O Princípio Ativo da Igreja

Data de publicação: 29/04/2011
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Edição 60 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 60

Por Paulo Manzini

Ao longo dos últimos séculos e principalmente no século 20, sobretudo na segunda metade dele, temos desenvolvido alguns modelos mentais a partir dos quais passamos a conceber o que é a igreja e o que é ser cristão. Deus tem atuado de maneira soberana e unilateral no cenário da igreja como ela se encontra, mas creio que está chegando o momento de entrar num estágio de maior maturidade e responsabilidade. E é importante que saibamos o que nos impede de entrar no nível em que Jesus precisa que estejamos para recebê-lo.

Jesus está voltando. E a igreja? Será que está pronta? Eu me arrisco a dizer que não. Não estou me referindo a métodos ou modelos. Depois de uma longa história de desacertos, tentativa e erro, desisti de tentar descobrir um modelo que funcione. Joguei a toalha. Porque, enquanto tentamos fazer com que nossos modelos mentais se cumpram na prática, impedimos que o Senhor faça o que ele tem para fazer.

O princípio ativo

Em qualquer medicamento, o comprimido, o líquido ou o que for funcionam apenas como veículo. O que importa, de fato, é o princípio ativo. Poderíamos ter aquele comprimido e não ter o princípio ativo. Tudo igual, porém sem efeito.

Na década de 70, nos Estados Unidos, a Merck, um grande laboratório farmacêutico, teve um problema em um de seus medicamentos. Houve uma sabotagem, e o medicamento foi adulterado. Alguns lotes saíram com irregularidade, o que provocou a morte de várias pessoas. O que a Merck fez? Mandou recolher o medicamento do país inteiro com enormes prejuízos. Por quê? Porque medicamento com o princípio ativo errado ou sem ele é muito perigoso; pode matar. Muita gente está morrendo hoje porque a igreja está oferecendo um remédio sem o princípio ativo planejado por Jesus.

Temos ouvido, muitas vezes, que Jesus não deixou fórmula nem propôs qualquer estrutura de “igreja”. No entanto, encontramos uma receita do Fundador, sim, que define o que quero chamar de “o princípio ativo da igreja”: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18.20).

Em João 17.22,23, Jesus disse que estava dando aos discípulos a glória que tivera no início com o Pai. Que glória era essa? A de ser um com o Pai, vivendo uma vida de perfeita união e comunhão com ele. Essa glória que Jesus nos deu é uma porta aberta para a unidade perfeita que é a fonte de tudo o que realmente acontece no mundo espiritual. É por nossa fé e unidade que o mundo virá a crer. A unidade dos santos na comunhão do Espírito Santo é o princípio ativo que realizará a obra de Cristo na Terra. Pode até parecer absurdo, mas qualquer coisa que não tem a ver com isso é apenas meio, veículo, apoio; não faz parte do princípio ativo e não pode ser considerada sagrada ou essencial.

Quando afirmamos que Jesus não deixou um modelo de igreja, estamos dizendo que ele não determinou nada com respeito a aspectos secundários como estruturas, organizações ou métodos. Ele não disse se o comprimido deveria ser vermelho ou branco, comprido ou redondo, grande ou pequeno. Isso não quer dizer que esses elementos sejam obrigatoriamente errados ou desnecessários. O veículo do remédio é importante, mas não pode ser confundido com o princípio ativo e não tem efeito algum sem ele.

A essência da igreja é a comunhão dos santos pelo Espírito Santo, que é a glória da própria Trindade concedida aos que creem e o instrumento de Deus para alcançar o mundo.

Unindo os dois polos

Eu sempre entendi que Deus quer liberar um jeito de termos certeza de que ele falou na Terra, ou seja, de que o que ouvimos veio dele, de tal forma que as coisas aconteçam do jeito que ele falou que aconteceriam. Vou usar uma frase de um poeta secular para descrever o que deve acontecer entre os dois ou três que se reúnem em nome de Jesus: “Um sonho sonhado sozinho é um sonho; um sonho sonhado a dois é realidade”.

Quando tenho pensamentos, sonhos e desejos, e os que estão à minha volta são atingidos e alegram-se com o mesmo pensamento, algo muito importante vai resultar daí, algo muito além do que a primeira pessoa poderia fazer sozinha.

