Missões – Egito: Paradoxos e Desafios!

Data de publicação: 06/05/2011
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Edição 67 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 67

Por Ariadna Faleiro de Oliveira

Situado ao norte da África, banhado pelo Mar Mediterrâneo e o Mar Vermelho, o Egito é um dos países mais populosos do continente, com uma população estimada em 82 milhões de habitantes. Misto de riqueza e legado cultural, em meio a um cenário político atual marcado por protestos populares contra a situação de um governo que se prolongou por quase 30 anos, o país enfrenta um grande desafio não popularizado pela mídia: a luta da Igreja cristã para avançar num país de fundamentalismo islâmico.

O cristianismo chegou ao Egito logo no século 1º d.C. e abrange, hoje, cerca de 11% da população. Segundo a missão Portas Abertas, essa porcentagem sofre redução, a cada ano, devido à emigração e à conversão ao islamismo.

Ocupando o 19º lugar no ranking de perseguição aos cristãos, o país é chamado de “cérebro do islamismo” por causa da grande Universidade Al-Azhar, que fica na capital, Cairo, e que tem cerca de 4 mil professores e mais de 100 mil estudantes de muitas partes do mundo. É considerada a mais prestigiosa e antiga instituição cultural do Islã sunita.

Igrejas cristãs não podem ser erguidas com liberdade, cristãos não têm acesso a estudo de qualidade, não ocupam bons cargos governamentais e sofrem discriminações abertas. O Evangelho não pode ser pregado livremente, não é permitida a distribuição de folhetos e Bíblias, e há um discreto, porém rígido controle das autoridades aos que se intitulam cristãos e promulgam sua fé. Não são poucas as histórias de cristãos presos, torturados e perseguidos.

Entramos nesse cenário com o intuito de perceber a ação de Deus e o avanço da Igreja no país; fomos, ao mesmo tempo, desafiados e encorajados por aqueles que “sobrevivem” fazendo do Evangelho seu maior alvo de vida!

MOKATTAM, A CIDADE DO LIXO

Situada nos arredores do Cairo, encontramos uma enorme comunidade de zabaleen (catadores de lixo) onde vivem cerca de 35 mil pessoas responsáveis pela coleta e reciclagem de 90% do lixo produzido na capital, 7 toneladas diárias.

O trabalho dos zabaleen é considerado o mais desprezível possível na sociedade egípcia, tanto pelo acúmulo inacreditável de lixo nas ruas e dentro das casas e comércios da comunidade, quanto pela antiga criação local de porcos, animal considerado impuro na crença islâmica, mas que ajudava a consumir boa parte dos resíduos orgânicos. Em 2009, os porcos foram sacrificados, e sua criação foi interrompida pelo governo como forma de combater a gripe suína.

A criação e o comércio dos animais eram uma forma de ajudar na renda mensal. Com a matança, os zabaleen passaram a depender apenas do lixo, e, na opinião geral do povo, os animais só foram sacrificados porque pertenciam aos cristãos.

Esse povo de cultura própria vive à margem da sociedade egípcia, e o forte preconceito torna pior a situação deles, fazendo com que se fechem ainda mais em seus costumes. Diariamente, os homens, pais e filhos, saem de casa logo cedo, por volta das 4 da manhã, em carroças puxadas por jegues, para coletar todo o lixo que conseguem levar para casa. No lar, as mulheres, mães e filhas, separam o que é reciclável de tudo o que foi coletado no dia anterior.

No entanto, é ali, em meio a ratos, cabras, restos orgânicos, detritos, crianças descalças, famílias inteiras, mau cheiro e inúmeras doenças, que se encontra o complexo de sete igrejas esculpidas na rocha das montanhas, dentre as quais destaca-se o maior templo cristão construído num país islâmico: a famosa igreja copta “ABUNA SAMAAN” que tem capacidade para até 5 mil pessoas.

De acordo com a tradição, a Igreja Copta foi estabelecida no Egito pelo apóstolo Marcos, em meados do século 1º, sendo uma das igrejas orientais mais antigas do mundo. No Egito, “todos os anos, milhares de coptas tornam-se muçulmanos apenas para, aparentemente, escapar ao estatuto social inferior ou desposar uma mulher muçulmana, já que o Alcorão proíbe que muçulmanas se casem com judeus ou cristãos”[1].

