O Lar: Escola de Amor Ágape

Data de publicação: 11/09/2011
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Edição 38 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 38

Por Paul Billheimer

De acordo com a nossa tese, a vida foi planejada para ser um curso de formação em amor ágape. Todas as circunstâncias que foram permitidas na vida de um filho de Deus, sejam elas de alegria ou de tristeza, têm o propósito de ensiná-lo e amadurecê-lo no amor, que é o pré-requisito para participar do reinado de Deus na sua suprema economia. Este mundo é um laboratório no qual os que têm como destino o trono estão aprendendo pela prática real a ser governados pela lei do amor, princípio que eles terão de administrar na ordem social do reino eterno.

Terra, Esfera Onde se Aprende o Amor

Há somente um lugar e um tempo em que o amor ágape pode ser aprendido: aqui e agora, em um mundo exatamente como este. Conforme salienta C.S. Lovett, em seu livro Unequally Yoked Wives (“Esposas em Jugo Desigual”, 1968), esse caráter do amor ágape não poderia ser produzido no céu. Essa declaração é um tanto surpreendente, mas o autor afirma também que “o céu não é lugar para criar filhos”. Não há como produzir o caráter de Deus lá. As condições necessárias para se levar as pessoas à maturidade espiritual não se encontram lá.

Superficialmente, seria natural pensar no céu como o lugar ideal para se produzir caráter semelhante a Jesus. Lá não mais haverá sofrimento, tristeza, choro ou dor (Ap 21.4). Mas, como salienta Lovett, isso significa que tampouco haverá tensão ou pressão. Não mais haverá provações nem tentações. Não haverá oposições ou obstáculos. O alívio é total. Não seria esse tipo de ambiente o ideal para a produção do caráter celeste? A resposta é: De maneira nenhuma. O Dr. Lovett pergunta: “O que acontece a crianças quando todas as tensões são retiradas? O que acontece quando são protegidas da dureza, das pressões e das oposições da vida? Crescem ou ficam meramente estagnadas?”

Sabe-se que esse não é o caminho para se produzir força de caráter. Portanto, o céu não é o lugar para conduzir os filhos à maturidade. Isso só pode acontecer aqui na terra, precisamente no tipo de mundo em que Deus nos colocou. Lovett diz: “Uma criança mimada é um terror.” E sabemos que não existe santo mimado.

Significa isso que não haverá crescimento no céu? Com toda certeza, não é essa a conclusão. Lá os redimidos viverão numa ordem inteiramente nova (Ap 21.4 -5). Nessa ordem, haverá muitos outros estimulantes para o crescimento, e um deles é louvor e adoração. O céu se compõe de uma grande, ininterrupta celebração de louvor. Na adoração e no louvor ao infinitamente gracioso Deus, exercitam-se as mais sublimes e divinas dimensões do caráter humano. Nesse exercício, todas as características mais transcendentes, inefáveis e divinas que o ser humano pode apresentar são ativadas e, dessa forma, ampliadas. Esse processo de crescimento será eternamente acelerado na atmosfera celestial e na prática de louvor e adoração. Lá não haverá necessidade dos estímulos de tristeza, tensão e dor que há aqui na Terra.

Maturidade – Um Processo de Vida Inteira

A pessoa recebe pureza de coração mediante um ato instantâneo de fé ao receber a plenitude do Espírito Santo (At 15.7-9; veja também At 10.44-47). Mas a maturidade em amor ágape é outra coisa. Sem pureza de coração é impossível alcançar maturidade.

Porém, mesmo com pureza de coração, a maturidade é um prolongado processo que jamais acontecerá sem tribulação, dor e tensão. Não há atalho. Após muitos anos, o apóstolo Paulo testificou que ainda não havia atingido o ápice da maturidade (Fp 3.12-14).

O amadurecimento que alcança estados avançados do caráter cristão e do amor ágape é, obrigatoriamente, uma operação que leva uma vida inteira. Pense, por exemplo, na graça da longanimidade. Como adquiri-la? Lovett responde: “Através de sofrer por longo tempo”. Mas não há sofrimento no céu. Portanto, a longanimidade não pode ser adquirida ali.

O que dizer da paciência? Em minha mocidade, alguns pregadores que conheci diziam que existia uma experiência de santificação que produzia paciência instantânea, como café instantâneo ou quaisquer outros alimentos instantâneos. Mas, como são produzidos alimentos instantâneos? Mediante pré-cozimento. É preciso aplicar calor ou pressão, ou ambos. Dá-se o mesmo com a paciência. Não há tal coisa como paciência instantânea. Graus avançados de paciência (que é apenas um subproduto ou manifestação de amor ágape) são alcançados suportando uma ansiedade após outra. Mas não há ansiedade no céu; portanto a paciência não pode ser aprendida lá.

