O Lugar da Palavra Escrita

Data de publicação: 28/08/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 43 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 43

Por Christopher Walker

O Velho Testamento nos fornece um bom modelo para o lugar que a leitura da lei (a Palavra escrita) deveria ocupar em todos os contextos de vida da nação escolhida de Deus.

1. Na Família

Em primeiro lugar, era essencial na família.

Ponde, pois, estas minhas palavras no vosso coração e na vossa alma; atai-as por sinal na vossa mão, para que estejam por frontal entre os olhos. Ensinai-as a vossos filhos, falando delas assentados em vossa casa, e andando pelo caminho, e deitando-vos, e levantando-vos.Escrevei-as nos umbrais de vossa casa e nas vossas portas, para que se multipliquem os vossos dias e os dias de vossos filhos na terra que o Senhor, sob juramento, prometeu dar a vossos pais, e sejam tão numerosos como os dias do céu acima da terra. Dt 11.18-21 (veja também Dt 6.6-9).

A base da nação de Israel seria construída através das famílias. Se a Palavra de Deus fosse o centro de cada lar, o centro de todas as atividades, lembrada e aplicada nos afazeres do dia-a-dia, a bênção do Senhor estaria sobre cada família e sobre toda a nação. O foco da estratégia de Deus não mudou. A vida da igreja depende da vida em cada família. A ênfase da Palavra não deveria ser uma atividade formal ou penosa. Falando sobre ela ao levantar-se, ao andar pelo caminho, ao redor da mesa ou sentado na sala significa aplicar os princípios, significa sempre relacionar a vida real com os ensinamentos eternos e abrangentes das Escrituras.

Será que Deus tem uma resposta para as situações de hoje, para clonagem, para dependência em computadores e jogos eletrônicos, para as decisões dos jovens ou da família como um todo? Pode apostar que sim. Se nos aplicarmos com diligência, se quisermos saber o que Deus pensa ou como ele quer que vivamos, acharemos princípios na Palavra que abrangem a vida inteira.

Se abrirmos um espaço, nossos filhos perguntarão, procurarão as respostas. Eles querem descobrir o sentido da vida. Os pais poderão ficar apertados, poderão precisar de ajuda, mas jamais devem duvidar da importância central da Bíblia como base da vida em família. Não adianta falar mal das escolas, da sociedade e até da igreja. Nós temos base e autoridade de Deus para lutar contra todos os males ao nosso redor edificando um firme fundamento na família. Mas exige diligência. Não acontecerá sem determinação, sem tempo reservado, sem colocar a Palavra no centro.

2. Na Congregação

O segundo contexto da vida do povo de Deus onde a Palavra escrita ocupava um lugar central era na congregação.

“Ordenou-lhes Moisés, dizendo: Ao fim de cada sete anos, precisamente no ano da remissão, na Festa dos Tabernáculos,  quando todo o Israel vier a comparecer perante o Senhor, teu Deus, no lugar que este escolher, lerás esta lei diante de todo o Israel. Ajuntai o povo, os homens, as mulheres, os meninos e o estrangeiro que está dentro da vossa cidade, para que ouçam, e aprendam, e temam o Senhor, vosso Deus, e cuidem de cumprir todas as palavras desta lei;  para que seus filhos que não a souberem ouçam e aprendam a temer o Senhor, vosso Deus, todos os dias que viverdes sobre a terra à qual ides, passando o Jordão, para a possuir.” Dt 31.10-13

A leitura completa da lei do Senhor deveria fazer parte integral da adoração congregacional de Israel. Isso precisava ser feito continuamente. O povo não poderia ter uma vida de temor e de santidade prática diante do Senhor sem conhecer toda a sua Palavra. Não conhecemos mais a prática de leitura congregacional. Se o pregador lê mais do que dois ou três versículos, já está exagerando.

Um exemplo sobre como essa ordem foi praticada está em Neemias 8.1-8:

Em chegando o sétimo mês, e estando os filhos de Israel nas suas cidades, todo o povo se ajuntou como um só homem, na praça, diante da Porta das Águas; e disseram a Esdras, o escriba, que trouxesse o Livro da Lei de Moisés, que o Senhor tinha prescrito a Israel. Esdras, o sacerdote, trouxe a Lei perante a congregação, tanto de homens como de mulheres e de todos os que eram capazes de entender o que ouviam. Era o primeiro dia do sétimo mês. E leu no livro, diante da praça, que está fronteira à Porta das Águas, desde a alva até ao meio-dia, perante homens e mulheres e os que podiam entender; e todo o povo tinha os ouvidos atentos ao Livro da Lei.[…] Leram no livro, na Lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia.

A base da vida congregacional de qualquer igreja só pode ser sólida se estiver fundamentada na Palavra. As Escrituras precisam estar no centro, seja através de leituras solenes, seja através de explicações. Um dos motivos principais responsável pela anemia da vida espiritual nas igrejas é a pouca ênfase que é dada à Palavra.

