Navegação em Linhas Tortas

Data de publicação: 09/04/2013
Categorias da Biblioteca:
Edição 74 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 74

Por: Bob Mumford

Uma boa maneira de ilustrar a jornada do povo de Deus através da História é imaginar o caminho de um navio “no meio do mar” (Pv 30.19). Como a Igreja de Jesus Cristo na Terra, precisamos avançar, tanto individual quanto coletivamente, em direção ao alvo estabelecido para nós pelo Pai.

Individualmente, nosso alvo é ser conformado à imagem de Jesus Cristo. Coletivamente, nosso alvo é ser a imagem de Cristo como comunidade redimida, declarando a excelência e a natureza dele em toda a Terra.

A difícil arte de navegar em barco a vela

Existe algo na dinâmica entre a revelação progressiva do plano (propósito, vontade, desígnio) de Deus (conforme Atos 20.27) e a capacidade humana de aplicá-la que parece tornar impossível para nós abraçar a totalidade da revelação de uma só vez. Por isso, precisamos aprender a “navegar à bolina” ou “velejar a contravento”, à semelhança de um barco a vela.

Diante de todos os ventos contrários que vêm da sociedade, dos principados das trevas e de opiniões humanas independentes (Ef 4.14), não é fácil navegar em linha reta para o alvo que Deus estabeleceu. Desde os tempos antigos, os marinheiros aprenderam a navegar rumo ao alvo desejado com simples barcos a vela, mesmo enfrentando ventos contrários. Como é impossível ir diretamente de encontro ao vento, eles apontavam o barco num ângulo de 45 graus à direita do alvo e da direção do vento. Depois de manter a embarcação por um tempo nesse ângulo, eles mudavam de rumo para um ângulo de 45 graus, dessa vez para a esquerda da linha do vento. Assim, num movimento de ziguezague, usando a interação entre barco, água e vento, conseguiam avançar para a direção que queriam. Demorava mais do que navegar em linha reta, mas era a única maneira de usar o próprio vento contrário para impulsioná-los na direção certa.

Se pensarmos na História como um todo e, especialmente, nos acontecimentos e influências das últimas décadas, poderemos notar como a direção da Igreja tem mudado, de fato, de tempos em tempos. Os timoneiros (líderes, profetas, guias) do povo de Deus precisam de muita habilidade, tanto no discernimento de mudanças nos ventos quanto na capacidade de alterar adequadamente o curso do barco, para chegar ao alvo desejado. Para isso, às vezes torna-se necessário direcionar o barco um pouco fora do centro, de um lado, para depois direcioná-lo fora do centro, do outro lado, a fim de dar o equilíbrio e avançar para o alvo de Deus.

Frequentemente, a restauração de uma verdade ou prática esquecida vem acompanhada de certos exageros e desequilíbrios. É que o barco está navegando num ângulo um pouco fora do centro para conseguir avançar contra o vento. Porém, logo depois, é preciso corrigir o curso e ir rumo à outra direção, ou seja, buscar uma revelação que dê o contraponto da ênfase anterior.

Por exemplo, nas décadas de 1950 e 1960, Deus levantou grandes ministérios de cura e evangelismo e derramou o Espírito sobre quase todas as denominações cristãs tradicionais. Foi maravilhoso, mas, com a manifestação de dons e poder sobrenatural, vieram também imaturidade, falta de santidade, motivação errada e superficialidade na Palavra. Nas décadas seguintes, houve uma correção de curso: ênfase forte no ministério de ensino e na implantação de discipulado que trouxe equilíbrio e maturidade ao mover do Espírito.

Nem todos, porém, acompanharam a mudança de rumo. Aqueles que insistiram em manter a direção anterior acabaram caindo em extremos e problemas sérios. Houve contaminação, escândalos e muita desilusão. O que aconteceu? O mover do Espírito havia sido genuíno inicialmente. Algum tempo depois, porém, Deus mudou o foco a fim de introduzir outro aspecto importante da verdade. Quem não acompanhou a mudança parou de avançar para o alvo. Ainda que seja em movimento de ziguezague, precisamos mudar de acordo com o Espírito; senão, perderemos o rumo verdadeiro.

Por que precisamos mudar tanto de direção?

Mudanças não são agradáveis. Quando o barco começa a mudar de direção para entrar na próxima fase do ziguezague, ele se expõe a circunstâncias perigosas. Para sair do ângulo à esquerda e passar para o ângulo à direita, é preciso passar pelo centro, exatamente onde o vento contrário exerce toda a sua força. As velas ficam soltas, o barco não consegue avançar e ainda corre o risco de ser arrastado para trás. Algumas coisas que aprendemos enquanto navegávamos no ângulo anterior parecem não funcionar mais, e nos sentimos incapazes, impotentes e ignorantes em relação à nova direção.

Poucas pessoas gostam de mudanças. Quando se está acostumado com o jeito antigo de fazer as coisas, é muito mais confortável continuar agindo da mesma forma.

Contudo, grande parte do objetivo de Deus ao conduzir-nos por mudanças de curso é eliminar tudo o que é carnal e inaproveitável para o Reino. Ele pretende queimar toda a palha que há em nós. E cada vez que somos obrigados a mudar a forma habitual de fazer as coisas e abandonar as revelações particulares e o ambiente espiritual confortável, parte da nossa natureza carnal morre.

