O Objetivo do Evangelho

Data de publicação: 06/12/2011
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Edição 10 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 10

Por: Watchman Nee

Tomaremos, como ponto de partida, um incidente dos Evangelhos que ocorre à sombra da Cruz – um incidente que, nos seus pormenores, é ao mesmo tempo histórico e profético.

“Estando ele em Betânia, reclinado à mesa, em casa de Simão, o leproso, veio uma mulher trazendo um vaso de alabastro com preciosíssimo perfume de nardo puro; e, quebrando o alabastro, derramou o bálsamo sobre a cabeça de Jesus… Jesus disse: Em verdade vos digo: onde for pregado em todo o mundo o evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua” (Mc 14.3,6,9).

O Senhor ordenou, portanto, que a história do que Maria fez, ungindo-o com aquele ungüento de alto preço, acompanhasse sempre a história do Evangelho; que o que Maria fez fosse sempre ligado com o que o Senhor fez. Foi esta a sua própria declaração. O que ele quer nos ensinar desta maneira?

Penso que todos conhecemos bem esta história do ato de Maria. Dos pormenores dados no capítulo 12 de João, onde o incidente segue não muito depois da restauração do seu irmão à vida, podemos concluir que a família não era dotada de recursos especiais. As irmãs precisavam trabalhar em casa, porque somos informados que na festa, Marta servia (Jo 12.2, cf. Lc 10.40). Não há dúvida de que cada centavo representasse bastante para elas. Todavia, uma destas irmãs, Maria, tendo entre seus tesouros um vaso de alabastro, contendo ungüento no valor de 300 denários, derramou-o todo sobre o Senhor. Para o raciocínio humano, isto era realmente demais: dava-se ao Senhor mais do que lhe era devido. Foi por isso que Judas tomou a dianteira, com o apoio dos outros discípulos, e deu voz à reclamação geral de que a ação de Maria representava um grande desperdício.

Desperdício

“Indignaram-se alguns entre si, e diziam: Para que este desperdício de bálsamo? Porque este perfume poderia ser vendido por mais de trezentos denários, e dar-se aos pobres. E murmuravam contra ela” (Mc 14.4,5). Estas palavras nos levam àquilo que, segundo creio, está implícito na palavra “desperdício”, e que o Senhor quer que consideremos.

O que é desperdício? Desperdício significa, entre outras coisas, dar mais do que é necessário. Se bastam quatro reais e nós damos oitenta, isso é desperdício. Se bastam duzentos e cinqüenta gramas, e nós damos um quilo, também é desperdício. Se bastam três dias para acabar a tarefa, e nós levamos cinco dias ou uma semana para realizá-la, é mais um tipo de desperdício. Desperdício é dar algo demasiado por alguma coisa de reduzida importância. Se alguém recebe mais do que aquilo que se considerar ser o valor em pauta, isso é desperdício.

Aqui, porém, estamos tratando de algo que o Senhor queria que fosse proclamado juntamente com o evangelho, como se a pregação do evangelho resultasse em algo muito semelhante àquilo que Maria fez: que as pessoas se cheguem a ele e se desperdicem por amor dele. É esse o resultado que ele procura alcançar.

Podemos considerar de dois pontos de vista este assunto de nos desperdiçarmos por amor do Senhor: o de Judas (Jo 12.4-6) e o dos outros discípulos (Mt 26.8,9); para este propósito, examinaremos as duas narrativas em paralelo.

Todos os doze pensaram que era um desperdício. Para Judas, evidentemente, que nunca chamou a Jesus “Senhor”, tudo quanto fosse derramado sobre ele representaria um desperdício. Não somente o ungüento, como também a própria água teria sido um desperdício. Neste aspecto, Judas representa o mundo. Na estimativa do mundo, o serviço do Senhor e a entrega de nós mesmos a ele, para o seu serviço, é um desperdício completo. Ele nunca foi amado, nunca teve lugar nos corações do mundo, de modo que qualquer coisa dada a ele é um desperdício. Muitos dizem: “Fulano poderia ser de grande valor no mundo, se não fosse crente”. Se um homem tem algum talento natural, ou qualquer outra vantagem aos olhos do mundo, consideram ser uma vergonha para ele, estar servindo ao Senhor. Pensam que tais pessoas são realmente demasiadamente boas para o Senhor. “Que desperdício de uma vida tão útil” – dizem.

