Limites éticos para a ciência

Data de publicação: 21/02/2018
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Edição 80 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 80

Quando o avanço tecnológico e científico impõe riscos para a própria raça humana

Por Harold Walker

É indiscutível o bem que o desenvolvimento tecnológico das últimas décadas tem trazido para toda a humanidade. Milhões de pessoas que teriam morrido de fome ou doenças estão vivos graças às descobertas científicas. Privilégios antes restritos apenas aos reis agora são acessíveis a multidões. O que começa a ser discutido, entretanto, é o tamanho do estrago que esse mesmo avanço provoca — e o fato de que, em vez da sonhada prosperidade total, a sociedade chegou ao limite de seu estresse e tem enfrentado desde problemas pessoais resultantes da tecnologia até dilemas globais, tais como poluição, doenças, crimes e ameaças de guerras químicas e armas nucleares e biológicas.

Se o ritmo do avanço da ciência dos últimos anos continuar (e tudo indica que deve acelerar ainda mais!), veremos descortinar-se diante de nós possibilidades inimagináveis nos campos da saúde e expectativa de vida. E, junto delas, contemplaremos um cenário assustador de ameaça à própria raça humana.

Em seu famoso artigo Why the Future Doesn’t Need Us (“Porque o Futuro Não Precisa de Nós”), publicado na edição de abril de 2000 da revista Wired, o cofundador da Sun Microsystems, Bill Joy, afirmou que “as tecnologias mais poderosas do século 21 – robótica, engenharia genética e nanotecnologia – estão ameaçando tornar a humanidade uma espécie em perigo de extinção”. De fato, as temíveis armas de extermínio em massa do século 20 não se comparam a essa nova tríade de possíveis armas do século 21 em poder de destruição. Isso porque, enquanto aquelas só se viabilizavam mediante um forte apoio governamental ou corporativo, as atuais necessitariam apenas de um indivíduo ou um pequeno grupo mal-intencionado. Além disso, a capacidade quase infinita de autorreprodução torna essas novas tecnologias incontroláveis e muito mais perigosas.

“O conhecimento pode matar”, escreveu Joy em seu artigo. É impressionante notar que um dos livros mais antigos do mundo, Gênesis, já alertava para isso: “Porque no dia em que dela [a árvore do conhecimento do bem e do mal] comeres, certamente morrerás” (Gn 2.17).

Deus é o dono de todo o conhecimento, e só ele sabe como usá-lo adequadamente. Quando o homem escolheu a árvore do conhecimento no lugar da árvore da vida, querendo ser “como Deus”, começou a trilhar o caminho que hoje se aproxima de seu ponto mais alto. Assim como um alcoólatra consciente de que o vício o está conduzindo à morte, mas incapaz de rejeitar a próxima dose, os cientistas contemporâneos, apesar de saberem dos males escondidos na caixa de Pandora da ciência, não conseguem resistir à tentação de avançar em suas descobertas científicas para conseguir poder, fama e dinheiro.

Como cristãos imersos na atual cultura vigente (cultura esta movida pela busca frenética de prazer, lucro e realização pessoal), faríamos bem em parar para refletir sobre o rumo que o mundo está tomando e os desafios que nossos filhos e netos enfrentarão. Não devemos cooperar com essa corrida louca para acumular conhecimento sem pensar nas consequências que isso trará. Enquanto milhares se dedicam incansavelmente a desenvolver novos softwares e hardwares, será que não deveríamos investir na formação de uma geração que gaste seu tempo com formação do caráter, apreciação da natureza, reflexão sobre os valores morais? E também não deveríamos nos disciplinar a não ultrapassar as áreas de conhecimento que possam tornar-se ameaças para a nossa própria raça?

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