Devocional-Eu Encontrei Teus altares-Parte II-O Altar do Holocausto

Data de publicação: 29/04/2011
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Edição 63 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 63

Por Ariadna Faleiro de Oliveira

“O pardal encontrou casa, e a andorinha, ninho para si, onde acolha os seus filhotes; eu, OS TEUS ALTARES, Senhor dos Exércitos, Rei meu e Deus meu!” (Sl 84.3).

Sabendo que a revelação de Deus é gradual e progressiva, avançaremos, com simplicidade, na procura de uma compreensão mais completa da missão de Deus para nós, usando os diversos tipos de altares mencionados nas Escrituras. Salientando que não estamos seguindo a ordem estabelecida no tabernáculo, já passamos pelo altar de incenso no primeiro artigo, por meio do qual encontramos encorajamento e estímulo à vida de oração.

Nosso segundo encontro, agora, é com o altar do holocausto, feito de madeira de acácia e recoberto de bronze. Que outros tesouros podemos extrair para nossa jornada prática com Deus?

Descrição do Altar

Fez também o altar do holocausto de madeira de acácia. Ele era quadrado, com cinco côvados de comprimento, cinco de largura e três de altura. E fez pontas nos seus quatro cantos; as pontas formavam uma só peça com ele; e revestiu-o de bronze (Êx 38.1,2).

Esse altar trazia consigo uma terrível visão, pois nele o animal era sacrificado como forma de substituição e expiação. Era uma cena sangrenta e certamente desagradável de ser contemplada:

Chamou o Senhor a Moises e, da tenda da congregação, lhe disse: Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando algum de vós trouxer oferta ao Senhor, trareis a vossa oferta de gado, de rebanho ou de gado miúdo. (…) À porta da tenda da congregação o trará, para que o homem seja aceito perante o Senhor. E porá a mão sobre a cabeça do holocausto, para que seja aceito a favor dele, para a sua expiação. Depois imolará o novilho perante o Senhor; e os filhos de Arão, os sacerdotes, apresentarão o sangue e o espargirão ao redor sobre o altar que está diante da porta da tenda da congregação (Lv 1.1-5).

A palavra no hebraico para altar aqui é derivada de zabach, conceituando o altar como um lugar de abatimento, sacrifício, imolação e morte. Tudo isso enunciava o futuro, quando o perfeito Cordeiro seria entregue pelos homens:

Porque a vida da carne está no sangue. Eu vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas, porquanto é o sangue que fará expiação em virtude da vida (Lv 17.11).

A nós, é explicito o apontamento desse altar para o Calvário, pois ali Cristo ofereceu-se como Ovelha ao matadouro. A visão sangrenta do altar chegou ao ápice na perfeita expiação. A cruz foi o próprio Deus nos substituindo, justiça e graça se encontrando, trazendo-nos a salvação.

Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! (Jo 1.29).

(…) Como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus em aroma suave (Ef 5.2).

O que mais esse altar ensina? O que há nele que precisamos praticar? Como pode o mundo conscientizar-se de seu fruto? E que papel cabe a nós, filhos de Deus, cumprir nesse aspecto do altar?

Indiscutivelmente, é necessário ponderarmos que o sacrifício de Cristo mudou nossa história, e que essa tão grande salvação trouxe consigo responsabilidades das quais não podemos isentar-nos. Quero ressaltar aqui duas delas: devoção e proclamação.

Devoção:

Chamamos de devoção o ato de dedicar-se ou consagrar-se a alguém, um oferecimento voluntário com base num amor legítimo, uma renúncia pessoal para provocar satisfação na pessoa ou causa amada. Tal conceito parece soprar sobre nós o pensamento de Tozer: há uma doce teologia do coração que só se aprende na escola da renúncia.

É pela devoção que o altar do holocausto é manifesto em nossa vida! Nele, fomos chamados a deixar voluntariamente a posse de tudo o que julgamos ser nosso, abrindo mão de sonhos, projetos, ideais a fim de satisfazer o Filho de Deus, nosso Grande Amor. A renúncia de tudo em nós é uma decisão interior que deve vir acompanhada de uma entrega evidente, uma rendição prática de tudo aquilo que já lhe oferecemos; o efeito, então, será a morte, que proclama que não somos mais donos de absolutamente nada e que rendemos os nossos direitos para que ele, nosso Senhor, possa executar, em nós e por meio de nós, aquilo que entende ser o melhor!

Considerar tamanho holocausto pessoal é terrível e pouco atraente, destoando da geração contemporânea; afinal, este é um tempo de cristianismo fácil e superficial em que Deus tornou-se um objeto utilitário. O mero refletir num evangelho que me convida a morrer para mim mesmo parece um tanto masoquista.

Mas esse é o chamado!

