O Modelo de Jesus: Casas Dignas

Data de publicação: 17/08/2011
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Edição 46 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 46

Por Pedro Arruda

“E em qualquer cidade ou povo­ado cm que entrardes, indagai quem neles é digno; e aí ficai até vos retirardes. Ao entrardes na casa, saudai-a; se, com efeito, a casa for digna, venha sobre ela a vossa paz…” (Mt 10.11-13).

A Missão dos Doze

Encontramos no texto acima, do Evangelho de São Mateus, a expressão “casa digna”. Evidentemente que se trata da dignidade do ponto de vista social, da casa de alguém que tem credibilidade junto à comunidade onde mora, consi­derando sua atitude honesta de manei­ra geral perante a sociedade. Encontrar essa casa e a pessoa correspondente fazia parte da missão da qual Jesus encarregara seus doze discípulos. Foi fruto do pedido “rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalha­dores para a sua seara (Mt 9.38), que Jesus lhes havia feito.

Convencionalmente esse texto é aplicado à evangelização, mas pare­ce não ser totalmente correto, pois as pessoas a serem alcançadas já eram consideradas ovelhas (embora disper­sas), e eram freqüentadoras regulares das sinagogas. Podemos ver isso de forma bem clara quando Jesus aponta a casa digna como solução ao proble­ma que acabava de constatar: a falta de pastores para cuidarem das ovelhas desamparadas. Era assim que via as multidões diante dele.

Para facilitar nosso raciocínio, imagino que não seja inadequado pensar numa multidão de 12000 pessoas, incluindo mulheres e crianças, por ocasião dos mila­gres da multiplicação dos pães. Jesus encar­nado se achava insuficiente para pastorear toda essa gente. Ainda que a dividisse entre os doze apóstolos, resultaria uma propor­ção de 1.000 pessoas para cada apósto­lo, mantendo impraticável o pastoreio. Portanto, Jesus enviou os doze não para pastorear, mas sim para que procurassem pastores para aquela multidão de ovelhas desgarradas. Para isso deveriam encontrar homens dignos cujas casas, também dig­nas, serviriam de apriscos.

Foi por isso que receberam a ins­trução de permanecerem hospedados na mesma casa, enquanto estivessem naquele local. Para verificar o andamento do lar, não teria sido suficiente trocar algu­mas palavras no portão das casas e passar logo em seguida a uma outra. Precisavam saber se a casa era hospitaleira, já que esse seria um requisito para servir de aprisco às ovelhas, ou mesmo às primeiras igrejas que surgiriam nas casas.

A Prática do Apóstolo Paulo

Há uma grande correlação dessa empreitada com a missão de Barnabé e Saulo, relatada nos Atos dos Após­tolos (veja capítulos 13 e 14). Embora esta outra dupla tenha ido de cidade em cidade, seguindo a mesma orien­tação que Jesus dera aos doze inicial­mente, eles começavam pelas sinago­gas, lugar mais provável para encon­trarem as ovelhas perdidas da casa de Israel, que procuravam sempre em primeiro lugar. No retorno dessa via­gem, ao invés de ir às sinagogas, eles se dirigiram às casas provavelmente con­sideradas como dignas e escolheram homens dignos para que tomassem a responsabilidade pelo cuidado da igre­ja local. Ou seja, proveram pastores e aprisco para as ovelhas encontradas.

Quando Paulo instrui Timóteo (1 Tm 3.1-13) quanto à escolha de homens para dirigir a Igreja, é razoável conside­rar que ele tinha em mente as mesmas recomendações que Jesus deu aos 12 e aquilo que, juntamente com Barnabé, praticou no retomo da primeira viagem missionária. Portanto, naqueles tempos, o que mais contava para que alguém exer­cesse o ministério não era a eloqüência adquirida em cursos de comunicação nem a argumentação teológica obtida em bons seminários ou coisa semelhante. Para ser aprovado pela banca examinadora, o que pesava era a dignidade do homem perante sua família e a mesma dignidade que sua família lhe conferia perante a sociedade.

