História da Igreja – Parte 10 – O Espírito de Engano na História da Igreja

Data de publicação: 02/12/2011
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Edição 13 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 13

Raízes – Lições da História da Igreja Para Os Nossos Dias

O ESPÍRITO DE ENGANO NA HISTÓRIA DA IGREJA

Desde o início, o cristianismo tem enfrentado uma miríade de inimigos, grandes e pequenos, dos mais variados tipos, nenhum deles, entretanto, tão perigoso quanto o espírito de engano. Começando com o próprio Jesus, que em seu sermão profético de Mateus 24 usa o alerta contra o engano como um tipo de refrão (Mt 24.4,5,11,23,24), passando por Paulo (At 20.29,30; 1 Tm 4.1,2; 2 Co 11.3,13-15), Pedro (2 Pe 2.1,18,19), Judas (Jd 4,8,16) e João (1 Jo 2.18,19,22,26; 3.7;4.1- 6), podemos perceber a ênfase dada pelos apóstolos à necessidade de nos precavermos contra este insidioso e traiçoeiro inimigo.

Os outros inimigos podem ser fortes e perigosos mas pelo menos são mais fáceis de identificar. O espírito de engano, porém, aparece a todo momento nos lugares menos esperados. Aliás, é precisamente nesta característica que reside todo o seu poder. Pretendemos mostrar neste artigo que ninguém está imune à sua influência ou livre do seu encanto. Não existe um monopólio do engano, que uma vez descoberto, pode ser desmascarado e destruído. Quando se pensa que já foi derrotado, eis que aparece novamente em outra forma e em outro lugar. É óbvio que ele existe nas seitas e heresias, mas infelizmente existe também nos grupos “ortodoxos” que as combatem. Tanto a igreja institucional quanto os grupos livres, tanto os libertinos quanto os legalistas, tanto os protestantes quanto os católicos, tanto os de “dentro” quanto os de “fora”, tanto os tradicionais quanto os pentecostais — todos podem ser vítimas do engano.

A verdade que Jesus veio trazer dos céus para a terra (Jo 3.13,31-36) é tão pura e divina que a mente humana não consegue compreendê-la (1 Co 2.14,15). Nem mesmo os discípulos que andaram com ele por mais de três anos conseguiam compreender o que ele dizia, mas sabiam que só ele tinha “as palavras da vida eterna” (Jo 6.66-69). Quando, porém, o Espírito desceu sobre eles no Pentecoste, de repente as Escrituras lhes foram abertas e as palavras de Jesus começaram a fazer sentido, assim como ele havia predito (Jo 14.26;16.12,13). Desta forma surgiu a pregação apostólica, começando com a procla- mação de Pedro em Atos 2, e terminando com a conclusão do cânone do Novo Testamento.

O espírito de engano, porém, não esperou nem o desaparecimento dos apóstolos para começar a levantar sua cabeça monstruosa. Pelas cartas de Paulo, Pedro, Judas e João podemos perceber que já havia múltiplas formas de engano operando na igreja. Havia os que negavam que Jesus veio em carne (1 Jo 4.1-3), os que não criam na ressurreição (1 Co 15.12), os que queriam levantar discípulos para si (3 Jo 9,10), os que abusavam da graça dando total liberdade para as depravações da carne (2 Pe 2.18-22), os que alegavam ter visões de anjos ordenando para guardar dias, cerimônias, ritos e proibições (Cl 2.8,16-18,20-23) e os que queriam acorrentar os gentios cristãos com as leis judaicas (Gl 6.12,13). Contra todas esta influências os apóstolos lutaram valorosamente exortando os cristãos a lutarem “pela fé que de uma vez para sempre foi entregue aos santos” (Jd 3) e para de forma alguma aceitarem os vários tipos de mistura que poderiam separá-los de Cristo (Gl 5.2-4; 1.6-9).