Reunir-se em Nome de Jesus é cumprir a oração dele em João 17, “perfeitos em unidade”. Você já imaginou como é explosivo esse princípio? Dois ou três podem pensar unânimes na Terra o pensamento do Céu, ou seja, o coletivo da igreja na Terra pensando unanimemente o pensamento do coletivo da Trindade no Céu. Esse é o princípio ativo da obra de Deus. É assim que a igreja torna-se Jesus andando na Terra, a vontade de Deus se cumprindo a partir da glória da unidade que nos foi dada pela nossa inclusão na Trindade (“…para que eles sejam um em nós”).

É como ligar um cabo de alta tensão – uma ponta na Terra, outra no céu. O polo terreno são pessoas que creram em Jesus Cristo, foram transformadas e receberam o Espírito Santo para se tornarem um receptáculo divino. O polo celestial é Deus com pensamentos e atos que precisam ser trazidos para a Terra. O único jeito de o pensamento de Deus chegar à Terra é encontrar um polo que traga a potente energia do Céu. E quando esse polo de pessoas reunidas no Nome de Jesus consegue sintonizar os corações e pensar sentindo a mesma coisa, a vontade de Deus começa a ser feita na Terra. Na hora em que Deus falar no contexto de dois ou três, fazendo um vibrar com o pensamento do outro (que, na verdade, é o pensamento de Deus), nesse exato momento o Céu desceu para a Terra, e o fato espiritual já está consumado. Impossível impedi-lo de tornar-se realidade!

Não depende de fazermos qualquer esforço, porque a obra de Deus é só ouvir dele na comunhão; aquilo que ele falou com você e com os que estavam juntos já aconteceu, pois foi acionado o canal de comunicação entre a Terra e o Céu.

Com medo e escondidos

Por que, então, é tão raro ver esse princípio em funcionamento? Uma das principais causas vem lá do Jardim do Éden, em Gênesis 3, quando o homem e a mulher esconderam-se da presença de Deus (vv. 8-10). Foi ali que começou um flagelo que tomou conta de toda a raça humana: esconder-se de Deus, tentar disfarçar-se, tampar-se, vestir-se.

“Deus é luz, e não há nele treva nenhuma. Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1 Jo 1.5-7).

Vejamos: o homem adquiriu uma doença que o leva a esconder-se e sentir medo porque sabe que não está preparado para encontrar-se com Deus e, muito menos, com seus semelhantes. Então se esconde, cria máscaras, jeitos, personagens até não saber mais quem é de fato – tudo por medo de ser rejeitado.

Muitas pessoas vão para as reuniões, participam de atividades e contribuem financeiramente para cumprir uma obrigação com Deus e não incorrer em desobediência, pois sentem que, se não o fizerem, atrairão o castigo de um Deus irado. Isso é medo. Tudo isso vem do pecado.

Em contrapartida, a Palavra de Deus nos mostra que a saída é ter uma revelação pessoal de Jesus e de sua obra por nós. Embora seja um passo gigantesco para a salvação, este ainda não é o ponto final da jornada, pois a salvação precisa ser desenvolvida (Fp 2.12). E isso acontece quando temos comunhão uns com os outros, saindo dos esconderijos e aprendendo a andar sem medo, despidos, sem disfarces ou qualquer tipo de tapume que esconda o que de fato somos. Deus não se escandaliza de nós porque nos conhece; ele não precisa que nos disfarcemos. A Palavra diz que andar na luz é um remédio, um antídoto contra o medo porque há purificação de todo o pecado, e onde não há pecado, não há medo.

Dois ou três andando na luz

Porém, o evangelho que vem sendo pregado, num certo sentido, faz mais para nos conformar com o mundo do que para tirar-nos dele. Para colaborar com isso, a igreja, assim como o sistema do mundo, promove a impessoalidade. O diabo tem trabalhado forte conosco sobre nosso tempo, nossas prioridades, expectativas e escolhas diárias. Vivemos sob uma pressão que nos impede o acesso ao fator essencial: tocar, tomar e viver o princípio ativo que Deus tem para nós que é justamente a comunhão de dois ou três no Nome dele.

