Impacto Mirim: Onde Existe Amor, Deus Aí Está

Data de publicação: 15/11/2011
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Edição 23 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 23

Por: Leon Tolstoy

Havia, uma vez, numa cidade, um sapateiro chamado Martin Avdejic. Morava num quartinho do andar térreo, com uma única janela, que dava para a rua. Da janela, Martin Avdejic podia ver os transeuntes. Na verdade, via somente os pés dos que passavam, mas reconhecia-os pelos calçados.

Há muito ele vivia naquela casa e tinha inúmeros conhecidos. Eram poucos os calçados da vizinhança que não haviam passado por suas mãos, uma ou duas vezes pelo menos, para que os consertasse. Assim, olhando pela janela, reconhecia os trabalhos que fizera.
Martin sempre fora uma boa pessoa, e trabalhava com honestidade e dedicação, mas avançando em idade, começou a meditar profundamente na sua salvação e se aproximou cada vez mais de Deus.

Muitos anos antes, perdera seus outros filhos, e mais recentemente sua esposa, ficando apenas um último filho de três anos, Kapitoschka. Moravam juntos num quartinho alugado. O menino crescera e ajudava o pai em seu ofício. Mas Kapitoschka, um dia, adoeceu. Ficou acamado e, depois de uma semana, morreu.

Martin Avdejic sepultou seu filho e ficou tomado pelo desespero. Tão grande era a sua dor que se rebelou até contra Deus. Tornou-se indiferente a tudo, e só sabia pedir a Deus que o levasse deste mundo. Recriminava o Criador porque, em vez de chamá-lo a ele, que já era velho, levara seu precioso filho. Martin deixou até mesmo de ir à igreja.
Um dia, apareceu em sua casa um velho companheiro que, depois de ouvir as queixas de Martin, o aconselhou:

“É pecado pensar desse jeito, Martin! Não nos cabe julgar as ações de Deus. Não somos nós quem decidimos nossa sorte, é Deus. Ele determinou que teu filho morresse e que você continuasse a viver. Isso deve ser, portanto, um bem para ti. Estás desesperado porque desejarias viver unicamente para tua própria felicidade.”
“Mas então para que devemos viver?” perguntou Martin.
“É preciso viver para Deus. Ele te deu a vida e, por ele, deves aceitar a tua existência. Tão logo comeces a viver em Deus, não sentirás tua aflição e tudo parecerá fácil.”
Martin permaneceu silencioso por alguns instantes, depois perguntou: “Mas como viver segundo a vontade de Deus?”
“Cristo nos ensinou a maneira de viver conforme os mandamentos do Senhor. Sabes ler? Compra um Evangelho e lê; aprenderás a viver conforme a vontade de Deus.”

Estas palavras calaram profundamente no coração de Martin. Naquele mesmo dia comprou um Novo Testamento e começou a leitura.
Para dizer a verdade Martin tinha intenção de ler os Evangelhos somente nos domingos e dias de festas, mas, quando começou a estudar as Escrituras, experimentou tanta alegria que não pôde mais deixar de ler, todas as noites, as páginas sagradas. Quanto mais lia, tanto mais entendia o que Deus lhe pedia e, ao mesmo tempo, seu coração ficava tranqüilo. Outrora, ao se deitar, só conseguia pensar em Kapitoschka, lamentava-se e gemia. Agora porém, habituava-se a agradecer a Deus: “Glória a ti, Senhor, meu Deus! Seja feita a tua vontade!”.

Certa vez, caíra a noite quando ele lia o Evangelho de Lucas. Havia chegado a passagem do capítulo 6, que conta a parábola da casa edificada sobre a rocha e a casa feita sobre a areia.

Depois de ler estas linhas, o coração de Martin encheu-se de grande alegria. Tirou os óculos e colocou-os sobre o livro, inclinou-se sobre a mesa e entrou em profunda meditação. Comparou sua vida com as palavras do Evangelho, e pensou: “Em que condições se acha a minha casa? Eu a construí sobre a rocha ou sobre a areia? Quero viver conforme as Escrituras! Como seria lindo! Que o Senhor me ajude!”