Quando, porém, os apóstolos desapareceram da igreja o conflito tomou proporções muito maiores e os primeiros séculos da história da igreja revelam uma luta renhida, quando em muitas ocasiões parecia que o engano venceria e a verdade seria varrida totalmente da face da terra. Vamos analisar agora, de forma muito resumida, alguns ataques deste espírito de engano e as falhas na natureza humana que ele usou como meios de penetração e propagação. Jesus e os apóstolos nos avisaram de que é inevitável que venham os tropeços, os falsos profetas e a operação do erro e, portanto, que é inútil orar para que não venham ou que sejam removidos (Lc 17.1; 1 Co 11.19; 2 Ts 3.3-12). A ênfase da exortação deles não é para focalizar as determinadas heresias em si, mas vigiar a nós mesmos—remover os ganchos onde o engano se atraca. “Guarda com toda a diligência o teu coração, porque dele procedem as fontas da vida” (Pv. 4.23).

Não pretendemos colocar aqui uma lista exaustiva, mas apenas demonstrativa, dos tipos de engano que têm assolado a igreja desde os primeiros séculos:

Legalismo e Justiça Própria

O primeiro erro fundamental que o cristianismo enfrentou foi o legalismo judaico. Além do sacrifício de Cristo, pregava-se que era necessário circuncidar-se, guardar o sábado e todos os outros preceitos do judaísmo. Graça pura era escandalosa demais. Deus fez a sua parte mas nós temos que fazer a nossa. Paulo ficou tão furioso sobre isto que o chamava de “outro evangelho” e dizia que quem se circuncidava estava se separando de Cristo. Se é pela lei, já não é pela promessa. Não há meio termo. Não se pode misturar a graça pura que Jesus veio trazer com o legalismo que nunca funcionou e não tem valor algum no combate à carne. Na verdade, para mostrar como o èspírito de engano é sutil, até o próprio Pedro, sem falar de Tiago e dos outros apóstolos, estava começando a se deixar levar por esta variante dele (Gl 2.11 -14). Paulo foi levantado por Deus para defender com unhas e dentes a graça pura de Deus e a total suficiência da obra de Jesus na cruz para nossa justificação e santificação. Ele chamava isto de “meu evangelho” e “a dispensação da graça que me foi dada”.

Infelizmente, apesar do evangelho de Paulo ter sido aprovado pelos outros apóstolos e o legalismo judaico ter desaparecido da igreja (principalmente por causa da destruição de Jerusalem em 70 A.D.), o legalismo e a justiça própria rapidamente voltaram sob outras formas, o que pode ser visto nos escritos dos primeiros pais da igreja.

Outro exemplo deste erro foi o Pelagianismo que surgiu em torno do ano 400 A.D. e que defendia que o pecado de Adão só afetou a ele mesmo e que cada homem desde então nasce sem pecado e tem liberdade de escolha para fazer o bem ou o mal. Apesar de ser finalmente rejeitado como heresia, muitos dos ensinamentos do Pelagianismo foram absorvidos pela igreja e foram veementemente combatidos pelos reformadores na época da Reforma Protestante. Apesar de uma das bandeiras principais de Lutero e dos outros reformadores ter sido “a justificação pela fé”, até hoje na maioria das igrejas protestantes sobrevive este engano do legalismo e justiça própria, sob a forma de apelos constantes ao esforço humano para agradar a Deus, camuflados sob uma teologia teórica da graça.

Qual é a fraqueza da natureza humana que se apega a este tipo de engano? Orgulho! Receber a graça pura de Deus, sem esforço algum da nossa parte, é muito humilhante. Não gostamos nem de receber um favor de outro ser humano se sentimos que não podemos retribuir. Quanto menos reconhecer que não podemos fazer nada, absolutamente nada, para agradar a Deus ou alcançar a santidade. A graça é escandalosa e por isto em toda geração e em todo tipo de igreja e grupo sempre vai haver a tendência de misturar um pouco de justiça própria no meio. O problema é que um pouco de fermento leveda toda a massa e um pouco de obras humanas anula a graça de Deus.

Filosofia Grega e Misticismo Pagão (Gnosticismo)

“Gnosticismo” é um termo genérico usado para denominar as adaptações teosóficas do cristianismo defendidas por mais de uma dezena de grupos rivais que surgiram na igreja entre os anos 80 A.D. e 150 A.D. Como acabamos de mencionar, no tempo dos apóstolos já havia os indícios do surgimento deste tipo de engano. Em Corinto, havia uma aristocracia espiritual que se orgulhava em possuir um conhecimento mais profundo e experiências místicas mais ricas do que os outros irmãos e até do que o próprio apóstolo Paulo. Em Colossos, os cristãos estavam sendo persuadidos a adorar seres angelicais intermediários, que tinham poder para interferir no destino humano e tinham de ser apaziguados através de cerimônias especiais, práticas ascéticas e dias de festa tirados do calendário judaico. E o apóstolo João já faz referência em suas epístolas aos que ensinavam que Jesus não viera em carne. Todos este ensinamentos eram gnósticos.

