Reflexão-O Evangelho e “A Cabana”

Data de publicação: 29/04/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 64 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 64

Por Harold Walker

Uma coisa é certa: ninguém consegue ler o livro A Cabana e ficar neutro ou imparcial. Quem gosta, gosta apaixonadamente, tanto que geralmente o indica para todos que encontra e compra um monte de exemplares para dar de presente a amigos e conhecidos. Quem não gosta, fica furioso e combate energicamente os pontos que considera heréticos. Não é por outro motivo que aparece quase sempre em primeiro lugar na lista da VEJA dos livros de ficção mais vendidos há mais de 83 semanas consecutivas.

Para um manuscrito que não foi aceito pelas editoras evangélicas, porque o consideraram muito fantasioso e escandaloso, nem pelas editoras seculares, porque fala muito de Jesus e de Deus, isso é um fenômeno impressionante. E não foi somente em terras tupiniquins que alcançou tamanho sucesso. Ficou na lista dos mais vendidos da New York Times por 70 semanas e já vendeu mais de 7 milhões de cópias em inglês.

Pessoalmente, não tive nenhum interesse em ler esse livro até receber entusiásticas indicações de amigos cuja opinião respeito muito. Quando o li, fiquei tão impactado quanto eles. Por ser uma fantasia e não um compêndio teológico, o autor tem toda a liberdade para não ficar preso a clichês evangélicos. Pelo contrário, parece ter prazer em desmanchá-los! Mas a mensagem que passa do amor eterno de Deus pelo homem e do relacionamento maravilhoso que existe entre as pessoas da Trindade é imperdível e de valor incalculável.

Após ler o livro Por Que Você Não Quer Mais Ir À Igreja? de Wayne Jacobsen (o homem que ajudou William Young a reescrever A Cabana) e de ouvir palestras dele numa conferência em Sorocaba, SP (nos dias 5 e 6 de dezembro de 2009), fui sentindo-me muito intrigado com novos aspectos do evangelho que até então não havia percebido. Tanto ao ler os livros quanto ao ouvir o autor, tive a sensação de discordar fortemente de alguns conceitos ao mesmo tempo em que não conseguia descartá-los porque pareciam ter fortes bases bíblicas. Esse sentimento paradoxal, apesar de desconfortável, não é negativo, pois nos impele a voltar-nos para as Escrituras como se nunca as tivéssemos lido antes, em busca de uma revelação mais perfeita da verdade.

Apesar de saber que é impossível transmitir, nas poucas palavras de um artigo de revista, meus pensamentos e descobertas a esse respeito, quero, pelo menos, esboçar alguns conceitos que poderão ser úteis para leitores sinceros que estão trilhando a mesma caminhada em busca de um conhecimento mais profundo de Deus, do seu amor e do seu maravilhoso evangelho.

Lembro-me, como se fosse hoje, de um dia em que meu pai, John Walker, compartilhou conosco uma revelação que acabara de receber. Ele disse que sempre ficara incomodado ao ver que os esotéricos e místicos espíritas têm muito mais facilidade do que os cristãos para acessar o mundo espiritual e apresentar um comportamento tranquilo e cheio de amor e caridade. A razão para isso, de acordo com sua nova descoberta, é que os espíritas não enfrentam o obstáculo do pecado e da lei. Para eles, o pecado consiste apenas em imperfeições que serão sanadas por meio de múltiplas reencarnações e experiências de aprendizagem. Sem o pecado e sem a lei, não sofrem de senso de culpa ou condenação e, por isso, têm facilidade para entrar no nível espiritual e tranquilidade mental e psíquica para demonstrar bondade, educação e caridade ao próximo.

Os cristãos, por outro lado, vivem numa luta constante com o problema do pecado, e isso os faz oscilar entre sentimentos de orgulho e culpa, justiça própria e condenação, exultação e depressão. Por causa desse estado mental, dificilmente entram no nível de revelação espiritual e raramente conseguem sentir ou transmitir paz, alegria e amor para abençoar os que estão ao seu redor.

