O Que é Lazer Santo?

Data de publicação: 10/10/2011
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Edição 32 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 32

Por: Christopher Walker

Os Dois Extremos

De acordo com Watchman Nee, o lazer não pode ser um problema para o cristão consagrado. Se houver problema neste assunto, é porque há deficiência na sua consagração (Fazei Tudo Para a Glória de Deus, lição 34, Edições Tesouro Aberto). Se formos honestos, a grande maioria de nós realmente tem problemas na nossa consagração – e não só na área de lazer!

Em linhas gerais, podemos dizer que estes problemas se encontram em dois extremos opostos. O primeiro vem daqueles que consideram qualquer tipo de recreação que não tenha propósito explicitamente espiritual como inferior ou desprezível, podendo chegar até a condená-la como carnal ou pecaminosa. Criam um padrão muito elevado para si mesmos e para seus familiares, discípulos ou subordinados. Normalmente, são pessoas intensas e dedicadas que escolheram o alvo do Reino de Deus como centro de suas vidas.

Isto gera problemas sérios para a própria pessoa, porque não leva em consideração as legítimas necessidades do corpo e da alma e quebra leis e princípios instituídos pelo Criador. Isto, mais cedo ou mais tarde, acarretará sérios resultados no seu físico, na sua mente e emoções e, em última análise, até no seu espírito, pois os problemas de uma área do nosso ser acabam afetando as demais. Os efeitos são ainda maiores para as pessoas que estão no seu círculo de influência, pois além dos resultados acima, a situação se agrava ainda mais pelo fato de estarem seguindo convicções que não são suas.

O único padrão que pode ser aplicado uniformemente a todas as pessoas é o padrão da Palavra de Deus, e esta faz questão de não estabelecer regras mensuráveis ou exteriores para a maioria das situações. Deus, na sua sabedoria, estabeleceu assim, pois as pessoas diferem muito entre si e precisam encontrar individualmente, ou por família, seu próprio ponto de equilíbrio com base nos princípios fundamentais da Palavra e no seu relacionamento vivo com Jesus. Quando tentamos viver pela consciência ou pelo padrão de outra pessoa, por mais espiritual, exemplar, ou admirável que esta seja, sempre teremos sérios problemas; nossos limites ou necessidades são diferentes e estaremos agindo sem convicção própria e sem base no verdadeiro relacionamento individual com Deus.

O outro extremo é formado por aqueles que entendem que o propósito de Deus na redenção é essencialmente abençoar, libertar e dar alegria ao homem aqui e agora (além de, evidentemente, dar-lhe vida eterna no porvir). É uma nova forma de humanismo: todos os recursos de Deus existem em função do bem-estar atual do homem. Portanto, Deus não somente me liberta de vícios, escravidão ao pecado, dívidas, relacionamentos quebrados, doenças, depressões e tantas outras coisas que podem me afligir, mas também me dá plena autorização e liberdade de usar meus recursos (depois de dar dízimos e ofertas, é claro) para minha própria realização e prazer. Somente se eu estiver vivendo nesta dimensão de prosperidade e elevado nível de auto-estima é que posso afirmar que estou de posse das promessas de Deus e vivendo uma vida vitoriosa.

No primeiro extremo, praticamente não existe lazer. Tudo é dedicação, intensidade, pressão para sempre se doar e servir ainda mais em função do grande alvo espiritual. No segundo extremo, não há muita diferença entre o lazer praticado pelo cristão e o lazer do mundo. O lazer santo nesta concepção seria só a ausência de bebidas alcoólicas e outros vícios ou atividades condenadas pela igreja, mas a essência da busca pelo prazer e auto-satisfação continua igual.

Na verdade, encontramos aqui algo extremamente perigoso: no mundo, enquanto as pessoas procuram felicidade nas diversões junto com seus vícios e hábitos pecaminosos, a consciência despertada pela Palavra de Deus e pelo Espírito Santo ainda pode acusá-las e conduzi-las a um encontro com Deus e ao arrependimento; por outro lado, os cristãos que desenvolveram uma “teologia” para justificar seu dispêndio muitas vezes exagerado de tempo e recursos em benefício próprio, acabam apagando a voz da consciência e tornando-se insensíveis aos pecados mais sutis e nocivos de uma vida egoísta e centrada em si mesmo.