Os gnósticos afirmavam ser possuidores de um conhecimento (gnosis – no grego) especial que transcendia a fé simples do evangelho. Afirmavam que tinham acesso, através de uma linhagem de mestres conhecidos só por eles, à mensagem secreta original de Jesus que ele não havia transmitido aos apóstolos. Apesar de haver muitas diferenças entre os diversos grupos gnósticos, basicamente afirmavam que Jesus veio revelar o Deus bom, o Pai, que é completamente diferente de Jeová, o Deus mau, que criou o mundo material e era tão sanguinário, vingador e voluntarioso (escolhendo só os judeus como seu povo e ignorando os outros povos). Como conseqüência lógica, afirmavam que Jesus não poderia ter vindo em carne, pois era puro e teria se contaminado ao possuir um corpo material criado por Jeová. Diziam que embora parecesse aos homens cegos e limitados deste planeta que o corpo de Jesus era um corpo material de carne e sangue, aqueles que possuíam uma percepção mais aguçada podiam discernir que este corpo material era só ilusão de ótica ou semelhança (dokesis – por isto esta heresia é chamada de Docetismó).

Desta forma explicavam a origem do mal e o ligavam a todo o mundo material, incluindo nossos corpos físicos. Acreditavam que havia um grupo de “eleitos” no meio de toda a humanidade que continham “faíscas divinas” presas na matéria dos seus corpos e que tinham perdido a memória do seu verdadeiro lar celestial. O evangelho gnóstico procurava despertar estes eleitos do seu estado sonâmbulo para ficarem cientes do seu destino maravilhoso. O alvo era se desvencilhar deste corpo e do mundo material e depois da morte a alma eleita precisava voltar através de muitos perigos (aprendendo senhas mágicas e amuletos poderosos) para seu lar celestial.

As conseqüências práticas deste desprezo pela matéria se manifestavam de duas maneiras: na maioria dos casos praticavam o ascetismo, mortificando a carne e proibindo o casamento (ou pelo menos a procriação — pois estariam ajudando o criador mau nos seus propósitos no mundo material), para libertar a alma dos apetites sensuais e voltar sua atenção para as coisas mais elevadas; em outros casos, porém, praticavam total libertinagem e devassidão, promovendo orgias de imoralidade, pois julgavam que o que era feito no corpo não tinha nada a ver com o destino da alma.

Em resumo, diante dos mistérios da verdade, ou seja, do paradoxo da ira de Deus (revelado no Velho Testamento) e da misericórdia de Deus (revelado por Jesus no Novo Testamento); da aparente contradição entre a pureza do mundo espiritual e a corrupção e mistura presentes no mundo material; da Incarnação — a vinda do Filho de Deus puro e santo em carne pecaminosa, mas sem pecado; da existência do mal num mundo criado por um Deus bom e de outros contrastes aparentemente irreconciliáveis, a mente do homem exige uma explicação lógica que ela consiga compreender. O problema é que quando se encontra esta explicação, perde-se a verdade e se envereda pelos caminhos do engano. Se por um lado, a graça pura e total de Deus contida no evangelho era inadmissível ao meio judaico onde o evangelho chegou primeiro, por outro lado, os mistérios aparentemente ilógicos contidos no evangelho desafiavam o mundo de cultura grega, onde ele chegou em seguida, a tentar reduzi-los a fórmulas já conhecidas na filosofia de Platão ou nos cultos místicos pagãos. Em ambos os casos, a verdade pura que Jesus trouxe ficou contaminada com as tentativas humanas de explicá-la e subjugá-la aos seus próprios interesses.