Vou apresentar um exemplo pessoal. Em 1929 regressava de Xangai à cidade onde residia, Foochow. Certo dia, caminhava ao longo da rua com uma bengala, muito fraco e com a minha saúde abalada, e encontrei-me com um dos velhos professores da escola. Ele me levou a um salão de chá onde nos sentamos. Olhou para mim, da cabeça aos pés e dos pés à cabeça, e depois disse: “Olhe, enquanto você estava no colégio, tínhamos as melhores esperanças para você, pensando que você realizaria algo de grandioso. Será realmente isto, o que você veio a ser agora?” Olhando para mim, com seus olhos penetrantes, fez esta pergunta direta. Devo confessar que, ao ouvi-lo, o meu primeiro desejo foi o de me desfazer em lágrimas. A minha carreira, a minha saúde, tudo se fora, tudo se perdera, e aqui estava o meu velho professor, perguntando: “Ainda se encontra nestas condições, sem êxito, sem progresso, sem qualquer coisa que possa mostrar?”

Mas naquele mesmo momento – e tenho que reconhecer que foi a primeira vez em toda a minha vida que isto aconteceu – conheci realmente o que significa ter o “Espírito da glória” repousando sobre mim. Só pensar que eu pudesse derramar a minha vida por amor do meu Senhor inundou a minha vida de glória. Nada menos do que o próprio Espírito da glória pairava então sobre mim. Pude olhar para cima e, sem reservas, dizer: “Senhor, eu louvo o teu nome! Isto é a melhor coisa possível; é a carreira acertada que eu escolhi!” Ao meu professor, parecia um desperdício total eu dedicar a minha vida ao serviço do Senhor; mas é justamente isto que o evangelho faz – nos leva a avaliar de maneira certa o valor do nosso Senhor.

Judas sentiu que era um desperdício. “Poderíamos usar melhor o dinheiro, aplicando-o de outra forma. Há tanta gente pobre. Por que não dar o dinheiro a alguma caridade, fazer algum trabalho social para o alívio dos necessitados, auxiliar os pobres de alguma maneira prática? Por que derramar todo este valor aos pés de Jesus?” (Ver Jo 12.4-6). É sempre desta forma que o mundo pensa. “Você não pode fazer alguma coisa melhor com a sua vida do que isso? Dar-se assim inteiramente ao Senhor é ir longe demais!”

Se o Senhor é digno, como pode isso ser um desperdício? Ele é digno de ser servido desta maneira. Ele é digno de que eu seja seu prisioneiro. Ele é digno de que eu viva somente para ele. O que o mundo diz a respeito não importa, porque ele é digno. O Senhor disse: “Deixai-a!” Não nos perturbemos, portanto. Seja o que for que o mundo disser, nós poderemos nos firmar nesta base, porque o Senhor disse: “É uma boa obra. Toda a verdadeira boa obra não é a que se faz aos pobres; toda a boa obra é a que é feita a mim”. Uma vez que os nossos olhos tenham sido abertos para o real valor do nosso Senhor Jesus, coisa alguma será boa demais para ele.

Não quero, porém, me demorar muito com Judas. Vamos ver qual foi a atitude dos outros discípulos, porque a reação deles nos afeta muito mais do que a dele. Não nos importamos grandemente com o que o mundo diz; podemos enfrentá-lo facilmente, mas importamo-nos muito com o que dizem outros cristãos, que deveriam compreender o gesto de Maria. Verificamos, contudo, que os outros discípulos disseram a mesma coisa que Judas, e além disto, ficaram perturbados e muito indignados com o acontecido. “Vendo isto, indignaram-se os discípulos e disseram: Para que este desperdício? Pois este perfume podia ser vendido por muito dinheiro, e dar-se aos pobres” (Mt 26.8,9).

Evidentemente, sabemos que atitudes mentais desta natureza são muito comuns entre cristãos que dizem: “Obtenhamos tudo quanto pudermos com o menor esforço possível”. Não é somente com estas atitudes que se trata aqui. O assunto vai mais profundo, como quando alguém nos diz que estamos desperdiçando a nossa vida por ficarmos quietos, sem fazer muita coisa. Dizem: “Estas pessoas devem lançar-se a este ou àquele tipo de trabalho. Podiam ser usados para auxiliar este ou aquele grupo. Por que não são mais ativas?”. E, ao dizer isso, toda a sua idéia de utilidade é o que se evidencia. Tudo deve ser plenamente utilizado da forma que eles próprios entendem.