Aparentemente, uma pessoa nesta segunda posição está de bem com a vida, não sofre tanto com as pressões da vida, pois sabe usar o lazer, e não tem conflitos interiores com sua consciência, (que é outra grande causa de estresse), pois está usufruindo o que o próprio Deus lhe concedeu.

Está armado, então, o debate entre os dois extremos. Por um lado, pessoas que buscam uma entrega cem por cento para a causa de Deus, que sentem peso pelo sofrimento e miséria no mundo e que querem fazer parte do exército que o Senhor está levantando para preparar a igreja e o mundo para a volta de Cristo. Porém, sofrem de depressão, vivem constantemente à beira de uma crise e acabam colocando um jugo insuportável sobre si mesmos e sobre outros. E pelo outro lado, pessoas realizadas e prósperas, vencendo todos seus obstáculos, encontrando uma vida de satisfação e felicidade, mas que acabaram fundamentando suas vidas no princípio venenoso e traiçoeiro de servir a si mesmos, de “salvar sua vida” ao invés de perdê-la.

O Equilíbrio

Como em todas as áreas da vida cristã, a solução é encontrar o equilíbrio certo entre os dois extremos. Porém, isto não é uma mera questão de somar e dividir por dois; também não adianta estabelecer uma série de parâmetros exteriores para dizer o que se pode e não se pode fazer. Lazer santo não significa deixar de passear, fugir de certas diversões, ou estabelecer um limite de gastos. É conseqüência de uma atitude de coração, pois é de lá que procedem as fontes da vida (Pv 4.23).

Se Jesus não é Senhor da nossa vida, se o limite da nossa experiência cristã é procurar em Deus a solução das nossas angústias e distúrbios interiores e exteriores, se não fomos inflamados para conquistar “aquilo” para o qual fomos conquistados (Fp 3.12), se não existe, enfim, um grande alvo superior que dá sentido para toda nossa existência, então qualquer padrão exterior do que é lícito ou não para o cristão praticar no seu lazer será apenas uma casca vazia de legalismo.

A partir do momento, contudo, que formos conquistados por esta visão celestial, nossa atitude em relação ao lazer (como também em relação a todas as outras coisas) começa a mudar. Neste caso, a tendência é cair no primeiro extremo, mas precisaremos aprender que nosso corpo é templo do Espírito Santo (1 Co 6.19) e que somos responsáveis por cuidar dele. O descanso, o espaço, o alívio e a pausa são fatores necessários, instituídos por Deus e que não podemos ignorar (veja outras matérias nesta edição, que tratam de forma mais completa deste aspecto).

O lazer se enquadra, então, junto com as demais necessidades do corpo, que são reais e reconhecidas por Deus. Jesus, por exemplo, em Mateus 6.25-34, cita comida, bebida e vestuário como coisas de que realmente precisamos: “pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas” (v. 32). Evidentemente, nossas necessidades físicas incluem várias outras coisas além destas três, mas aprendemos nesta passagem como devemos tratar a todas elas: não como prioridades, conforme fazem os gentios, mas como provisões que nosso Pai celestial nos dará quando buscarmos os interesses dele em primeiro lugar.

Quando Paulo fala a respeito do que se pode comer, do dia em que se deve descansar, ou de coisas exteriores que se relacionam com o corpo, ele nos dá outro princípio importante. “Todas as coisas me são lícitas…” (1 Co 6.12). Em outras palavras, não é uma questão da atividade, do alimento, do dia, da diversão ou do passeio em si. “…Mas nem todas convêm”; ou seja, podem existir várias razões, por causa do testemunho, de outras pessoas, da situação financeira ou de circunstâncias específicas, para se eliminar uma determinada opção de lazer. Finalmente, e mais importante: “Eu não me deixarei dominar por nenhuma delas”. O lazer nunca pode ser o objetivo, um fim em si mesmo. É apenas um instrumento que contribui para nosso alvo maior, pois nos deixa mais dispostos e inteiros para perseguir a visão de Deus. Se prestamos obediência, ou somos dominados por alguma coisa, passamos a ser servos ou escravos daquilo (Rm 6.16), e nesta mesma medida deixamos de ser servos do Senhor.

