Impacto Mirim-Um Encontro Inesquecível

Data de publicação: 13/07/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 59 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 59

Esta é a segunda história de uma série sobre animais em perigo de extinção chamada:
Impacto Humano: Criação em Perigo de Extinção

“Um Encontro Inesquecível”
(História Inspirada em Fatos Reais)

PEIXE-BOI
Por: Renata Balarini Coelho

Nunca consegui me esquecer daquele dia. Já faz quase nove anos que tudo aconteceu, e é como se tivesse acontecido ontem! Ainda me lembro de cada detalhe e do quanto chorei e pedi para Deus perdoar àquela gente…
Na época, eu tinha apenas 7 anos. Minha irmãzinha estava para nascer, e meus pais preferiram que eu passasse uns dias na casa do tio Olavo e da tia Irene. Eles diziam que “hospital não era lugar para criança”.
Nós morávamos na cidade de Parintins, no Estado do Amazonas. Meus tios moravam em Nhamundá, uma cidadezinha ao lado de Parintins. Eu adorava visitá-los, porque o tio Olavo era pescador e me contava histórias inacreditáveis! Além disso, ele sempre me ensinava muito sobre a vida dos animais selvagens e me levava para viver aventuras no meio da floresta amazônica. Em uma só tarde, pescávamos tantos peixes diferentes no rio Amazonas que parecia mesmo história de pescador!
Mas aquele dia seria diferente… Logo que cheguei à casa da tia Irene, tomei um café da manhã delicioso, e o tio Olavo veio me contar os planos que tinha feito para nós! Disse que faríamos um passeio pelo rio Nhamundá e conheceríamos uma comunidade ribeirinha! Eu não conhecia o rio Nhamundá e nem sabia que comunidade ribeirinha era uma pequena vila de pessoas simples que moram à beira do rio e dependem do rio para sobreviver. Por isso, fiquei muito curioso, e partimos em poucos minutos.
Eu estava tão entusiasmado que olhava para todos os lados e mal conseguia ver a variedade de animais, as plantas incríveis e as árvores imensas da floresta…. No barco, tio Olavo me falava sobre algumas tribos indígenas que ainda habitavam por ali e contava a história de quando os portugueses chegaram ao litoral do Brasil e viram aquele paraíso!
De repente, escutamos vozes. Meu tio me disse que estávamos perto de um povoado e que, talvez, as pessoas da comunidade estivessem festejando. Quando chegamos ainda mais perto, não ouvimos mais nada. Mas deu para ver alguns homens de pé em canoas com arpões e lanças na mão. O motor das canoas estava desligado, e os homens olhavam para a água como se procurassem alguma coisa.
Estávamos em uma parte bem rasa do rio, e eu não sabia o que eles tentavam pescar. Foi quando ouvi a respiração de um animal e, logo depois, o lançamento de várias lanças e arpões. Meus olhos de menino viram quando aqueles homens cruéis se jogaram para cima do animal ferido e começaram a espancá-lo até a morte. Era um peixe-boi, o mamífero aquático mais dócil do planeta!
Tio Olavo já tinha me mostrado vários livros com figuras de peixes-bois. Ele sempre me contava histórias sobre os peixes-bois amazônicos e dizia que eram gigantes bondosos. Eles podem medir até 3 metros de comprimento e pesar 450 quilos! Mas, mesmo assim, são tranqüilos e se alimentam de capim e outros vegetias! Isso mesmo: o peixe-boi é o único mamífero aquático completamente vegetariano! Só come plantas aquáticas e consegue comer até 16 quilos por dia! Isso é que é gostar de salada!
Por isso, os peixes-bois são tão importantes para a natureza: as fezes deles ajudam no crescimento de outras plantinhas e ainda servem de alimento para filhotinhos de peixes. Esses peixinhos servem de alimento para outros animais maiores, que, por sua vez, alimentam os homens!
