O Cristão Deve Participar da Política?

Data de publicação: 14/11/2011
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Edição 24 e Revista Impacto - 1998 a 2014.

Por: Christopher Walker

O maior problema em relação a certas perguntas é a falta de um contexto adequado para se entender a resposta. Geralmente queremos uma resposta abrangente, definitiva, sem ambigüidades. Mas o pior não é isto – é quando fazemos perguntas de jornalistas, sem nenhum interesse em aplicar a resposta à nossa vida, só em conseguir algo que nos ajude a definir ou classificar o entrevistado.

Os fariseus faziam este tipo de pergunta, com este tipo de motivação. Por exemplo: “É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?” (Mt 19.3). A resposta foi tão difícil que os próprios discípulos não a entenderam, e Jesus explicou: “Nem todos podem aceitar esta palavra, mas somente aqueles a quem é dado” (v.11).

“O cristão pode participar da política?” é uma pergunta mais ou menos deste tipo. Primeiro, porque gostaríamos de uma resposta taxativa: sim ou não. Assim dá para classificar todo o mundo em dois lados, os que apóiam a participação e os que não apóiam.

Segundo, e principalmente, porque esta é uma pergunta que pressupõe um entendimento do que é ser cristão. Há toda espécie de conceito incompleto e errôneo hoje sobre o que é cristão e o que é igreja, e isto obviamente implica muito na atitude que a pessoa terá sobre a participação na política.

Jesus foi além do entendimento distorcido que os fariseus tinham a respeito do povo de Deus e da natureza de Deus, para responder às suas perguntas. Foi até mesmo além dos limites insuficientes da lei de Moisés, e falou sobre a intenção de Deus “no princípio” (Mt 19.8). Se quisermos base na Bíblia para justificar nossas opiniões, provavelmente a encontraremos. Mas se quisermos saber o que Deus realmente deseja e pensa hoje, a resposta com certeza será mais complexa, menos generalizada, e dependerá muito do nosso relacionamento com ele e com seus propósitos na terra.

Conflito Entre Dois Reinos

Uma das grandes diferenças entre o cristão e o não cristão é a visão que cada um tem do homem e da sua progressão na história do mundo. O homem natural vê toda a civilização e o desenvolvimento humano como fruto do seu próprio esforço e capacidade, e encara os perigos e dificuldades do futuro apenas como novos desafios que certamente conseguirá superar. Seu sucesso depende somente dele, e talvez de um fator indeterminado, como “sorte” ou “destino”.

O cristão, que se baseia na revelação do plano de Deus na Bíblia, entende que toda a história deste mundo é na verdade o desdobramento do conflito entre duas grandes forças antagônicas, entre dois reinos, entre dois sistemas.

Com a decisão do primeiro homem de escolher o conhecimento do bem e do mal, e o ser “como Deus”, com todas as implicações de auto-exaltação, autogratificação, e auto-realização, não só entrou o pecado na própria natureza do homem, mas o sistema deste mundo foi entregue ao adversário de Deus. “Sabemos que… o mundo inteiro jaz no Maligno” (1 Jo 5.19; veja também Ef 2.2; Gl 1.4; Jo 12.31; 14.30).

Por isto, a obra de Jesus na cruz não foi apenas para arrancar o homem deste sistema maligno, e transportá-lo para um reino perfeito, muito distante daqui – ou seja, uma redenção pessoal – mas também para derrotar este sistema contrário comandado por Satanás aqui na terra (Cl 2.15; 1 Jo 3.8).

Opiniões Sobre o Reino

É aí que entra uma porção de opiniões contrárias e conflitantes no meio da cristandade. Quando se fala no “Reino de Deus”, alguns acham que isto se refere ao reino distante, onde Deus está agora, e onde nós só estaremos depois da morte ou depois da volta de Cristo. Outros acham que é o mesmo que “igreja”, portanto presente agora, mas também não acreditam em alguma implantação prática deste reino como sistema diferente antes da Segunda Vinda. E ainda outros crêem que podemos experimentar o reino, como governo de Deus, e como sistema de vida, aqui e agora, e que devemos lutar para implantá-lo por todos os meios possíveis: através da cultura, da política, da educação – e em alguns casos históricos, até através da força.

