Missões: Haiti – Aceitando o Desafio

Data de publicação: 12/01/2012
Categorias da Biblioteca:
Edição 70 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 70

Em resposta ao apelo feito na revista Impacto (edição 68) e por meio de contatos pessoais, um grupo de brasileiros, de várias partes do país, aceitou o desafio, arregaçou as mangas e foi para o Haiti no mês de novembro (2011). Chegando lá, o grupo se dividiu em duas equipes: uma, com 14 pessoas, cuidou do evangelismo e iniciou a perfuração de um poço artesiano, treinando, ao mesmo tempo, os haitianos para continuar esse trabalho depois; a outra, com 21 pessoas, cuidou da cozinha e da construção de templos.

A seguir, os testemunhos de alguns dos participantes:

Ester Hansen:

Desde o início, senti que havia um espírito de unidade em nosso meio. Não fez nenhuma diferença o fato de sermos todos de estados e igrejas diferentes e de termos nos encontrado pela primeira vez no aeroporto de Guarulhos; todos trabalhamos juntos, lado a lado, rindo e aprendendo juntos.

Havia também um grande espírito de unidade entre os haitianos. Nos cultos, era possível notar a unidade na adoração; todos gritavam e dançavam com liberdade e, quando o dirigente dizia alguma coisa, todos repetiam juntos e com força, de modo que sempre era possível ouvi-los de longe, nos morros.

Também havia unidade entre todos nós, brasileiros e haitianos. Alguns haitianos trabalharam lado a lado com os brasileiros, tanto na construção da igreja, quanto na perfuração do poço, nos acompanhando na distribuição de água como intérpretes, e, à noite, ficando junto para cantar e louvar. Embora cada um cantasse em sua própria língua, era uma só voz, um só povo, uma só igreja cantando e louvando, sem distinção de nacionalidade ou cor.

Quando deixamos o Brasil, saímos com uma palavra – de que, depois dessa viagem, o Haiti deixaria de ser simplesmente um nome ou uma bandeira para nós, mas seria a lembrança de rostos, cheiros e sabores. E um rosto, em particular, ficou gravado a fogo em meu coração: o rosto de uma menina de cerca de 10 anos de idade. À primeira vista, ela era facilmente confundida com um menino, era necessário um segundo olhar para notar que era uma menina. Ela estava muito faminta, parecia fazer dias que não comia nada. Então, o Senhor tocou o coração de algumas mulheres da equipe para que cuidassem dela. E foi o que fizemos: nós a alimentamos, lhe demos um banho, roupas novas, uma fita no cabelo, o tempo todo lhe dizendo que era a princesa do Rei (ainda que ela não pudesse compreender nossas palavras).

Dias depois, fomos visitar a menina (Cloti) em sua casa, levando mais alguns presentes, e conhecemos um pouco da sua história. Ela vive apenas com uma irmã mais nova (menos de 1 ano de idade) e uma irmã mais velha, de 16 anos, que é a responsável pela “família”. A mãe delas não volta para casa há mais de sete meses e, quando perguntamos pelo pai, os vizinhos e amigos debocharam de nós. Felizmente, tivemos a oportunidade de orar com as meninas e de testemunhar do amor de Deus por elas, que é maior do que o amor de uma mãe pelos filhos.

Depois de sairmos de lá, conversando entre nós e juntando o que cada um tinha compreendido da história, pudemos concluir que há grande probabilidade de que tanto ela, quanto sua irmã, tenham sofrido abuso sexual. Creio que Deus usou nossas mãos e nosso carinho para mostrar àquela menininha que ela é amada e que há toques que transmitem amor, ao invés de dor. Para mim, abençoar e amar essa menina fez valer a pena toda a viagem. Mesmo que nada mais tivesse dado certo (graças a Deus, a viagem toda foi muito abençoada), eu passaria por tudo de novo apenas por causa dessa menina.

João Marcos Hansen:

A experiência de fazer uma viagem missionária ao Haiti foi incrível e quebrantadora. Antes mesmo de sair, creio que meu coração estava orgulhoso por ir abençoar aquele país tão oprimido e miserável e por poder cavar um poço e dar água para eles. Mas, durante a viagem, Deus me revelou que ele não precisa de mim para abençoar o Haiti, mas escolheu me usar para abençoá-lo. Dessa forma, ele pôde tratar meu coração usando os haitianos – um povo que, apesar de tudo, mantém a reverência a Deus e o adora constantemente, seja às 4 horas da madrugada, seja às 8 horas da noite.