Considere a graça do perdão, outra manifestação de amor ágape. Não se tem de ser ferido ou ofendido antes que se possa perdoar? Então os altos graus da graça do perdão só se desenvolvem quando somos feridos vez após vez. Mas não há ferimentos ou ofensas no céu; assim, o perdão não pode ser aprendido lá.

O Lar – Um Microcosmo

O lar é o lugar para se começar um curso de aprendizado em amor ágape. Como disse o Dr. Lovett, o casamento e o lar são o centro de toda a vida na Terra. Formam um laboratório completo com todas as tensões, pressões e provações, reunidas sob um mesmo teto. Tudo aquilo que é necessário para produzir a imagem de Cristo em nós encontra-se no lar.

O lar, então, é uma miniatura, um microcosmo do mundo em geral. Essa é uma das razões por que Deus criou o lar, e por que ele “faz que o solitário more em família” (Sl 68.6). Lovett disse: “O casamento é o fator mais estressante da vida. Se a vida toda é tensão, então o casamento é o centro dessa tensão”.

J.R. Miller disse (Weekday Religion, pp. 67-68):

“Não existem duas pessoas, por mais completa que tenha sido a sua familiaridade, por mais longo tempo que tenham andado juntos na sociedade ou por mais que tenham convivido dentro do mais estreito relacionamento de uma amizade madura, que se achem em perfeita harmonia no dia de seu casamento. Só quando essa misteriosa mescla, que linguagem alguma pode explicar, começa logo após o casamento é que cada um encontra tantas coisas no outro que nunca descobrira antes…. Há incompatibilidades que nunca foram sonhadas até se revelarem nos atritos da vida doméstica.”

Pode haver exceções, mas a maioria dos recém-casados ainda não aprendeu o verdadeiro significado da abnegação. Podem ser convertidos, santificados e cheios do Espírito Santo, e ainda estarem inconscientemente centrados em si mesmos. Um dos principais objetivos de Deus em ordenar o casamento e o lar não é primariamente por prazer, como em geral se supõe, mas para descentralizar o nosso ser e ensinar-nos o amor ágape. As tensões do casamento e do lar destinam-se a produzir abnegação, afastar-nos do egocentrismo, e a produzir as virtudes de amor e benignidade sacrificiais.

Como é tão raro que as pessoas entendam a natureza e o propósito do casamento, geralmente quando surgem tensões e pressões inesperadas, elas se sentem tentadas a achar que cometeram um engano ou que talvez tenham se casado com a pessoa errada. O próximo passo é buscar uma via de escape, por um meio ou por outro, às vezes através de um conselheiro conjugal profissional ou, mais freqüentemente, recorrendo aos tribunais para pleitear o divórcio.

Se uma ou ambas as pessoas envolvidas nasceram de novo, o desígnio de Deus é que cada uma ensine o amor ágape à outra. E não é fácil a tarefa. A vida natural e egocêntrica não morre com facilidade. Mas se pelo menos um dos parceiros entende que o propósito da vida é aprender a amar e que o lar é a arena onde o amor pode ser ensinado e aprendido com mais facilidade, o processo de descentralização pode ser iniciado. Se o casal conseguir compreender que nem a vida nem o casamento visam primordialmente o prazer, porém a aprendizagem do amor sacrificial, é possível que não desperdicem suas lágrimas.

Verdadeira Causa dos Problemas Horizontais

Problemas numa relação horizontal são sempre resultados de problemas no relacionamento vertical — com Deus. Em algum lugar, a vontade própria assumiu o comando. Antagonismo para com o cônjuge é, antes de tudo, antagonismo para com Deus. Falta de amor de um dos cônjuges para com o outro é, realmente, falta de amor a Deus. “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus… Se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é em nós aperfeiçoado… Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão (ou cônjuge), é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão (ou cônjuge), a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 Jo 4.7-8,12,20).

Quando um dos cônjuges deseja separar-se e apresenta como motivo o fato de que o amor ao outro acabou, o problema não é antes de tudo entre o casal, mas entre um ou ambos e Deus. Se pelo menos um deles se acertar verdadeiramente com Deus, já não insistirá obstinadamente em seus direitos ou em que as coisas se façam a seu modo. Alguém disse que o único direito que o cristão tem é o direito de abrir mão dos seus direitos. Isso está em harmonia com o Sermão da Montanha (Mt 5 e 6).

O cônjuge mais chegado a Deus quase sempre será o primeiro a ceder. O amor a Deus capacita-o a desprezar todas as prerrogativas e a aceitar a crucificação da sua própria vontade. Se ele ou ela não estiver disposto a fazer isso, é porque o amor que tem a Deus é deficiente. A recusa a sofrer perda por amor a Cristo é, em realidade, rebelião contra Deus.

