Notícias: Uma Visão Missionária do Oriente

Data de publicação: 14/09/2011
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Edição 35 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 35

Por Tim Stafford e Paul Hattaway

O movimento De Volta a Jerusalém começou na China na década de 1920, foi obrigado a permanecer na clandestinidade durante décadas e agora está se preparando para enviar 100.000 missionários a 51 nações. Os críticos que vêem iniciativas missionárias como fruto do imperialismo ocidental terão seus conceitos desafiados por esse movimento de cristãos chineses que pretende redescobrir as primeiras raízes missionárias do cristianismo.

Evangelizando Judeus?

O nome do movimento obviamente leva muita gente a pensar que se trata de evangelizar Jerusalém, ou Israel. Mas não é nada disso. O que os chineses estão dizendo com De Volta a Jerusalém refere-se em primeiro lugar ao padrão histórico do avanço geográfico do Evangelho, que começou em Jerusalém e espalhou-se em seguida numa direção quase sempre ocidental, para o norte da África e Europa. Esta direção ocidental se manteve ao longo da história, chegando às Américas e, finalmente, à China como sua última fronteira.

Na sua perspectiva chinesa, eles entendem que o cumprimento total da Grande Comissão significa fechar todo o círculo do globo com o Evangelho, voltando ao lugar onde começou. Sua finalidade não é alcançar Jerusalém, ou Israel, mas todos os países e grupos étnicos ainda não alcançados entre a China e Jerusalém. Ao longo da antiga Rota da Seda, que no passado trouxe o comércio do Oriente Médio para a China, existem aproximadamente 5.200 grupos étnicos e tribos ainda não alcançados.

Como começou?

A visão remonta ao final da década de 1920, quando formou-se na China um grupo chamado Família de Jesus. Eles viviam como a igreja descrita em Atos 2, colocando todas suas posses à disposição da comunidade e pregando o evangelho à medida que viajavam de uma aldeia a outra. Enfrentavam brutal oposição. Muitas vezes era a “escória” da sociedade que cria em Jesus, os aleijados, os cegos e os mendigos. Aldeias inteiras saíam em seu encalço e atiravam-lhes pedras, frutas e legumes podres.

Foi esse grupo, ou uma reminiscência dele, o primeiro a acreditar que Deus estava lhes dizendo para caminhar sempre na direção de Jerusalém, pregando o evangelho e fundando igrejas em cada vilarejo ou grupo étnico por onde passassem. Mas nunca puderam ver essa visão chegar à maturidade. Um pequeno grupo de missionários chineses chegou à fronteira do seu país. Porém, logo depois a visão morreu e ficou durante muito tempo inativa, desde o início da década de 1950 até o final da década de 1980.

E quando ressurgiu?

Um dos grandes catalisadores originais foi um homem chamado Simon Zhao. Era um dos líderes do movimento De Volta a Jerusalém entre fins da década de 1940 e início da seguinte, mas foi preso junto com outros líderes quando os comunistas tomaram o poder naquela parte da China. Ele foi condenado a 40 anos de prisão.

Sua história é muito comovente (aguarde relato da sua vida em futura edição da Revista Impacto). Sua esposa estava grávida – eles tinham pouco tempo de casados. Ela também foi presa e sofreu um aborto na prisão. Morreu poucos anos depois, e ele nunca mais a viu. Simon Zhao contou que muitas noites, no campo de trabalho, ele olhava em direção ao ocidente, no rumo de Jerusalém, e dizia: “Deus, a visão que nos deste morreu, mas eu te peço que suscites uma nova geração de crentes chineses para cumpri-la”.

Simon Zhao saiu da prisão em 1983, sem dinheiro, sem família. Não conhecia mais nenhum cristão. As pessoas tinham se esquecido dele. Passou a viver perto do campo de trabalho, numa barraca de lona, porque não tinha dinheiro, nem para onde ir. Logo, porém, os crentes ouviram falar de sua história, chamaram-no de volta e pediram para partilhar sua visão. Deus usou seu ministério para levantar essa nova geração. Veio a falecer no ano passado.

Qualificações da igreja na China para o trabalho missionário

Mais importante que a quantidade de missionários é a qualidade. O tipo de cristianismo que Deus implantou nos crentes chineses permite-lhes ministrar para o mundo islâmico, o hindu e o budista de uma forma que a maioria dos outros crentes não consegue.

É de conhecimento geral que a perseguição da igreja continua na China até hoje. Atualmente há centenas de pastores na prisão. Mesmo assim, eles não encaram essa repressão como um mero ataque satânico, quando são torturados e jogados na prisão. Consideram como treinamento dado por Deus, uma fornalha de Deus para purificá-los e torná-los testemunhas eficazes. Os chineses têm condições de enviar obreiros que estiveram tanto tempo nessa fornalha que estão dispostos a literalmente dar suas vidas pelo evangelho.

Os crentes chineses não estão desinformados. Sabem que quando forem para países islâmicos e de outras religiões, terão de derramar o próprio sangue por causa do evangelho.