Sem aprofundar no assunto, vamos tentar responder a cada uma destas três opções.

1. O Reino como realidade futura somente

Está muito claro nas palavras de Jesus que ele considerava o reino como realidade presente. Inicialmente era por causa da sua própria pessoa. Nele tivemos o primeiro cumprimento do Reino de Deus. Esta realidade estava relacionada com a autoridade de Deus sobre as forças malignas (Mt 12.28), com a cura e libertação de pessoas escravizadas por estas forças (Lc 4.18,19 e Mt 10.1,7,8), e principalmente com a encarnação da Palavra e vontade de Deus (Mt 7.21; Hb 10.5-9; Jo 1.14). Jesus nos ensinou a orar: “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10). Tanto Jesus como os apóstolos falavam do reino como uma realidade presente (Mc 12.34; At 14.22; Cl 1.13, etc.).

Porém, com isto não estavam se referindo a um sistema de governo ou a um Estado independente. Jesus ainda não seria o Rei que os judeus esperavam que viesse sentar-se no trono de Davi. Ele fugiu quando tentaram coroá-lo (Jo 6.15); não permitiu que seus servos usassem força, porque seu reino não era deste mundo (Jo 18.36); e disse aos discípulos que só o Pai tinha conhecimento do tempo em que o reino como manifestação exterior seria restaurado (At 1.6-7).

A realidade presente do reino era algo que começava no interior (Lc 17.20,21). Era caracterizado por outras atitudes, descritas por exemplo nas bem-aventuranças (Mt 5.3-12). É o pobre de espírito, o pacificador, o misericordioso, o perseguido, a criança, o último na sociedade e hierarquia humana, o quebrantado, o que perdoa. Estas são algumas das qualidades e princípios que formam um reino totalmente diferente do reino deste mundo. E não precisamos esperar o cumprimento vindouro e visível do reino para entrar nesta realidade (Mt 5.3; Lc 12.32; 16.16).

2. A Igreja e o Reino agora são a mesma coisa.

Esta talvez seja a visão mais predominante entre os cristãos hoje. A confusão entre reino e igreja traz muitos problemas no nosso entendimento do plano de Deus, e conseqüentemente na nossa prática.

Na verdade, os dois são intimamente interligados, porém não a mesma coisa. O Reino de Deus é o alvo, o propósito de Deus para o homem, é o sistema perfeito de vida, amor e comunhão que já existem onde ele está. É eterno, inabalável (Hb 12.28), o summum bonum (em latim, o bem maior), o valor máximo, a pérola de grande valor. É este reino que se deve buscar em primeiro lugar (Mt 6.33).

O reino tem quatro qualidades que não se aplicam à igreja da mesma forma: representa o valor máximo, pois não há nada mais alto, nem maior que ele; é eterno, pois não tem começo nem fim; é absoluto, pois não tem alterações nem adaptações; é infinito, pois não tem limites de tempo ou espaço.

A igreja, por outro lado, é o meio ou instrumento deste ideal do reino. Assim como Israel no Velho Testamento não era um fim em si mesmo, mas um sacerdócio real, um instrumento para levar o conhecimento e a vida de Deus a todas as famílias da terra (comparar Gn 12.1-3 com Êx 19.5,6; Is 62.1,2), a igreja tem este mesmo propósito (1 Pe 2.9; Ef 3.8-11).

