Medo: O Precipício Entre Nós E A Vontade De Deus

Data de publicação: 19/09/2011
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Edição 34 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 34

Por Susana Walker

Quantas vezes você já se indagou se a vontade de Deus estava realmente sendo cumprida em sua vida? Quantas vezes você desejou estar fazendo algo mais para o reino de Deus, ou ser mais entregue a ele? Quantas vezes já se sentiu frustrado diante do precipício que existe entre sua vida atual e a visão do ideal que se vê na Palavra de Deus?

Mas quantas vezes você viu, desejou e procurou todas essas coisas acima, e sentiu-se amarrado, preso e imobilizado por esse sentimento tão conhecido por todos: o MEDO?!

O Medo na Cultura Africana

O medo é um dos fatores predominantes na cultura africana. A maior parte dos africanos vive debaixo dele, muitas vezes de forma até incompreensível para nós.

O povo africano passou por séculos de calamidades permanentes (fome, epidemia, opressão, escravidão). Com pouco entendimento das causas naturais e científicas dessas calamidades, e muita crença no poder místico dos curandeiros, feiticeiros e espíritos ancestrais, a cultura africana formou-se baseada no medo.

O mundo espiritual, na África, parece estar bem mais exposto do que no mundo ocidental. É difícil encontrar alguém que nunca tenha visto um “fantasma” ou que não se sinta afetado, de alguma maneira, por “espíritos maus”. Ainda não encontrei uma pessoa africana que não cresse no sobrenatural.

Eles não só acreditam nesse mundo sobrenatural, mas vivem no temor do mal que o sobrenatural possa vir a trazer sobre suas vidas.

O motivo para qualquer doença ou calamidade é sempre procurado no mundo espiritual. Se a casa de alguém se queima, foi o vizinho que fez “droga” (maldição lançada pelos feiticeiros a pedido de alguém). Se o filho de alguém está doente, foi a mulher do inimigo que lançou o feitiço. Por causa dessas constantes ameaças e desconfianças, há pouca solidariedade e cooperação mútua.

Temem os vivos. Temem os mortos. Temem as circunstâncias.

Temem o desconhecido.

Temem que, a qualquer momento, um espírito ancestral enraivecido ataque sua saúde, seus familiares ou suas plantações e, por isso, procuram obedecer às muitas tradições dos antepassados.

Mesmo que uma pessoa tenha sido desprezada e odiada enquanto viva, depois de morta é reverenciada, e todos evitam falar qualquer coisa de mal contra ela, temendo que seu espírito esteja ouvindo.

Ao evangelizarmos ou ensinarmos na igreja, não precisamos gastar tempo nenhum procurando convencer alguém da existência de Deus ou de espíritos maus. Isso é de conhecimento e experiência gerais. Mas, por causa da falta de ensino e dos muitos anos de total domínio satânico, a crença no sobrenatural só causa medo e desespero. As forças do mal são temidas e obedecidas!

Vencendo o Medo na Prática

Enquanto o evangelho se espalha e cria raízes na África, uma das grandes lutas é convencer o povo africano de que o poder de Deus é maior do que o poder de Satanás. Mesmo entre os cristãos, esse entendimento é muitas vezes fraco e as experiências são poucas.

Ao observar isso na vida dos alunos da nossa Escola Bíblica em Inhaminga, Moçambique, comecei a enfatizar versículos bíblicos como 1 João 4.4: “Maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo”.

Menos de seis meses depois de chegar a Moçambique, o Senhor me permitiu passar por uma experiência que viria a ser essencial para o meu ensino. É tão melhor quando ensinamos da nossa própria experiência!

Em uma das viagens que fizemos às vilas, sem o sabermos, eu e meu grupo chegamos à casa de uma “curandeira” (feiticeira considerada “boa” pelo povo, e profissão até reconhecida pelo governo). Como de costume, eles reuniram a família para ouvir-nos debaixo de uma árvore. Todos vieram (o pai da família, a esposa mais velha, as crianças), menos a esposa mais nova, que era a curandeira. Apesar do marido insistir para que viesse se sentar conosco, ela se recusava.