Muitos vão dizer: “Isso não acontece conosco. Todo culto tem pregação da Palavra”. Estamos falando sobre muito mais do que pregar sobre um texto. A idéia aqui é conhecimento sistemático resultante de estudo das Escrituras. O conhecimento da maioria das pessoas é fragmentado, incompleto e deficiente. E sabemos que conhecimento parcial às vezes pode ser mais prejudicial do que o não conhecimento.

3. Na Liderança

Em terceiro lugar, o conhecimento da Palavra escrita era essencial no contexto da liderança. Em Deuteronômio 17.18,19, Deus ordena que o rei ou governante do seu povo fizesse para si uma cópia particular da lei, e que a lesse “todos os dias da sua vida”, pois do contrário seria impossível governar como representante de Deus. A idéia aqui é que o rei deveria escrever, ele próprio, uma cópia de toda a lei para seu uso pessoal. Hoje tudo é tão fácil, vem tudo pronto. Não queremos nenhum trabalho. A geração da televisão e, agora, do computador quer tudo já mastigado, digerido. Estamos nos tornando uma geração passiva, preguiçosa, que não quer virar a página de um livro, muito menos fazer uma cópia. O líder precisa muito mais da Palavra do que todos os demais. Ele precisa estudar, ser diligente, conhecer cada aspecto do pensamento de Deus.

Hoje existe um conceito no mundo do marketing, chamado user friendly. Significa que o programa de informática, ou o aparelho, ou qualquer produto que se queira oferecer, é adaptado ao usuário. É de fácil aprendizagem, a pessoa não precisa fazer nada, praticamente, para poder usá-lo. Agora estão usando esse conceito nas igrejas. Os “clientes” das igrejas visitam uma, visitam outra e acabam ficando naquela que oferece mais vantagens, na qual a vida é mais facilitada. O termo ficou adaptado para seeker friendly (“adaptado ao interessado”). Entende-se, com isso, o lugar onde se exige menos, onde ninguém precisa se esforçar ou ser diligente, onde tudo já vem prontinho.

O líder precisa imergir nas Escrituras, precisa conhecer todo o propósito de Deus, precisa edificar um ambiente adaptado a Deus e não aos desejos do povo que ainda não o conhece. Sua grande função é dirigir o povo de acordo com a vontade do Senhor.

Todo o Desígnio de Deus

Um dos aspectos mais importantes sobre o estudo da Bíblia é compreender que não se trata de uma coletânea de histórias e devocionais avulsos. Apesar dos 66 livros que a compõem, dos perto de 40 autores humanos e do intervalo de mais de 1500 anos entre o primeiro e o último livro, a Bíblia é uma história contínua dos caminhos de Deus desde o princípio da Terra, passando pela vinda de Jesus e o início da igreja, e incluindo as profecias a respeito da consumação de todas as coisas no final desta era. A maioria dos cristãos usa o Velho Testamento para tirar lições inspirativas das histórias, como se fossem exemplos avulsos, sem dar qualquer importância ao plano que Deus vem desenvolvendo na Terra. Baseiam-se, quase exclusivamente, nas doutrinas e ensinamentos do Novo Testamento, já que a velha aliança já foi superada, e Jesus trouxe uma nova dispensação.

Entretanto, a única Bíblia que a igreja primitiva tinha era o Velho Testamento. E o Novo não pode ser plenamente conhecido sem o Velho.

Veja a importância dada no Novo Testamento a uma compreensão completa de todo o plano de Deus:

• Paulo, despedindo-se dos líderes da igreja em Éfeso:
Portanto, eu vos protesto, no dia de hoje, que estou limpo do sangue de todos; porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus (ou conselho de Deus). At 20.26,27

• Jesus, expondo o plano de Deus aos discípulos no caminho de Emaús:
E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras. Lc 24.27

• Jesus, falando com todos seus discípulos depois da ressurreição:
A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras. Lc 24.44,45

• Paulo, escrevendo à igreja em Éfeso:
… no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade. Ef 1.11

• Paulo, escrevendo para Timóteo:
Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. 2 Tm 3.16,17

Esta é uma das necessidades mais urgentes da igreja contemporânea em todas as partes: compreender o plano de Deus, entender pelas Escrituras o que ele vem buscando e desenvolvendo através dos séculos, saber de onde viemos e para onde estamos caminhando. Jesus chamou seus discípulos de amigos, porque podia dizer-lhes tudo que o Pai lhe havia revelado. Não temos a menor possibilidade de sermos o instrumento que Deus procura nestes últimos dias se não buscarmos com diligência a compreensão do seu plano, do seu pensamento. É possível ler e estudar a Bíblia e não conhecer a Deus. Mas ninguém pode verdadeiramente conhecer a Deus e andar nos seus caminhos sem dedicar-se seriamente à sua Palavra.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *