Morte do Sectarismo: Vida na Igreja!

Data de publicação: 12/10/2011
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Edição 31 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 31

Por: Ezequiel Netto

Ao começar a escrever esta matéria, um pensamento veio à minha cabeça: falar em desviados da igreja não deveria ser um assunto totalmente absurdo? Alguém seria louco o bastante para cometer tamanho contra-senso, de abandonar um lugar maravilhoso, estabelecido pelo próprio Jesus, onde encontramos Deus, somos aceitos, perdoados, encorajados, e onde existe o verdadeiro amor? O que faz com que uma pessoa que achou a igreja e experimentou algo diferente resolva simplesmente abandoná-la?

A estratégia de Deus sempre foi estabelecer na terra um local pequeno e estratégico para, a partir daí, revelar o seu amor para o resto da humanidade. Adão, que deveria expandir suas fronteiras, transformando toda a Terra no Jardim do Éden, falhou. A nação de Israel, estabelecida para revelar a Deus, abençoar todas as famílias da Terra e amar aos estrangeiros (Lv 19.34; Dt 10.17-19), também falhou. E por que Jesus insistiu com a mesma estratégia, estabelecendo a sua casa como “casa de oração para todos os povos (ethnos, no grego)” (Mc 11.17), passando para a igreja a tarefa dada anteriormente a Adão e a Israel? Jesus queria estabelecer, a partir da igreja, a porta de entrada para comunhão com Deus e reconciliação, incluindo as mais diferentes pessoas (etnias). A qualquer pessoa que quisesse encontrar Deus e fazer as pazes com ele, a igreja mostraria o caminho.

A Segregação Racial dos Últimos Dias

Ao mesmo tempo em que Jesus fala dos seus propósitos para a igreja, ele prediz também que, no fim dos tempos, haveria conflitos étnicos de forma tão intensa que os homens desmaiariam de tanto terror.

“Porquanto se levantará nação contra nação (nação = ethnos), reino contra reino…”  (Mt 24.7).

“… sobre a terra, angústia entre as nações em perplexidade por causa do bramido do mar e das ondas; haverá homens que desmaiarão de terror e pela expectativa das coisas que sobrevirão ao mundo” (Lc 21.25-26).

“Falou-me ainda: As águas que viste, onde a meretriz está assentada, são povos, multidões, nações e línguas” (Ap 17.15).

“Ó Deus, Salvador nosso… que aplacas o rugir dos mares, o ruído das suas ondas e o tumulto das gentes” (Sl 65.5,7).

Como se pode perceber, este problema de divisão e conflito racial, apesar de muitas intenções por parte da sociedade de acabar com ele, está se tornando cada vez mais poderoso. Isto porque não é uma simples expressão cultural ou humana, porém é desencadeado por um poderoso demônio, de caráter destruidor, e precursor do espírito de morte. Basta-nos lembrar que as principais guerras e conflitos da humanidade foram desencadeados por este espírito de racismo e segregação entre os povos.

A igreja foi levantada para aniquilar este demônio de racismo e sectarismo, e para abrir suas portas para que todos os mais variados tipos de pessoas encontrassem Deus e o seu grandioso amor. Como a nação de Israel, temos nos conformado completamente com este espírito de segregação que atua no mundo, a ponto de Martin Luther King (muito criticado pela igreja dos brancos) afirmar que no domingo, às 11h da manhã (horário dos cultos evangélicos na América), era o horário de maior segregação racial nos Estados Unidos. É aí que está um dos grandes motivos para o grande número de desviados que temos hoje em dia. Apesar de as empresas e os governantes criarem medidas para tentar coibir esta prática de segregação na sociedade, a igreja nada faz neste sentido e convive harmoniosamente com este espírito maligno.

Outro motivo pode ser encontrado nas regras arbitrárias ou erradas que muitas igrejas adotam. A religião baseada em coisas externas é fácil descartar, e é o que muitos fazem quando ficam frustrados ou decepcionados. Desta forma, nosso cristianismo, ao invés de aproximar as pessoas de Cristo, acaba produzindo exatamente o contrário.

A Rejeição Definitiva

Quando um pai oferece seus filhos em sacrifício, visando obter alguma vantagem, benefício ou favorecimento pessoal, isto produz em nós um sentimento tão repugnante, a ponto de o considerarmos sem condições de ser comparado até mesmo ao mais inferior dos animais. Não pode existir paz interior quando convivemos com um atentado à vida. Por outro lado, muitas pessoas abortam seus filhos com muita facilidade, pensando apenas em si mesmas, em seu futuro ou reputação (o diabo tem grande prazer quando uma criança é abortada do ventre materno).