Todos nós já tivemos (ou ainda temos) a seguinte atitude em relação a irmãos de outras igrejas ou movimentos: “Quando realmente acordarem para a verdade, eles vão entender que precisam fazer as coisas do nosso jeito”. Porém, cada vez que passamos por uma mudança de curso, um pouco dessa atitude morre, e somos mais capacitados a aceitar esses irmãos pelo que Deus depositou neles, ao invés de exigir que se conformem ao nosso padrão.

Perder o momento de Deus para mudar, seja como grupo, seja como indivíduo, traz sérias consequências. Ficar fora do mover de Deus torna as pessoas secas e sem vida, e, dentro de algum tempo, elas começarão a dar ênfase a regras, estruturas, partidarismo e ativismo religioso. Nada é mais cruel e sufocante do que uma religião que perdeu o propósito de Deus e está fora de sintonia com o Espírito Santo. Ao invés de cultivar o verdadeiro relacionamento ágape com Deus e os outros, passa a enfatizar princípios em detrimento das pessoas, ordem em detrimento da criatividade do Espírito e organização em detrimento da soberania de Deus.

Quando devemos preparar-nos para mudanças?

Como podemos saber que Deus está querendo alterar o rumo da nossa vida, congregação ou comunhão? A seguir, alguns sintomas que podem apontar para isso.

  1. Insatisfação e frustração. Na realidade, esses sinais são muito positivos. Mostram insatisfação com o lugar em que estamos. Demonstram que não estamos fazendo o que deveríamos fazer. Pessoas insatisfeitas e frustradas normalmente estão mais abertas às mudanças que Deus quer trazer.
  2. Um senso de resistência divina. É uma percepção de que não estamos acompanhando os passos do Espírito Santo. “Andar no Espírito” é estar no mesmo “compasso”, no mesmo ritmo que ele. Não percebemos mais o toque sobrenatural da direção de Deus, não há fluir de vida, mas sim uma sensação de que Deus está barrando o nosso progresso.
  3. Sentir-se ameaçado pelo mover de Deus em outros lugares. Se Deus está agindo de modo diferente em outros lugares, se não consigo fluir com o que ele está fazendo hoje, será que “perdi o bonde”? É hora de me abrir com humildade e ver se não estou resistindo ou ignorando o mover atual do Espírito na Terra.
  4. Cansaço e falta de motivação. Aquilo que antes nos motivava e trazia renovação e a presença de Deus agora parece não ter mais vida. Sentimos cansaço ao seguir a rotina de sempre. Falta entusiasmo, vida, fruto. É hora de perguntar se a nuvem que mostra que é hora de levantar acampamento já está lá na frente, e nem percebemos.

Quem não quer mudança encara a vida de maneira fixa e mecânica. Com isso, consegue obter certo senso de segurança, mas nunca é capaz de prosseguir para a maturidade.

O profeta Jeremias descreve a condição de um povo que não aceitou mudanças: “Despreocupado esteve Moabe desde a sua mocidade, e tem repousado nas fezes [resíduos] do seu vinho; não foi mudado de vasilha para vasilha, nem foi para o cativeiro; por isso, conservou o seu sabor, e o seu aroma não se alterou” (Jr 48.11).

O fato de estar despreocupado ou tranquilo, repousando na mesma posição, recusando ou ignorando as mudanças (como vinho que é transferido de vasilha a vasilha) fez Moabe permanecer inalterado (conservou o próprio sabor), sem purificação ou progresso espiritual.

Mudança, conforme planejada por nosso Criador, é o processo inevitável que serve para deslocar-nos do lugar em que estamos para o lugar ao qual ele deseja nos conduzir. O Todo-poderoso está caminhando inexoravelmente em direção a um ponto na História determinado por ele. A nossa responsabilidade é perceber onde ele está e acompanhá-lo.

Este artigo foi traduzido e adaptado de um livreto de Bob Mumford, intitulado It Came to Pass (algo como “Veio para Mudar”, usando uma espécie de sentido duplo da expressão), publicado pelo ministério Lifechangers, de Cookeville, TN, EUA. Informações sobre o ministério de Bob e Eric Mumford no site www.lifechangers.org. Bob Mumford é autor do livro A Patrola de Deus e dos livretos Correção, Não Rejeição e Abaixo da Linha de Fundo, entre outros, que podem ser adquiridos no site www.revistaimpacto.com.br/loja.

Uma resposta para “Navegação em Linhas Tortas”

  1. maria lucia nobrega de lima disse:

    Olá queridos irmãos,
    tenho a satisfação, e, quase obrigação de dizer-lhes que sempre fui edificada com os conteúdos dos materiais impressos que já recebi gratuitamente em minha casa.Sempre releio os artigos (como estudo) e fico maravilhada com a renovação que a palavra de Deus nos proporciona.
    Só hoje tive a oportunidade de, por esse meio, ter contato novamente com voçês por que não mais tenho recebido esse material em casa.
    Que Deus em cristo vos abençoe e continue direcionando, dando inspiração de temas que precisamos para sermos alertados nesse “tempo trabalhoso” no qual vivemos.
    A PAZ DO SENHOR !!!

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