Tanto Israel como a igreja são vistos como eternos no sentido de constituírem a noiva de Jesus, ou seja, a coletividade ou corpo das pessoas redimidas de todas as épocas, que é o sentido da igreja universal. Este tema de uma companheira eterna para o Filho de Deus aparece na Bíblia inteira, desde a figura de Eva no jardim do Éden, passando pela nação de Israel, e agora com a igreja. Porém, assim como aconteceu com Israel, a igreja também não é eterna no sentido de ser uma representação imperfeita e limitada do reino ideal e absoluto. Além disso, pode se transformar (como aconteceu durante toda a história do Velho Testamento, e na história da igreja) em sistemas humanos, coligados ou filiados ao sistema maligno deste mundo, quando se torna um fim em si mesma, buscando sua própria identidade, poder, conforto, avanço e realização.

2.1 Distinção entre igreja e reino

Por isto, mesmo no Novo Testamento, antes do desvio e declínio da igreja, e de toda esta confusão e multiplicidade de sistemas eclesiásticos que temos hoje, os termos igreja e reino não eram usados exatamente da mesma forma.

Veja a seguir:

• Jesus praticamente não falou sobre igreja (apenas duas vezes em Mateus 16.18 e 18.17). Isto foi porque a visão do reino precisava vir antes da prática da igreja; do contrário, inevitavelmente, acabaria resultando na formação de uma instituição humana.
• Nunca se fala, nem pelo exemplo dos apóstolos, nem por exortação ou ensino, em pregar ou anunciar a igreja, e sim, o reino. João Batista e Jesus abriram a Nova Aliança desta forma, e os apóstolos os seguiram. Anunciar a igreja seria cair na armadilha de promover a si mesmo, ser um fim em si mesmo (ver Jo 5.31). Mas quando se anuncia o reino, há arrependimento, e a igreja é edificada (At 8.12).
• Devemos buscar o reino, não a igreja em primeiro lugar (Mt 6.33).
• É o reino que é entregue ao Pai no fim, não a igreja (1 Co 15.28).
• Mesmo depois da ressurreição, Jesus falou do reino aos seus discípulos, como suas instruções finais (At 1.3).
• É o reino que consiste, não de palavras, mas de poder (1 Co 4.20).

2.2 Desviando do Foco

Quais as conseqüências de não entender esta diferença entre reino e igreja? Mesmo quando se começa com uma visão verdadeira das características do Reino de Deus em contraste aos sistemas deste mundo, como nos tempos apostólicos, a partir do momento em que se busca o enaltecimento, crescimento, e satisfação da igreja em si, imperceptivelmente esta se transforma num sistema humano. E o sistema precisa de atenção e dedicação para se manter. Desvia-se, assim, o foco do reino para a igreja – que virou sistema.

No final do processo, não se acredita mais que os princípios do reino são praticáveis, e o reino, que é esta realidade radical, ardente, e intensa do coração de Deus, é domesticada e controlada dentro dos limites humanos. Em outras palavras, deixa de existir. O reino é igual à igreja, e a igreja é um sistema humano. Voltamos à primeira posição, que é acreditar que o reino que Jesus viveu e anunciou só virá quando ele voltar.

Aqui cabe um alerta muito importante. Muitos podem deduzir do acima exposto que quem faz parte de uma igreja organizada está fora da visão do reino, e que a solução seria sair de toda instituição e buscar o reino fora dos sistemas humanos.

Outra vez estamos querendo respostas simples e racionais. O Reino de Deus é uma realidade interior e espiritual. É radical, é poderoso, envolve todo nosso ser, é prático, é atual, está aberto para nós hoje. Mas é interior, e nenhuma mudança exterior pode substituí-lo.

A experiência tem provado vez após vez que o “sistema” de quem acha que não tem sistema é pior e mais dominante que os sistemas claros e assumidos. Isto é porque é mais sutil e mais enganoso. Temos de voltar para a verdadeira realidade interior. A partir daí, o próprio Senhor tomará conta das conseqüências.

