Mudando a Cosmovisão das Pessoas

Data de publicação: 28/08/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 43 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 43

Por Christopher Walker

Todas as pessoas, cultas ou iletradas, pensadoras ou pragmáticas, profundas ou superficiais, têm uma visão de mundo que determina sua forma de pensar e, conseqüentemente, as suas decisões e rumos na vida. A igreja não está influenciando muito o mundo atualmente porque o mundo é que está influenciando a igreja. As pesquisas têm demonstrado que os cristãos agem de forma semelhante aos não-cristãos porque pensam de forma semelhante (veja matéria nesta edição: Cosmovisão Bíblica). Aceitamos o dom de salvação que Jesus oferece, mas continuamos agindo como antes porque não mudamos a nossa maneira de pensar.

De onde adquirimos nossa cosmovisão? A maioria das pessoas não sabe nem o que é cosmovisão e, conseqüentemente, nunca dedica tempo ou esforço consciente para desenvolver, compreender ou modificar sua visão e conformá-la ao pensamento de Jesus. É como a formação de hábitos: se você não se disciplinar para formar hábitos positivos, ficará apenas com os hábitos “default”, produzidos automaticamente por nossa natureza caída.

A cosmovisão é formada inconscientemente da mesma maneira: através dos valores e modos de pensar da cultura à nossa volta, começando com o ambiente familiar, mas com fortes influências da mídia (especialmente da televisão), de astros e atores populares e de professores e colegas nas escolas. É um testemunho lastimável à ineficácia da igreja o fato de que a influência cristã nesse processo de formação de cosmovisão seja tão despercebida e ausente, mesmo naqueles que mais assiduamente a freqüentam.

Há uma pesquisa do Grupo Barna (instituto de pesquisa sediado em Ventura na Califórnia, EUA) que mostra a importância dos pais, professores cristãos e pastores darem atenção especial a esse fato nos primeiros anos de vida dos filhos e crianças sob seus cuidados. De acordo com suas descobertas, o desenvolvimento dos valores morais de uma pessoa é praticamente completado até os nove anos de idade, e o conjunto de convicções e princípios que a pessoa terá no final da sua vida é adquirido até os treze anos de idade. É lógico que há esperança para mudanças naqueles que formaram uma visão errada, mas é mais difícil e mais raro. Por isso a Escritura diz: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele” (Pv 22.6).

Veja, por exemplo, o contraste entre o que os alunos aprendem nas escolas, de modo geral, e o que deveriam aprender num lar cristão e na igreja:

COSMOVISÃO SECULAR – ENSINADA NAS ESCOLAS:

Quem sou eu?
Sou um ser humano, um mamífero mais evoluído que os outros animais, que surgiu por um processo aleatório, acidental, sem qualquer causa superior ou razão superior para minha vida.
Onde estou?
Estou na Terra, um planeta do sistema solar, que faz parte de um universo que surgiu também por acaso. O acidente que deu origem ao universo chama-se Big Bang.
Qual o maior objetivo da vida?
Procurar a felicidade, o bem-estar e a realização pessoais (geralmente interpretados em termos de posses materiais e experiências de satisfação pessoal), sem prejudicar os direitos dos outros e tentando de alguma forma deixar o mundo melhor.
O que está errado?
Falta de educação que gera falta de dinheiro, miséria, frustração, conflitos e guerras.
Como consertar isso?
Através de melhorar a educação e levá-la a mais pessoas. Se o homem se esforçar, poderá eliminar doenças, preconceitos, radicalismos e conflitos por meio de educação, tecnologia, democracia e diplomacia.

COSMOVISÃO BÍBLICA:

Quem sou eu?
Sou um ser humano, criado intencionalmente por um Deus infinito e pessoal, à sua imagem, de forma maravilhosa e sobrenatural, com um propósito especial nesta Terra.
Onde estou?
Estou na Terra, um planeta criado por Deus e disposto de forma tão maravilhosa e perfeita que se houvesse mudança em sua distância do sol ou em sua inclinação, mínima que fosse, não haveria condições de vida.
Qual o maior objetivo da vida?
Buscar a total restauração da ligação entre o homem e Deus, que é a única possibilidade do homem realizar o fim para o qual foi criado e encontrar a verdadeira felicidade e realização pessoal.
O que está errado?
O pecado, que separou o homem de Deus e trouxe múltiplos e desastrosos efeitos sobre a humanidade e sobre toda a criação. O homem é intrinsecamente egoísta, orgulhoso e independente.
Como consertar isso?
Mudando o coração do homem pela conversão, buscando em primeiro lugar o Reino de Deus, que é a única forma de restaurar o que foi quebrado através do pecado. O homem poderá aumentar seu conhecimento, sua capacidade tecnológica, seus recursos financeiros e sua habilidade de governo e administração, mas nunca conseguirá distribuir renda, eliminar a miséria, as doenças ou achar a felicidade sem se voltar ao relacionamento com Deus.