Pessoas desta natureza se sentem muito preocupadas, a este respeito, com alguns servos amados do Senhor que, aparentemente, não estão fazendo o suficiente. Podiam fazer muito mais, pensam, se conseguissem entrar nalgum lugar onde ganhariam maior aceitação e proeminência em certos círculos. Podiam então ser usados de forma muitíssimo maior.

Houve uma irmã que foi usada pelo Senhor, de forma muito real, para me ajudar neste ponto, durante aqueles anos em que a conheci, embora não soubéssemos reconhecer quão grande obreira do Senhor ela era. A preocupação do meu coração era esta: “Ela não está sendo usada!” Dizia constantemente a mim mesmo: “Por que é que ela não sai para fazer reuniões, não vai a parte alguma, fazer alguma coisa? É um desperdício de tempo ela viver nesta pequena aldeia onde nada acontece”. Às vezes, quando ia visitá-la, quase gritava com ela. Dizia-lhe eu: “Ninguém conhece o Senhor como a irmã. A irmã conhece o Livro de uma maneira absolutamente viva. Não vê as necessidades à sua volta? Por que não faz qualquer coisa? É um desperdício de tempo, um desperdício de dinheiro, um desperdício de tudo, ficar aqui e não fazer nada!”

Não, irmãos, o fazer não é o principal para o Senhor. É certo que ele deseja que você e eu sejamos usados. Deus me livre de pregar a inatividade ou de justificar uma atitude complacente perante as necessidades do mundo. Como diz o próprio Jesus: “O evangelho será pregado por todo o mundo”. A questão, porém, é de ênfase. Hoje, reconsiderando o passado, entendo que o Senhor usou grandemente aquela querida irmã para falar a um certo número de nós que, como jovens, estávamos naquela altura na sua escola de aprendizagem para este trabalho do evangelho. Não posso agradecer suficientemente a Deus por ela.

Qual é, pois o segredo? É que, ao aprovar a ação de Maria em Betânia, o Senhor Jesus estava estabelecendo um princípio como base de todo o serviço: que derramemos tudo o que temos, nos derramemos a nós próprios, para ele; e se isso for tudo o que ele nos conceder que façamos, é suficiente. O mais importante não é se os “pobres” são ou não ajudados. O mais importante é: O Senhor ficou satisfeito?

Há muitas reuniões em que poderíamos falar, muitas convenções em que poderíamos ministrar, muitas campanhas evangelísticas em que poderíamos participar. Não é que não sejamos capazes de o fazer. Poderíamos trabalhar e ser usados ao máximo; mas o Senhor não sente tanta preocupação acerca da nossa incessante ocupação no seu trabalho. Não é este o seu objetivo principal. Não se mede o serviço do Senhor por resultados tangíveis. Não, meus amigos, a primeira preocupação do Senhor é com a nossa posição aos seus pés e com a nossa atitude de ungir a sua cabeça. Seja o que for que tivermos como “vaso de alabastro”: a coisa mais preciosa, a coisa mais querida para nós no mundo – sim, digo, tudo quanto pudermos oferecer a partir de uma vida vivificada pela própria Cruz – damos isso tudo ao Senhor. Para alguns, mesmo para aqueles que deveriam compreendê-lo, parece um desperdício; mas isso é o que ele busca acima de tudo. Muitas vezes, o que lhe damos expressar-se-á em serviço incansável, mas ele se reserva o direito de suspender o serviço por um tempo, a fim de nos revelar se é o serviço, ou ele mesmo que nos empolga.

Ministrando
Para seu Prazer

“Onde for pregado em todo o mundo o evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua” (Mc 14.9).

Por que disse o Senhor isto? Porque é este o resultado que o evangelho procura produzir. O evangelho serve justamente para isto. O evangelho não é apenas para satisfazer os pecadores. Graças a Deus que os pecadores serão satisfeitos! Podemos no entanto, chamar esta satisfação de bendito sub-produto do evangelho, e não o seu alvo primário. O evangelho é pregado, em primeiro lugar, para que o Senhor possa ficar satisfeito.