Martin resolveu ir para cama, mas lhe desagradava interromper a leitura do Livro sagrado e continuou a ler o sétimo capítulo do Evangelho de Lucas. Chegou ao ponto em que o fariseu convida Jesus para ir à sua casa. Leu o trecho da pecadora que lava os pés de Jesus com suas lágrimas e, após ungi-los, recebe de Cristo o perdão de seus pecados. E leu como Jesus disse ao fariseu que este não o recebeu da mesma forma. Terminada a leitura, Martin murmurou: “Não me deste água para lavar os pés, não deste o ósculo, não me ungiste a cabeça…”

Tirando novamente os óculos, colocou-os sobre o livro, e começou a meditar. “Talvez eu tenha sido como o fariseu. Talvez eu tenha pensado somente em meu próprio bem, em meu chá, em viver comodamente, e nem me lembrei de meus convidados. Sim, não me esqueci de mim mesmo, mas esqueci os meus convidados. E quem é meu convidado? É Deus mesmo! Se o Senhor aparecesse em minha casa, será que eu me comportaria como o fariseu?”

Martin apoiou a cabeça nas mãos e adormeceu sem perceber.
“Martin!”
Ele ouviu de repente uma voz fraca como um sussurro.
“Martin!”
Acordou-se e perguntou: “Quem é?”
Voltou-se e olhou para a porta. Não viu ninguém. Dormiu outra vez.
De novo, ouviu uma voz muito mais clara.
“Martin, Martin! Olhe, amanhã, pela janela. Eu virei!”

Ele então acordou. Levantou-se, esfregou os olhos. Não sabia se ouvira aquelas palavras dormindo ou acordado. Apagou a luz e deitou-se.
Na manhã seguinte, levantou-se antes que o sol nascesse; fez suas orações, acendeu a lareira, pôs para cozinhar a sopa de repolho e aveia, ferveu o chá, vestiu o avental e colocou-se junto à janela para trabalhar.

Enquanto trabalhava, não conseguia esquecer o que lhe acontecera na véspera. E lhe assaltavam as dúvidas. Às vezes, pensava que tudo era imaginação; às vezes, convencia-se de que realmente ouvira aquelas palavras.

“Sim”, pensou, “coisas como essas às vezes acontecem!”

Martin trabalhava de cabeça baixa, o trabalho não rendia como de costume. Olhava a rua a cada instante. Quando passava alguém que calçava sapato desconhecido, seguia-o com atenção, para ver o seu rosto. Passou o proprietário da sua casa, com botas de feltro, novas; depois o homem que carregava água.

A seguir, passou um velho soldado da época do Czar Nicolau. O soldado calçava botas de feltro, velhas e remendadas, e levava uma pá nos ombros. Martin o reconheceu pelos calçados. Chamava-se Stepanic e vivia com um comerciante, seu vizinho, que lhe dera abrigo por piedade. O soldado costumava fazer trabalhos domésticos. Parou diante da janela de Martin e se pôs a amontoar a neve. Martin olhou o velho por alguns instantes e depois continuou seu trabalho.

“Com o passar dos anos enfraqueceu-me a idéia” pensou, zombando de si mesmo. “Stepanic veio para retirar a neve, e eu aqui a pensar que ele seja o Cristo e queira visitar-me. Que velho imbecil que sou! Perdi aquele pouco juízo que me sobrava!”

Martin continuou a puxar a agulha e deu uma dezena de pontos. Viu que Stepanic encostara a pá na parede e tentava tomar fôlego e aquecer-se.
“É um pobre velho que não tem mais forças; vejo que não consegue nem amontoar a neve”, pensou Martin. “Preciso dar-lhe um pouco de chá. O bule já está fervendo.”

Depôs a sovela, levantou-se, pôs o bule sobre a mesa, encheu a xícara de chá, e bateu nos vidros da janela.
Stepanic virou-se e se aproximou. O sapateiro fez-lhe um sinal, dirigiu-se para a porta e abriu.

“Entra, aquece-te!”, disse. “Deves estar gelado.”
“Meu Deus”, respondeu  Stepanic, “começam a doer-me os ossos.”
Entrou no cômodo, sacudiu a neve que o cobria, limpou as botas para não sujar o assoalho. Fez tudo isso vacilando, por causa da fraqueza.
“Não se preocupe. Depois limparei o assoalho. Isso faz parte do meu trabalho. Vem, senta-te”, disse  Martin. “Aqui  está o chá.”