Em conclusão, podemos afirmar que o problema todo gira em torno do pecado e da lei. Não é por coincidência que a Bíblia inteira, tanto no Velho Testamento quanto no Novo, trata desse assunto! E é por não entendermos a mensagem da Bíblia sobre isso que vivemos tão aquém da herança que Cristo morreu para nos legar.

Os três níveis

Agora, quero apresentar para você uma ferramenta que talvez o ajude a entender essa mensagem e, consequentemente, a tirar proveito da mensagem do livro A Cabana e dos livros e palestras do nosso querido irmão Wayne. Chamo esta ferramenta de OS TRÊS NÍVEIS DO CONHECIMENTO DE DEUS.

O primeiro nível, na verdade, não é um nível de conhecimento; é quando há total desconhecimento de Deus! Chamo os ocupantes desse nível de “pecadores alegres” (em analogia com a expressão popular “bobo alegre”). Uma boa ilustração sobre as pessoas dessa categoria são as doenças assintomáticas. A pessoa pode sofrer de uma doença capaz de matá-la (hipertensão, por exemplo) e continuar sentindo-se feliz e despreocupada porque não apresenta sintoma algum.

Paulo diz em Romanos 7.9: “E outrora eu vivia sem a lei; mas assim que veio o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri…” Sem a revelação do Deus Todo-poderoso, Rei do universo, tão santo e puro que sua mera proximidade, mesmo sem querer, mataria o corrupto e perverso, o homem consegue viver mais ou menos tranquilo. Quando se compara com outros que julga piores do que ele, consegue ficar em paz consigo mesmo e imaginar que sua situação não seja tão ruim.

Quando, porém, “vem o mandamento”, isto é, quando Deus se revela a ele, a situação muda drasticamente. Diante da santidade aterradora de Deus, suas boas obras e “bom caráter” viram trapos de imundícia diante dos próprios olhos, deixando-o horrorizado frente à revelação de seu verdadeiro estado interior. “Os pecadores de Sião [povo de Deus, da igreja!] se assombraram; o tremor apoderou-se dos ímpios. Quem dentre nós pode habitar com o fogo consumidor? Quem dentre nós pode habitar com as labaredas eternas?” (Is 33.14).

Diante dessa crise terrível, a pessoa sai do primeiro nível e entra no segundo, que pode ser chamado de “pecadores desesperados”. Ela sai do estado de ignorância da existência e da força desse horrível mal que existe dentro dela e entra num estado de espanto e perplexidade. Romanos 7 é o capítulo que descreve essa situação com mais exatidão. Não é o estado de um cristão normal, em termos bíblicos. É o início da conversão, mas não o fim! É o estado de uma pessoa que tomou conhecimento da verdadeira natureza de Deus e de sua própria natureza caída e abominável.

Nesse ponto, ela está numa espécie de “terra de ninguém”, semelhante à região que fica entre as duas Coreias; quem anda por lá pode ser morto tanto pelos guardas da Coreia do Sul quanto pelos da Coreia do Norte. A pessoa sente-se acusada pelo diabo e rejeitada por Deus. Parece ser muito pior do que o primeiro nível, mas não é. O ditado “É preciso piorar primeiro para depois melhorar” pode ser aplicado aqui. É muito melhor saber a verdade sobre sua doença do que continuar alegre na ignorância e ser destruído repentinamente. E, para quem realmente experimenta essa crise em profundidade, o grito no final de Romanos 7 expressa perfeitamente o que ele sente: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24).

De acordo com Wayne, o temor do Senhor é o início da sabedoria, não o fim. O fim é o terceiro nível. O fim é conhecer o amor de Deus que excede todo o entendimento. O fim é saber “que o perfeito amor lança fora o medo; porque o medo envolve castigo; e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor” (1 Jo 4.18). Podemos chamar este terceiro nível de “pecadores livres”.

Um bom exemplo da passagem do segundo para o terceiro nível é a conversão do apóstolo Paulo.

Depois do encontro com Jesus no caminho para Damasco, durante três dias de horror, sem comer nem beber, em escuridão física (pela cegueira) e espiritual, só podia estar pensando sobre tudo o que fizera com tanto sacrifício durante toda a sua vida e como estava totalmente errado, totalmente perdido. Foi então que recebeu a visita de Ananias, que lhe trouxe cura, batizou-o nas águas e assim o introduziu no reino de graça e amor do nosso Senhor Jesus Cristo. O alvo de Deus para nós, numa vida cristã biblicamente normal, é que vivamos inundados com a consciência do amor de Deus por nós, livres de toda culpa, condenação, vergonha e medo. Esse é o terceiro nível do conhecimento de Deus.

