Lágrimas que não Satisfazem

Data de publicação: 08/09/2011
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Edição 40 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 40

Por Susana Walker

Quando a conheci, Sora Maria tinha seus 70 anos. Era alta, de belos traços, olhos azuis, cabelos grisalhos ainda bonitos e presos sob um lenço. Ainda se podia notar como devia ter sido bonita na sua juventude. Como jovem professora com futuro promissor, casara-se com um médico. O casamento, no entanto, trouxera-lhe somente tristeza e desespero. Além de espancá-la em muitas ocasiões, seu marido costumava pendurá-la pelos pés e dormir com outras mulheres diante dela, pelo prazer de vê-la sofrer.

Depois de muita traição e sofrimento, ele sumira para sempre de sua vida, deixando-a arrasada, sozinha e, pior do que tudo, com péssimas recordações. Nesse tempo, ela havia começado a se apaixonar por um outro alguém, Jesus. O único que, em meio a seu sofrimento, não lha abandonara e a mantivera sã. Por causa desse amor, decidiu nunca mais casar-se, mesmo depois da morte do seu marido, alguns anos depois.

Olhando para ela, no entanto, nem poderia imaginar tamanho sofrimento. Não havia qualquer vestígio de desgosto, amargura ou rancor. Tudo o que eu podia ver era uma mulher completamente tomada por seu amor a Deus. Uma mulher que vivera mais de vinte anos viajando pela Romênia comunista, visitando cristãos para encorajá-los e animá-los, levando suas canções e revelações a cada lar, seguindo a direção que recebia de Deus. Findo o comunismo, era ainda mais livre para continuar suas viagens. Era conhecida nas mais diversas partes do país por sua intensidade, sua paixão, sua determinação.

Entrar no seu quartinho era como entrar no Santo dos Santos, era como ser arrebatado ao trono de Deus e sentir-se cercado de todos os lados por seu grande amor. Nas quatro horas que passei ali, senti o coração de Deus bater mais perto do que jamais imaginara possível. Fui confrontada nas áreas mais profundas do meu coração e tomei decisões inconcebíveis em outras ocasiões.

Sora Maria, ora de pé, ora sentada, explicava uma de suas últimas revelações a um casal de excomungados da igreja. Era uma tarde comum, na qual ela ministrava aos excluídos e rejeitados entre os cristãos. Eu não podia entender o que ela falava em romeno, mas o Espírito traduzia as emoções com uma clareza indescritível.

Sua voz, ora forte, ora suave, exprimia o que emocionava seu coração. Às vezes, soava como uma adolescente completamente apaixonada, com um sorriso no canto dos lábios. Às vezes, como um profeta bradando uma sentença da vingança e do julgamento de Deus. Parava de falar e pegava o violão para cantar uma das canções que escrevera, falando do amor da Noiva no livro de Cantares de Salomão, ou da tristeza do coração de Deus ao ver sua Amada sendo seduzida pelo dinheiro e deixando suas vestes nupciais serem estragadas pelas riquezas desse mundo.

Eu não podia crer que ali, na minha frente, estava o retrato mais bem traçado de Jesus que eu jamais havia visto, na figura daquela simples senhora, em uma pequena vila, no coração da Romênia.

Em um ponto da conversa, Simona, minha amiga que me levara ali, começou a traduzir o que Sora Maria falava. Ela contava: “Há dois anos o Senhor me disse para parar de viajar. Ele disse que traria as pessoas a quem eu devia ministrar até mim. Ele disse que eu ministraria até às Américas, mas eu não sinto que irei até lá. De alguma maneira, ele cuida de trazer quem quer até este simples lugar!” Meu coração tremeu. Desde o momento em que a primeira lágrima correu por minha face, todas as outras se sentiram na liberdade de segui-la, e até o fim da visita, não consegui parar de chorar. Eu, do Brasil, seria parte do que Deus planejou sobre ela ministrar às Américas? “Preciso saber o que mais?”, pensei. “O que ela tem a dizer para mim, para nós?”

