“Meu Reino não é deste mundo!”

Data de publicação: 20/02/2018
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Edição 79 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 79

Harold Walker

Aprendamos com Jesus a fugir de armadilhas à direita e à esquerda e a concentrar-nos naquilo que realmente pode transformar a sociedade e o mundo

A característica mais marcante de todo partidário é ser parcial a favor de sua causa. Para ser eficaz, ele precisa tornar-se perito em filtrar tudo o que é negativo e reter como verdade somente aquilo que favorece sua ideologia. Nem mesmo as palavras de Jesus, a maior figura da história, deixaram de ser submetidas a esse processo tendencioso. Ideólogos de todos os matizes, durante séculos, têm tentado usar os ensinos dele para apoiar seus ideais e combater os pensamentos dos adversários. Em tempos modernos, tanto a esquerda quanto a direita procuram apresentar o cristianismo como seu aliado exclusivo.

Jesus, porém, nunca se identificou com grupos que lutavam contra o governo romano (como os zelotes), nem com os que cooperavam com o poder (como os publicanos); tampouco se vinculou a linhas religiosas (como a dos fariseus e saduceus). Apesar disso, não teve problema algum para escolher um discípulo zelote e outro publicano, pois sua visão era muito mais abrangente. Sua primeira mensagem pública foi: “Mudem de mente, pois o reino de Deus está chegando!” (Mt 4.17). E uma de suas últimas declarações antes de morrer foi: “O meu reino não é deste mundo…” (Jo 18.36). Como no sonho de Nabucodonosor (Dn 2.44,45), a pedra que foi cortada sem auxílio de mãos humanas cresce até se tornar uma montanha, esmagando todos os impérios, governos e ideologias humanas e enchendo toda a Terra para sempre.

Ao mesmo tempo em que Jesus anunciou um reino celestial, muito acima das mesquinhas disputas humanas, ele ensinou e demonstrou na prática que esse reino pode ter um impacto imediato, mesmo atuando no meio de forças governantes contrárias. Embora seu domínio pleno só venha no fim desta era, desde já seu “vírus” subversivo pode começar a “infectar” as pessoas.

“O reino de Deus não vem com aparência exterior”, Jesus advertiu (Lc 17.20). Usando parábolas, ele ensinou que começa bem pequeno, como um grão de mostarda ou medida de fermento (Mt 13.31-33), e vai crescendo e mudando o ambiente até assumir proporções gigantescas.

Em sua primeira vinda, Jesus não mostrou a menor preocupação em mudar o governo ou transformar a sociedade de cima para baixo. Seu foco de atenção era o coração humano. Ao invés de mexer com tronos externos, alvejou o trono do egocentrismo que fica dentro de cada um de nós.

O problema com qualquer sistema de governo, por mais justo que pareça, são as pessoas que vão administrá-lo. Seja empresário ou trabalhador, nobre ou plebeu, ao assumir o comando de um governo, seu coração egoísta subverterá os objetivos idealistas e os sujeitará aos seus interesses particulares. Por isso, de nada adianta mudar o sistema sem mudar as pessoas que o dirigirão.

Não só Jesus, mas os apóstolos também entendiam isso. Em nenhum momento, pediram aos senhores cristãos que libertassem seus escravos, e sim que os tratassem com dignidade (Ef 6.9; Cl 4.1). De igual forma, nunca disseram que o cristão não poderia ser rico, mas que fosse rico em boas obras (1 Tm 6.17-19). Nunca aconselharam os cristãos a orar para se verem livres do domínio opressor de Roma, e sim que orassem pelos reis e lhes pagassem o respeito e o tributo exigidos (1 Tm 2.1,2; Rm 13.1-7; 1 Pe 2.13-17).

Ao mesmo tempo, porém, Jesus era extremamente radical em suas palavras contra a atitude de avareza e apego aos bens materiais que é tão inerente ao coração do homem caído (Lc 14.33-35). Era muito duro quando falava sobre servir a dois senhores. A mudança de coração que o seu evangelho propunha não era cosmética ou superficial, mas profunda e total.

Jesus era Deus em carne. Ele viveu aqui tudo aquilo que Deus quer que vivamos. Demonstrou ao vivo e em cores o que significa amar de verdade. Quando o Espírito Santo foi derramado no dia de Pentecostes, houve fortes sinais sobrenaturais: vento impetuoso, chamas de fogo sobre as cabeças e palavras proferidas em outras línguas que os discípulos nunca haviam aprendido. Isso chamou muito a atenção, mas houve um efeito muito mais profundo e impactante: o domínio do egoísmo havia sido quebrado pelo amor de Deus derramado nos corações. “Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, segundo a necessidade de cada um” (At 2.44,45). Não existe maior milagre do que esse. Isso é o reino de Deus.

O reino de Deus não consiste em algum governo totalitário (mesmo que fosse do próprio Deus) tirando os nossos bens e nos ordenando a reparti-los com os outros. Ainda que a verdadeira conversão signifique uma renúncia ao meu direito a possessões e até à própria vida, a decisão prática sobre o que fazer com elas continua em minhas mãos. O Rei do Universo não está sentado num imponente trono em algum lugar cósmico, ditando regras de uma posição exterior. Agora, ele está assentado no trono do meu coração, onde me faz sentir a dor dos necessitados como se fosse a minha. Continuo trabalhando e gozando o direito de receber os frutos do meu trabalho, mas a força motriz da vida mudou. Minha ambição não é mais acumular bens para mim, mas usá-los em prol do avanço do reino de Deus e para o proveito dos meus irmãos.

O sucesso do sistema capitalista em produzir prosperidade e riquezas vem de sua capacidade de aproveitar ao máximo a motivação fundamental do homem caído – o interesse próprio, ou seja, o egoísmo. Você já pensou o que acontecerá no mundo quando essa força for substituída por outra muito maior – o amor de Deus? Esse é o projeto de Jesus que se chama reino de Deus. Ele começa de dentro para fora. Começa às vezes de forma imperceptível. Mas é a maior força do Universo.

Esse reino precisa ser praticado primeiro no seio da igreja, da comunidade dos discípulos de Jesus. Mesmo debaixo de governos e ideologias contrárias, ele pode crescer e espalhar-se. Infelizmente, o cristianismo tem perdido séculos de sua história tentando trazê-lo de outra forma. Mas tem amargado derrota após derrota. Não existe atalho. O reino dos céus não pode vir de forma exterior – precisa tomar posse integralmente do nosso coração por meio da mensagem radical do evangelho e, em seguida, por um poderoso batismo no Espírito do amor divino (Rm 5.5).

Não devemos colocar nossa esperança em nenhuma ideologia humana, pois nosso Rei é outro, e sua ideologia é incomparavelmente superior. Mas também não devemos ficar inativos, aguardando passivamente que o reino só comece a funcionar quando o Rei voltar visivelmente nas nuvens. Ele já deixou a semente em nosso coração, e nossa tarefa hoje é permitir que ela cresça em nós, tomando conta cada vez mais de todo o nosso ser e, depois, do mundo ao nosso redor. Assim como Jesus não foi impedido pelas autoridades romanas ou sacerdotes judaicos de manifestar o amor de Deus na Terra, não há sistema no mundo que possa nos impedir de fazer o mesmo.

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