Necessidades Desnecessárias

Data de publicação: 21/08/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 45 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 45

Por Richard J. Foster

A cultura contemporânea é atormentada pela paixão de possuir. Está sempre presente a idéia de que uma boa vida é encontrada no acúmulo de bens materiais. Em geral, aceitamos essa idéia sem questionar, e o resultado é que o desejo fervente de afluência na sociedade tornou-se psicótico: perdeu completamente o contato com a realidade.

Ademais, o ritmo do mundo moderno acentua o nosso sentimento de fratura e fragmentação. Sentimo-nos tensos e apressados.

A simplicidade nos liberta dessa mania moderna, trazendo sanidade à nossa extravagância compulsiva e paz ao nosso espírito frenético. Ela nos permite ver as coisas como são – bens para embelezar a vida, não para oprimi-la. As pessoas podem tornar-se, novamente, mais importantes do que os bens materiais.

A Estratégia Maléfica

O plano da mídia é o de “inflamar nosso desejo de querer sempre ter mais”. É importante atentar para a maneira como os serviços de comunicação procuram enredar sua presa: eles são insistentes e, por veicularem muitas vezes a mesma propaganda, acabam conquistando espaço em nossas mentes, fazendo-nos crer que não vivemos sem muitas coisas. Preste bastante atenção à representação abaixo, exemplo de como progressivamente a mente vai sendo capturada:

Isto é extravagante –> Seria bom ter isto –> Realmente eu preciso disto –> Eu tenho de ter isto.

A televisão nos diz que as coisas mais idiotas nos farão loucamente felizes. Pode bem ser que elas nos deixem loucos, mas é genuinamente duvidoso que realmente nos tornem felizes. Os propagandistas famosos estão trabalhando dia e noite para nos fazer encaixar em sua forma. Eles se lançaram a um empenho conjunto de capturar nossas mentes e as mentes de nossos filhos.

Somos enganados, logrados, persuadidos. Contudo, isso é feito de maneiras tão sutis que nem percebemos o que aconteceu. Pensamos que somos sábios porque conseguimos enxergar facilmente a lógica infantil dos anúncios. Mas quem escreveu os anúncios nunca tencionou que acreditássemos nesses anúncios bobos, apenas desejássemos o produto que anunciam. E acabamos comprando porque os anúncios atingem seu alvo de inflamar nosso desejo.

Mais diabólico e manipulativo, ainda, é a maneira pela qual a mesma companhia fabrica produtos rivais. Elas sabem que os consumidores sentem que têm poder se houver escolha, e esse sentimento de poder os levará a comprar, comprar, comprar. Amamos o poder de nos recusar a comprar uma marca de detergente com seus estúpidos cristais branqueadores, e, em vez dele, escolhemos outro. A escolha, contudo, não foi realmente escolha alguma, visto ambas as marcas serem fabricadas pela mesma companhia e serem basicamente a mesma de qualquer forma.

A aparente competição acirrada é, em geral, nada mais do que uma guerra falsa para nos fazer pensar que estamos comprando algo melhor. A intenção da propaganda não é a de persuadir o espectador a comprar uma marca particular disso ou daquilo, mas de criar a disposição de consumir. Aparelhos mais luxuosos, sofás mais confortáveis, carros mais famosos, mais…mais…mais. O alvo é aumentar o desejo!

Como Reagir

Mas o que fazer? Aqui estão algumas sugestões.

1. Junte-se à revolta jubilosa e feliz contra a máquina da propaganda moderna.

2. Quando for tomada a decisão de obter um item em particular, apresente-o a Deus em oração por talvez uma semana. Isso permite esperarmos em Deus e põe um fim às compras por impulso.

3. Faça recreação saudável, feliz e livre de aparelhos.

4. Aprenda a comer sensata e sensivelmente. Plante uma horta, mesmo que consista apenas de potinhos no beiral da janela. Coma menos vezes fora.

5. Conheça a diferença entre viagens significativas e viagens desnecessárias. Quando Albert Schweitzer visitou os Estados Unidos, os jornalistas lhe perguntaram porque viajava de terceira classe no trem. Respondeu ele: “Porque não há uma quarta classe!”

6. Compre coisas por sua utilidade e não por seu status. Sua casa deve servir para ser habitada e não impressionar os outros. Compre somente as roupas de que precisa – pare de tentar impressionar as pessoas com suas roupas e impressione-as com sua vida. Quanto aos móveis – sua mobília deve refletir você, não alguma vitrina formal.

7. Enfatize a qualidade de vida acima da quantidade de vida.

a) Cultive a solidão e o silêncio. Aprenda a meditar, a ouvir-se e a ouvir Deus.

b) Desenvolva amizades íntimas e desfrute longas noites em conversa séria e hilariante. Essas ocasiões são muito mais valiosas do que todo o entretenimento plástico que o mundo comercial tenta nos vender.

c) Valorize a música, a arte, os livros, os passeios significativos. Se você não tem tempo para ler, é sinal que anda ocupado demais.

d) Descubra a oração como um entretenimento vespertino.

e) Aprenda a verdade de que aumentar a qualidade da vida significa diminuir o desejo material.

f) Dê as costas a todas as situações competitivas de alta pressão que fazem da subida profissional seu principal enfoque.

g) Nunca coloque a felicidade no palco principal da vida.

Ao lutarmos para saber o que fazer em cada situação, faríamos bem em manter diante de nós a observação astuta de Mark Twain: “A civilização é uma multiplicação ilimitada de necessidades desnecessárias.”

Extraído e adaptado de “Celebração da Simplicidade”, Richard Foster; direitos autorais pertencentes à Editora Hagnos, edição atualmente esgotada. Richard Foster, autor e conferencista, tem raízes entre os quacres (Quakers), com os quais mantém ligações até o presente. É fundador de “Renovare”, uma organização dirigida ao desenvolvimento e crescimento da vida espiritual entre os cristãos de todas as igrejas (www.renovare.org).

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