Última Palavra-Laços Familiares versus Verdadeira Família

Data de publicação: 29/04/2011
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Edição 61 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 61

Por John Eldredge

O fato de encontrarmos nossa identidade como filhos de Deus altera drasticamente todos os demais relacionamentos – para sempre; incluindo os laços familiares.

Ah, como isso é importante! Para caminharmos na liberdade, na cura e na intimidade com Deus – disponíveis aos filhos de Deus –, devemos saber o que significa essa mudança de vínculos estabelecidos com nossa família e nossos pais terrenos.

Sabemos, por meio das Escrituras e das histórias ali registradas, o quanto a família natural é importante para Deus. Existe um outro lado, porém, que pode ser comprovado em incontáveis casos verídicos, tanto no passado quanto no presente. Sistemas familiares podem ser fechados, opressivos, prejudiciais. A história e a literatura estão cheias de vidas humanas levadas a uma situação de infelicidade e culpa por causa da manutenção da “honra” e, frequentemente, dos “interesses” da família. Muitas tragédias como abuso emocional, físico e sexual dentro das famílias nem chegam a ser reveladas. Diz o ditado que o sangue fala mais alto.

Em várias ocasiões, Jesus fez questão de entrar em choque com os conceitos de família prevalecentes em sua cultura. Veja, por exemplo, esta afirmação:

Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra. Assim os inimigos do homem serão os da sua própria casa (Mt 10.34-36).

Espere aí! Essas palavras são fortes. Fazer com que um filho fique contra seu pai? Uma filha contra sua mãe? Palavras calculadas para perturbar profundamente seus ouvintes. Se ele tivesse usado palavras como “um homem contra outro homem, uma mulher contra outra mulher”, não teriam causado tanto desconforto.

E o confronto de Jesus com a cultura da família não se restringiu a palavras. Jesus demonstrou a nova relação com a família num episódio talvez mais chocante ainda.

Falava ainda Jesus ao povo, e eis que sua mãe e seus irmãos estavam do lado de fora, procurando falar-lhe. E alguém lhe disse: Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar-te (Mt 12.46-47).

Sua família chegara para conversar com ele sobre o que nós não sabemos, mas, aparentemente, eles achavam que era importante o suficiente para interromper a pregação, parar a assembléia para uma “reunião familiar”. Enviaram uma mensagem por entre a multidão de que gostariam de falar com Jesus. Como qualquer família judaica normal, a de Jesus presumiu que ele atenderia seus pedidos imediatamente. E, sendo judeus, a congregação presumiu e entendeu que, nesse ponto, Jesus — tal qual qualquer bom rapaz judeu — pararia o que estava fazendo e iria até eles. Não. Ele não fez isso.

Porém ele respondeu ao que lhe trouxera o aviso: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E, estendendo a mão para os discípulos, disse: Eis minha mãe e meus irmãos. Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe (vv. 48-50).

Sabemos que Jesus é o amor encarnado, mas (puxa vida!) não é isso que qualquer um de nós esperaria. “Minha verdadeira família são aqueles que estão na família de Deus.” Essa declaração é simplesmente radical; esquisita até. Para aquelas pessoas, a família era o elo mais inquestionável da terra. Mas Jesus estava tentando exatamente reformar a compreensão sobre os laços familiares. Ele é rude com a questão, porque se trata de algo importante demais; porque ir para a casa do Pai celestial é o objetivo da existência humana.

Eu sei, eu sei. As pessoas usam tais fatos como desculpa para fazer coisas que parecem ser muito pouco cristãs. É um ensinamento perigoso – como todos os ensinamentos que trazem liberdade verdadeira –, mas isso não parece preocupar Jesus, que reforça a ideia várias e várias vezes: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim” (Mt 10.37).

Quero deixar claro que, nem por um momento, estou minimizando o papel dos pais terrenos. Ser pai é uma tarefa nobre e aterrorizante; e uma “conquista perigosa”, como escreveu Gabriel Mareei, “que é alcançada passo a passo numa caminhada difícil cheia de armadilhas”. Se nossos pais terrenos fraquejaram durante a caminhada, talvez tenha sido porque o terreno que eles tinham de atravessar fosse mais difícil do que imaginamos. Quanto mais vivermos, penso que veremos as falhas de nossos pais com mais compaixão e, espero, com mais entendimento de todas as coisas boas que foram capazes de nos oferecer.

Um bom pai realmente deveria ensinar sobre Deus Pai e como caminhar com ele. Muitos dentre nós, porém, nunca tiveram um pai terreno ao seu lado; outros tiveram pais ausentes, e outros ainda, pais que demonstraram tudo o que Deus não é. Em todos os casos, um dia, mais cedo ou mais tarde, teremos de seguir nosso caminho sozinhos com Deus. Teremos de suprir nossa mais profunda necessidade paternal/paterna conhecendo o único pai completo, o Pai celestial.

A transição do relacionamento com o pai natural para o relacionamento com o Pai verdadeiro pode ser mais fácil ou mais difícil dependendo de nossa experiência passada. Mas é uma transição necessária. E só poderá ser feita se entendermos o que Jesus quis mostrar sobre laços naturais e espirituais.

Jesus não estava desprezando sua mãe e seus irmãos. Ele estava mostrando que há laços mais fortes, mais primordiais do que os laços da família natural. No plano ideal, projetado por Deus, os dois tipos de laços deveriam fundir-se em um só. Na prática, porém, isso nem sempre acontece. E, mesmo que tenhamos o privilégio de ter nascido numa família saudável espiritualmente, sempre precisaremos buscar, na família de Deus, a complementação, o aperfeiçoamento daquilo que não foi possível ser vivido na família natural.

Uma mudança radical aconteceu quando nascemos de novo no Reino de Deus. Fomos abraçados por nosso Pai celestial. Ele nos recebeu em sua família. Nós somos seus filhos – realmente somos. Temos seu Espírito em nosso coração (Rm 8.15). Temos um novo legado, pois seremos como ele (Rm 8.29).

Somos livres hoje para amar nossa família aqui na terra, pois não precisamos viver debaixo da falsa culpa, das falsas pressões e falsas heranças. Nossa visão de nós mesmos como homens pode ser curada. Nossa visão da vida pode ser renovada. Não precisamos ser limitados por nossas experiências negativas e traumatizantes em família que não foram fundamentadas e centralizadas em Deus. Não somos fadados a repetir os mesmos ciclos de carência, incompreensão, abuso, frustração e fracasso nos quais porventura tenhamos sido gerados.

Estamos livres agora para assumir nossa jornada junto a um Pai que se importa, compreende, supre, capacita, acompanha e nos torna completos nele, capazes de reproduzir a imagem dele em muitos outros filhos do seu amor.

(Adaptado de um trecho extraído do livro A GRANDE AVENTURA MASCULINA, de John Eldredge, págs.49 a 54 – Ed.Thomas Nelson Brasil, 2007)

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