A Igreja que Procuramos

Data de publicação: 01/05/2014
Este artigo pertence a: Edição 77

John Noble

Como ser e viver uma igreja que conquiste o mundo e os próprios irmãos

Há dois mil anos, quando esteve na Terra, Jesus olhou para o templo de Jerusalém e disse que era inadequado como casa de Deus (Jo 2.19-21). Tempos depois, enviou 70 discípulos de dois em dois, ordenando que procurassem casas onde fossem bem-vindos, que comessem o que fosse colocado na mesa e ali deixassem a paz.

No Reino Unido, temos pensado muito na Igreja e percebido o quanto nossa prática tem invertido a ordem correta. Veja, por exemplo, estas três áreas importantes: Eclesiologia (essência da igreja), Missiologia (objetivos e métodos de missões) e Cristologia (conhecimento sobre a pessoa de Jesus). A maioria das pessoas começa com a Eclesiologia, tentando definir a estrutura da igreja e como ela deve funcionar. Em seguida, elas raciocinam: “Já que temos esse tipo de igreja, vamos trabalhar com missões desta forma e pregar este tipo de Jesus”.

A ordem está invertida. Não devemos começar pela igreja; devemos começar por Jesus. Nós realmente conhecemos Jesus? Que tipo de Jesus estamos adorando e pregando? A partir disso, podemos nos perguntar que tipo de missão Jesus quer que façamos? Só então é que estará na hora de perguntar que tipo de igreja serve para a missão que o Senhor nos deu. Temos de viver uma igreja adequada à missão.

Mais do que nunca, devemos entender que o tipo de igreja que normalmente encontramos hoje não vai atingir os não cristãos. Precisamos achar a igreja que realmente expresse Jesus e descobrir também como levá-la para as pessoas. O último arcebispo de Canterbury, da Igreja Anglicana, disse-me certa vez: “Nós anglicanos não podemos esperar que as pessoas lá fora venham para dentro da nossa liturgia”. Está na hora de sair das nossas paredes e ir à sociedade com novas expressões da igreja.

INDO ATÉ AS PESSOAS

Há muito tempo, a maioria dos cristãos tem tentado fazer com que as pessoas no mundo entrem em seus prédios, enquanto o que Deus realmente quer é fazer com que a igreja vá até as pessoas. A igreja é um organismo vivo, deve sempre estar em movimento. E, ao contrário do que muitos pensam, ela pode mudar até de forma.

No filme “O Exterminador do Futuro”, existe uma cena que me chama muito a atenção. No ponto alto de um duelo, quando o vilão está quase para exterminar seu adversário, mas é impedido por uma porta, sua estratégia para vencer é interessante. Ele se derrete, transformando-se em prata líquida, passa por baixo da porta e aparece do outro lado em uma nova forma. É assim que deve ser com a igreja. Devemos atravessar as barreiras, aparecer em lugares inesperados e de formas diferentes e inovadoras.

Algo semelhante aconteceu na China quando todos os pastores foram presos pelos comunistas. A igreja chinesa precisou se “derreter”. Os cristãos se esconderam, as mulheres assumiram o pastorado, e a igreja cresceu em milhares de grupos nas casas. Eles se adaptaram ao momento, não ficaram engessados e, por isso, a China é hoje um país mais cristão do que a Inglaterra.

Outro exemplo é algo que tem acontecido no Reino Unido, a chamada Messy Church (que pode ser traduzida como “igreja desordenada” ou “bagunçada”). É um modo de viver igreja destinado às famílias, a pais solteiros, crianças e, até mesmo, a pessoas que nunca frequentaram um culto num prédio formal. As reuniões da Messy Church envolvem a prática do artesanato, refeições em grupo e a arte de contar histórias. O objetivo é falar de Jesus em meio à diversão, com criatividade e hospitalidade. É algo que tem dado muito fruto, pois famílias que nunca entraram num templo aprendem sobre Jesus. Tem havido muitas conversões.

