O Princípio da Pausa na Vida Espiritual

Data de publicação: 10/10/2011
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Edição 32 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 32

Por: Pedro Arruda

O Lazer nos Disponibiliza Mais para Deus

Ao criar o mundo em uma semana e destinar um dos dias ao descanso, Deus deixou clara uma mensagem ao homem: a necessidade de alternâncias na vida. O tempo também traz esta idéia, intercalando dia e noite, inverno e verão, demonstrando haver o tempo certo para todas as coisas. Na constituição do povo de Israel, além dos sábados foram acrescentadas as festas – e quantas festas! Se obedecesse aos mandamentos, Israel seria um povo rico e teria paz com outros povos; teria razão de sobra para muitas festas e muitos descansos.

Tanto o trabalho quanto o descanso são ordenados ao homem por Deus. Negligenciar um ou outro não está de acordo com seu plano. Como ensina Paul E. Billheimer no livro Seu Destino é a Cruz, nem tudo na vida é atividade. Uma música é formada por notas que representam som, mas há também as pausas de silêncio, onde não se executa som algum. É exatamente esta combinação de sons e pausa que forma a melodia. Não há como imaginar uma música só de sons, muito menos só de pausas. Assim é a vida que Deus compôs para nós e devemos voluntariamente seguir sua regência, obedecendo tanto os sons como as pausas. Muitas vezes, quando infringimos isso, somos forçados a uma pausa maior do que a prevista, dentro de um quarto ou num leito de hospital.

Conforme observou o rabino Aryeh Kaplan em Shabat, Dia de Eternidade, o relato da criação no livro de Gênesis segue um crescente: primeiro as coisas inanimadas, depois os vegetais seguidos pelos animais, na seqüência o homem e, finalmente, o descanso. Vemos em diversas passagens da Bíblia que Deus criou o mundo em seis dias. Em Gênesis 2.2, porém, lemos que Deus terminou não no sexto, mas no sétimo dia a sua obra. O que Deus teria criado no sétimo dia, então? O descanso. Este faz parte da criação de Deus e completa a seqüência crescente.

O sábado marcou a não interferência de Deus na natureza, que até então sofrera constante transformação. O descanso do sétimo dia não significa que Deus estivesse exaurido, precisando refazer suas forças ao final de uma exaustiva semana de trabalho, mas que estava concedendo um dia de paz e harmonia, no qual todos poderiam desfrutar da comunhão entre si e com o Criador, prefigurando assim o reino eterno do Messias.

O sábado é também um dia de liberdade. Em Deuteronômio 5.14-15, é ordenado a Israel que a guarda do sábado se estenda a todos, lembrando-lhes que foram escravos no Egito. Assim temos dois motivos para aplicarmos os princípios do sábado à nossa vida: primeiramente, para demonstrar nossa fé no Deus criador de todas as coisas, ao qual podemos confiar nossa vida; segundo, porque antes do nosso novo nascimento, fomos escravos do pecado e devemos a Deus nossa libertação. Deus não somente criou o mundo, mas também interage com a criatura.

Lazer Produtivo

Descansar confiando em Deus é desfrutar de uma bênção, sabendo que Deus é quem nos dá o sono enquanto a casa é edificada e a cidade é guardada (Sl 127). Não há motivos para trabalharmos desenfreadamente, pois períodos de nossa não interferência também são necessários. Depois que a semente é colocada na terra, é preciso esperar pelo nascimento da planta. Depois, é necessário esperar até que esteja no ponto da colheita e não podemos interferir nesse processo. Na vida ministerial, não é diferente. Precisamos conceder tempo para que se possa absorver e consolidar o que foi ministrado. Precisamos deixar que nossos companheiros de jornada tenham a oportunidade deouvir de Deus, e não somente do ministro. Muitas vezes, queremos impor um ritmo pessoal no desenvolvimento, desrespeitando a natureza individual dada por Deus a cada um e sem esperar o tempo necessário para que a semente divina germine ou amadureça.

Nestes momentos de espera, devemos intercalar nosso lazer. Ele deve funcionar como um período de alternância com as outras atividades tidas como cotidianas, quer na vida familiar, profissional ou ministerial. Deve ser colocado sob o enfoque de restauração de paz consigo mesmo, com as pessoas e com Deus. Assim, a cada período de descanso, seja da noite, da semana, do mês ou do ano, devemos tê-lo como um período sabático.

Jesus foi explícito em condenar a preocupação, ensinando que devemos viver cada dia sem antecipar o hipotético mal do amanhã, como uma forma de desocupar-nos. Fazendo assim, damos condição à nossa criatividade de perceber as coisas à nossa volta. Se assim não fosse, Davi não iria compor e executar divinas melodias em sua harpa ou mesmo transformar os acidentes da natureza – chuva, tempestade, rios, montanhas, desertos, vales, mares, vento, sol, lua, estrelas, dia e noite – em motivo para escrever salmos de exaltação a Deus.

O lazer funciona como uma prevenção à exaustão total, evitando a somatização que pode ter como conseqüência enfermidade psíquica, física ou ambas – ou, pior ainda, um total desmoronamento espiritual. O lazer que vem após o trabalho é legítimo e restaurador, e nos renova para um novo período de produção.

A Individualidade do Lazer

As pessoas têm necessidades diferentes de lazer umas das outras. Há aquelas que se encontram fatigadas fisicamente pelo trabalho pesado que executam, outras se cansam mentalmente dado a atividade que exige muita concentração ou esforço mental. Umas se esgotam mais rapidamente, enquanto outras possuem maior capacidade de suportar a pressão. Para algumas, um rápido sono é suficiente para repor as energias, enquanto outras precisam de uma longa noite de sono.

Por isso é que se devem respeitar as diferentes necessidades de lazer de cada pessoa, especialmente dentro da família. Um pai de família que trabalha fora pode, equivocadamente, imaginar que tem muito mais motivos de stress do que a esposa que fica em casa o dia todo, quando, na verdade, na maioria das vezes é exatamente o contrário. Neste caso, a própria variedade de problemas produz uma certa alternância e acaba por causar um certo equilíbrio, enquanto que para a mulher a repetição da rotina enfada ainda mais, causando um aumento do desgaste. Assim, o chefe de família não pode impor o lazer baseado exclusivamente na medida das suas necessidades pessoais.

Lazer e Dependência

O lazer, somente pelo lazer, sem ter como finalidade nos aprimorar para o trabalho, é a preguiça. Ser dependente de algum tipo de lazer, como cinema, televisão, jogos eletrônicos ou não, computador, passeios ou outros, inverte completamente a finalidade deste que passa a cumprir um papel oposto. Ao invés do lazer servir a pessoa, é esta que serve ao lazer, perdendo inclusive sua liberdade. Ainda mais: só podemos ser dependentes de Deus; qualquer outra dependência é totalmente nociva. Deixar de ir ao shopping ou ao cinema não pode ser causa de depressão. O lazer foi feito para o homem e não o homem para o lazer.

Pedro Arruda reside em Barueri-SP e é um dos coordenadores de uma comunhão de grupos espalhados por várias cidades e estados no Brasil.

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