Deu  a xícara ao hóspede. Depois, derramou um pouco de chá em seu pires e começou a soprá-lo. Stepanic esvaziou sua xícara, virou-a de boca para baixo e colocou sobre ela o pedacinho de açúcar que sobrava. Agradeceu, depois, a acolhida. Mas já se via que teria bebido de bom grado mais uma xícara de chá.

“Bebe mais uma xícara”, disse Martin e serviu ao hóspede outra vez. Enquanto bebia seu chá, Martin lançava de vez em quando um olhar para rua.
“Esperas alguém?”, perguntou o hóspede.
“Sim, espero alguém mas tenho vergonha de dizer quem é. Não posso esquecer uma voz que ouvi. Talvez sonhei, talvez não. Ouve irmão, li no Evangelho como o Senhor, passando pela terra, foi ter à casa de um fariseu. O fariseu não o acolheu como devia. Enquanto eu lia, irmão, veio à minha mente este pensamento: ‘O fariseu não soube receber o Senhor. Se o Senhor tivesse aparecido a mim ou a outro, tê-lo-íamos recebido como merece?’ Assim pensando, adormeci. Depois, ouvi uma voz  que me dizia: ‘Espera-me, virei amanhã!’ Disse-me duas vezes isso. Acredita, não posso esquecer-me destas palavras. Acho que faço mal, mas assim mesmo espero a vinda do Senhor.”
Stepanic meneou a cabeça e ficou calado. Bebeu a segunda xícara de chá, depois colocou a xícara de cabeça para baixo no pires. Mas Martin a revirou e encheu-a novamente.
“Bebe, isso te fará bem! Penso que o Senhor, quando vivia na terra, não se envergonhava da companhia de pessoas simples. Aliás preferia a companhia deles, escolheu seus apóstolos entre a nossa classe, entre os operários. O Senhor disse: ‘Quem se orgulha será humilhado, e quem se humilha, será exaltado. Vós me chamais de Senhor! Mas eu estou pronto a lavar-vos os pés. Quem quiser ser o primeiro deve ser o servo de todos. Bem aventurados os pobres de espírito, os mansos, os misericordiosos!'”
Enquanto Martin falava, Stepanic esqueceu-se de beber o chá; era um velho sensível; ouvia aquelas palavras e seus olhos enchiam-se de lágrimas.
“Bebe”, disse  Martin.
Mas Stepanic levantou-se e agradeceu.
“Obrigado, Martin Avdejic”, disse. “Tu me abrigaste e restauraste minha alma e meu corpo.”

Stepanic saiu do quarto. Martin verteu o resto do chá na sua xícara e bebeu. Tirou a mesa e sentou-se junto à janela para terminar o trabalho. Começou a cobrir de couro um salto, e não deixava de olhar para fora da janela. Esperava que aparecesse o Senhor e pensava em suas palavras, relembrando muitas coisas que o Mestre dissera.

Martin viu passar dois soldados. Um deles estava com as botas do uniforme, o outro não. Depois, passou o dono da casa vizinha, cujas galochas brilhavam de tanta limpeza. Ainda um pouco e passa o padeiro com o cesto de pão. Todos passam sem parar diante da casa.

Uma mulher se aproxima, então, de sua janela. Usa meias de lã e tamancos. Passa pela janela de Martin e, de repente, pára junto a uma parede entre as duas janelas seguintes. Ele olha para a mulher. Era-lhe desconhecida. Vestia-se pobremente, usava um vestido de verão e levava nos braços uma criança de peito. A desconhecida encosta-se na parede da casa para se defender do vento. Procura agasalhar o menino para aquecê-lo; Martin ouve o choro da criança. A mãe quer acalmar o menino, mas não consegue. Martin levanta-se, sai do quarto e chama-a da escada:

