor estava derramando. Contudo, naquele momento eram necessários também “odres novos”. Vinho novo em odre velho, como já conta a parábola (Lc 5.33-39), faz o odre romper e o vinho se perder.

E era exatamente isso que vinha acontecendo durante o século 20. Grandes homens se levantavam com uma nova unção vinda da parte de Deus e grandes avivamentos eram derramados sobre o povo de Deus, mas logo acabavam porque não havia uma estrutura, um odre, que fizesse com que aquele poder ou unção fosse preservado. Exemplos vivos foram os grandes ministros de cura que atuaram nos EUA na década de 40. Alguns deles eram homens com poderosos ministérios de cura e evangelismo, que tinham o vinho novo do Senhor, mas que no final da vida acabaram caindo em algum tipo de pecado ou escândalo.

E por que caíram em pecado? Porque, apesar dos dons e das multidões que os cercavam, estavam sozinhos. Faltava-lhes um odre novo, uma estrutura de igreja que os incluísse em um ambiente de cuidado e discipulado orgânico. A mesma coisa poderia ser dita sobre avivamentos que rapidamente acabaram, frequentemente por causa de divisões entre líderes que discordavam ou disputavam o cargo de “porteiros únicos da presença de Deus”.

A experiência na Inglaterra foi praticar uma estrutura de igreja livre de institucionalismo, com reuniões nos lares, comunhão, aliança e discipulado – aliando o desejo de avivamento com uma busca de reforma. Infelizmente, porém, a história do Movimento de Restauração na Inglaterra também foi marcada por discórdias e divisões. É triste ver como diversos movimentos que buscaram conscientemente a unidade acabaram dividindo-se. Contudo, muitos frutos permanecem até hoje.

John Noble – ainda batalhando em favor da plena restauração

Talvez um dos frutos mais duradouros, até hoje, seja o ministério de John Noble. Ele foi um dos líderes do movimento, na região sul da Inglaterra. Os “irmãos de Londres”, como eram conhecidos, influenciaram na época pessoas de diversas partes do mundo com a publicação da revista Fulness, que trazia artigos pioneiros sobre as novas revelações que estavam recebendo, como por exemplo: sobre o ministério apostólico e profético, conceitos sobre o Corpo de Cristo, comunhão, comunidade, dons do Espírito e muito mais.  

Desde a década de 70, Noble esteve envolvido com o Movimento Carismático, além do seu trabalho com igrejas nas casas. Na verdade, quando falamos sobre igrejas nas casas, devemos ter em mente que essa expressão (house church) surgiu na Inglaterra, e que Noble foi um dos pioneiros dessa experiência. Além de trabalhar durante anos, plantando novas comunidades com essa visão em várias partes, ele e a esposa Christine Noble também levaram para dentro de sua casa muitas pessoas para viverem uma experiência ainda mais intensa: de comunidade. Muitas comunidades de igrejas nos lares receberam sua influência como, por exemplo, a Immanuel Community, uma comunidade no leste de Londres.

Em seu livro publicado em 2001, The Shaking – turning the church inside out to turn the world upside down (“O Abalo – transformando a igreja de dentro para fora para virar o mundo de cabeça para baixo”), ele revela que continua enxergando longe ao falar sobre as mudanças que devem acontecer na Igreja nos últimos dias antes da volta de Cristo. Falando sobre necessidades de mudanças em três áreas (um novo tipo de cristão, um novo tipo de igreja e um novo tipo de ministério), Noble afirma que Deus deseja ainda revelar mais de Jesus e de seu Reino. Com quase 80 anos de idade, muita maturidade e esperança para um próximo mover, ele enche o leitor de expectativa ao dizer que uma revelação maior de Cristo gerará uma grande mobilização do povo de Deus para orar e agir; e que essa igreja mobilizada será a Igreja gloriosa que trará Jesus de volta para a Terra.