Parece que ressaltamos demasiadamente o bem dos pecadores, e que não temos apreciado suficientemente o que o Senhor tem em vista como o seu objetivo. Temos pensado no que sucederia ao pecador se não houvesse evangelho, mas esta não é a consideração principal. Sim, graças a Deus! O pecador tem a sua parte. Deus satisfaz a sua necessidade e derrama sobre ele chuvas de bênçãos; mas, isto não é o mais importante. O mais importante é que tudo deve ser entendido do ponto de vista da satisfação do Filho de Deus. É somente quando ele fica satisfeito que nós também ficaremos satisfeitos e que o pecador ficará satisfeito. Jamais encontrei uma alma que se tenha proposto satisfazer o Senhor e que não tenha, ela própria, encontrado satisfação. É impossível. A nossa satisfação resulta infalivelmente de satisfazermos a ele primeiro.

Mas temos que recordar-nos de que ele nunca ficará satisfeito sem que nos desperdicemos (como diz o mundo) por ele. Você já deu demasiado ao Senhor? Posso dizer-lhe uma coisa? Uma lição que alguns de nós temos aprendido é esta: que no serviço divino o princípio de nos gastarmos é o princípio do poder. O princípio que determina a utilidade é exatamente o princípio de nos espalharmos. A verdadeira utilidade nas mãos de Deus mede-se em termos de “desperdício”. Quanto mais pensarmos que podemos fazer, e por mais que empreguemos os nossos dons até aos limites máximos (e alguns ultrapassam mesmo os limites) a fim de fazer isso, tanto mais descobriremos que estamos aplicando o princípio do mundo e não o do Senhor. Os caminhos de Deus, a nosso respeito, são todos designados para estabelecer em nós este outro princípio: que o nosso trabalho para ele resulta de nós ministrarmos a ele. Não quer dizer que vamos ficar sem fazer coisa alguma; todavia, a primeira coisa para nós deve ser o Senhor mesmo e não o seu trabalho.

Devemos, porém, descer a questões de ordem muito prática. Você poderá dizer: “Abandonei uma posição; abandonei um ministério; renunciei a certas possibilidades atraentes de um futuro brilhante, procurando assim andar mais perto do Senhor. Agora, na minha tentativa de servir ao Senhor, parece que às vezes o Senhor não me ouve, e que às vezes ele não dá à minha obra os resultados que procurei. Assim, vou me comparando a certo amigo que tinha futuro igualmente brilhante, que não abandonou, e que agora trabalha numa grande empresa, exercendo também um ministério de meio período. Nesta obra, ele vê almas sendo salvas, e a bênção de Deus sobre seu ministério, tendo sucesso tanto material como espiritual. Parece mais crente do que eu, tão feliz, tão satisfeito! Qual vantagem espiritual tiro da minha dedicação? Ele fica livre das dificuldades e complicações que enfrento, e ainda é considerado espiritualmente próspero. Será que eu desperdicei a minha vida, que realmente dei demais?”

Colocando o problema assim, você sente que se seguisse os passos daquele outro irmão – digamos, se se consagrasse suficientemente para a bênção, mas não o bastante para a tribulação, suficientemente para o Senhor usá-lo, mas não o bastante para que ele o deixasse inativo – tudo estaria perfeitamente bem. Mas estaria, mesmo? Sabe perfeitamente bem que não.

Olhe para o seu Senhor e pergunte-se de novo o que é que ele considera de mais valor. O princípio de nos gastarmos é o princípio que ele quer que nos governe. “Ela fez isto por mim”. O coração do Filho de Deus experimenta real satisfação somente quando realmente nos entregamos a ele de tal maneira total que, segundo uns diriam, estamos sendo desperdiçados – dando muito e recebendo pouco – só procurando agradar a Deus.

Ó, meus amigos, o que buscamos nós? Estamos procurando a utilidade que se mede em efeitos visíveis, como aqueles discípulos faziam? Desejavam tirar o máximo proveito a cada centavo daqueles 300 denários. Toda a questão consistia em “utilidade” óbvia, em termos que podiam medir-se e ser registrados. O Senhor espera ouvir-nos dizer: “Senhor, eu não me importo com isso. Se apenas puder agradar-te, isso me basta”.