O reino sempre traz conseqüências, mas estas podem não ser as que esperávamos. Jesus não começou organizando nada. Ele trouxe “graça e verdade”, sua vida radicalmente diferente, e continuou vivendo e alcançando pessoas dentro do sistema judaico. Mas não era comprometido nem com o sistema religioso, nem com o sistema político. Esta é a posição de quem realmente vive em outro reino.

3. Podemos trazer o Reino agora através de ser sal da terra dentro dos sistemas políticos e culturais deste mundo

Como sempre, quando se trata de verdades espirituais, a linha divisória não é plenamente visível ao nosso raciocínio humano. De fato, somos chamados a ser “sal da terra”, “luz do mundo”, e a não nos esconder “debaixo do alqueire” (Mt 5.13-16). O cristianismo durante a história influenciou profundamente a civilização ocidental, as leis e as bases da sociedade, da justiça, e do valor do indivíduo. Algumas pessoas desempenharam este papel com admirável pureza, sem cair nos laços comuns nesta área, como William Wilberforce na Inglaterra do final do século XVIII (veja artigo na página…).

3.1 Outro povo especial?

Porém, existem alguns problemas especiais que tendem a ocorrer neste posicionamento. Um é a idéia de que Deus novamente escolherá um país como seu povo especial, à semelhança de Israel no Velho Testamento. Esta idéia tem encontrado muitos adeptos em diversos períodos históricos, notadamente na Inglaterra, e nos Estados Unidos. Resulta em arrogância e atitude de superioridade entre o povo cristão, e numa sensação de falsa segurança, por achar que Deus tem alguma obrigação de protegê-los como povo especial. Também leva cristãos a se identificar com partidos políticos, ou com políticas do governo, como se fossem autorizados por Deus.

Deus não tem mais nenhum povo especial em termos de raça ou país. Ele também não tem partido político ou posição ideológica. A igreja é sua nação santa, porém sem compromissos ou identificação com país, governo, ou sistema político.

Isto não é negar que Deus tenha missões específicas para seu povo em determinados países e determinadas gerações. A hegemonia da Inglaterra durante o tempo do seu império, e a posição política e econômica dos Estados Unidos desde o século XX, conferiram oportunidades e responsabilidades especiais às igrejas naqueles países de espalhar o evangelho pelo resto do mundo. Deus também tem, indiscutivelmente, uma missão específica para seu povo nesta grande nação do Brasil, que passa por uma fase de abundante colheita de almas paralelamente a sérias crises em outras partes do mundo. Mas isto não significa que o Brasil será um “país cristão”, que o governo será redimido e purificado de sua corrupção, ou que alcançará uma sociedade totalmente justa.

3.2 O reino exterior começando agora?

O outro problema que surge com esta perspectiva é a tendência de transportar para a era atual aspectos da implantação do Reino de Deus que só virão depois da vinda do Rei. Por exemplo, alguns pensam que os cristãos podem se tornar cada vez mais fortes e influentes ao ponto de mudarem as leis, de ocuparem posições de destaque, e de pouco a pouco transformarem a cultura, a educação e os costumes do país.

Somos sal da terra, e devemos dar nossa contribuição, e proclamar as verdades e os valores do reino de todas as maneiras possíveis. Devemos defender dentro da política e fora dela as posições de justiça e igualdade que manifestam a natureza de Deus. Mesmo estando conscientes da corrupção progressiva deste mundo (Mt 24.10-21; 1 Tm 4.1; 2 Tm 3.1-5, etc.) e do iminente juízo de Deus, nosso papel é sempre proclamar com palavras e ações a vontade e a natureza do nosso Deus.

Enquanto for possível preservar a sociedade e impedir o juízo, possibilitando a expansão do evangelho e da Palavra de Deus, devemos fazê-lo. Neste sentido, quando Deus permite que um representante do reino esteja dentro de algum nível de governo, ainda que seja uma missão difícil que requeira coragem e ousadia, é esta a sua função: posicionar-se ao lado da verdade e da justiça de maneira ainda mais pública que o restante da igreja.