Um rapaz do nosso grupo começou a compartilhar seu testemunho e, quanto mais ele falava, mais impaciente a mulher ficava. De longe, conseguíamos vê-la andando de um lado para o outro, irritada. Impaciente, ela entrou numa casa, e ali o espírito se manifestou. Começou a rosnar como um animal e, de repente, saiu de dentro da casa com uma faca em uma mão e a bainha de madeira da faca na outra. Ela batia uma na outra e gritava: Lero, panankondo pano! (“Hoje vai haver guerra aqui!”).

Graças a Deus, naquele tempo eu não entendia nada de dialeto, então não sabia que estava nos ameaçando. Ela chegava bem perto de nós e passava a faca perto da garganta de vários membros da equipe em forma de ameaça.

Naquele instante, tantas coisas passaram por minha mente. E se ela fizesse algo contra nós!? Estávamos no meio do mato, sem nenhum meio de transporte, longe de polícia, de um hospital ou de qualquer outro tipo de ajuda. Só podíamos depender de Deus.

Então pensei comigo mesma: “Se eu morrer aqui, logo estarei com Jesus… não tem problema! Mas não creio que essa seja a vontade de Deus! Afinal, não traria glória para seu nome permitir que seus servos fossem derrotados por um demônio de curandeirismo. Mas Senhor, seja feita a tua vontade!”

A curandeira, muito próxima de nós, passava a faca perto da garganta de cada um! Nós permanecíamos em pé, parados, orando. Ela não pôde tocar-nos. Era como se uma força invisível nos cobrisse e, por mais que ela nos ameaçasse, não permitia que encostasse sequer um dedo em nós.

Depois de pouco tempo, ela não agüentou e fugiu correndo!

Perguntamos à família para onde ela tinha ido. Disseram que fora procurar sua irmã, também curandeira, que vivia ali perto. Depois descobrimos que a irmã, quando ouvira que cristãos haviam chegado ali, ficara com muito medo e já tinha fugido também.

Passando a Experiência aos Outros

Depois dessa ocasião, eu contei à turma do Instituto o que havia acontecido e perguntei: “Se você estivesse ali, o que faria?” Muitos responderam que sairiam correndo. Eu os desafiei a crerem em 1 João 4.4. E oramos para que Deus lhes desse fé e não medo.

Pouco tempo depois, um grupo de alunos saiu para pregar numa região perto de nossa vila. Depois de alguns dias de pregação, eles ainda não conseguiam bons resultados. As pessoas não se mostravam interessadas e muito menos receptivas ao Evangelho.

Até que um dia eles chegaram à casa de uma curandeira local. Ela agiu exatamente como a curandeira da história que eu lhes havia contado. Entrou na casa, urrou e saiu com a faca e a bainha nas mãos, ameaçando-os. Disseram que, naquele momento, lembraram-se do que eu tinha falado: “Maior é aquele que está em mim do que aquele que está no mundo!” Eles, com autoridade, mandaram que ela ficasse quieta… e ela obedeceu!

Alguns homens da vila estavam ali e viram o demônio da curandeira obedecer-lhes. Naquele instante, ficaram abertos para ouvir o que o grupo tinha para dizer. A curandeira, emburrada, ficou quieta, até que terminaram de pregar para aqueles homens, que receberam a pregação com alegria. Os alunos voltaram para a escola muito animados, contando a todos como era verdade que maior era o Senhor que estava neles do que Satanás que estava na curandeira!

Percebi, então, como somente a fé no amor de Jesus pode lançar fora todo o medo! Os cristãos africanos que entendem isso vivem em uma liberdade invejada pelos demais, que estão sempre temerosos e desconfiados!

Qual a Diferença?

Quando olhamos para pessoas de uma cultura diferente da nossa, muitas vezes podemos achá-las estranhas e até desprezá-las como ignorantes ou supersticiosas. No Brasil, a maioria de nós não vive atemorizada por espíritos ancestrais, ou curandeiros com faca nas mãos. Mas ao meditar sobre o fator do medo, espantei-me ao ver como nossa cultura é tão enraizada no medo quanto a africana.