Os cristãos coptas ainda observam a devoção aos ídolos e estão sujeitos à liderança local que presta obediência a um líder maior, o “Baba” (líder máximo na língua copta) Shenouda 3º, hoje com 85 anos de idade.

Conversando com eles, observamos, em muitos, uma genuína fome de Deus, mas pouco conhecimento e relacionamento com ele. É um povo que clama por uma revelação de Jesus Cristo.

Ainda crianças, os coptas desenvolvem uma ligação muito peculiar com a figura da cruz. Eles veem a cruz como a maior vitória de sua igreja e como símbolo de seu longo martírio; por isso, tatuam a cruz no pulso direito como forma de orgulho e oposição, como marca indestrutível de identificação com sua comunidade e igreja apesar de saberem que essa marca visível pode trazer-lhes desprezo e discriminação na sociedade muçulmana em que vivem.

Como afirmou um cristão copta: “Muitos de nós temos essas cruzes no pulso. Temos certeza de que uma perseguição grave atingirá o Egito, e não sabemos se poderemos enfrentá-la. Escolhemos ter marcas indestrutíveis como seguidores de Cristo para que jamais possamos renegá-lo, nem mesmo em nossos momentos de fraqueza”.

Às vezes, os ataques físicos a cristãos no Egito são focados na tatuagem da cruz em seus pulsos. Por exemplo, em abril de 2005, uma garota copta de 17 anos foi sequestrada por um grupo extremista islâmico (o sequestro e a conversão forçada de jovens coptas são um problema grave). Durante 23 horas, ela foi drogada e estuprada; tentaram remover sua tatuagem com uma tesoura[2].

Recentemente, quando uma igreja copta no interior do país foi queimada, os cristãos saíram às ruas em protesto. Devido a um boato de que pretendiam incendiar mesquitas, um conflito foi armado, nove cristãos foram assassinados, e cerca de 40 encontram-se hospitalizados.

Mesmo em meio a tantas dificuldades, os cristãos coptas buscam em Deus a força para continuar. Sobrevivem com o fio de esperança que possuem, como um deles afirma: “Meu avô trabalhou aqui, meu pai e eu também; estou lutando, porque não quero isso para os meus filhos!”

JESUS ENTROU NO LIXO

Andar pelas ruas do Mokattam foi uma das mais impressionantes e desafiadoras experiências para o grupo. Tivemos a oportunidade de entrar em casas, orar pelos enfermos, falar abertamente do Evangelho de Cristo, levar comida física e perceber a força que possuem para avançar!

Numa das casas visitadas, um cubículo estreito e malcheiroso onde os poucos móveis estavam aglomerados e envelhecidos, fomos recebidos com o sorriso acolhedor de uma mulher doente, deitada no chão. Ao ouvi-la contar sobre o sofrimento que vivem as seis pessoas que ali residem, sentimos a compaixão de Cristo nos envolvendo e choramos por eles como quem chora por um filho que se ama! Sentimos que Cristo entrou naquela casa!

Durante os dias de caminhada no Mokattam, fomos, várias vezes, acompanhados por crianças. Não deixamos de pensar nessa nova geração e no propósito de Deus para ela. Nossa equipe conheceu de perto a realidade que as cerca, e conhecemos também homens e mulheres que estão empenhando sua vida na Cidade do Lixo para marcarem o coração desses pequeninos.

O desafio é enorme! A maioria das crianças não frequenta assiduamente a escola, porque precisa ajudar os pais na coleta e reciclagem do lixo, muitas morrem com as doenças contagiosas trazidas pela sujeira, não há assistência médica de qualidade.

Constatei essa última condição de perto quando acompanhei uma mulher e sua filhinha que estava febril há alguns dias. Entramos numa sala, e um rapazinho veio nos atender. Com poucos minutos de conversa e nenhum tipo de exame, ele diagnosticou e aplicou uma injeção “desconhecida” na criança, receitando vários tipos de remédios. Tomei os remédios nas mãos e verifiquei que dois deles eram da mesma substância. Quando perguntei sobre isso, ele apenas tomou uma das caixas e disse:

– Leve essa, vai funcionar.