As condições de vida são realmente precárias e mostram como levamos uma vida de desperdícios aqui, mas o povo está longe de ser oprimido. Acreditar que o nosso propósito no Haiti foi abençoá-los foi um equívoco orgulhoso. Nossa viagem foi apenas uma troca de experiências e uma lição de vida de Deus para nós, brasileiros.

Renato Fantazzini Salum:

Acredito que a coisa mais marcante para mim foi o amor que a Igreja no Haiti tem pelo Senhor: um coração extremamente grato pelas (poucas) coisas que tem, sem uma visão materialista e muito longe do evangelho “me dá, me dá” que vemos em muitos cultos, louvores e orações pelo Brasil. Um povo não preocupado com sua alimentação física, mas sim, espiritual; que buscava o Senhor com hinos, danças e orações durante a madrugada, dia e noite, sete vezes por semana. Demonstram um amor pelo próximo como a Igreja Primitiva fazia, repartindo os bens entre si.

Têm uma visão de reino que nunca vi em um grupo grande de pessoas. Realmente, tenho de aprender muito com eles.

Abnério Mello Cabral:

A experiência de estar envolvido com o treinamento desse grupo de jovens para a missão no Haiti foi muito importante, pois trouxe sentido, unidade, amizade e comprometimento a todos. Não foi um treinamento de pranchetas e apostilas; pelo contrário, foi bem prático: dançando, representando, furando poço, orando, saindo para comprar os apetrechos para a viagem, participando da organização de almoços e um jantar.

Percebi uma vida que normalmente não vemos em reuniões, um comprometimento espontâneo, voluntarioso. Não importava a hora nem o lugar; era só marcar que cada um aparecia, sorrindo, com expectativa, aguardando o próximo passo. Como uma missão afeta o dia a dia da vida da igreja! Afeta o envolvimento, transforma o ânimo, mexe com esse sentimento chamado amor…

Chegando ao Haiti, encontramos um cenário “pós-guerra”, pós-terremoto, de destruição, de miséria, do jeito que havíamos visto em fotos e documentários. Já nas imediações do aeroporto, vimos um povo disposto a carregar sua mala para ganhar um trocado, vendendo obras de artes, bananas fritas, canas cortadas, laranjas, águas, sucos, refrigerantes e qualquer outra coisa que um turista pudesse querer.

Chegando ao acampamento, encontramos uma igreja orando, buscando a Deus, por volta das 15h30. As horas iam passando, e descobrimos que aquele povo era incansável. Buscava a Deus em todo o tempo. Escutávamos grupos diferentes, em lugares diferentes buscando a Deus.

Na primeira noite, percebemos que, a cada momento em que acordávamos, o povo estava orando, buscando, cantando. Não tinham problema com a hora do silêncio, os vizinhos não reclamavam.

Tive oportunidade de participar de um culto em outra parte da cidade e fiquei impressionado com vários aspectos do funcionamento. Começou às 7h20 e durou aproximadamente quatro horas. As crianças permaneceram o tempo todo junto com os pais, sem dar trabalho. Qualquer criança que arriscava chorar ou reclamar era corrigida, sem prejudicar o andamento do culto. Durante a pregação, que durou mais de uma hora e meia, ninguém se levantou para ir ao banheiro (que, no caso, teria sido o matinho ao lado). O Espírito Santo estava presente, e havia temor diante dele.

Aquele povo está buscando a Deus por transformação. Está pedindo a Deus para mudar a situação do país. Está suplicando por intervenção. Eles não têm notícias de transformação em outros lugares, só sabem que precisam de mudança. Estão orando 24 horas por dia, não para seguir um programa que alguém organizou, mas de maneira espontânea. É uma oração contínua, em todo lugar, em todo tempo. É um povo que come de três a cinco vezes por semana, não tem trabalho, não tem lazer, não tem TV – mas está encontrando em Jesus esperança para viver. Tenho pensado: “Se eu também não tivesse nada e não esperasse que o governo fizesse algo por mim, será que eu buscaria a Deus como eles?” E você?

Débora Cabral:

Em um dos momentos de evangelização, Deus falou algo muito claro comigo. Parte da equipe pegava baldes de água para levar à população que morava no cume do monte, oferecer a uma família e falar do amor de Deus. Quando a pessoa autorizava, orávamos por ela e sua família.

Enquanto esperávamos um membro de uma família, para podermos orar, eu ficava olhando a vista impressionante ao redor daqueles morros. Ao fundo, viam-se o mar e as montanhas, a perfeita criação do Pai. Ao admirar a criação, meu coração indagava: “Deus, como pode? Como pode este povo viver nessa miséria?”

No mesmo instante, ele me respondeu: “Por que você está preocupada? Fui eu que criei esta terra, sou eu que cuido deste povo, eu amo estas pessoas e, porque eu as amo, você deve amá-las também!”