Talvez não tenhamos medo da morte física em si! Mas temos medo da renúncia que Deus requer de nós! De uma maneira, ou de outra, a maioria de nós, cristãos, não cumpre todo nosso potencial em Deus por causa do medo.

Temos medo de que, se nos entregarmos completamente a Deus, perderemos algo que consideramos tão precioso para nós. Temos medo de que a vontade de Deus não seja a nossa vontade, e por isso não cedemos à dele.

Se ele me chamar para algo que não quero fazer, terei que abrir mão dos meus sonhos! E se ele não quiser que eu case!? Pode ser que ele me peça para abrir mão do meu conforto material! E se, se, se, se…

Como resultado, vivemos no controle das nossas vidas, fazendo o que queremos e pedindo para que Deus nos abençoe nos NOSSOS próprios planos, sem nunca entregarmos realmente o “volante” da nossa vida a ele.

“Estou crucificado com Cristo, logo já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2.20).

Temos medo de perder o prestígio e a reputação, ao tomarmos decisões totalmente contrárias aos padrões do mundo.

O que os outros vão pensar de mim se eu decidir deixar esse emprego tão bom, porque Deus me chamou para servi-lo?! E as minhas amizades!? Mesmo dentro da igreja, eles não vão me entender! E se eu não tiver ninguém para me apoiar? O que meus pais vão pensar de mim? Eles investiram tanto na minha educação; vou decepcioná-los!

“Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!” (Jr 17.5). “Confia no Senhor e faze o bem; habitarás na terra, e verdadeiramente serás alimentado” (Sl 37.3).

Temos medo de não termos nossas necessidades supridas se decidirmos viver pela fé.

Como vou viver? Não posso deixar meu conforto! Deus sabe que eu simplesmente não posso viver sem isso e aquilo, e aquilo…

“Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” (Fp 4.12,13).

Temos medo de liberar pessoas que amamos para que cumpram todo seu propósito em Deus, por medo de perdê-las. Isso acontece especialmente quando pais têm que liberar seus filhos para cumprirem seu potencial em Deus.

Há uma missionária trabalhando comigo que vem de uma família cristã. Seu pai é pastor e sua mãe, muito envolvida no ministério. Mas quando ela decidiu deixar seu país, no Leste Europeu, e vir para Moçambique, teve muitas dificuldades com sua família! Até hoje sua mãe lhe escreve cartas um tanto manipuladoras, tentando fazê-la esquecer seu chamado e voltar para casa! Tudo por causa do medo de que algo aconteça com ela, enquanto está tão longe de casa!

Todos os pais cristãos querem que seus filhos se tornem bons cristãos e não lhes dêem problemas. Mas muitos nunca os entregam totalmente a Deus, por medo de que ele os envie para longe.

“Pela fé, Abraão, sendo provado, ofereceu Isaque; sim, ia oferecendo o seu unigênito aquele que recebera as promessas” (Hb 11.17).

Temos medo de errar. E se eu falhar?

Temos medo de entregar-nos a uma amizade com sinceridade. E se ele me machucar?

Temos medo de dar. E se me fizer falta?

Causas do Medo

Tantos medos, tantos temores! Quase todos causados pela falta de fé na Palavra de Deus! A raiz de nossos medos encontra-se em não crermos realmente que o Deus Todo-Poderoso nos ama e realmente cuida de nós. Quando cremos nisso de todo nosso coração, andamos em paz, sabendo que ele tem cuidado de nós! Ele nos chama, nos capacita, nos sustenta e, no final, receberá toda a glória!

Paulo disse: “Não andeis ansiosos por coisa alguma” (Fp 4.6). A ansiedade é sempre conseqüência do medo de que algo de mal aconteça!

Não é à toa que João escreveu: “No amor não há medo, antes o perfeito amor lança fora o medo; porque o medo envolve castigo; e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor” (1Jo 4.18).