O problema é que na própria igreja nem sempre o contraste entre uma visão bíblica e a visão secular ou humanista é muito claro. Não é uma questão de necessariamente usar o termo cosmovisão. É que o propósito de Deus na criação e na redenção não é ensinado. Por mais que os cristãos freqüentem a igreja e participem de campanhas, seus alvos e formas de ver a vida não mudaram essencialmente em relação às pessoas do mundo em geral. Na verdade, acabam adotando uma visão híbrida e contraditória, pois afirmam que Deus criou o mundo e o ser humano, mas desconhecem o propósito por trás disso. Vivem em função de alvos pessoais e imediatistas, como se posses, bens materiais e satisfação pessoal fossem as únicas coisas de valor. A única diferença é que agora possuem um grande aliado para ajudá-los a atingir seus alvos: o próprio Deus.

A influência das filosofias e cosmovisões da cultura moderna atinge a igreja de duas formas. Na primeira, elas misturam-se imperceptivelmente no modo de pensar da igreja, fazendo com que as pessoas vivam um cristianismo totalmente desvirtuado de sua real essência e objetivo. A segunda dá-se através do dualismo, um sistema bipartido no qual a pessoa tenta viver de acordo com duas cosmovisões, uma na igreja e outra na vida secular. É como se adotasse a visão bíblica para viver na igreja, numa espécie de compartimento religioso da sua vida, enquanto mantém outros padrões e formas de pensar para sua vida secular. É uma aceitação implícita de que é impossível viver no mundo segundo os princípios do Reino de Deus. Quem está no comércio precisa sujeitar-se às regras do comércio, quem está na política, às regras da política, e assim por diante. Em ambos os casos, o resultado é uma vida cristã prática sem distinção essencial das demais pessoas que não conhecem a Jesus.

O Que Fazer?

Não existe uma fórmula mágica para mudar esse quadro. É mais fácil apontar as coisas que não funcionam, porque já foram experimentadas, ou porque fazem parte do nosso contexto atual com todas essas falhas que estamos destacando. Uma estratégia que é claramente deficiente para mudar o quadro atual é a pregação da Palavra nos cultos públicos. Algumas igrejas têm pregações mais consistentes e bíblicas que outras. A regação tem um papel importantíssimo no culto e na vida da igreja. Entretanto, não é um instrumento eficaz para mudar a visão cultural e contemporânea que domina os cristãos nem para lançar uma cosmovisão bíblica. Mesmo que o conteúdo dos sermões fosse reforçado, mesmo que se desse mais espaço para a pregação nos cultos, temos uma abundância de evidências de que isso não seria suficiente para trazer uma mudança fundamental.

A geração de uma cosmovisão numa vida em formação depende de algo sistemático e contínuo, que ocorre naturalmente em dois tipos de ambiente: no lar e na escola.

Uma das grandes causas atuais do enfraquecimento de uma cosmovisão cristã é o desmoronamento dos lares. A função de transmitir visão na família cabe principalmente ao pai, embora a mãe tenha uma participação muito valiosa e, em alguns casos, seja obrigada a desempenhar essa função sozinha. Diante das pressões da vida moderna, os pais precisam tomar medidas enérgicas, desligar a televisão, ordenar as atividades da semana, sacrificar certas prioridades secundárias para poder reunir a família e fazer o culto doméstico. Porém, precisam fazer muito mais do que uma leitura mecânica ou formal da Bíblia; precisa haver espaço para conversar sobre a vida dos filhos, comentar sobre acontecimentos atuais, participar da vida escolar, assistir a programas e filmes e ler livros com a família, ajudando-a a tirar conclusões sobre os princípios implícitos ou explícitos encontrados e a entender as diferentes filosofias e idéias da nossa cultura atual. Não é também através de usar chavões (“Isso é do diabo!” ou “Aquela é uma filosofia satânica!”) que vamos convencê-los. Dar opiniões fortes sem explicações lógicas pode protegê-los por um tempo, mas assim que começarem a buscar respostas satisfatórias, se não aprenderam o caminho, se não foram ensinados a pensar, logo deixarão os chavões por algo mais convincente.