Cuidado com atalhos

É verdade que os espíritas conseguem acessar o mundo espiritual com muito mais facilidade do que os cristãos, mas, por usarem atalhos e não enfrentarem o problema do pecado e da lei, não é com o Espírito Santo que fazem contato. Os milagres que realizam e a paz e o amor que evidenciam são falsos; vêm por meio de outros espíritos, espíritos enganadores. Se você quiser ter comunhão com Deus e ouvir a voz do Espírito Santo, não pode usar atalhos. É necessário encarar de frente o problema do pecado e da lei santa de Deus. Não existe outro caminho a não ser por meio de Jesus e do seu sacrifício. Para passar do primeiro nível para o terceiro, é necessário enfrentar o segundo!

A grande tragédia hoje é que a maioria dos cristãos se encontra no primeiro ou no segundo nível. É possível participar por muitos anos de uma igreja hoje e nunca ouvir sobre a santidade de Deus, a realidade do inferno e o perigo de ter uma grande decepção no Dia do Juízo. Em muitos púlpitos hoje, só se ouve sobre as bênçãos de Deus referentes à vida financeira, à conjugal e à emocional. Por outro lado, nas igrejas onde há pregações mais sérias, os cristãos vivem atormentados por dúvidas sobre sua salvação e oprimidos por sentimentos de culpa durante a maior parte do tempo. Nesse caso, geralmente tentam aliviar a alma pelo esforço humano, tentando obedecer exortações de seus líderes para darem ofertas maiores, jejuarem mais frequentemente e cumprirem obrigações adicionais.

A única maneira de nos livrarmos dessas situações indesejáveis é por meio de ouvir e crer no evangelho puro de nosso Senhor Jesus Cristo. Realmente ali encontramos boas novas! Não precisamos pegar atalhos nem nos submeter a jugos de escravidão. Podemos sentir-nos totalmente miseráveis e imprestáveis e, ao mesmo tempo, saber, sem sombra de dúvida, que Deus nos ama incondicionalmente. É por causa desse amor que ele providenciou um meio perfeito, não somente para perdoar-nos, mas também para transformar-nos em pessoas santas e irrepreensíveis. Esse é o conteúdo do evangelho, revelado em muitos lugares nas Escrituras e exposto de forma especialmente clara e completa no livro de Romanos. Se foi isso o que ele prometeu, é certeza que vai realizar tudo o que prometeu a nosso respeito.

Para pessoas que sofrem há anos as consequências de viverem no segundo nível, a mensagem de A Cabana traz vislumbres desse evangelho, dessas boas novas a respeito de quem Deus realmente é e como ele pensa e sente a nosso respeito. Para pessoas que nunca tiveram contato com o verdadeiro Deus e não possuem noção alguma da santidade dele nem da própria imprestabilidade, pode ser que a leitura de A Cabana apenas reforce seu sentimento infundado de tranquilidade e seu conceito de um Deus “Papai Noel”, como vovô misericordioso no Céu que passa por cima dos nossos pecados como se não tivessem qualquer importância ou seriedade.

No fim das contas, o que importa não é A Cabana ou sua posição em relação a ela e, sim, em que nível você está no conhecimento de Deus. Jesus disse: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que tu enviaste” (Jo 17.3). Quando os anjos cantaram na ocasião do nascimento de Jesus, com certeza não estavam celebrando uma vida cristã de pecador alegre, nem uma vida atribulada por esforço humano e condenação. Eles estavam louvando a Deus porque agora seria liberada, para os homens, uma vida plena de conhecimento do amor insondável de Deus, manifestado pela ação inédita de enviar seu Filho em forma humana para destruir o poder do pecado e transmitir-nos o dom gratuito da sua justiça.

Não precisamos mais ficar nos primeiros dois níveis – podemos viver como filhos amados no terceiro nível!

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