Ungindo-o
Antecipadamente

“Deixai-a; por que a molestais? Ela praticou boa ação para comigo. Porque os pobres sempre os tendes convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem, mas a mim nem sempre me tendes. Ela fez o que pôde: antecipou-se a ungir-me para a sepultura” (Mc 14.6-8).

Nestes versículos, o Senhor Jesus introduz o fator tempo, com a palavra “antecipou-se”, e isto é algo que podemos aplicar hoje de maneira diferente, porque é tão importante para nós como o foi então para ela. Todos sabemos que, na idade vindoura, seremos chamados a um trabalho maior – e não à inatividade. “Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei: entra no gozo do teu senhor” (Mc 25.21; comparar Mt 24.47 e Lc 19.17). Sim, haverá um trabalho maior; porque o trabalho da casa de Deus continuará, assim como continuou, na narrativa, o cuidado pelos pobres. Os pobres sempre estariam com eles, mas eles não poderiam tê-lo sempre a ele. Houve alguma coisa, representada por este derramamento de ungüento, que Maria teve que fazer antecipadamente, ou ela não teria oportunidade de o fazer mais tarde. Creio que, naquele dia, amá-lo-emos como nunca o fizemos até agora, e, contudo, que haverá maior bênção para aqueles que já derramaram o seu tudo sobre o Senhor hoje. Quando o virmos face a face, espero que todos quebrantaremos e derramaremos tudo sobre ele. Mas hoje – o que estamos fazendo hoje?

Alguns dias depois de Maria ter quebrado o vaso de alabastro e ter derramado o ungüento sobre a cabeça de Jesus, houve algumas mulheres que foram, de manhã cedo, para ungir o corpo do Senhor. Mas fizeram-no elas? Conseguiram realizar o seu propósito naquele primeiro dia da semana? Não, houve apenas uma alma que conseguiu ungir o Senhor, e essa foi Maria, que o ungiu antecipadamente. As outras nunca o fizeram, porque ele ressuscitara. Ora, eu sugiro que a questão do tempo pode ser, de modo semelhante, também importante para nós, e que a questão toda para nós é: o que estou fazendo ao Senhor hoje?

Os nossos olhos têm sido abertos hoje para perceber a preciosidade daquele a quem servimos? Já reconhecemos que somente o que nos é mais querido, caro e precioso é digno de ser oferecido a ele? Já compreendemos que o trabalho em favor dos pobres, o trabalho em benefício do mundo, o trabalho pelas almas dos homens e pelo bem eterno dos pecadores – coisas estas tão necessárias e valiosas – apenas são boas quando colocadas em seus respectivos lugares? Em si mesmas, como objetos separados, são como nada, comparadas com o que é feito ao Senhor.

Nossos olhos devem ser abertos pelo Senhor para vermos o seu valor. Se houver no mundo algum tesouro precioso de arte e eu pagar o preço mais elevado pedido por ele, quer seja mil, dez mil, ou mesmo um milhão de reais, ousaria alguém dizer que foi um desperdício? A idéia de desperdício apenas entra em nossa cristandade quando subestimamos o valor do nosso Senhor. A questão é esta: Quanto vale ele para nós, hoje? Se lhe damos pouco valor, então, evidentemente, qualquer coisa que lhe dermos, por pequena que seja, parecer-nos-á um grande desperdício. Mas quando ele é, realmente, preciosa jóia das nossas almas, nada será demasiado bom, nada demasiado caro para ele; tudo o que temos, os nossos tesouros, de maior preço e de maior estima, derramaremos sobre ele e não nos sentiremos envergonhados por tê-lo feito.

A respeito de Maria, o Senhor disse: “Ela fez o que pôde”. O que significa isto? Significa que ela dera tudo. Não guardara coisa alguma para si, em reserva para o futuro. Derramou sobre ele tudo o que tinha, e, todavia, na manhã da ressurreição, não tinha razão para lamentar a sua extravagância. E o Senhor não se satisfará com qualquer coisa inferior da nossa parte, até que nós também tenhamos feito o que podemos. Com isto, lembremo-nos, não me refiro ao gasto dos nossos esforços e energias, ao procurar fazer algo para ele, porque este não é o caso. O que o Senhor Jesus espera de nós é uma vida depositada aos seus pés, e isso em vista da sua morte e sepultamento e de um dia futuro. O seu sepultamento estava já em vista, naquele dia, no lar de Betânia. Hoje, é a sua coroação que está em perspectiva, quando ele será aclamado, em glória, como o Ungido, o Cristo de Deus. Sim, então derramaremos tudo sobre ele! Mas é coisa preciosa – muito mais preciosa para ele – que o unjamos agora, não com qualquer óleo material, mas com alguma coisa que representa valor, algo emanado dos nossos corações.