Homens e mulheres amantes de Cristo, marcados pelo altar, escreveram, e ainda escrevem, com devoção uma história digna de ser deixada como um legado. Dentre tantos exemplos do passado, podemos citar um homem chamado John Ri, que enfrentou o martírio na Coreia no ano de 1838. Juntamente com ele, foram mortos mais de 200 outros cristãos como forma de impedir o crescimento do Evangelho no país.

Fitamos os olhos em tal cena e afirmamos ser trágica demais. Concordo. Mas o grito que dela ecoa é tão contemporâneo quanto o grito dos milhões[1] de irmãos que foram martirizados no último século (chamado “tempo dos mártires”, talvez o maior na história do cristianismo) e dos 200 milhões que estão sendo perseguidos por sua fé em todo o mundo hoje.

Conheci um desses personagens contemporâneos numa de nossas viagens à Ásia. Por causa de sua fé em Cristo, ficou preso por mais de 20 anos, sendo submetido a diversos tipos de torturas e pressões para que a negasse. Um dos episódios ocorridos com ele na prisão aprofundou meu entendimento de devoção.

Ele foi colocado numa vala úmida de 1 metro quadrado na qual foi obrigado a permanecer, na mesma posição, por vários meses. Sua comida era racionada, e, durante o tempo ali, não recebeu luz solar, o que provocou uma alteração na pigmentação de sua pele. Apesar das constantes oportunidades para negar a fé e o amor em Jesus, ele permaneceu fiel a suas convicções.

No fim de alguns meses, foi-lhe permitido receber a visita do filho. Ao ser retirado do buraco, notou-se que havia perdido os movimentos das pernas além de estar magro e doente. Quando o colocaram na sala, deixando-o no chão, seu filho chocou-se com a imagem do pai e, chorando, aproximou-se dele como num apelo para que tudo aquilo tivesse um fim. O pai ergueu os olhos lentamente e, com a força que lhe restava, declarou ao filho:

Sim, eu amo a mensagem da cruz. Até morrer eu a vou proclamar. Levarei eu também minha cruz, até por uma coroa trocar.

O nível de devoção de alguns espalhados pelo mundo deve ser um misto de confronto e encorajamento à nossa entrega. Por meio dele, podemos perceber que o mesmo Espírito de graça e força que continua movendo homens e mulheres a amarem o Senhor até o fim habita em nós e convida-nos, hoje, a pequenos atos de renúncia do nosso eu e de nossa forte vontade, firmando, com genuinidade, nossa busca pelo altar. Matthew Henry resumiu isso declarando que a primeira lição na escola de Cristo é a abnegação.

PROCLAMAÇÃO:

O segundo privilégio advindo da salvação é a proclamação. Proclamar é anunciar em público e em alta voz, afirmando, com ênfase, a mensagem que levamos. Jesus é nossa verdade plena, absoluta e eficaz! Quando encontramos o altar, a rendição nos convida, e a proclamação torna-se nossa missão.

Vamos esbarrar aqui em alguns aspectos práticos:

-Faz-se necessário conscientizar-se da missão! A maioria dos cristãos desconhece a razão de permanecerem nesta Terra, sendo conduzidos a uma adaptação sutil ao seu estilo, conduta, valores e princípios. A saudade de casa vai-se exaurindo, e a identidade peregrina é comprometida. Enquanto o coração é roubado, a missão, por muitos ignorada, deixa de ser cumprida. É vital que encontremos nossa missão em Deus e façamos dela o nosso encargo. De forma inteligente, Richard Bach leva-nos a uma reflexão: “Eis um teste para saber se você terminou sua missão na Terra: se você está vivo, é porque não a terminou!”

-Devemos ter coerência entre o que proclamamos e o que procuramos viver. Campbell Morgan disse que o homem que prega a cruz precisa ser um crucificado! Esse é o diferencial na mensagem.

-Nossa visão precisa ser ampliada; precisamos ser conduzidos pelo Espírito Santo além dos prédios, das casas, da geografia, das diferentes culturas e línguas. Onde houver um suspiro de morte, a chama do amor pelo Calvário deve ser anunciada com paixão.

-Aquele que proclama precisa estar encharcado de compaixão. O grito dos milhares que morrem a cada dia, sem conhecer o fruto do altar no Calvário, deve tirar-nos o sono, sacudir-nos o bolso e colocar-nos de joelhos.

-E, por fim, a proclamação deve ser praticada com um senso de urgência! Nesse caso, precisamos divorciar-nos da procrastinação. Lutero tinha um ponto de vista sobre isso que deve permear nosso conceito: “Prego como se Cristo tivesse sido crucificado ontem, ressuscitado dos mortos hoje e estivesse voltando amanhã”.

O altar do holocausto deve traspassar nossa mente, cativar nosso coração e mover nossos pés!

Busque-o; ele está disponível a você.


[1]Estimado por alguns pesquisadores em mais de 45 milhões.

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