Temos uma discussão hoje sobre igreja nas casas. Há muitos anos, comecei a aprender sobre isso. O que era igreja nas casas? Uma pessoa num grupo menor, num púlpito menor, num cômodo menor, nem sempre num tempo menor, fazendo tudo como sempre foi feito: pregação, recolhimento de dízimo e bênção pastoral no fim. O que adiantou ir para as casas? Ninguém se encontrou, ninguém se olhou, e, às vezes, na família que recebe aquela reunião, o pai não conversa com o filho, o filho não conversa com o pai, o marido não conversa com a mulher há meses. Não há olho no olho. Será que sabemos que o princípio ativo da igreja não está na casa-tijolo? O princípio ativo da igreja está no lar, no marido e na mulher, no pai com os filhos. Aí há potencial maravilhoso para experimentar o princípio planejado por Deus.

Quantos de nós temos experimentado uma conversa franca, aberta sobre nós mesmos? João está nos dizendo: “Se andarmos na luz, como ele na luz está…”. Isso significa que vamos confessar pecados. Temos de confessar pecados. Mas será que acreditamos que temos pecados? Que marido e mulher têm pecados? Quanto tempo faz que não ouvimos uma confissão? Se não há confissão de pecados, há alguma coisa errada. Ou estamos enganados – já nos santificamos tanto que não temos mais pecado –, ou estamos mentindo uns para os outros.

Se estamos falando em igreja gloriosa, referimo-nos a uma Noiva sem mancha, sem mácula ou ruga. E eu sou uma mancha e uma ruga na vida da igreja hoje, porque não tenho espaço para falar o que trago no coração. E a razão é simples: as pessoas gostam mais do personagem que criei do que de mim mesmo. É aquela história: a moça casou-se com o príncipe encantado. Ela não quer nem saber se ele é sapo. Mantenha-se príncipe, por favor. Não retire esse disfarce. A atitude de rejeitar qualquer coisa que seja genuína é um atalho para não andar na luz, para não ter comunhão. Porém, sem comunhão não temos Jesus. E sem Jesus, não temos purificação, mas escravidão.

Deus está esperando

A igreja precisa sair do esconderijo onde Adão se meteu e andar na luz para poder ser curada e poder curar. O que fazer então? Precisamos ter angústia, peso, desejo por esse lugar onde possamos aprender ou reaprender a ser nós mesmos sem nenhuma máscara. Para isso acontecer, é necessário que haja o mínimo de maturidade de tal forma que tenhamos amigos, pessoas que nos queiram e com as quais possamos nos encontrar em nome de Jesus. Fica a pergunta: temos pelo menos uma pessoa (o que é muito pouco) que sabe exatamente quem somos, o que pensamos, o que fazemos quando não há ninguém vigiando? Se não temos, vai aqui um alerta: estamos em perigo! O princípio ativo da igreja não está funcionando em nossa vida. Essa questão é fundamental e precisa ser resolvida.

Princípio ativo na vida da igreja se resume em poucas palavras: relacionamento no Espírito Santo com Jesus atuando em todos os pontos de contato. Deus tem coisas para fazer na Terra. Minha cena mental a esse respeito é mais ou menos a seguinte: lá no Céu, as obras que ele preparou desde a fundação do mundo estão todas armazenadas. Elas existem e precisam vir para a Terra. Estas obras não virão senão por nosso intermédio. Porém, nós temos a seguinte mentalidade: “Tudo o que Deus quer, ele faz”. Não! Existem coisas que Deus não faz, porque ainda não achou um canal. E o canal somos nós, no princípio ativo de “dois ou três”.

Um outro texto bíblico confirma isso: “Se dois dentre vós, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que porventura pedirem, ser-lhes-á concedida…” (Mt 18.19). Mas a questão é que nós pensamos que Deus fará independentemente de nós. Ele não fará, pois precisa do “dois ou três”, de nós em comunhão, ligados pelo Espírito, compartilhando vida, olhando, participando, encontrando-nos com ele e uns com os outros. É nesse ambiente que as coisas do Céu chegarão à Terra.

Paulo Manzini é casado com Rosane e tem dois filhos. Reside em Jundiaí SP e atua como professor universitário. E-mail: pmanzini@uol.com.br

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