Grande parte do aconselhamento conjugal é direcionada para o aqui e agora. O alvo primário é curar o casamento que está correndo perigo, no interesse da felicidade presente dos cônjuges. Isso é muito natural. Mas enquanto o casal sofrer com a ilusão de que a principal finalidade da vida e do casamento é obter prazer e plena felicidade, o alicerce do casamento é inseguro. Enquanto não compreenderem que a vida e o casamento são uma fase de aprendizagem para a prática do amor ágape em preparação para plena frutificação no reino eterno, onde a lei do amor é suprema, eles correm o risco de perda eterna.

Se passarem os anos em lamentações, desapontamentos e recriminações, desperdiçarão suas lágrimas. Se aceitarem um ao outro como agentes disciplinadores de Deus para conduzir um ao outro a uma crescente abnegação e ao amor ágape, é possível que não só encontrem maior felicidade aqui, mas que alcancem no futuro “eterno peso de glória”.

Infidelidade Conjugal

Os dias atuais são cheios de riscos e quase todos os valores que prezamos estão se deteriorando. O mundo está à deriva num mar de incerteza e dúvida. A sociedade encontra-se num estado de choque ético. A ordem social está-se desintegrando. O caos moral viceja. Predomina a anarquia sexual. A insanidade total ameaça tomar conta de tudo.

Esta desintegração da ordem social é uma evidência da invasão dos demônios orientados para o sexo, elevando a taxa de divórcio e destruindo a instituição do casamento, do lar e da família; entretanto, Deus pode usar esta mesma situação para desenvolver amor ágape em sua noiva eleita.

Uma das maiores oportunidades para se aprender o amor ágape é apresentada aos cristãos, ao homem ou à mulher cujo cônjuge se tornou vítima de demônios do sexo promíscuo. Não há maior tentação à amargura do que a infidelidade conjugal. Milhares estão sendo apanhados nesse redemoinho de permissividade moral induzida pela “nova moralidade” e pelo relaxamento dos padrões morais que ela promove. A Sra. Billy Graham já disse que se Deus continuar a poupar os nossos decadentes padrões morais, então ele terá de pedir desculpas a Sodoma e Gomorra!

Maridos e esposas talvez não o reconheçam, mas essa situação oferece uma oportunidade sem precedentes para atingir um nível mais elevado de transformação eterna, mediante o aprendizado de uma dimensão mais profunda de amor ágape. Se sucumbirmos ao ressentimento, à autopiedade e à vingança, teremos desperdiçado nossas lágrimas. Se, porém, entendermos que a graça pode superar essa tristeza e usá-la para ensinar o amor ágape, estaremos em condições de usar nossa angústia indizível para lucro eterno. Não são muitos os que conseguem, mas alguns têm triunfado.

O Abismo Entre Gerações

Embora seja este o tempo do assim chamado abismo entre gerações, ele é tão velho quanto Adão e seu filho Caim, Noé e seu filho Cão. Não obstante, a psicologia freudiana e a escola de psiquiatria que ela gerou agravaram grandemente a brecha entre pais e filhos. A alienação resultante e a rejeição dos ideais morais e espirituais por parte da geração mais nova podem produzir o mais agonizante sofrimento. Esse é um problema de proporções maciças. O fato de que nenhum pai é perfeito e assim seria em parte responsável pela alienação, não suaviza a aflição. As feridas abertas pela ingratidão filial só se agravam pelos efeitos maléficos dessa alienação sobre a própria pessoa amada, que é mais preciosa do que a própria vida.

Hoje há muitos irmãos e irmãs que poderiam fazer coro junto com o Rei Davi em seu solilóquio (monólogo) a respeito de um filho que colheu conforme semeou, e esmagou seus pais de tristeza. Mas, de acordo com o apóstolo Paulo, mesmo essa aflição devastadora pode ser transformada em um “eterno peso de glória, acima de toda comparação” se o pai ou a mãe permitir que opere em sua vida aquela dimensão redentora e profunda do amor ágape. Do meio da agonia da rejeição, o pai ou a mãe pode descobrir seu egocentrismo, do qual não estava consciente. Mediante sincero arrependimento e repúdio de sua natureza carnal, eles podem crescer em amor sacrificial, que traz cura, restauração e eterna recompensa.

Esse pode ser o motivo pelo qual Deus permite as agonias do abismo entre gerações. As tristezas esmagadoras resultantes não devem ser desperdiçadas. O custo de aprender a amar pode ser elevado, mas Deus não considera preço algum alto demais. Por meio dessas angústias, ele está treinando sua noiva eleita para viver segundo a lei do amor.

Extraído do livro: NÃO DESPERDICE SUAS LÁGRIMAS,
Paul E. Billheimer,
CLC Editora (edição esgotada).

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