“Olá, senhora!”
A desconhecida ouve sua voz e volta-se para ele com um olhar de interrogação.
“Por que estás aí no frio com tua criança? Entra em meu quarto. Aqui é quente e poderás agasalhar o bebê.”
A mulher se espanta; olha o velho com o avental de couro e os óculos sobre o nariz, que a convida afavelmente a entrar em sua casa. Segue-o. Ambos entram no quarto. O velho acompanha a mulher até sua cama e diz:
“Senta-te aqui, perto da lareira. Aquece-te e amamenta a criança!”
“Meu seio já não tem mais leite. Não comi nada hoje”, murmurou  a mulher. Apesar disso, tentou amamentar a criança. Martin meneou a cabeça, aproximou-se da mesa, tomou um pedaço de pão e uma tigela, abriu a lareira e encheu a tigela com sopa de repolho. Depois, tomou a panela, mas a aveia ainda não estava cozida. Colocou a sopa sobre a mesa e perto dela o pão.
“Senta-te e come!”, disse ele. “Enquanto comes, eu cuidarei da criança. Eu também tive filhos e sei como cuidar deles.”

A mulher sentou-se à mesa e começou a comer. Martin sentou-se junto à mesa. Fazia barulho com a boca, para distrair o menino, mas não era bem-sucedido porque perdera todos os dentes; e o menino não parava de chorar. Tentou então acalmá-lo colocando um dedo diante dos olhos da criança. Encostava-o em seus lábios, depois o retirava, sem colocá-lo na boca do menino, pois seu dedo estava preto de tinta. O menino começou a olhar o dedo e foi se acalmando. De repente, chegou até mesmo a sorrir e Martin ficou todo satisfeito.
Enquanto tomava a sopa, a mulher contou-lhe de onde vinha e para onde ia.

“Sou mulher de um soldado”, disse ela. “Há oito meses levaram meu marido e não tive mais notícias dele. Trabalhava como cozinheira quando nasceu-me este menino. Meus patrões não me quiseram mais. Há três meses estou desempregada e já gastei tudo o que tinha. Gostaria de trabalhar como babá, mas ninguém quer me empregar. Todos dizem que sou muito magra. Estive com a mulher de um comerciante, que me prometeu uma colocação. Eu esperava começar logo o trabalho, mas a patroa disse-me que voltasse na próxima semana. Mora longe daqui. A longa caminhada esgotou minhas forças e cansou a criança. Felizmente a dona da casa onde moro me deixou ficar por caridade. Não fora isso, não saberia como viver.”
Martin suspirou e perguntou: “Tens, pelo menos, alguma roupa de lã?”
“Ó meu senhor, como poderia tê-la? Ontem tive que penhorar o único xale de lã, que possuía. A mulher aproximou-se do leito e tomou a criança nos braços. Martin, levantando-se, dirigiu-se para o armário, revirou-o e tirou um velho casaco.
“Toma”, disse  ele, “este  casaquinho é velho mas poderá servir para aquecer a criança.”

A mulher fitou o sapateiro, e depois o casaquinho; tomou-o e se pôs a chorar. Martin virou-se para o outro lado, depois arrastou-se sob a cama e tirou uma caixa. Revirou-a e sentou-se novamente diante da mulher.

“Deus te recompensará por tua bondade! Foi certamente ele que me mandou aqui. Sem ti meu filho teria morrido de frio. Quando saí da casa da mulher do comerciante, a temperatura era agradável. E agora, que frio está fazendo! Foi certamente o bom Deus que te inspirou para olhares para a janela, pois ele teve piedade de mim!”
Martin sorriu e disse: “Não foi sem razão que olhei para fora da janela.”
E Martin contou seu sonho à mulher do soldado, repetiu-lhe as palavras que lhe foram sussurradas, disse-lhe que o Senhor lhe prometera uma visita.
“Tudo é possível”, disse a mulher. Levantou-se, enrolou a criança no casaquinho e inclinou-o diante de Martin para agradecê-lo.
“Eis uma moeda. Toma-a em nome de Deus. Vai te servir para resgatares teu xale.”

Depois que a mulher se retirou, Martin tomou a sopa, arrumou a louça e recomeçou o seu trabalho. Trabalhava sentado em seu banquinho, mas não se esquecia de olhar para fora da janela logo que via alguma sombra. Passava gente conhecida e gente desconhecida, mas ele não notou nada de especial.