Ela continuava: “Estou cansada! Estou cansada de falar, falar, falar! Deus não está de brincadeira! Ele não quer dividir sua igreja com outras coisas. Ele quer ser o único! Estou cansada de falar essas coisas para as igrejas e não ver mudanças. Elas estão preocupadas com seus templos, com o sustento dos seus projetos, com seu status na sociedade. Todos buscam a glória, como Lúcifer buscou. São poucos os que querem se assemelhar a Jesus, que se despiu da glória e buscou a humilhação e o sofrimento. Quem quer sofrer?”

Ai, uma pontada no meu coração. Uma pontada pela igreja, como eu a conhecia. Era justa sua descrição! Ai, outra pontada. Essa foi por mim mesma! Podia eu apontar para outros ou bastaria achar em meu coração tanto lixo, tantos sonhos, tantas ambições e busca por glória?! Quando entrara ali, mal sabia eu que a luz brilharia dentro do meu coração e exporia tanta podridão!

Sora Maria continuava: “Estou cansada de falar às igrejas! Agora não vou mais a elas, vou às praças, vou às ruas. Enquanto toco as canções que Deus me dá, dezenas de pessoas se aproximam. Algumas são pobres, ali é a casa delas. Outras são ricas, empresários que estão só passando por ali. Mas não importa. Quando são tocados, todos se quebrantam, choram e saem dali diferentes. Conhecem um amor do qual não haviam ouvido falar!!

“Mas nas igrejas não é assim. Ouvem, sim. Choram, sim! Alguns choram muito! Mas nada muda. É sempre a mesma coisa! São lágrimas que não provocam mudança. Lágrimas de remorso, lágrimas de culpa, lágrimas por não viver só para Deus! Não são lágrimas por ver a tristeza de Deus, mas lágrimas sem efeito, sem produto, sem resultado! Eles se satisfazem com as lágrimas!”

Sinceramente, não me lembro do que ela falou palavra por palavra. Afinal, tudo foi traduzido e, no meio do turbilhão de meus pensamentos e emoções, só posso me lembrar do sentimento que ficou sobre o que ouvi!

Lágrimas! Satisfazer-se com lágrimas! Lágrimas sem fruto, sem resultado! Nunca havia pensado sobre isso. Deveriam lágrimas produzir algo!? Não eram as lágrimas um fim em si mesmas?

O que eu estava pensando? Claro que não. Era como se orássemos por orar. Como se buscássemos a Deus por buscar. Enquanto muitas dessas lágrimas banhavam meu rosto, eu pensava: Senhor, não quero que essas lágrimas sejam infrutíferas, sem resultado! Não quero que seja algo momentâneo, algo de que logo me esqueça. Quero que sejam lágrimas que gerem ações, posições, mudança!

Já se passaram quatro meses desde o dia que encontrei Sora Maria e, muitas vezes, tenho sido lembrada daquelas lágrimas, tenho meditado sobre elas e jamais quero me esquecer o motivo por que elas foram derramadas! Mas não só isso, que eu venha a chorar, muitas e muitas outras vezes, lágrimas que produzam resultados, que me façam ser diferente e provocar diferenças!

As lágrimas que satisfazem são aquelas que choro por mim mesma, com a minha própria força. São lágrimas por meus próprios problemas, por minhas dificuldades, meus sonhos “deixados por amor a Deus”. São lágrimas de desabafo diante de Deus ou lágrimas de manipulação e auto compaixão. São derramadas quando quero mover Deus dos seus caminhos para os meus, quando penso que ele é meu psicólogo de tempo integral que tem a responsabilidade, na verdade a obrigação, de me ouvir, tocar, responder e fazer-me sentir melhor. São lágrimas de culpa pelo que faço e continuo fazendo; de remorso por quem sou, contudo sem verdadeiramente renderem-me a ele. Não produzem nada em mim senão o vago sentimento de que deveria mudar. Na verdade, elas me anestesiam, pois me satisfazem antes que eu chegue a soluções reais.