A igreja, sem perceber a gravidade deste ato espúrio, vem abortando muitos filhos que o Espírito Santo gerou em seu ventre. Como lavoura de Deus, estas sementes desprezadas, poderiam hoje estar expressando a glória do Pai ao mundo, atuando poderosamente contra o reino das trevas, mas foram assassinadas em sua infância espiritual. Para que possamos nos levantar com autoridade para derrotar o espírito de morte que atua no mundo, devemos romper de uma vez por todas com nossa ligação espiritual com ele. Devemos fechar esta porta do inferno em nosso meio, o que nos dará autoridade de fechá-la também no mundo.

A Prisão

Rick Joyner, no livro A Chamada Final, conta como foi levado num sonho a um presídio, com muralhas muito altas e uma cerca de arame por cima. Chegando ao pátio, observou que as pessoas se agrupavam com outras que tinham características semelhantes às suas. Havia grupos de negros, de orientais, de jovens, de ricos, de pobres, todos com algumas coisas em comum. Uma característica destas pessoas era que tinham muito pouca visão e nenhuma preocupação ou intenção de sair daquela prisão. No alto da muralha, havia homens bem vestidos que faziam a segurança.

No sonho, ele subiu na muralha para questionar os seguranças sobre o propósito daquela prisão e o motivo daquelas pessoas estarem presas. Porém, aqueles homens negaram que fosse uma prisão, afirmando que era um ambiente agradável. Com o desenrolar da conversa, Joyner ficou abismado em descobrir que os seguranças eram líderes e a prisão era a própria igreja. Este quadro reflete uma situação muito comum em nossos dias.

Hoje temos igrejas de vários tipos: de ricos, de pobres, de universitários, de surfistas, de jovens, onde só as mulheres assumem a direção, onde mulheres não têm espaço, de barulhentos, onde se preza a organização, onde predominam ex-viciados, etc. Se você não se encaixa no grupo, acaba saindo fora. Existem até explicações bíblicas para que a igreja se exima da culpa pela saída destas pessoas: “Se saíram, era porque não eram dos nossos” (1 Jo 2.19), “Eram joio e filhos do maligno” (Mt 13.38). Quantos adjetivos para alguém que simplesmente é diferente de nós… e que passa a ser condenado somente por isso.

Por este motivo, existe também um grande contingente de pessoas que professam seguir a Cristo, mas que não freqüentam a igreja. Isto porque se sentiram decepcionadas ou traídas por este ou aquele cristão ou ainda por alguma liderança eclesiástica. Como igreja, não lhes acrescentaríamos nada. Seguir a Cristo é uma coisa; seguir aos crentes é outra totalmente diferente. Porém, o que ocorre na verdade com as pessoas que se afastam é o que disse São João da Cruz, citado por Philip Yancey: “A alma virtuosa que está só… é como a brasa que está só. Em vez de esquentar, ela se torna cada vez mais fria”.

A pessoa se afasta do nosso meio, ouve muitas palavras de desânimo por parte do inimigo e se entrega a uma vida totalmente independente de Deus. E aceitamos com tranqüilidade o seu isolamento e fracasso espiritual (ou até a sua ida para o inferno), achando que fizemos a nossa parte, que foi a pessoa quem fez a opção errada e que, por conseguinte, é totalmente responsável pelo seu estado atual.

A Hipocrisia

A hipocrisia também afasta muita gente de nosso meio. O filósofo ateu Friedrich Nietzsche explica que “até creria na salvação, se os cristãos se parecessem mais com pessoas que foram salvas”. Os cristãos vestem suas melhores roupas, sorriem uns para os outros, mas usam esta fachada para disfarçar um espírito maldoso. A igreja fala da graça, mas vive pela lei; fala de amor, mas demonstra ódio e indiferença em suas atitudes. E neste ambiente controlado, nesta subcultura severa, cheia de condenação e vazia de humildade, nós acabamos contribuindo para que a pessoa rejeite não somente a hipocrisia, mas também a comunhão e a fé.

A igreja inconscientemente (até certo ponto) tem passado uma imagem de que está tudo certinho com seus membros, demonstra uma superioridade de satisfação em si mesma. Os de fora não conseguem perceber que dependemos de Deus ou uns dos outros. Esta falta de interdependência ou co-dependência nos impede de confessar e assumir nossas fraquezas. E acabamos criando um ambiente totalmente estranho ao verdadeiro propósito da igreja, onde tenho de competir e ganhar uma classificação de acordo com meu desempenho.