Saí daquela sala com uma sensação terrível de impotência, enquanto ouvia os gritos da criança nos braços da mãe. Esse é o Mokattam, povo duplamente faminto, carente e aberto ao Evangelho de Cristo.

DEUS CONTA COM PESSOAS!

Nossa jornada nos reservou surpresas, uma das quais foi a presença de uma pequena equipe que dispõe de vida, tempo e atenção para que Cristo seja, de fato, formado naquele povo. Soubemos, por meio deles, que outras organizações também se envolvem, ajudando em diferentes segmentos da comunidade.

Amira é uma dessas pessoas. Há um ano e sete meses entre os zabaleen, ela desenvolve um trabalho prático na área de educação, treinamento técnico e discipulado:

Em nosso projeto, as crianças recebem discipulado semanal e ajuda financeira para que continuem na escola, as mulheres são ensinadas em oficinas de artesanato, melhorando a fonte de renda familiar – tudo isso aliado a uma apresentação dinâmica do Evangelho.

Os zabaleen são receptivos e abertos ao Evangelho, mas a raiz da idolatria é muito difícil de ser rompida; até nas crianças, encontramos essa resistência. Porém, Deus tem feito milagres por aqui, as pessoas estão ouvindo sobre o nosso Livro (Bíblia), e contamos com a simpatia e o apoio da comunidade.

Acabamos de abrir uma escola de computação e inglês para as crianças daqui e, durante o trabalho com eles, inserimos temas para discussão, músicas, porções do nosso Livro. Dessa forma, o coração delas é atraído a Cristo!

Pergunto se já existem frutos do trabalho, e ela responde que algumas famílias estão mudando: “…eles estão com mais esperança no futuro e já tiraram o lixo de dentro das casas. Isso, para nós, é um grande sinal, mas tudo é muito lento, trabalho a longo prazo. Com todas essas mudanças e conflitos no país, as pessoas estão revendo sua vida e buscando respostas, o que é favorável a nós e ao Evangelho. Estamos com portas abertas…”

Ela conta de uma garotinha de 8 anos de idade, uma criança bem difícil e que dava muito trabalho no projeto:

“Chegou ao ponto em que não sabíamos mais como lidar com ela, e resolvi visitar sua família. Foi a primeira vez em que entrei na casa de uma de nossas crianças. Seu pai estava doente numa cama, e a mãe trabalhava para sustentar os cinco filhos, que também precisavam trabalhar para ajudar na renda. Aquela menina não recebia nenhum tipo de carinho. A partir dela, comecei a entender o povo em geral, como são carentes e precisam ser amados. Aquela menininha me encorajou a avançar, e, hoje, ela continua conosco, mais próxima e mais aberta!”

Ao ver seu amor pelo povo, pergunto: como é deixar seu país, família, segurança e cultura, investindo a vida a fim de que Cristo conquiste essas pessoas?

Ela chora discretamente com a pergunta: “Eu faço porque amo, não vejo peso; gostaria de fazer mais, oro para que Deus me ajude na fluência com a língua (árabe), quero poder ensiná-los a amar a Cristo.

AÇÕES QUE MARCAM

Enquanto estávamos ali, resolvemos fazer, entre as mulheres da comunidade, o “Dia da Beleza”, no qual ensinaríamos noções de higiene, trabalharíamos em sua estima e pregaríamos o Evangelho do Cristo que as ama e se importa com elas. Foi inesquecível!

A líder do trabalho relatou algo que a marcou profundamente naquele dia:

“Quando fui lavar os cabelos de uma das mulheres, ela me disse que nunca havia ido a um salão, nunca usara um xampu, nunca fora cuidada por ninguém daquela forma. Ela estava muito agradecida a Deus por nossa vida, em todo o momento expressava o quanto estava feliz pelo que estávamos fazendo para ela.