Porém, o Reino de Deus não virá através de mais cristãos em posição de governo, ou de leis mais “evangélicas”, ou de livros didáticos com uma visão cristã nas escolas, por mais importantes que qualquer um desses fatores seja. Nosso papel é contribuir nestas áreas enquanto for possível, mas entender que jamais resgataremos o “sistema” antes da volta de Jesus. É mais fácil nós sermos engolidos pelo sistema se não entendermos o perigo nesta área e nosso verdadeiro objetivo de estar ali.

Jesus disse em João 14.30 que o príncipe do mundo estava chegando, mas que não tinha nada nele. Não havia nada em Jesus que desse a Satanás um direito, uma base, ou uma aliança para reivindicar. Quando nos comprometemos com sistemas que funcionam com os princípios de Satanás (autopromoção, busca de vantagens próprias, orgulho, exaltação, interesses pessoais, exercício de controle sobre outros, etc.), mesmo que sejam sistemas “religiosos” ou causas “cristãs”, não podemos dizer que o príncipe deste mundo “nada tem em nós”.

3.3 A questão da mistura

É interessante notar neste contexto uma aplicação das três personagens no Velho Testamento que são mais freqüentemente usadas como modelos para a participação de cristãos na política. José no Egito, Daniel em Babilônia, e Ester na Pérsia foram realmente exemplos de que é possível manter a integridade e ainda cumprir o propósito de Deus dentro dos mais altos escalões do poder temporal.

Porém podemos ver também que este propósito não era resgatar ou redimir os sistemas de que participaram. Cada um recebeu uma missão especial (que nem sempre estava clara quando entraram naquela posição), e a cumpriu sem se comprometer com o sistema. Contribuíram através da sua posição para o avanço do plano de Deus em sua geração, sem buscar vantagem pessoal, e foram fiéis mesmo diante de grande risco pessoal. Entretanto, não deixaram nenhum saldo permanente ou transformação dentro dos governos de seus respectivos países.

Jesus contou várias parábolas, principalmente as que estão em Mateus 13, para mostrar exatamente a mistura que continuará dentro do reino aqui na terra até o fim desta era. Se não entendermos este princípio, podemos ficar até perplexos quando lemos: “O reino dos céus é semelhante…”  a fermento, a uma árvore abrigando aves do céu, a sementes caindo em terrenos que não produzem fruto, e a uma rede cheia de peixes bons e maus. Jesus estava mostrando que o reino seria uma realidade, porém teria de coexistir dentro do reino adversário até o fim.

A parábola do joio e do trigo mostra isto de forma mais clara ainda. De acordo com esta parábola, a semelhança exterior entre “os filhos do reino” e “os filhos do maligno” (Mt 13.38) é tão grande que não dá para separá-los enquanto a semente, tanto nestes como naqueles, não houver crescido e amadurecido.

Com isto concluímos que existe uma realidade presente e praticável do reino que começa dentro de nós, e que é pré-requisito para a manifestação exterior do reino que virá com a volta do Rei. Esta realidade nem é tão abstrata como alguns pensam, nem tão visível como outros esperam. Verdadeiramente é um mistério, mas se formos discípulos envolvidos e não apenas repórteres curiosos, este mistério nos será aberto pelo Espírito Santo (Mt 13.11; 1 Co 2.9-16; Jo 16.13-15).

Conclusões  

Outros artigos nesta edição tratarão mais especificamente de alguns aspectos práticos, mas sem esta base fundamental não teremos como entender nosso chamamento para viver neste mundo como representantes do Reino de Deus.