Aqueles que estão numa competição subjugam seus desejos desordenados para ganhar o prêmio (1 Co 9.25-27); o soldado suporta sofrimento e não desvia sua atenção para “negócios desta vida” (2 Tm 2.3,4); da mesma forma, devemos cuidar do corpo mas lutar constantemente para que seus desejos não venham a exercer controle sobre nós. Os que compram devem agir como se nada possuíssem, os que se utilizam do mundo, como se dele não usassem (1 Co 7.29-31); em outras palavras, usamos o lazer como recurso necessário, mas não vivemos em função dele.

Paulo falava também daqueles cujo deus era o ventre (Fp 3.19; Rm 16.18) e que eram mais amigos dos prazeres do que amigos de Deus (2 Tm 3.4). Podemos ser membros fiéis de uma igreja, dar regularmente nossos dízimos e ofertas e ainda viver em função dos nossos próprios desejos (o ventre) e nos entusiasmar mais com nossas viagens, passeios, hobbies ou passatempos do que com os interesses do Reino de Deus.

Algumas Aplicações Práticas

Assim como devemos comer o necessário para nossa sobrevivência e saúde, mas não viver em função da alimentação, o lazer precisa cumprir o propósito certo na nossa vida. Além da atitude certa, precisamos avaliar se o que fazemos nos nossos momentos de folga e períodos de férias realmente está servindo para recarregar nossas baterias. Quantas pessoas voltam das férias, de um final de semana ou de uma atividade festiva muito mais cansadas, frustradas e pressionadas do que antes! Portanto, se nossa atividade de lazer não está nos ajudando a aliviar a pressão e a recompor nossas forças, estamos usando tempo e dinheiro para algo que não tem finalidade.

É como gastar dinheiro em comidas extravagantes para satisfazer nossos desejos desordenados, ou em roupas supérfluas e ou em outros desejos da carne, que passaram além da linha onde supriam necessidades genuínas e começaram a nos dominar. Entretanto, não podemos demarcar esta linha para os outros. As únicas pessoas que podem determinar, em santo temor diante de Deus, até onde devemos ir em cada uma destas áreas somos nós mesmos.

Um outro princípio a ser destacado na aplicação prática do lazer é a importância dos pais e líderes determinarem o que melhor atenderá às necessidades da sua família ou dos seus liderados. Aqui o fator preponderante não é achar o que é melhor ou mais interessante para si mesmos, mas para aqueles por quem são responsáveis. Talvez eu saiba resolver minhas necessidades pessoais de repouso e restauração interior através de atividades ou espaços que os outros ainda não aprenderam a usar. Eu posso estar bem, mas eles não estão; para mim pode ser melhor usar meu tempo fazendo algo que para eles não representa alívio nenhum. O verdadeiro líder saberá discernir as legítimas necessidades das pessoas de quem está cuidando e buscar, junto com elas, a melhor forma de supri-las.

Dentro da nossa limitação de tempo e energia para fazer tudo que é necessário e que faz parte dos nossos alvos prioritários, precisamos aprender a planejar atividades que atendam a mais de um objetivo ao mesmo tempo. O melhor exemplo disso é unir a necessidade de lazer com a necessidade de comunhão. Seja a nível de casal, de família, ou de duas ou mais famílias, podemos encontrar atividades de lazer que ao mesmo tempo proporcionem espaços e estímulos para comunhão com a participação de todos.

Lazer e Comunhão

Aliás, esta ligação entre lazer e comunhão é maior do que talvez se tenha imaginado. Se a necessidade física de lazer é principalmente em decorrência da pressão das atividades rotineiras que vai se acumulando durante dias, semanas, meses ou talvez até anos sem a devida recomposição de forças, há uma solução aplicável em vários níveis que é ignorada até pela maioria dos cristãos.