Outros grupos estão entrando nos bares ou fazendo enquetes para os jovens. Nos bares, as pessoas gostam de perguntar, o que acaba gerando conversas e amizades. Entrar nesses ambientes torna-se uma missão. Indo até as pessoas, podemos nos tornar todas as coisas para todos os homens, como disse o apóstolo Paulo, para que, de todas as formas, possamos ganhar alguns.

Nós costumamos pensar na igreja somente em termos de prédios, mesmo sabendo que o edifício não é nada em si. A igreja deve ser como a água. Se você a derramar num copo, ela toma a forma do copo, mas, se colocá-la num balde, ela toma a forma do balde. Podemos nos adaptar a uma necessidade e assumir muitas formas diferentes.

Nós não vamos à igreja, nós somos a igreja! Precisamos pensar igreja também em forma de verbo, não só de substantivo. Assim, devemos “igrejar” juntos, podemos “igrejar” em casa, no ambiente de trabalho, nas praças e em muitos lugares diferentes.

AS CINCO FORMAS DE IGREJA

Você já parou para pensar qual o menor número de pessoas necessário para ser uma igreja?
A resposta está em Mateus 18.20: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles”. Isso não significa quaisquer dois ou três cristãos, mas dois ou três que foram unidos por Jesus. Essa é a menor forma de igreja, eu a chamo de microigreja. É quando duas ou três pessoas sentem que Deus as ligou e por isso estão juntas.

A Bíblia ainda diz que, quando essas pessoas estão reunidas em nome de Jesus, elas podem pedir qualquer coisa, e será feita. Porém, essa promessa não é tão simples. É baseada no fato de que esses irmãos estão juntos com o propósito de ver a vontade de Deus realizada. Essa é a razão de estarem reunidos.

Muitas pessoas usam essa passagem para dizer que podemos pedir qualquer coisa, no sentido de obter nossa própria vontade. Mas não; a passagem diz “reunidos em nome de Jesus”. Significa que não estamos pedindo, simplesmente, aquilo que queremos. Pelo contrário, estamos alinhados com Deus e podemos perguntar o que ele deseja antes de pedirmos. No original grego, a palavra utilizada neste versículo significa “sinfonia”. É como se tivéssemos instrumentos diferentes, mas tocássemos o mesmo tom, em harmonia musical. Ou seja, significa que há concordância entre nós, mas também em relação à vontade do Pai.

Além da microigreja, existe também a mini-igreja que é a igreja numa casa. Em Romanos 16.5, Paulo saúda a igreja que se reunia na casa de Priscila e Áquila. Não seria fantástico se tivéssemos uma pequena igreja em cada rua da cidade em que moramos, de modo que as pessoas não precisassem andar muito para encontrar um grupo de amor pronto para acolhê-las?

Em terceiro lugar, temos a multi-igreja, que aparece quando várias igrejas nas casas de uma mesma cidade estão reunidas. Cada igreja no lar tem sua própria identidade e forma de agir, mas está ligada também a outras na mesma região. Já que se trata de um número maior de pessoas, normalmente as reuniões acontecem num espaço mais amplo da região da cidade em que vivem. Contudo, essas igrejas ainda não são “a igreja da cidade”, são apenas a expressão em determinada área, talvez com uma preocupação particular em relação a evangelização, justiça social ou outra necessidade daquele lugar. Temos um exemplo dessa forma de igreja em Romanos 16.1: Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja em Cencreia”. Cencreia era um porto localizado na cidade de Corinto, onde havia uma igreja.

Depois, vem o que eu chamo de megaigreja, que é a igreja na cidade. Pode haver muitas congregações, muitas expressões de igreja, mas deve haver somente uma igreja na cidade. Paulo, por exemplo, escrevia somente para a igreja numa determinada cidade. Ele não esperava que houvesse mais de uma igreja em cada localidade.

