Reflexão-O Princípio do Precedente

Data de publicação: 29/04/2011
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Edição 60 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 60

Por Luiz Montanini

No Direito, quando uma causa inusitada é ganha em última instância, abre-se o que se chama precedente jurídico e torna-se jurisprudência. A partir dela, todas as outras causas semelhantes passam a desfrutar do mesmo benefício. Já não é preciso percorrer o mesmo caminho outra vez, porque ele foi aberto por meio do precedente. Quando um reclamante ganha uma causa de uma companhia de cigarros, por exemplo, todos os fumantes em situação semelhante podem entrar na Justiça com a garantia de causa ganha. É o que acontece em geral, e muitos são beneficiados em avalanches de processos a partir do estopim da primeira causa.

Entendo e estou convicto de que assim também é no mundo invisível. Quando um homem obtém algo no mundo espiritual, seja vitória ou derrota, aquilo reverbera de forma ostensiva e progressiva, produzindo consequências espirituais e naturais.

Usando o precedente para espalhar o mal

Vamos começar pelo mau exemplo, lembrando o que aconteceu em outubro de 2008, após o caso do assassinato da jovem Eloá pelo ex-namorado em São Paulo. O evento, trágico, foi lançado de forma satânica na mídia, em rede nacional, e, a partir dali, alcançou outras mentes suscetíveis a alterações emocionais que passaram a cometer atos passionais semelhantes.

Coincidência? Não quando a questão é espiritual. Divulgar desgraças em rede tornou-se artimanha maligna corriqueira. Satanás, a antiga serpente, não descobriu isso agora. Tão antiga quanto astuta, conhece, há milênios, o poder da palavra e hoje apenas usa a mídia de forma estereofônica para divulgar suas diabruras e, assim, abrir precedentes que espalhem o terror em série.

Ou seja, como é um princípio antigo, e Satanás é tão antigo quanto, ele o conhece e usa-o desde a antiguidade.

Mas – e isto é boa notícia, pode publicá-la – a igreja começa a descobrir esse princípio também, dando-se conta de algumas leis que regem o mundo espiritual. Uma delas, lançada por gente especializada por assim dizer em batalha espiritual, é a da legalidade. Grosso modo, reza o seguinte: se há pecado na vida de alguém ou da comunidade, esse cria a legalidade para o diabo atazanar a vida do indivíduo ou da congregação.

Entendendo os efeitos no mundo espiritual

Nessa linha, gostaria de chamar a atenção do leitor para esse mesmo princípio no mundo espiritual. Ou seja, se obtemos revelação e decorrente vitória e restauração em alguma área, essa conquista multiplica-se no mundo invisível e aplica-se à igreja em efeito cascata, afetando o mundo de roldão.

Paulo disse algo significativo a esse respeito e que, talvez, sirva de base para os argumentos deste artigo. Ao referir-se ao pecado de Adão e ao posterior conserto do estrago feito por Jesus (findando a raça adâmica ao morrer como o último Adão e criando o segundo e novo homem), ele explica que a justificação veio ao mundo por um homem assim como acontecera antes com o pecado. Ou seja, em Adão todos pecamos, mas em Jesus todos fomos justificados. A consequência funesta do pecado aconteceu em cadeia, mas a salvação e regeneração gloriosa de Jesus tiveram efeito ainda maior no mundo espiritual.

Isso quer dizer que, quando alguém obtém certa vitória espiritual, tal conquista é embutida no caput da lei de Deus e torna-se poder de Deus para abrir precedentes no mundo espiritual. Reivindicada depois, é incorporada ao processo de restauração e à vida da igreja como fato consumado.

Assim aconteceu no maior evento cósmico de que se tem e terá notícia: a morte e ressurreição de Jesus. Sua morte foi a de toda a humanidade, e sua ressurreição, a de nosso estabelecimento como novos homens, criados em verdadeira justiça e santidade a partir do padrão perfeito, Jesus. O que se deve fazer, destarte, nada mais é do que apregoar esse fato pelas ruas e telhados, pela mídia ou boca a boca.

Não é por acaso que o Deus triúno é chamado o Verbo. Foi assim desde o princípio. Deus falava e acontecia nos dias da criação. Depois, o verbo se fez carne. A Palavra criativa sempre gerou vida. E, para confirmar, consolidar e dar-lhe um caráter perene, Deus mesmo providenciou que fosse verbalizada e escrita ao longo dos séculos. O pregai do Ide não é nada mais do que divulgar essas conquistas de Deus e de seus homens.

Em 1948, durante o conhecido movimento da chuva serôdia, surgiu a revelação, que estava oculta há quase dois milênios, da imposição de mãos pelo presbitério (veja 1 Tm 4.14) e do que ela significava e implicava. A partir dali, por causa do precedente, o caminho foi aberto e, desde então, é prática adotada e abençoadora para a vida da igreja.

Bandeirantes espirituais

Isso vale para todos os aspectos da vida espiritual. Quando alguém tem uma revelação de Deus ou experimenta algo novo em Deus, sua conquista, tal qual a de um bandeirante, abre caminho para outros alcançarem vitória similar, abençoar a muitos, multiplicar-se, atravessar gerações e saltar para a vida eterna.

O antigo bandeirante Anhanguera, por exemplo, demorou meses para varar o sertão a partir de São Paulo em direção ao Triângulo Mineiro. Hoje, entretanto, a rota que ele abriu, ou, pelo menos, boa parte dela, tornou-se uma rápida rodovia que leva seu nome. Ou seja, antes, por esse caminho viajava-se meses a pé por trilhas difíceis e perigosas, enquanto, hoje, o mesmo trajeto é feito em poucas horas em veículos. Para isso, entretanto, um dia alguém foi pioneiro. Anhanguera abriu o precedente, rasgou o caminho e, a partir dali, deixou a viagem mais fácil.

Assim também acontece no mundo espiritual. Quando temos a revelação e a aplicação de algo espiritual em nossa vida e, especialmente, na vida da igreja, ela traz em si um poder multiplicador, gerador de vida em série e em efeito não apenas cascata, mas também progressivo e geométrico. Uma vitória individual, ainda que pequena a seus olhos, torna-se dupla ali adiante, em outra casa ou cidade que, por sua vez, quadruplica-se em pouco tempo e cresce de forma exponencial em seguida até alcançar toda a Terra por meio da igreja. É a semente de mostarda, a menor de todas as árvores, que cresce e torna-se a maior de todas as árvores. São os pequenos começos descritos em Zacarias 4.10 e outros textos.

“Vá e conte!”

Movidos por razões como essas, devemos escrever ou apregoar nossas conquistas pessoais e como igreja. As conquistas como igreja, aliás, são as que merecem maior destaque, porque é o corpo em ação, a coletividade, os membros do corpo cumprindo as ordens do cabeça.

Ao publicarmos e divulgarmos nossas conquistas espirituais, seja por quaisquer meios – e o principal deles, lembremo-nos, é nossa própria boca –, o inferno treme, e o Reino expande-se por meio da palavra criativa de Deus.

A nós, compete, apenas, divulgá-las. “Vá e conte a todos o que Deus fez na sua vida”, disse Jesus ao cego. Se éramos cegos e agora estamos vendo, se a luz da revelação brilhou em nós, se alcançamos, no mundo espiritual, uma vitória significativa, ela precisa e deve ser divulgada para não restringir o efeito multiplicador da conquista. “Vá e conte.”

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