A cada dia, se reservássemos um tempo para colocar nossos pensamentos em dia diante do nosso Criador, Pai, Amigo e Companheiro, grande parte das nossas pressões evaporaria. Não estou falando sobre intercessão ou intensa busca da face de Deus. Estou falando sobre conversar com Deus, como acontecia no jardim do Éden, “pela viração do dia” (Gn 3.8). Adão falava com Deus sobre o que tinha feito, sobre os nomes que dera aos animais, sobre as coisas que vira ou o trabalho que precisava ser feito no jardim.

Vemos aqui a ligação intrínseca que existe entre espírito, alma e corpo. A comunhão com Deus no espírito, que envolve também nossa mente e nossas emoções, produz resultados benéficos para nosso corpo. Este tipo de verdadeira comunhão, de partilhar preocupações, inquietações, vitórias e descobertas, traz quietude à alma e dispersa muitas pressões que nos oprimem. Por não entender a verdadeira fonte de comunhão e paz interior, as pessoas que não conhecem a Deus procuram suprir esta necessidade através de alternativas falsas, como meditação transcendental, ioga e filosofias orientais, entre outras.

O mesmo princípio se aplica à comunhão entre duas pessoas. Uma conversa íntima e espontânea entre cônjuges, onde se fala de assuntos autênticos do coração e onde se é compreendido e correspondido, vale mais do que dez passeios ou diversões para aliviar as pressões que se acumulam no interior. Quantos filhos, maridos, esposas, amigos, pastores, empregados e empresários estão estressados, à beira de uma crise, procurando outras formas inúteis de descanso ou diversão, por falta de ambiente ou relacionamento autêntico onde possam se desabafar e simplesmente ser ouvidos!

Quando há relacionamentos saudáveis, baseados em realidade e integridade, os ajuntamentos familiares ou de grupos de irmãos também trazem descanso e lazer santo. Poder contar anedotas, dar risadas, e sentir-se leve em família ou em grupos de comunhão é algo que ajuda a descontrair-se e, ao mesmo tempo, fortalece os laços de amizade e camaradagem entre as pessoas. É preciso, porém, tomar cuidado, pois muitos eventos, festas e comemorações não trazem nem comunhão, nem lazer no sentido de alívio e restauração interior. Precisamos aprender a avaliar nossas atividades e ver em que sentido estão contribuindo para o verdadeiro objetivo de restauração interior.

Cuidado Com as Brechas

Finalmente, é preciso deixar bem claro que, para ser santo, o lazer não precisa ser uma atividade “espiritual”. Nossa vida não deve ser dividida em compartimentos: espiritual, secular, acadêmico, familiar, recreativo, etc. A qualidade de espiritual ou consagrado decorre da regra fundamental da nossa vida: “Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Co 10.31).

Desta forma, qualquer atividade de lazer é espiritual, desde que atenda ao objetivo de restaurar nossas forças e que glorifique a Deus. Só precisamos nos lembrar que estamos numa guerra e o inimigo não respeita os momentos em que estamos “fora da linha de ação”. Aliás, é um dos seus momentos preferidos para nos atacar. No meio de atividades lícitas de descanso como assistir a um programa ou filme na televisão, bater papo na Internet, jogar bola ou participar de uma brincadeira com amigos ou familiares, há várias estratégias que o inimigo usa para nos tentar e atacar (como cenas impróprias, relacionamentos errados, atitudes carnais de brigar, dominar, achar que sempre tem razão e outras). Se somos especialmente vulneráveis em alguma destas áreas, é importante fechar a porta e nem dar chance para o inimigo. Podemos escolher uma atividade onde o inimigo não tem fácil acesso em nossa vida.

Por outro lado, é justamente nos momentos de descontração e informalidade que nossa real condição de santificação (ou falta dela!) se revela. Neste caso, a solução não é fugir da situação, mas buscar em Deus a verdadeira libertação das atitudes carnais!

“Pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação: …que cada um de vós saiba possuir o próprio corpo, em santificação e honra” (1 Ts 4.3,4).

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