Em último lugar, ainda há a macroigreja, que é a Igreja no mundo inteiro. Essa é a Igreja universal, que inclui todo cristão, desde o primeiro discípulo de Jesus até a última pessoa que será salva.

A NECESSIDADE DE RELACIONAMENTO
Deus sempre começa por algo pequeno que terminará com algo muito grande. Ele começou seu plano com Abraão e sua família, mas seu alvo desde o início era alcançar todas as famílias da Terra. Esse é o processo. Contudo, muitas pessoas só pensam em alcançar grandes coisas e realizar projetos ambiciosos. Conheço líderes que estão tão envolvidos com as extensas atividades de seus dons e ministérios que, quando vier o Reino de Deus, talvez não tenham mais o que fazer. No Reino, muitos de nossos talentos e dons naturais não terão mais valor. Se você for um importante ministro de cura, por exemplo, não será muito relevante naquele dia porque, no Reino de Deus, não haverá mais doença. Se você for um famoso profeta que escreveu muitos livros, também não será mais útil, porque todas as profecias já terão se cumprido.

Tenho visto cristãos que passaram a vida toda envolvidos somente com o ministério, mas que não investiram em relacionamentos. Precisamos construir e manter relacionamentos uns com os outros, porque esses sim permanecerão para sempre. Por isso, é melhor você se acertar e aprender logo a amar seu irmão, porque passará a eternidade com ele!

A principal base de um relacionamento é o amor. Talvez, uma boa palavra seja amizade, embora em nossa cultura não tenha um significado muito forte. Entretanto, amizade é um termo bíblico. Em Tiago 2.23, lemos que Abraão foi chamado “amigo de Deus”. Com todas as falhas de Abraão, ele foi amigo de Deus. O que Abraão fez? Ele procurou uma cidade cujo arquiteto e edificador é Deus. É a mesma cidade que nós também estamos procurando, ou seja, a Igreja.

Particularmente, gosto muito da história de Rute. E talvez o momento mais forte de sua história tenha sido quando ela se comprometeu com a sogra dizendo: “Aonde quer que fores, irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus” (Rt 1.16). O nome Rute significa amizade, e ela mostra com isso o verdadeiro significado da Igreja. Nós últimos dias, só entusiasmo não será suficiente em nossa caminhada; precisaremos de amizade e relacionamentos. Sem eles, não conseguiremos chegar até o fim.

DUAS LIÇÕES IMPORTANTES

Portanto, a história de Rute ensina duas lições em relação à igreja que precisamos nos tornar nos últimos dias. A primeira é que relacionamentos e compromisso são necessários. A segunda é que Rute não fazia parte do povo de Israel. Isso é muito estranho, porque Deus escolheu uma moabita, uma estrangeira, para fazer parte do seu plano. Deus quis mostrar que precisamos enxergar além.

Jesus andou com os pecadores, com gentios e estrangeiros, e disse que eles estavam mais próximos ao Reino de Deus do que os fariseus. Os religiosos não conseguiam engolir isso. Por quê? Porque quando somos governados pela religião, não conseguimos enxergar o propósito de Deus. Precisamos abrir os olhos e o coração para a “coisa nova” que Deus quer fazer no meio dos pecadores. Estejamos atentos porque o povo que não é da família de Deus ainda se tornará o povo de Deus.

As Cinco Formas da Igreja

Microigreja: Duas ou três pessoas reunidas em nome de Jesus

Mini-igreja: Um grupo pequeno que se reúne nas casas

Multi-igreja: Junção de grupos que se reúnem nas casas numa determinada área da cidade

Megaigreja: A igreja na cidade (todos os cristãos de uma cidade)

Macroigreja: A Igreja de todo o mundo (cristãos de todas as gerações e lugares do planeta)

Quando Jesus falou sobre a Igreja

John Noble

“Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18).

“E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano” (Mt 18.17).