Hoje, por falta de ambientes familiares mais sólidos, as escolas são mais responsáveis pela cosmovisão dos jovens do que os lares ou as igrejas. As crianças e adolescentes passam muito mais tempo nas salas de aula e interagem muito mais com colegas e professores do que com seus pais, famílias ou irmãos na fé. Mas isso pode mudar se os pais entenderem que vale muito mais a pena investir tempo em conviver e interagir com os filhos do que em trabalhar além do horário para oferecer-lhes maiores benefícios econômicos, ou mesmo do que em participar de múltiplas funções e ministérios na igreja, deixando os filhos por conta da televisão ou do computador.

Poucas pessoas têm a oportunidade de mandar os filhos para uma escola cristã, mas esse é um outro instrumento muito eficaz na formação da verdadeira cosmovisão bíblica. Porém, é preciso distinguir entre escolas que têm o nome de escola cristã porque possuem administração e corpo docente cristãos, fazem orações e deixam de celebrar festividades pagãs, e escolas que realmente fazem questão de ensinar os alunos a pensar e a desenvolver uma cosmovisão bíblica e coerente. Existe atualmente um movimento crescente de escolas cristãs que estão investindo em formação de professores e de currículos para criar uma estrutura eficaz para combater o domínio da visão cultural atual sobre a nova geração. (Colocar telefone ou contato com Escola Cristã de Jundiaí, etc.)

O Papel da Igreja

E as igrejas? O que podem fazer? Além de fortalecer as famílias e as escolas cristãs, quando possível, as igrejas precisam dedicar tempo, espaço, recursos e pessoas para levantar um ministério de ensino coerente e eficaz. Não é um trabalho de curto prazo, um curso relâmpago de três meses ou de um ano que efetuará essa mudança. As Escolas Dominicais, quando não deixam de existir, estão cada vez mais vazias. Quando funcionam, não ensinam o plano de Deus através da Bíblia de forma sistemática e consecutiva. Geralmente a Bíblia é pregada ou ensinada de forma fragmentada e avulsa, sem qualquer sentido de totalidade para entender o plano progressivo de Deus através da história.

A falta de material didático é simplesmente chocante. Há algum tempo, vasculhando em distribuidoras, livrarias e editoras, não encontrei quase nada para ensino sistemático da Bíblia em classes bíblicas. Existem materiais sobre tópicos os mais diversos possíveis, menos para um estudo focalizado no pensamento de Deus na Bíblia.

Qualquer estratégia séria para lançar fundamentos sólidos na igreja deverá incluir os seguintes elementos:

• Estudo da Bíblia como um todo, não apenas de partes, nem do Novo Testamento apenas, mas de todo o plano de Deus (de acordo com George Barna, as igrejas que são mais eficazes no desenvolvimento de uma cosmovisão bíblica são aquelas que tratam a Palavra de Deus como um conjunto unificado de instrução, conhecimento e direção, como uma unidade harmoniosa da revelação de Deus);

• Princípios ensinados não como conceitos avulsos e independentes, mas interconectados com toda a verdade, relacionados com a vida como um todo, com o plano de Deus;

• Um plano sistemático e consecutivo, visando prazo médio, não cursos rápidos sem continuidade;

• Uma análise das principais cosmovisões contemporâneas para entender melhor sua influência e domínio na sociedade contemporânea;

• Aplicação da cosmovisão bíblica às decisões e aos comportamentos da vida diária e à influência do ambiente em que as pessoas vivem.

Nós temos a única cosmovisão no mundo que faz sentido, que responde às perguntas, que dá propósito e significado para a vida, que coloca o homem no contexto certo de tempo, espaço e eternidade, que oferece esperança, que explica o presente e revela para onde estamos caminhando. Por que aceitamos as falsificações baratas, os modismos passageiros, os pensamentos vazios de quem não sabe de onde veio nem para onde vai? Por que vamos deixar a nova geração ficar ainda mais iludida e ignorante do que as anteriores? Temos um grande desafio à nossa frente. O que estamos esperando?

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