Algumas características da igreja do coração de Jesus:

1) Estrutura Simplificada

A igreja em Corinto vivia em um ambiente de intensa diversidade, com mercadores judeus, ciganos, gregos, prostitutas, idólatras pagãos. Na sua primeira carta, onde Paulo luta contra cismas na igreja, ele compara a igreja a uma lavoura, a um edifício, a um templo – e termina dizendo que a igreja é o Corpo de Cristo, com cada membro exercendo sua função e dependendo das atividades dos outros, sem que ninguém seja mais importante que o outro.

A igreja vai cumprir seu papel com muito mais eficácia quando adotarmos uma estrutura mais simples, livrando-nos do institucionalismo pesado, que muitas vezes serve mais para atrapalhar do que para promover; e quando valorizarmos o ministério de todo aquele que dedique sua vida promovendo a edificação mútua, consolando aos irmãos, exercendo a hospitalidade (muitos destes são os verdadeiros pastores da igreja, no sentido real da palavra). Nesta “igreja”, funciona o princípio de humildade, honestidade total, dependência de Deus e de amigos compassivos. Será que essas não eram as qualidades que Jesus tinha em mente quando fundou sua igreja?

2) Ambiente de confiança e ajuda mútua

Em alguns momentos precisamos que a igreja seja o “bar da esquina” de Deus, local de desembuchar, lugar para espairecer, de contar nossos problemas e fraquezas, e de receber um olhar de simpatia – não uma carranca de orgulhoso desdém. Para este mundo caótico e confuso que nos observa, deveríamos ser a prova de que Deus está vivo. Devemos representar a Deus assim como ele realmente é. Somos expressões dele mesmo.

O AA (Alcoólicos Anônimos) está a mil anos na nossa frente neste aspecto, onde um pecador ajuda a outro pecador, e se compadece de suas fraquezas. Devemos seguir a Palavra de Deus e não olhar segundo a aparência exterior (Is 11.3; 2 Co 5.16-18). Nós, humanos, causamos grande dor para Deus e, no entanto, ele permanece apaixonadamente envolvido conosco. Não deveria ter eu a mesma atitude para com as pessoas que me cercam?

3) Graça extravagante

Philip Yancey cita uma experiência que presenciou na igreja onde participava, em certa época. Havia ali um jovem negro chamado Adolphus, ex-combatente no Vietnã, que se tornara desequilibrado e cheio de problemas psiquiátricos. Sofria de constantes surtos de raiva e loucura. Quando não tomava a medicação de costume, o culto ficava um pouco mais animado que o normal. Adolphus pulava por cima dos bancos, fazia orações fantasiosas, agradecendo a Deus pelo magnífico corpinho de Whitney Houston, pedia a Deus que queimasse as casas dos pastores maricas e branquelos, e fazia outras coisas deste gênero. Em uma classe de escola dominical, afirmou que se tivesse uma arma na mão, mataria a todos os branquelos daquela igreja, deixando todas as pessoas de pele clara bem apreensivas.

Não era difícil entender por que este moço já havia sido expulso de três igrejas. Ali, porém, um grupo de pessoas resolveu investir na vida dele. Percebendo que andava 8 km para chegar às reuniões, alguns membros passaram a lhe oferecer carona. Dois médicos começaram a cuidar de sua saúde. Como não tinha família, alguns irmãos o convidavam para lanchar em suas casas. Quase todo ano, passava o Natal junto com a família do pastor auxiliar.

Depois de um tempo, Adolphus pediu para se tornar membro da igreja. Sem saber exatamente o que fazer diante da sua excentricidade e falta de compreensão clara do evangelho, a liderança finalmente chegou a um consenso de algumas exigências básicas de comportamento e entendimento. Ele aceitou, foi se acalmando, e até se casou.

Yancey diz que a vida de Adolphus foi uma lição clara do que realmente significa a graça, e de como vem sobre pessoas que não merecem e que não fizeram nada para serem escolhidas. Como Adolphus, todos nós fizemos mais que suficiente para sermos rejeitados. Porém, a igreja não desistiu dele. Ofereceu-lhe uma segunda chance, uma terceira e incontáveis outras. Alguns cristãos que experimentaram a graça de Deus em suas vidas puderam transferi-la para Adolphus. Essa graça obstinada, insaciável, mostra o quanto Deus suporta quando escolhe amar alguém como qualquer um de nós. E é esta espécie de graça que deve ser exalada da igreja que quiser verdadeiramente representar a natureza de Deus.