Jesus só falou sobre a igreja duas vezes. No original grego, a palavra utilizada é ekklesia, que significa um grupo de pessoas chamadas para um propósito. A primeira vez que Jesus falou esta palavra foi em Mateus 16.16 quando ensinou que a base sobre a qual a igreja é construída é a revelação. Para sermos igreja, precisamos da revelação de que Jesus Cristo é o Senhor e o Filho de Deus. Jamais podemos esquecer isso; deve estar diariamente em nosso coração.

Outra coisa que aprendemos nesta primeira passagem é que Jesus vai edificar sua igreja. Particularmente, é algo que me traz um grande alívio. Durante anos, tentei construir algo em termos de igreja, mas muitas vezes o que foi construído caiu. Aquilo que Jesus constrói permanecerá para sempre. Quando descobri que Jesus é quem edifica a igreja, decidi parar de trabalhar para mim mesmo e trabalhar somente para ele. Nós estamos sempre tentando construir nossos próprios reinos; precisamos parar com isso e trabalhar com aquilo que ele já está construindo.

Portanto, a igreja é edificada por Jesus, e sua base é a revelação de que ele é o Filho de Deus. Porém, ela também é edificada sobre homens e mulheres. Os católicos interpretam a passagem dizendo que Pedro é a pedra fundamental da Igreja, e eu concordo com eles. Porém, Pedro era só uma das pedras, pois existiam mais onze. Os fundamentos da Nova Jerusalém são os doze apóstolos.

Eu creio que, quando você vai, em nome de Jesus, ele constrói a igreja na sua vida, no seu ministério. Vemos diversos homens de Deus na História que viveram “em nome de Jesus”, e a igreja foi construída sobre a base que eles lançaram. Não é um só homem, são vários, são anciãos que se tornaram fundamentos da casa de Deus. São pessoas que serão lembradas, mas não colocadas num pedestal. Quando Jesus disse “eu sou a pedra”, é como se dissesse “Eu sou a pedra, mas vou construir sobre as pequenas pedras da vida de vocês também”.

A outra passagem em que Jesus se refere à igreja está em Mateus 18.17. Em Mateus 16, vemos nossa relação com Jesus, mas Mateus 18 trata da nossa relação com os irmãos. Nosso relacionamento com Jesus é, de certa forma, invisível, mas nosso relacionamento com os outros é visível. O mundo pode ver Jesus no nosso amor pelos outros. Nesta passagem (do versículo 15 a 17), podemos aprender várias lições. Contudo, a mais importante é que a igreja precisa de disciplina.

Quando temos uma discussão ou as coisas dão errado, precisamos de disciplina. A Bíblia diz que Deus disciplina aqueles a quem ama (Hb 12.6). Por que, então, fugimos tanto da disciplina? Quando recebemos a disciplina de Deus na nossa vida, é sempre sinal de que vamos amadurecer; não precisamos ficar com medo. A prática ensinada em Mateus 18 não significa que vamos acreditar ou aceitar tudo o que nos dizem. Significa que, se meu irmão chegar para mim e disser que tem problemas comigo (ele é meu irmão, eu o respeito), então vou orar a respeito disso e ouvir. E se existem duas ou três pessoas que dizem ter o mesmo problema comigo, então devo ouvir um pouco mais.

Deus quer que nós sejamos um povo santo, e a disciplina nos ajuda a manter a santidade. A santidade traz unidade, e a unidade traz sucesso. Quanto mais estamos unidos, mais poder teremos. E o sucesso nos dá visibilidade. Quando o povo de Deus estiver em unidade e no sucesso do Espírito Santo, o mundo, finalmente, verá a Cristo.

Adaptado das palestras da conferência “A Vida Orgânica da Igreja”.

Uma resposta para “A Igreja que Procuramos”

  1. tercio viana lima disse:

    Deus não habita em templos feitos por mãos humanas, mas habita em nossas vidas, o mundo saberá que somos de Deus quando vivermos um só corpo em amor. quando andarmos em unidade o óleo descera sobre a cabeça e até na gola de suas vestes.

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