Podemos sintetizar esta compreensão da seguinte forma:

• Fomos redimidos por Jesus tanto da escravidão ao pecado como ao sistema do príncipe deste mundo. Somos membros de um outro reino, e nosso papel principal em qualquer tipo de vocação em que Deus nos colocar é viver os princípios totalmente opostos deste reino. Isto é tão verdade na política quanto em qualquer outro chamamento.
• Existe uma guerra entre os dois reinos, e precisamos ver a qual dos dois estamos fortalecendo. Se falamos que pertencemos ao Reino de Deus, mas baseamos nossa vida nos princípios do reino adversário, seremos um reino dividido contra si mesmo, sem chance de causar perigo ao reino maligno.
• Viver em um outro reino não é sair do mundo (Jo 17.15), nem isolar-se das pessoas que estão dentro dos sistemas. É não se identificar com os princípios, as ambições e os desejos que constituem o sistema do maligno. Na política, como em qualquer outra posição que implica em poder, dinheiro ou fama, precisamos estar separados de qualquer vantagem ou interesse pessoal, e cuidar dos interesses do propósito de Deus. Podemos levar anos para entender as implicações práticas desta posição, mas vale toda nossa vida descobrir como isto se aplica à nossa situação específica. Resulta de uma posição do coração, do reino que foi implantado em nosso interior.
• Achar a posição interior pode não ser muito fácil, mas identificar alguém que vive pelos princípios inversos que Jesus ensinou não oferece dificuldade alguma. Todos, cristãos ou não cristãos, sabem quando alguém não busca os próprios interesses, quando realmente paga um preço para se posicionar ao lado da verdade, e quando procura o bem-estar de toda a sociedade e não só do grupo que representa.

Indefinição Santa

Isto nos deixa com uma conclusão prática menos definida do que gostaríamos. Queríamos algo que nos desse base para abandonar o envolvimento político como armadilha de Satanás, ou para podermos entrar no sistema e alcançar objetivos substanciais. Queríamos estar dentro ou fora, posicionados à direita ou à esquerda, sentir autorização de Deus para apoiar este ou aquele candidato, e assim por diante.

Porém o caminho que Jesus parece ter traçado para seus discípulos na sua perseguição ao Reino de Deus é um caminho muito mais tênue e delicado. Devemos ter muito claro quais são nossas prioridades, quais as forças que estão em jogo, e qual nosso papel como cristãos no meio destas forças.

Teremos de manter em tensão dinâmica nossa visão da corrupção da natureza humana, junto com o potencial ilimitado do que Deus pode fazer com um indivíduo redimido; a necessidade de nos manter totalmente desalinhados e descomprometidos com qualquer sistema em si, junto com o chamado de nos envolver profundamente com as pessoas que estão dentro dos sistemas; e a total desesperança na reforma ou renovação do mundo através de sistemas políticos e exercício de poder, junto com nossa inteira disposição de cumprir responsavelmente o papel de sal e luz na sociedade, representando nosso Deus, sua vontade e sua natureza em todo lugar em que estivermos.

Não somos conservadores nem revolucionários, apáticos nem fanáticos, cínicos nem ingenuamente idealistas; somos capazes de independência e confronto aos erros e injustiças, porém solidários e comunicativos. Somos membros de outro reino, e nossa vida é dedicada à sua implantação; porém vivemos responsavelmente dentro do reino inimigo. Não nos anteciparemos à vinda do Rei, tentando já trazer o reino em sua manifestação exterior, mas nos dedicaremos à sua implantação em nosso interior e onde houver terreno fértil.

Pode parecer vago e indefinido, mas se estamos de fato em contato com o Rei, a aplicação prática sempre será profunda e radical. A força do reino não pode ser domada ou controlada por homens, pois é a maior força do universo, e se estiver operando em nós, grandes coisas acontecerão. É a semente que cresce e desenvolve mesmo sem sabermos como (Mc 4.26-29).

“Isto, porém, vos digo irmãos, que o tempo se abrevia; pelo que, doravante… os que usam  deste mundo sejam como se dele não usassem em absoluto, porque a aparência deste mundo passa” (1 Co 7.29, 31).