Após essa resposta, o amor de Deus me inundou, e pude sentir um pouquinho do que ele sente e me alegrar por sua magnitude. Alguns falam que o Haiti era conhecido como “A Pérola das Antilhas”, mas, aos olhos humanos, não se pode enxergar pérola alguma em meio à miséria. De uma coisa eu tenho certeza, porém: a igreja que hoje vive naquele país é a pérola do Senhor Jesus. Aqueles irmãos são pérolas preciosas, guardadas por suas mãos, e que não foram esquecidas! Diante do pouco relatado aqui, desafio os que estão lendo que clamem pela nação haitiana, amem essa nação, amem a igreja, porque Deus os ama!

Priscila Cabral:

Ao percorrer as ruas do morro, acompanhando os rapazes para levar água a algumas casas, passávamos por muitas pessoas e as cumprimentávamos com saudações corriqueiras, como Bonjour (Bom dia). Entretanto, quando falávamos Bondye beni ou (Deus te abençoe), aparecia um brilho no olhar, e cada um agradecia com um forte amém! Aqui no Brasil, isso é tão pouco valorizado; quando alguém fala “Deus te abençoe”, muitos nem sequer abrem a boca para agradecer ou confirmar.

No primeiro dia, saímos para evangelizar e orar pelas famílias. Ao chegar à casa de uma senhora com três ou quatro filhos, várias pessoas se ajuntaram para nos ver e escutar. Havia um senhor que conhecia várias passagens da Bíblia, mas ele nos falou enfaticamente que ele e muitos outros ali não tinham mais esperança, porque não havia razão para isso. Isso cortou meu coração, mas, alguns dias depois, ao trabalhar com as crianças, elas ficaram doidas para cantar uma música que encenava uma ligação telefônica. A letra era assim: “Alô, meu amigo! Jesus é a minha esperança! Jesus é a sua esperança! Jesus é a nossa esperança! Jesus é a esperança do Haiti! E você? Jesus é a sua esperança?” Era lindo demais, porque falavam isso com um brilho no olhar.

Eu nunca havia visto Jesus de maneira tão evidente como nesses dias, tanto nos membros da equipe quanto nos haitianos. Meu coração está ardendo por fazer mais, no Haiti, em Jundiaí, na minha faculdade, por aqueles que estão ao meu redor e não têm Jesus.

Stefânia Walker:

Foram dias maravilhosos nos quais experimentei a presença de Jesus na vida de pequeninos, em meio ao caos, ao lixo, à insignificância do ser humano e à sua impotência diante da dor. JESUS ESTAVA PRESENTE EM TODO TEMPO. Todo cristão deveria estar com os pobres, eles nos fazem sentir o JESUS que gostava mais de estar no meio dos que nada possuíam do que dos que se achavam fartos.

Fui profundamente tocada ao ver tanto louvor e adoração saindo da boca de irmãos com a barriga vazia, mas com muita gratidão por simplesmente estarem vivos. Morei na casa de uma viúva por cinco dias, comendo a comida que ela preparou para nós, sem um pingo de higiene, mas com todo o amor que tinha em seu ser. Chorei ao ver seus filhos subindo morro acima com baldes d’água na cabeça, e doeu mais ainda quando descobri que, em sua mente, só existe essa realidade. Não há outra forma de viver senão essa. Senti como que se eles fossem “roubados” de direitos básicos de todo ser humano.

Não consigo ainda descrever todos os efeitos que essa viagem causou em mim. Uma coisa eu sei: não quero nada que seja temporário, quero tesouros eternos. Quero cuidar dos que não têm ninguém, quero esvaziar-me de mim mesma e deixar que o Senhor me use.

Obrigada, Senhor, por me levar para fora do meu mundo e escancarar diante dos meus olhos a dor e o desespero de toda uma nação. Obrigada por me permitir enxergá-lo no mais pobre dos meus irmãos, por me presentear com aquela menina que alimentei com lágrimas. Não discerni naquela hora que era o Senhor que estava ali. Eu alimentei o MESTRE! Por isso, minha dor foi aplacada naquele dia, e o que eu senti depois foi uma mistura de sentimentos: alívio, gratidão, compaixão, paixão – sensações que nunca antes havia experimentado naquela dimensão.

Agora, estou aqui, pronta para a vontade do Senhor. Meu coração geme pela realidade do evangelho, que não é outra senão esta: cuidar dos órfãos e das viúvas. Realiza em mim, Senhor, a tua palavra! Não me deixes de fora daquilo que o Senhor quer fazer na Terra!

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