A palavra NUNCA foi muito forte para mim. Pensei em como é gratificante dispor do nosso tempo em fazer algo para o próximo. Vi a felicidade daquelas mulheres, fui impulsionada a fazer mais, trabalhar mais para que elas percebam que alguém se importa com elas e apresentá-las ao amor do nosso Pai.

ENCONTRANDO SEU LUGAR NESSA HISTÓRIA…

É impossível sair do Mokattam sem a sensação: “tenho que fazer algo”. A gratidão pelo que temos, comemos e nos vestimos se une ao desejo de fazer parte da história daquele povo, dar um pouco do muito que recebemos diariamente das mãos daquele que não poupou seu Filho por nós! E. H. Chapin disse que “toda ação de nossa vida toca alguma corda que vibrará na eternidade”.

Não resisto e pergunto ao líder do trabalho:

– Torne-nos úteis na tarefa com esse povo. O que podemos fazer de prático?

A resposta tem o objetivo de tirar do nosso coração o item “acúmulo de conhecimento sem praticidade” e gerar compaixão (dor pelo outro aliado a ação):

Você pode envolver-se no projeto que atende hoje a aproximadamente 40 crianças que vivem na comunidade e têm dificuldade com aprendizado escolar, necessitando de ajuda. Devido à pobreza, elas não têm como pagar por esse reforço e acabam abandonando a escola e voltando a trabalhar com o lixo. Existem casos de crianças na 4ª série que ainda não sabem ler. Professores particulares foram contratados para ensinarem essas crianças. O grande desafio é A MANUTENÇÃO DE CADA CRIANÇA COM O VALOR DE 10 DÓLARES MENSAIS, a fim de providenciar material escolar e uniformes. Os pais das crianças do projeto se comprometeram em tirá-las do trabalho no lixo e priorizar seus estudos; visitas frequentes por parte da equipe constatarão esse compromisso e avaliarão o desenvolvimento do aluno.

Você pode envolver-se doando parte do seu tempo no Egito. Há grande necessidade de pessoas que possam passar algum período no país para dar cursos práticos de informática, inglês, montagem e desmontagem de computadores e outros cursos que possam melhorar a economia local. Equipes de curto prazo podem trazer grandes benefícios e avanços ao trabalho.

A equipe precisa urgentemente de um carro! Longas distâncias precisam ser percorridas, e a equipe perde valioso tempo com ônibus e caminhadas difíceis e cansativas. Ofertas direcionadas à compra de um automóvel trariam maior agilidade ao trabalho.

Você pode envolver-se indo para o Egito como um missionário de longo prazo. Se esse é o seu chamado, podemos ajudá-lo na direção de sua formação.

Você deve envolver-se orando! Ore pelos seguintes objetivos:

– pelo avanço do trabalho no Mokattam, por proteção e direção à equipe;
– pelo momento político instável no país, que Deus converta todo o processo para o avanço de seu Reino;
– pelo envolvimento de pessoas com as necessidades citadas acima, por missionários de curto e longo prazo;
– para que Cristo seja gerado no coração dos zabaleen.

Eis o desafio! Cumpra-se em nós Provérbios 3.27: “Não te furtes a fazer o bem a quem de direito, estando na tua mão o poder de fazê-lo!”

Você pode colaborar na transformação da Cidade do Lixo em CIDADE DA ESPERANÇA!

Caso haja interesse em ajudar ou obter maiores informações, favor entrar em contato com:

Igreja Batista da Paz – COMBAP (62) 3224.2503

Pelo e-mail: contato.missoes@hotmail.com

[1] Fonte: Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Coptas).

[2] Fonte: Portas Abertas (www.portasabertas.org.br/artigos/artigo.asp?ID=3119).

Uma resposta para “Missões – Egito: Paradoxos e Desafios!”

  1. Vinícius Perobeli disse:

    Olá, meu nome é Vinícius, sou missionário aqui no Brasil há 8 anos e desde meu chamado meu coração queima pelo Egito. Agradeço pela publicação da matéria, tão esclarecedora e tão completa no quesito informações sobre o país, cultura e a situação da igreja local para nós que intercedemos. Desejo um dia poder servir a igreja local pessoalmente, obrigado pela publicação e se tiverem novas informações compartilhem!

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