Como Paulo dissera a Tito, tais homens “adornam a doutrina de Cris­to” (Tt 2.10). Ou seja, esses homens, em virtude de sua respeitabilida­de social, tornam atraentes assuntos como dar a vida a favor do outro, carregar a cruz e oferecer a outra face que, convenhamos, não são tão convi­dativos. Um exem­plo disso é Cornélio, o centurião que, de acordo com a ordem de um anjo, convi­dou seus parentes e amigos para ouvi­rem Pedro, uma pessoa a quem não conhecia, acerca de algo que também era novidade. Quando fez esse convite, Cornélio estava emprestando sua credi­bilidade aos convidados. Com certeza, o fato de ser um homem reto e bon­doso influenciou muito a decisão de seus convidados para comparecerem à casa dele. Alguém sem essas qua­lificações teria muita dificuldade em ajuntar pessoas para uma reunião como essa, pois muitas iriam achar que estariam perdendo o seu tempo ou se deixando passar por tolas.

Normalmente as pessoas conhe­cem seus vizinhos e, quanto menor o lugar, maior é o raio de conhecimento e influência. É fato também que a cre­dibilidade não diz respeito unicamente à pessoa, mas também à família. A má fama de uma casa colocará sob suspeita todos os seus freqüentadores. O inverso também é verdade, pois quem freqüenta uma casa de respeito receberá idênti­co prestígio da comunidade. Tudo isso toma muito compreensível as inten­ções de Jesus ao recomendar homens dignos e casas dignas, o que foi testado com sucesso tanto pelos doze apóstolos como também por Paulo e Barnabé.

Pastores Que Não São Pastores

Também, em outras ocasiões, Jesus falou sobre o relacionamento entre ovelhas e pastor. Numa delas, disse que a ovelha segue seu pastor por­que conhece a sua voz e, em outra, exemplificou que o bom pastor deixa no aprisco as 99 ovelhas e sai à pro­cura da centésima que se desgarrou. Para ser sincero, esse quadro é bem diferente da situação atual nas igrejas, cujas estruturas tornaram a atividade pastoral bastante complexa. São tantas as atribuições que competem ao pas­tor moderno, que este não consegue restringir-se apenas a cuidar do reba­nho e pouco tempo lhe sobra para se dedicar à busca de ovelhas. Por mais que se esforce, ainda não consegue dar conta de todas. Isso é tão fatigante que dá a sensação de haver apenas uma ovelha no aprisco e 99 desgarradas. Nesse caso, parece que é o pastor que ouve a voz das ovelhas e tenta segui-las.

O fato de haver tanta queixa de falta de pastoreio não estaria ligado à falta de homens dignos que ofereçam aprisco em suas casas, sem necessaria­mente possuírem uma vinculação ao clero profissional-denominacional?

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UM TOQUE DE IMPACTO …

A tragédia na vida de um homem é o que morre dentro dele enquanto ele vive.
(Albert Schweitzer)

Depois de anos morando em uma jaula, um leão pode não mais acreditar que é um leão… e um homem pode não acredi­tar mais que é um homem.
(John Eldredge em “Coração Selvagem”)

Devolver a um homem o seu coração é a missão mais difícil que há na terra.
(do filme “Michael”, citado em “Coração Selvagem”)

Nada daquilo que tem valor vem sem al­gum tipo de luta.
(Bruce Cockburn, citado em “Coração Selvagem”)

Sabemos que a nossa sociedade produz um farto número de meninos, mas parece produzir menos e menos homens.
(Robert Bly, citado em “Coração Selvagem”)

Coloque um menino junto ao homem cer­to, e ele quase nunca dá errado.
(Anônimo, citado em “Educando Meninos” de James Dobson)

Uma ferida que não é reconhecida e pe­la qual não lamentamos é uma ferida que não pode ser curada
(John Eldredge em “Coração Selvagem”)

Como disse Bly:”0 talento de um homem estará onde estiver a sua ferida”. Há duas razões para isso. A primeira é que a ferida foi infligida no local onde está a sua verda­deira força, como uma tentativa de o arrui­nar. Até que você chegue à sua ferida, ain­da estará sendo artificial, oferecendo al­go mais superficial e sem qualquer subs­tância. E a segunda razão é que só a partir do seu quebrantamento você descobrirá o que tem a oferecer à comunidade.
(John Eldredge em “Coração Selvagem”)

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