Um dos líderes da igreja chinesa nos lares, o irmão Yun, acredita que na primeira década desse movimento pode haver até 10.000 mártires por Cristo. Uma parte do treinamento dos novos obreiros inclui temas do tipo como testemunhar do Senhor sob quaisquer circunstâncias, o que significa mesmo que estiver algemado, sendo levado para a execução.

Inclui também ensinar as pessoas como abrir algemas e como pular de um prédio de dois andares sem fraturar o tornozelo na fuga. Os chineses acreditam que, às vezes, Deus os envia à prisão para levar a Palavra aos presos. Outras vezes, o diabo os quer presos para impedir seu ministério, de forma que têm de discernir em cada aprisionamento a vontade de Deus para eles.

Por que 100.000 missionários?

Esse total de 100.000, na verdade, surgiu numa reunião de líderes da igreja em que oraram para que Deus esclarecesse que tipo de envolvimento ele desejava para cada um de seus grupos. Sentiram então que deveriam oferecer o dízimo (10%) de todos os obreiros em tempo integral que já tinham. Como calcularam que havia cerca de um milhão de pastores e evangelistas em tempo integral, chegaram a este número de 100.000 obreiros.

A visão está apenas no começo. Os últimos números disponíveis mostram que pouco menos de 1.500 missionários transculturais já deixaram a China. Mas é um pouco difícil saber o número exato, porque muitos saem e depois voltam. Visitam os países vizinhos durante seis meses e depois retornam à China.

Estrutura de suporte

Existem seis ou sete grandes redes de igrejas em lares que dão apoio a esse ministério. Há milhões de crentes em cada uma dessas redes. Estes são os grupos que estão trabalhando para enviar obreiros para realizar essa visão.

Entretanto, pelo que se pode ver, não existe nenhum plano estruturado para apoiar financeiramente a esses obreiros. Com toda certeza, não estão procurando ajuda do Ocidente. Estão buscando a mão de Deus. Mas não têm costume de planejar estratégias financeiras, como fazemos no Ocidente. Acreditam que, se foram chamados por Deus para ir a algum lugar, o próprio Deus proverá. E ele provê.

Muitos vão e arranjam emprego. Não encaram isso como nenhum obstáculo ao seu ministério. Na verdade, até facilita a obtenção de vistos e permite a permanência no país. O governo chinês está muito interessado em promover o desenvolvimento econômico, de forma que é praticamente impossível para as autoridades determinar quem está deixando a China como missionário cristão e quem está saindo com interesses comerciais.

Problemas étnicos para o trabalho missionário transcultural

Um dos maiores obstáculos para realizar a visão são as tensões étnicas. Muitos diziam, por exemplo, que os chineses jamais conseguiriam chegar aos tibetanos. Mas já provaram o contrário. Se o crente chinês han for realmente humilde e quebrantado, pode na verdade ser uma poderosa testemunha do Senhor, apesar de ser representante da etnia vista como opressora. Vários representantes da etnia han já penetraram em áreas do Tibete e agora já existe uma igreja tibetana nos lares. Os tibetanos vêem nesses crentes um amor e uma longanimidade como jamais viram em alguém do grupo étnico han.

Isto não acontece automaticamente. Muitos estão aprendendo à medida que caminham – infelizmente com seus próprios erros. Sem dúvida, há aqueles que são do tipo oba-oba, que pensam que tudo será fácil e acabam aprendendo que não é bem assim. São forçados a reexaminar o que está acontecendo e a ver o que é preciso fazer para tornar-se um ministro eficiente.

Sinais e milagres no trabalho missionário

Os cristãos chineses não centralizam sua pregação em milagres, nem os consideram imprescindíveis para o trabalho missionário, mas os vêem como uma conseqüência natural de sua pregação do evangelho. Seu enfoque é proclamar a Palavra aos perdidos. E quando a proclamam, o Senhor freqüentemente confirma seu trabalho com milagres.

Para eles, os milagres não se destinam aos membros da igreja, mas aos de fora que carecem de fé. Um dos irmãos chineses já foi muitas vezes indagado: “Por que não vemos milagres no ocidente como estes que acontecem na China?” No início, não sabia o que dizer, mas agora tem uma resposta, que é, na verdade, uma outra pergunta: “Vocês estão realmente proclamando o evangelho à humanidade perdida neste mundo?”

É somente na convivência com estes crentes chineses que se pode ver que alcançar os perdidos é a força predominante que motiva seu ministério. Muitos evangelistas das áreas rurais cumprimentam-se com a pergunta: “Quantas pessoas você levou para Jesus hoje?” – não nos últimos seis ou doze meses, mas hoje!

Traduzido e adaptado de artigo publicado no periódico cristão Christianity Today (www.cristianitytoday.org) . Tim Stafford, redator sênior da revista, entrevistou Paul Hattaway, um neozelandês que trabalha na Ásia e que mantém amplas relações com líderes das igrejas chinesas. Paul também é autor, juntamente com três líderes de redes de igrejas chinesas nos lares, de Back to Jerusalem: Called to Complete the Great Commission (De Volta a Jerusalém: Chamado para Completar a Grande Comissão).
Para maiores informações, visite o website: www.BacktoJerusalem.com

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