Aquilo que é meramente externo e superficial não tem lugar aqui. Tudo isso foi solucionado pela Cruz, e nós já concordamos com o juízo de Deus quanto a isto, aprendendo a conhecer na experiência a separação efetuada. O que Deus pede da nossa parte agora é representado pelo vaso de alabastro: algo extraído das profundezas, algo torneado, gravado e trabalhado, algo que, devido a falar-nos tão realmente do Senhor, estimamos como Maria estimava aquele frasco – e nós não queríamos, não ousaríamos quebrá-lo. Sai agora do nosso coração, do mais profundo do nosso ser; e chegamo-nos ao Senhor com nosso “vaso” e quebramo-lo e derramamo-lo e dizemos: “Senhor, aqui está, é tudo teu, porque tu és digno!” – e o Senhor recebe o que desejava da nossa parte. Possa ele receber semelhante unção proveniente de nós, hoje.

Fragrância

“E encheu-se toda a casa com o perfume do bálsamo”(Jo 12.3). Em virtude de se ter quebrado o vaso e da unção do Senhor Jesus, a casa foi penetrada da mais doce fragrância. Todos podiam cheirá-la e ninguém podia ficar inconsciente do cheiro. Qual é o significado disto?

Sempre que encontramos alguém que realmente sofreu – alguém que passou por experiências com o Senhor, que o trouxeram ao limite de si mesmo e que, em vez de procurar libertar-se, a fim de ser “usado”, se prontificou a ficar aprisionado por ele, e aprendeu assim a achar satisfação no Senhor e em nada mais – ficamos então logo cônscios de alguma coisa. Imediatamente os nossos sentidos espirituais percebem um doce sabor de Cristo. Algo foi esmagado, algo foi quebrado naquela vida, e por isso podemos cheirar o seu perfume. O perfume que encheu a casa naquele dia, em Betânia, ainda enche a igreja hoje. A fragrância de Maria nunca passa. Apenas foi necessário dar uma pequena pancada para quebrar o vaso para o Senhor, mas aquele ato de quebrar o vaso e a fragrância daquela unção ainda permanecem.

Estamos falando do que nós somos; não do que fazemos ou do que pregamos. Talvez já há muito, pedimos ao Senhor que nos usasse para comunicar aos outros o recado dele. Esta oração não é necessariamente um pedido para receber o dom de pregar ou de ensinar. Expressa antes o desejo de podermos, nas nossas relações com os outros, transmitir Deus, a presença de Deus, a percepção de Deus. Não podemos produzir tais impressões de Deus nos outros sem que tudo em nós tenha sido quebrado, mesmo as nossas preciosíssimas possessões, aos pés do Senhor Jesus.

Uma vez alcançada esta condição, Deus começará a usar-nos para criar nos outros uma sensação de fome espiritual, mesmo sem haver em nossas vidas demonstrações externas muito visíveis de estarmos empenhados em tão preciosa obra. As pessoas sentirão perto de nós o perfume de Cristo. O menor santo no Corpo senti-lo-á. Perceberá que está com alguém que tem andado com o Senhor, que tem sofrido, que não se tem movido livremente, independentemente, mas que já soube o que significa entregar todas as coisas a ele. Este gênero de vida cria impressões, e tais impressões produzem fome, e a fome leva os homens a continuar a sua busca até que são trazidos, por revelação divina, à plenitude de vida em Cristo.

Deus não nos põe aqui, primeiramente, para pregar, ou para fazer um trabalho para ele. A primeira razão por que ele nos põe aqui é para criar nos outros fome por ele mesmo. É isso, acima de tudo, que prepara o terreno para a pregação.