4) Abertura para a diversidade

Uma igreja que não manda embora os pobres, os sem-teto ou os imprevisíveis se arrisca a atrair pessoas que talvez atrapalhem o culto. Porém, Deus está presente no meio do caos quase fora de controle, em uma igreja composta de partes iguais de mistério e de confusão, que manifeste sua graça e amor ao mundo. A igreja primitiva aceitava os escravos excluídos dos encontros sociais dos gregos. Enquanto o culto judaico separava as pessoas por raça e gênero, a igreja unia a todos na mesa do Senhor. Enquanto a aristocracia romana excluía as mulheres, os cristãos permitiam que tomassem posição de liderança, como também aos pobres.

Na igreja, as gerações também se unem: bebês no colo das mães, crianças dando risada em hora errada, adultos que sabem agir de forma comportada, pessoas idosas que caem no sono se o pregador falar demais. As igrejas, em geral, costumam ter as mesmas lutas financeiras, as diferenças de entendimento quanto ao estilo de culto, os desníveis de compromisso entre uns e outros, trazendo-nos a consciência de que não existe a igreja perfeita. Ela, porém, se torna um ambiente prazeroso quando funciona como ponte entre as vizinhanças, com uma agradável mistura de pessoas, com ampla diversidade, com pessoas de 3ª idade, com estudantes de pós-graduação, profissionais liberais, pessoas de várias raças e classes sociais, estudantes de teologia e mulheres carregando seus pertences dentro de sacos plásticos – todos convivendo em harmonia. Neste ambiente, o Senhor ordena sua benção e a vida para sempre (Sl 133.1,3).

O evangelho deve falar aos ricos profissionais e às pessoas da rua que nunca estudaram. O compromisso com Jesus é o ponto comum e o elo de ligação. Descobrimos que unidade não quer dizer uniformidade e diversidade não quer dizer divisão. Um bom começo para igrejas de bairros mais abastados pode ser o envolvimento numa aliança com igrejas de favelas ou bairros pobres, procurando oportunidades de servir e reconhecer as “diferentes manifestações de Jesus” (Mc 16.20), e bendizendo a todos que vêm em nome do Senhor (Mt 23.39). Tenho certeza que serão mais abençoadas do que poderão abençoar. Aquele que compartilha o amor sai enriquecido, e não empobrecido.

5) Amar o mundo (Jo 3.16)

Como igreja, somos o farol da graça para o resto do mundo, e não uma fortaleza do legalismo. Nossa prática deve ser de celebração, de exultar, de dar graças, pois Jesus já nos conseguiu a vitória da custosa aceitação de Deus.

O evangelista Luis Palau comparou a igreja ao esterco. Se empilharmos o esterco em um só lugar, vai cheirar mal. Espalhe o esterco pela terra, e ele enriquece o solo e faz crescer. Talvez este braço estendido seja o fator mais importante no sucesso ou fracasso da igreja. Deus amou o mundo e ama a igreja que faz o mesmo.

Conclusão

O número de desviados das igrejas evangélicas é muito grande e não podemos ficar apáticos diante desta realidade. Estamos vivendo um processo de restauração, em que Deus vem cumprindo milagrosamente todas suas promessas. Ele pretende estabelecer a igreja nos padrões das profecias de Isaías 2.3 e Miquéias 4.1-2:

Mas, nos últimos dias, acontecerá que o monte da casa do Senhor será estabelecido no cimo dos montes e se elevará sobre os outeiros, e para ele afluirão os povos. Irão muitas nações e dirão: Vinde, e subamos ao monte do Senhor e à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus caminhos, e andemos pelas suas veredas; porque de Sião procederá a lei, e a palavra do Senhor, de Jerusalém.

Vemos a igreja aqui sendo estabelecida como um lugar de afluir pessoas, e não como geradora de desviados. Devemos estar sensíveis aos interesses do Espírito Santo, deixando Deus cumprir seu propósito em nossas igrejas, pois assim experimentaremos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

Baseado nos livros:

• Igreja: por que me importar?, Philip Yancey;
Batalhas heróicas dos últimos dias, Rick Joyner;
A Chamada Final, Rick Joyner.
Para adquirir, ligue: 3462-9893

Ezequiel Netto é médico veterinário, reside em Valinhos – SP e é um dos responsáveis pelo site www.revistaimpacto.com.

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