Quando amamos a Deus de todo o nosso coração e conhecemos o amor dele por nós, fazemos coisas que por nós mesmos nunca teríamos coragem de fazer. O amor dele nos motiva, nos compele, nos leva a não temermos mal algum, mesmo enquanto andamos pelo vale da sombra da morte (Sl 23.4).

Outro motivo por que continuamente batalhamos contra o medo é que nosso velho homem insiste em reviver! Quando entregamos nossa vida ao Senhor, morremos para nós mesmos (Gl 2.20). Se é assim, homens mortos não sentem medo…, já morreram!

Apocalipse 12.11 diz que vencemos pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do nosso testemunho e NÃO AMAMOS NOSSAS VIDAS ATÉ A MORTE. Esses são os verdadeiros cristãos: aqueles que não somente entregam suas vidas quando morrem, mas em vida morrem a cada dia para si mesmos. São mártires vivos, renunciando suas próprias vontades e temores para viverem para aquele que os chamou. Se necessário for, morrem por Jesus, mas enquanto isso não é necessário, morrem para si mesmos, no seu dia-a-dia pelo mesmo Jesus.

Não somos chamados para ser mercenários que lutam, lutam, mas no momento que a batalha se torna mais intensa e há perigo de morte, fogem! Dinheiro nenhum é suficiente para mercenários!

Somente aqueles que lutam por amor, permanecem até o fim, e lutam sem temor!

Risco

Se realmente entendermos o conceito de risco, veremos que não temos razão para temer.

Um dia eu estava pensando em como, muitas vezes, somos chamados para arriscar tantas coisas pelo reino de Deus. Arriscamos nosso futuro, nossa reputação, nossos sonhos, nossas amizades e, às vezes, até mesmo nossa própria segurança. Eu estava impressionada com o fato de termos que ser “corajosos” para arriscar tanto, enquanto o mundo procura tanta segurança.

Mas então eu percebi uma coisa que me fez ter até vergonha dos meus pensamentos! Eu pensei no risco que Deus corre por nós!

É claro que ele é Onipresente, Onisciente, conhece o final antes do início e tudo o mais! Mas imagine que esse Ser tão poderoso, ao planejar sua vitória sobre seu arquiinimigo, escolheu pessoas, seres humanos, homens e mulheres, como você e eu, para que fossem os executores dos seus planos!

Como pode!? Ele entregou seu único Filho para vir como uma criatura vulnerável, viver no meio de homens perversos e, por fim, ser morto, para a execução do seu plano! Ele derramou seu Santo Espírito sobre vasos de barro, frágeis! Ele chamou, chama e continuará chamando homens e mulheres falhos, incompletos, incapacitados e improváveis para a realização da sua obra perfeita! Ele arriscou tudo por nós! E essa será sua grande vitória sobre Satanás: o poder de Deus de transformar-nos em uma igreja santa, perfeita, gloriosa, sem mancha, nem ruga! Para isso ele correu um grande risco!

Quem somos nós para temermos o risco irrisório de lançarmo-nos por completo nas mãos desse Deus amoroso e Todo-Poderoso?! Que privilégio é fazermos o que ele quer, confiarmos nele e servirmos a ele, não em troca de felicidade, realização, riquezas materiais, emocionais, sociais ou quaisquer outras… mas em troca de sermos chamados seus filhos e termos livre acesso à sua presença!

Quem somos nós?! Que privilégio! Que pequeno risco! Que pequeno preço! A quem temeremos?

“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Todo-Poderoso descansará.
Direi do Senhor: Ele é o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio.
Porque ele te livra do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa.
Ele te cobre com as suas penas, e debaixo das suas asas encontras refúgio;
Não temerás os terrores da noite, nem a seta que voe de dia,
Nem peste que anda na escuridão, nem mortandade que assole ao meio-dia”
(Sl 91.1-6).

Susana Walker, 21 anos, é filha de Harold Walker e está no terceiro ano de uma missão em Moçambique, onde é professora na Escola Bíblica Afrika Wa Yesu, em Inhaminga.

Uma resposta para “Medo: O Precipício Entre Nós E A Vontade De Deus”

  1. Fábio disse:

    Que o Senhor remova todos os medos do meu coração para servi-lo melhor.

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