Se pusermos um bolo delicioso perante dois homens que acabaram de ter uma lauta refeição, qual será a sua reação? Falarão acerca do bolo, admirarão o seu aspecto, discutirão a receita, falarão sobre o preço – farão tudo, afinal, menos comê-lo! Mas, se estiverem verdadeiramente com fome, não passará muito tempo sem que o bolo tenha desaparecido. E o mesmo acontece com as coisas do Espírito. Não será iniciado qualquer trabalho verdadeiro numa vida sem que, primeiramente, seja criado um sentimento de necessidade. Mas como pode isto ser feito? Não podemos empregar força para injetar apetite espiritual nos outros; não podemos obrigar as pessoas a terem fome. A fome tem que ser criada e pode ser criada nos outros apenas por aqueles que levam consigo impressões de Deus.

Sempre gosto de pensar nas palavras daquela “mulher rica” de Suném. Falando do profeta, que tinha observado mas a quem não conhecia bem, ela disse: “Vejo que este que passa sempre por nós é santo homem de Deus” (2 Rs 4.9). Não foi o que Eliseu disse ou fez que lhe transmitiu tal impressão, mas o que ele era. Ela podia perceber alguma coisa, por ele passar simplesmente por ali. Ela podia ver. O que sentem as pessoas à nossa volta a nosso respeito? Podemos deixar muitos tipos diferentes de impressão: talvez deixemos a impressão de sermos hábeis, de sermos prendados, de sermos isto ou aquilo; a impressão deixada por Eliseu, porém, foi mesmo uma impressão de Deus.

Esta questão da nossa influência sobre os outros depende de permitirmos que a Cruz faça em nós a sua obra total, até que possamos satisfazer ao coração de Deus. Requer que eu busque o seu prazer, que procure satisfazer somente a ele, e que eu não me importe de quanto isso me custe.

Tem que haver alguma coisa – a prontidão em render-se, um quebrantamento e um derramamento de tudo para ele – que liberte aquela fragrância de Cristo e produza noutras vidas a consciência de necessidade, atraindo-as e impelindo-as a prosseguir em conhecer o Senhor. É isto que eu sinto ser o coração de tudo. O evangelho tem como objetivo produzir em nós, pecadores, uma condição que satisfaça o coração do nosso Deus, e, a fim de que ele possa ter essa satisfação, nós chegamos a ele com tudo o que temos, tudo o que somos – sim, mesmo as coisas mais queridas na nossa experiência espiritual – e apresentamo-nos a ele nestes termos: “Senhor, estou pronto a abdicar de tudo isto por amor de ti: não apenas pelo teu trabalho, nem pelos teus filhos, nem por qualquer outra coisa, mas por ti mesmo!”

Que maravilha, ser gasto! É coisa abençoada, ser gasto para o Senhor! Tantos que têm sido proeminentes no mundo cristão nada conhecem disto. Muitos de nós temos sido usados plenamente – temos sido usados, diria, demasiadamente – mas não sabemos o que significa sermos desperdiçados para Deus. Gostamos de estar sempre ativos: o Senhor, algumas vezes, prefere ter-nos na prisão. Penso em termos das viagens apostólicas. Deus ousa pôr em cadeias os seus maiores embaixadores.

“Graças, porém, a Deus que em Cristo sempre nos conduz em triunfo, e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento” (2 Co 2.14).

“E encheu-se toda a casa com o perfume do bálsamo” (Jo 12.3).

O Senhor nos conceda graça para que possamos aprender a agradar-lhe. Quando, como Paulo, fizermos disto o nosso alvo supremo (2 Co 5.9), o evangelho terá realizado o seu propósito.

Extraído do livro “A Vida Cristã Normal”, o livro mais lido de Watchman Nee.
Para adquirir, ligue: (19) 3462-9893

Watchman Nee, que talvez seja o mais bem conhecido líder cristão que a China já produziu, compartilhou com os seus seguidores as verdades contidas em “A Vida Cristã Normal”, sem perceber que profetizavam sobre ele próprio. Ele foi preso em 1952 e ficou vinte anos nesta condição, morrendo logo depois de ser liberto.

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” ENTRE ASPAS “

“Consagração não é dar a Deus, mas tirar a mão daquilo que pertence a Deus”
Anônimo

Os gregos diziam: ‘Conhece-te a ti mesmo’.
Os romanos diziam: ‘Controle-se a si mesmo’.
Cristo dizia: ‘Negue-se a si mesmo’.
T. F. Bach

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