Impacto Mirim-De Cara com o Desconhecido

Data de publicação: 16/07/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 57 e Revista Impacto - 1998 a 2014.

Esta é a primeira história de uma série sobre animais em perigo de extinção, chamada:

Impacto Humano: Criação em Perigo de Extinção

Tamanduá-bandeira

Papai é biólogo. Mamãe é dona-de-casa e, aos domingos, dá aulas para as crianças da escolinha da igreja. No ano passado, meu pai foi convidado para participar de um congresso em Minas Gerais – para ser mais exata, em São Roque de Minas, uma das cidades que fazem parte da Serra da Canastra.

Serra da Canastra, Parque Nacional da Serra da Canastra, cerrado… Eu estava começando a me lembrar das aulas de geografia! Eu já tinha aprendido que existia uma reserva natural chamada Parque Nacional da Serra da Canastra, um lugar enorme bem no meio do cerrado. É lá onde nasce o rio São Francisco! Ser boa aluna é legal nessas horas! Eu sabia que o cerrado é um ambiente quente, com muitos campos abertos e árvores pequenas e médias meio retorcidas. Meu pai até comentou que muita gente adora visitar o parque, porque é tranqüilo e tem muitas espécies de plantas e animais.

Como o congresso duraria uma semana, mamãe e eu resolvemos acompanhá-lo. Deu certo, porque calhou de ser na mesma semana em que aconteceriam as gincanas esportivas na escola, e eu não estava mesmo a fim de participar. Além disso, mamãe me disse que o passeio seria ótimo para eu aprender mais sobre Deus. Não entendi muito bem, mas deixei para lá.

Chegamos à cidade na segunda-feira à tarde e ficamos hospedados em uma pousadinha muito legal. Ficava bem no meio de uma fazenda e tinha até cachoeira! Parecia outro mundo para mim. Mamãe e eu aproveitamos todos os dias para caminhar, nadar nas piscinas naturais e conversar bastante na ausência de papai.

Porém, sábado à tarde, quando terminou a última palestra, papai nos convidou para dar uma volta no Parque Nacional. Mamãe preferiu ficar para preparar a aula das crianças, mas eu aceitei o convite com todo o entusiasmo!

Alugamos um carro e chegamos rapidinho ao parque. Entramos por um dos portões, e meu pai começou a me mostrar tudo. Sempre com a máquina fotográfica na mão, papai me fotografava enquanto falava sem parar! Já era fim de tarde, o sol não estava forte, e deu para andar bastante.

De repente, vi um bicho peludo e esquisito ao longe e chamei meu pai, que, para variar, estava todo concentrado fotografando alguma plantinha. O animal era bem grande: tinha um focinho fino e comprido igual a um aspirador, a língua gosmenta que enfiava num formigueiro, patas com unhas grandes e fortes, pêlos de cor cinza meio acastanhada com um tipo de faixa preta, e a cauda parecida com uma bandeira. Olhando bem, parecia que ele mancava.

Foi então que voltei a chamar meu pai. Dessa vez, ele me explicou que era um tamanduá-bandeira, um bichinho pacífico e solitário que está ameaçado de extinção. Isso mesmo: o tamanduá-bandeira corre o risco de desaparecer para sempre!

Papai me disse que o tamanduá não estava ferido, mas tem esse jeito lento de caminhar mesmo. Aquela língua enorme e pegajosa de meio metro é usada para puxar e engolir formigas, cupins e larvas de besouro, já que o bichinho não tem dentes. Por isso, o tamanduá-banguela (ops, bandeira!) ajuda bastante a controlar esses insetos que podem acabar com as plantações. Ele consegue destruir um cupinzeiro com as garras fortes e comer mais de 30 mil formigas por dia! Ainda pode subir em árvores se precisar e sabe até nadar!

Esse exterminador de formigas e cupins, que mais parece uma escavadeira peluda ambulante, pode viver até 25 anos na natureza e pesar 40 quilos. É o maior dos tamanduás. Mamãe precisava tê-lo visto! É uma maravilha de Deus! Ele foi criado com um papel tão importante que não pode deixar de existir! Não entendo por que o tamanduá-bandeira corre risco de extinção… Por que alguém machucaria um bicho que não faz mal para ninguém e até ajuda?

De novo, papai me contou que o cerrado está sendo destruído pouco a pouco pelos homens, que querem usá-lo para plantar cana-de-açúcar e soja. As queimadas são outro problema: como o tamanduá é lento, e o pêlo dele pega fogo com facilidade, muitos morrem nos incêndios. Outros morrem atropelados quando atravessam as rodovias à noite, porque enxergam mal e não são vistos por alguns motoristas. Algumas pessoas acham até que eles dão azar e os atropelam de propósito! Pura maldade… E ainda tem os caçadores. Ou seja, o coitado do tamanduá-bandeira, esse desdentado tão fofo e engraçado, está perdendo o lugar onde mora, e a quantidade dos alimentos que mais adora está diminuindo.

Para piorar, meu pai me falou também que cada fêmea só dá à luz um tamanduazinho por vez. O filhotinho é pequeno e frágil, pesa um quilo mais ou menos, e precisa ser carregado nas costas da mamãe-tamanduá por seis meses pelo menos para aprender a capturar insetos. Os que nascem em cativeiro demoram muito mais tempo para aprender a usar a língua, e quase todos morrem antes de se reproduzir.

Começou a escurecer, e resolvemos voltar para a pousada. Afinal, no dia seguinte, partiríamos cedo para casa. Durante o caminho, porém, não consegui deixar de pensar naquele animal tão perfeito. Será que eu só poderei vê-lo no zoológico daqui a alguns anos?

Assim que chegamos, fiz questão de contar tudo para a minha mãe – todos os detalhes daquela aventura fantástica. Mas percebi que, enquanto me ouvia falar, mamãe começou a ficar com os olhos cheios d’água, emocionada com o que eu tinha aprendido sobre a criação de Deus em uma só tarde.

Então, entendi o que mamãe tinha tentado me mostrar desde o início: os homens estão cometendo um erro muito grave ao destruir o que o Senhor criou com tanto capricho e perfeição. Sem pensar no futuro, eles esquecem que cada ser que respira foi criado com um propósito e faz parte de um quebra-cabeça em que todas as peças se encaixam direitinho. Nenhuma peça pode faltar. Tudo o que Deus formou é bom e precisa ser cuidado: desde o menor dos insetos até a árvore mais alta e os grandes animais. Ele criou tudo o que existe no céu, na terra e no mar. Nenhum deles existe por acaso – nem mesmo as formiguinhas!

E quanto a nós? Nós somos os “administradores” desse grande planeta! Mamãe me mostrou que Deus confia tanto em cada um de nós, que deixou toda essa riqueza em nossas mãos.

Hoje, um ano depois daquela experiência que durou apenas um fim de tarde, sou uma menina de 12 anos muito mais consciente do meu papel nesse mundo. Nasci para adorar o Deus do Universo e cuidar dessa criação maravilhosa. Sou importante para meu Pai celestial e posso escolher o que fazer com os talentos que ele me deu: construir ou destruir. Apesar de ser um minúsculo grãozinho de areia diante de tudo, escolho construir.

Agradeço à médica veterinária Flávia Regina Miranda e ao Projeto Tamanduá (www.tamandua.org) por terem me cedido grande parte das informações.

Renata Balarini Coelho é bacharel em Letras formada pela Unicamp e trabalha como escritora, tradutora e revisora. Atua na pregação e no ensino da Palavra de Deus na igreja Casa de Oração Vivendo em Cristo – Casa dos Milagres, na cidade de São Paulo. E-mail: [email protected]