Martin viu parar diante de sua janela uma velha vendedora ambulante. A velha levava uma cesta de maçãs. Eram poucas maçãs que sobraram da venda. Levava nas costas um saco com gravetos, que teria talvez recolhido em algum lugar onde se construía uma casa. Via-se que suas costas estavam cansadas devido ao peso. A velha depositou o saco na calçada para descansar as costas. Ao mesmo tempo, colocou a cesta de maçãs sobre uma viga e começou a sacudir o saco com os gravetos.

De repente, surge um garoto, quem sabe de onde, com um gorro rasgado. O garoto meteu a mão na cesta, pegou uma maçã e tentou fugir. Mas a velha voltou-se rapidamente e o agarrou pelo braço. O menino fez todo esforço para se livrar, mas a velha segurou-o com as duas mãos, tirou-lhe o gorro da cabeça e agarrou-o pelo topete. O garoto pôs-se a gritar e a velha começou a xingá-lo.

Martin jogou a sovela de lado e saiu de casa. Tropeçou na escada e perdeu os óculos. Quando chegou à rua, viu que a velha continuava a puxar os cabelos do menino e a xingá-lo. Queria leva-lo até a polícia, mas ele resistia e tentava escapar.

“Por que me bates?” gritava o menino. “Eu não roubei!”
Martin tentou separar os dois. Agarrou o rapaz e disse: “Deixa-o, vovozinha, perdoa-lhe em nome de Cristo!”
“O meu perdão será dar-lhe um castigo que lhe servirá de lição por toda a vida. Vou levar este maroto para a polícia.”
Martin começou a suplicar à velha: “Deixa-o, vovozinha! Ele não fará mais isso. Por favor, deixa-o em nome de Deus!”
A velha o deixou. O menino queria fugir, mas Martin impediu-lho.
“Deves pedir perdão à vovozinha”, disse ele, “e prometer que não roubarás mais nenhuma maçã!”
O menino pôs-se a chorar e a pedir perdão à velha.
“Bem”, disse Martin, “eis uma maçã para ti.”
O sapateiro pegou uma maçã do cesto e a deu ao menino. “Eu vou te pagar a maçã, vovozinha”, disse ele.
“Por que vicias este preguiçoso?”, perguntou a velha. “É preciso castigá-lo para que se lembre disso pelo menos por uma semana!”
“Ah, vovozinha!”, disse Martin, “do ponto de vista humano, talvez seja justo castigá-lo, mas essa não é a vontade do Senhor. Se batermos em um culpado por uma maçã, que deveria o Senhor fazer conosco, vendo nossos numerosos pecados?”

A velha não respondeu. Martin contou-lhe a parábola do patrão que perdoou a dívida do seu empregado, o qual, depois de ter sido perdoado, foi vergonhosamente agarrar pelo pescoço um pobre coitado que lhe devia uma pequena soma de dinheiro.
O menino e a velha ouviram com atenção as palavras do sapateiro.

“Deus nos mandou perdoar aos culpados”, disse Martin, “senão nossas culpas não nos serão perdoadas. É preciso perdoar a todos, especialmente os pobres em espírito.”
E a velha se preparou para colocar o saco nas costas quando o menino correu para ela e exclamou: “Vovozinha, deixa-me ajudá-la a levar o saco até sua casa. Vou pelo mesmo caminho!”

A velha meneou a cabeça, pôs o saco nas costas do garoto e ambos se puseram a caminho com o coração tranqüilo. A velha se esquecera até mesmo de pedir a Martin que lhe pagasse a maçã. O sapateiro ficou olhando os dois que se afastavam conversando. Depois entrou em casa. Encontrou os óculos sobre a escada. Não estavam quebrados. Retomou a sovela e pôs-se a trabalhar.

Trabalhou até à noite. Viu o acendedor de lampiões iluminando as esquinas das ruas.

“É hora de acender a luz também aqui. Está muito escuro para continuar a trabalhar!”.

Encheu de querosene a lamparina, acendeu-a, e voltou ao trabalho. Quando terminou uma bota, virou-a, examinou-a de todos os lados e convenceu-se de que tudo estava em ordem. Recolheu as ferramentas, tirou da mesa os retalhos de couro, pôs cada coisa em seu lugar, tomou a lamparina e colocou-a sobre a mesa.