JOHN NOBLE E SUA INFLUÊNCIA NO BRASIL
Angelo Bazzo

No Brasil, quase não se fala em John Noble. Eu mesmo nunca vi ninguém o citando em uma pregação ou até mesmo dizendo que leu um de seus livros. Na verdade, quase nenhum livro seu foi publicado em português – somente temos O Ministério do Apóstolo e Dez Mandamentos para Preservar a Unidade do Espírito, além de um artigo que foi incluído no livreto A Casa de Deus, todos da Impacto Publicações. De certa forma, Noble também não é uma personalidade muito conhecida lá fora. Mesmo assim, seu ministério teve uma influência enorme.

Você pode não ter ouvido falar dele, mas muitos ministérios que você conhece e dos quais recebe edificação, provavelmente, foram influenciados (direta ou indiretamente) pelo seu ministério. A sua influência no Brasil hoje pode ser percebida em três áreas diferentes. A primeira é no Movimento de Adoração. Há algumas décadas, não havia nas igrejas uma atuação de músicos adoradores como se vê hoje. E se existe uma pessoa que influenciou o movimento de adoração no mundo inteiro, essa pessoa foi o músico Martin Smith com a banda Delirious. Com um estilo musical rock inglês e com letras que descreviam o clamor dessa geração por avivamento, essa banda impactou inúmeros cristãos dos anos 90 até hoje, além de influenciar e fazer nascer centenas de outros músicos cristãos que hoje ocupam os palcos das igrejas brasileiras. Mas o que talvez poucos saibam é que Martin Smith aprendeu a ministrar ao Senhor no sofá da casa de John Noble. Aquela tremenda unção que muitos de nós percebemos, até mesmo em estádios lotados, foi recebida numa pequenina sala de estar da Inglaterra.

A segunda área em que percebo sua influência são os ministérios que lidam com dons proféticos. No passado, nem todos entendiam a diferença entre dom, ministério e ofício profético. Esse era um assunto pouquíssimo falado e muito mal-entendido. Mas hoje, no Brasil e no mundo, já existem ministérios que atuam nessa área com equilíbrio e entendimento bíblico. Se pararmos para analisar muitos desses ministérios, veremos que quase todos foram influenciados por Graham Cooke e Martin Scott, autores dos livros Desenvolvendo o Seu Dom Profético (Editora Danprewan) e Abraçando o Amanhã (Jeovah-Shamah Publicações) respectivamente. Até mesmo grandes ministros como Rick Joyner, Steve Thompson e Mike Bickle foram influenciados, por exemplo, por Graham Cooke na área de dons proféticos. E o interessante é que esses dois autores – Graham Cooke e Martin Scott – também foram influenciados por John Noble por meio de uma rede de relacionamentos que recebeu o nome de Pioneer.

Podemos dizer que essas duas áreas sofreram influência indireta de Noble. Mas ainda que seja indireta, ela nos mostra algo interessante de sua personalidade. Mesmo sem falar com total autoridade sobre adoração ou dons proféticos, por exemplo, John Noble sempre teve uma personalidade de relacionar e discipular pessoas, abrindo espaço para novos dons e ministérios. Contudo, na terceira área, podemos dizer que houve uma influencia direta (embora também pouco conhecida): na prática e no ensino sobre igrejas nas casas. Hoje, no Brasil, fala-se muito mais sobre a essência e natureza da igreja do que antes. É comum até nas redes sociais ver slogans do tipo “eu não vou à igreja, eu sou a igreja”. Há uma procura muito grande, principalmente entre os jovens cristãos, por esse assunto.

Muitas pessoas têm-me procurado, pedindo indicações de livros sobre o que é ser igreja, como funciona a estrutura de igreja. E tudo isso acontece porque há um grande descontentamento com as estruturas eclesiásticas atuais. Enquanto isso, novas formas de igreja têm surgido. Mas o que muitos não sabem é da influência de John Noble na história da Igreja, do seu pioneirismo na prática de igrejas nos lares e nos assuntos sobre ministérios apostólicos e proféticos.

[1] A Igreja do Século 20, Impacto, pág. 245

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