E meu tio sempre me falava que, mesmo assim, aqueles animais tão mansos e curiosos eram os mamíferos mais caçados do Brasil! E ainda correm perigo de desaparecer – tanto o peixe-boi amazônico quanto os que vivem em água salgada! Mas por quê? Porque os peixes-bois são lentos! Não conseguem nadar rápido para fugir dos caçadores e dos barcos. Como preferem águas mais rasas e gostam de ficar perto da superfície para comer e respirar, são atropelados, machucados e até mortos pelos barcos que passam rapidamente. E eles também podem encalhar. Os pescadores ficam só esperando eles virem até a superfície para respirar e então… Fim de história.
Quando eu olhei aqueles homens trazerem o corpo cinza-escuro do peixe-boi para a terra, ouvi gemidos que mais pareciam uma canção triste vinda da água. Me ajoelhei no barco e olhei para baixo, tentando ver algo naquela água escura. Havia um filhote de peixe-boi preso numa rede! E ele chorava pela mãe… Eu sabia que ele também corria perigo!
Naquele momento, tio Olavo amarrou o barco em uma árvore, desceu e foi falar com os homens. Por incrível que pareça, eles disseram que era a época do campeonato de caça aos peixes-bois! E ainda contaram que tinham capturado o filhote de propósito para atrair a mãe – porque os filhotes sempre chamam a mãe. E, por último, falaram que voltariam para pegar o bebê e levá-lo de presente para os seus filhos!
Como assim campeonato? Como assim presente? Então, aquelas pessoas não estavam caçando para se alimentar, mas para se divertir? E aquele animal que fazia parte da natureza iria virar bicho de estimação?
Não tínhamos o que fazer. Subimos no barco e voltamos. Chorei durante todo o caminho de volta. Imaginei o que aconteceria com aquele bebê órfão. Como ele conseguiria viver sem o leite da mamãe peixe-boi? Afinal, os peixes-bois mamam até os 2 anos! Será que ele se tornaria adulto? Será que teria outro bebê? A mamãe peixe-boi só tem um filhote a cada três anos! Foi a tarde mais triste da minha vida…
No dia seguinte, meu pai me ligou para dizer que minha irmãzinha tinha nascido! Que alegria no meio de tanta dor! Voltei para casa e tentei esquecer o que tinha acontecido.
Depois de dois meses, tio Olavo me ligou para contar uma ótima notícia. Um projeto de veterinários e pessoas que cuidam dos animais selvagens da Amazônia tinham conseguido resgatar o bebê peixe-boi de Nhamundá no quintal de um pescador! Apesar de estar bem magro e doente, ele iria sobreviver! Os veterinários tinham levado o filhote para um lugar onde seria alimentado e cuidado durante três ou quatro anos. E meu tio me disse que o bebê poderia até voltar a viver na natureza depois! E ter outros bebês – porque era uma fêmea!
Naquela hora, chorei de alegria! Nem tudo estava perdido! Descobri que Deus também usa pessoas boas para cuidar dos animais com todo o amor! Foi quando eu decidi que também queria ser uma pessoa como aquelas! Eu queria ser veterinário! Eu queria ajudar a salvar os peixes-bois e tudo o que Deus tinha criado, porque eles também nos ajudam a viver! Eu queria falar com aqueles pescadores e mostrar para eles o que eles estavam fazendo. Eu queria ajudar a cuidar do planeta. Afinal, do que adianta cuidar dos animais se eles não tiverem um lugar limpo e saudável onde viver?
Se as águas dos rios e dos mares estiverem contaminadas e cheias de lixo, latinhas de refrigerante e garrafinhas de plástico, os peixes-bois não viverão! E se os homens continuarem destruindo a floresta amazônica e derrubando as árvores, não haverá esperança – nem para os animais e nem para nós. Nós precisamos da criação do mesmo jeito que a criação precisa de nós. Esse foi o plano de Deus. E eu faço parte dele. Chegou a hora de virar o jogo!

Agradeço à bióloga e presidente da Fundação Mamíferos Aquáticos Denise de Freitas Castro e ao médico veterinário do Projeto Peixe-boi João Carlos Gomes Borges (www.ibama.gov.br/cma) por terem me apoiado e cedido grande parte das informações.

Renata Balarini Coelho é bacharel em Letras formada pela Unicamp e trabalha como escritora, tradutora e revisora. Atua na pregação e no ensino da Palavra de Deus na igreja Casa de Oração Vivendo em Cristo – Casa dos Milagres, na cidade de São Paulo. E-mail: rbalarini@yahoo.com

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