Tirou o Evangelho da estante. Queria abrir o livro sagrado no ponto onde deixara marcado com fita de couro, mas o livro se abriu em outro lugar. Naquele instante, lembrou-se do sonho da véspera. Estava pensando nisso quando pareceu-lhe que alguém, se aproximava por trás. Virou e viu algumas figuras, cujos traços não podia distinguir no escuro. Ouviu uma voz:

“Martin, Martin, não me conheces?”
“Quem és?”, perguntou Martin.
“Sou eu”, disse a voz. “Sou eu mesmo!”
De um cantinho escuro saiu Stepanic, sorriu e desapareceu como uma pequena nuvem. Nada mais restou. Mas Martin ouviu novamente a voz:
“Sou eu!”
E do cantinho escuro saiu a mulher com a criancinha, sorriu para ele, e o pequerrucho também sorriu, com muita alegria. Depois ambos desapareceram.
“Sou eu”, disse outra voz, e se aproximou a velhinha com o menino. O menino tinha na mão uma maçã. Ambos sorriram para o sapateiro e desapareceram.
E Martin sentiu uma grande alegria no coração. Pegou os óculos e começou a ler o Evangelho na página que abrira:

“Tinha fome”, leu ele,  “e me destes comida; tinha sede, e me destes de beber. Estava sem teto e me abrigastes.”
E no fim da página, leu estas palavras: “Tudo que fizestes aos mais humildes de meus irmãos, a mim o fizestes.”
Martin teve a certeza de que o sonho não lhe enganara: o Senhor entrara realmente em sua casa e ele o havia acolhido.

Leon Tolstoy (1828 – 1910), foi grande escritor russo. Depois de escrever obras que figurariam entre as mais importantes da literatura mundial, como Guerra e Paz, e Ana Karenina, passou por uma crise espiritual. Expressou sua busca por Deus em contos como este, e outras obras. Transferiu sua fortuna para a esposa, e viveu como camponês debaixo do próprio teto. Por fim, saiu secretamente de casa, e morreu de pneumonia numa estação ferroviária.

5 respostas para “Impacto Mirim: Onde Existe Amor, Deus Aí Está”

  1. marli aparecida rossi disse:

    Faz muito tempo que lí esta história na própria Revista Impacto que guardo até hoje, expressa uma profunda verdade bíblica

  2. Já li, reli e estou lendo novamente este maravilhoso e singelo Conto. Ele nos ensina não só a espiritualidade evangelística sublimada que devemos tê-la internalizada até a morte. Mas, importante como peça literária, que nos leciona a como sermos simples ao elaborar um conto de tanto vigor espiritual e caritativo, aos moldes do Cristo de Deus. Lemos não como se estivessemos send evangelizados, mas sensibilizados a vermos com outros olhos uma realidade cotidiana.
    E.T Se puderem dar-me a honra e alegria, gostaria que publicassem suas matérias [como já o fazem vários escritores brasileiros, americanos e europeus] neste jaez ou literariamente interessantes e sobretudo informativas e formadoras.

  3. Eliel disse:

    Eu tinha aproximadamente 13 anos de idade quando em um concurso escolar no interior de Pernambuco, precisamente na ilha de Itapessoca. Ganhei esse livro e me recordo até hoje. Ganhei o livro por ter feito a melhor redação sobre a semana da alimentação. Hoje tenho 49 anos o livro não está mais comigo mas tenho boas lembranças e isto acrescentou valores pra minha vida.

  4. Daniel Gomes disse:

    Amei essa história, vi essa sugestão de leitura na Lição de Jovens da Igreja Adventista do Sétimo Dia.
    As vezes pensamos só em nós mesmos e não olhamos as pessoas ao nosso redor, devemos clamar ao Espírito Santo que nos ajude a enxergar os que mais precisam para que nossa vida seja mais fácil, porque quando ajudamos ao próximo esquecemos o nosso “eu”.

    • Willemberg disse:

      Linda mensagem! Também segui a sugestão de leitura da lição da Escola Sabatina da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Li juntamente com a minha esposa. Meditei muito no “Pense Nisto”: Como você acha que seria sua igreja se a prioridade dos membros fosse amar uns aos outros verdadeiramente?
      Que Deus nos ajude a focar no ponto principal: Amar a Ele e ao nosso próximo.

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