Quantas vezes já vimos alguém (talvez é só olhar no espelho para ver um desses) “tocado”, aos prantos, no altar, depois de um apelo comovente, só para comprovar que no dia seguinte nada mudou? Mas, afinal, não houve lágrimas? E isso não indica um toque divino? Mas aquelas foram lágrimas que satisfizeram apenas quem as derramou… só a emoção bastou e nenhuma decisão foi tomada, nenhum conceito foi mudado, e depois que as lágrimas se foram, a memória daquela noite, daquele acampamento, daquela reunião não foi o suficiente para interferir na caminhada diária.

Ao contrário dessas, as lágrimas que não satisfazem são aquelas que só posso chorar quando Deus me toca verdadeiramente. São lágrimas que tiram meu foco de mim mesma, fixam meu olhar nele e no seu plano a ser realizado. São aquelas que me fazem deixar de me importar com o que EU acho importante na MINHA vida, para voltar-me à única coisa que realmente tem valor eterno, o que ELE quer! São lágrimas que produzem resultado, produzem ação. Elas não se satisfazem por simples-mente saírem de meus olhos, correrem por minhas bochechas e secarem-se em meu lenço. Elas querem provocar um terremoto em minhas prioridades, querem continuar sendo sentidas dias e anos depois de terem secado, querem levar-me à vontade de Deus em minha própria vida, na igreja e na Terra. São lágrimas que, mesmo depois de produzirem efeito em mim, continuam descendo por minha geração, por nossa situação como igreja, pelo mundo perdido ao meu redor… até que ele venha!

Como são criação de Deus, essas lágrimas não podem ser produzidas por nós, para nosso próprio benefício e alívio. Elas vêm do coração de Deus e só podem ser choradas quando nos aproximamos dele o suficiente para sentirmos o que se passa no mais íntimo do nosso Criador. Muitas vezes, temos que chorar muitas lágrimas egoístas, até chegarmos ao fim de nossas forças, sem resultados, para então começarmos a chorar as lágrimas de Deus.

Temos que ser incomodados para partir da teoria, das emoções, das experiências para a ação. Mas, muitas vezes, o que tenho sentido é que em nossas tentativas de ser práticos, tornamo-nos como sociólogos ou humanistas, “preocupados com a situação do nosso semelhante”, pensando que podemos fazer algo para melhorar as condições do nosso próximo por nossas próprias forças. Em inúmeras situações, tenho me indagado: “Em que somos melhores que os espíritas?” Como podemos falar que temos a resposta para o mundo, se nada mais temos a oferecer do que os outros, sem Jesus, já estão oferecendo: caridade, solidariedade e assistência social?! O que, afinal, irá nos diferenciar das milhares de tentativas humanas de melhorar a condição de vida dos menos favorecidos?

Temos que nos aproximar do coração de Deus. Isso significa parar com nossos esforços humanos e “bondosos” de fazer o bem, pois nossa bondade é como trapo de imundícia (Is 64.6) diante de Deus. Também significa nos arrependermos dos montões de obras mortas que temos produzido para ele diariamente, quando tentamos fabricar algo bom para oferecer-lhe. Só então poderemos concentrar todos nossos esforços em buscar a Deus, em chegarmos perto dele, reconhecendo que somos miseráveis e incapazes de qualquer bem. Teremos percebido que tudo o que tentamos no passado falhou em mostrar a glória de Deus ao mundo. Teremos reconhecido nossas falhas e total inabilidade de sermos o espelho de Jesus nos nossos dias. E, então, quanto mais perto chegarmos dele, mais de sua vida genuína fluirá de nós para aqueles ao nosso redor, sem um pingo de esforço nosso para sermos bons.

Creio que Sora Maria tenha descoberto o segredo. Todas as vezes que tentávamos agradecer-lhe por suas palavras, ela quase se ofendia e dizia: Multumesc, Domnezel (“Obrigada, Senhor!”). Ela preocupava-se em não entrar na frente do Senhor, não tomar nem um pingo de sua glória, mas passar para ele toda honra que lhe é devida! Creio ser esse o caminho que devemos trilhar hoje, como geração, como povo de Deus, como Igreja “em projeto de ser” Gloriosa.

Susana Walker, 22 anos, depois de um período de três anos numa missão em Moçambique, atualmente leciona no Curso de Preparação Profética em Monte Mor, SP.

e-mail: sukawalker@yahoo.com

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