Mais uma vez, vemos que o gancho usado pelo espírito de engano é o orgulho. No caso de justiça própria, é o orgulho religioso de tentar merecer o respeito e aceitação de Deus. No caso da filosofia e racionalização, é o orgulho intelectual da mente humana, não aceitando nada que ela mesma não consiga explicar ou manipular. Além do orgulho, existe também a curiosidade intelectual e a fascinação com teorias secretas e conhecimento exclusivo.

Apesar do gnosticismo ter perdido a maior parte de sua força e influência em torno do ano 200 A.D., muitas das suas idéias e pensamentos sobreviveram e ressurgiram em movimentos posteriores.

Institucionalismo Romano e Ortodoxia Morta

É impressionante constatar que os próprios meios usados para combater as heresias acima mencionadas se tornaram poderosos instrumentos do espírito de engano! Irineu de Lião (130-200 A.D.), combatendo o gnosticismo com suas reivindicações de um conhecimento secreto, afirmou categoricamente (e acertadamente) que se alguém tivesse recebido algum conhecimento especial da parte de Jesus teria sido os apóstolos e que eles jamais teriam deixado de retransmitir tal conhecimento aos seus sucessores que deixaram nas lideranças das igrejas nas principais cidades do império, como Roma, Esmirna e Éfeso. Segundo ele, nestas igrejas fundadas pelos apóstolos, o ensino apostólico tinha sido preservado em toda sua inteireza, e sua transmissão tinha sido custodiada pela sucessão ordenada dos seus bispos. Apenas estas igrejas tinham o depósito da verdade e todos os outros mestres (gnósticos) eram ladrões e salteadores.

Apesar de ser um argumento válido e útil para refutar as afirmações absurdas dos gnósticos, infelizmente este tipo de raciocínio lançou as bases para a mãe de todas as heresias: a sucessão apostólica dos papas e sua autoridade para falar no lugar do Espírito Santo na terra.

Quanto mais você se acha certo e “ortodoxo”, mais forte é o poder do engano sobre sua vida! Apesar da Igreja Católica ter sido tremendamente usada por Deus durante os séculos da escuridão da história da igreja, para definir e preservar o cânone do Novo Testamento, e para proteger as verdades bíblicas da Trindade e da Incarnação de tantas deturpações variadas e perigosas, no fim ela se tornou uma das maiores transmissoras de heresias como a infalibilidade do papa, a conceição imaculada de Maria, a venda de indulgências, a assunção de Maria aos céus, a veneração de imagens, a intermediação de santos e tantas outras.

Entretanto, o que muitos protestantes não reconhecem é que eles também se contaminaram com este tipo de engano. Lutero e Calvino, ao mesmo tempo que combatiam as heresias da Igreja Católica, usavam o poder do institucionalismo e do estado secular para esmagar verdadeiroá discípulos de Cristo como os Anabatistas. Além disto, abriram as portas para divisão após divisão, e briga feia após briga feia, tudo em prol da defesa da “verdade”. Pior ainda, os pentecostais e carismáticos de hoje, que desprezam as igrejas e movimentos históricos e tradicionais, adotaram a mesma postura de serem os “certos” e de serem donos do “evangelho pleno”, enquanto seus frutos e práticas não o demonstram.
Teologicamente, os fariseus no tempo de Jesus representavam o movimento mais zeloso e correto doutrinariamente e no entanto foram os que mais perseguiram a Jesus. Criam fervorosamente na lei de Deus, não aceitavam a idolatria que por tantos séculos contaminara a história de Israel, criam na ressurreição dos mortos e na vinda do Messias. O problema é que eram vítimas do mais poderoso dos enganos — de achar que eram certos, de que eram os únicos que não eram cegos (Jo 9.41; 5.39-40).

O institucionalismo começou com o desejo de combater o erro e proteger a verdade mas rapidamente se contaminou com um elemento fortíssimo no ser humano—sede de poder. Esta fraqueza do homem torna-se um forte apoio ao espírito de engano, porque de fato, foi o que provocou a queda de Satanás no início: “Eu subirei aos céus e serei como o Altíssimo”. Com esta motivação, os homens vendem a verdade livremente e compram a mentira. Se o povo quer alguma coisa, aquele que governa geralmente acha aconselhável cooperar, a fim de se manter no poder.

Como resultado da influência de todos estes tipos de engano, temos a situação atual da igreja. Alguém disse que se o Espírito Santo fosse retirado da maioria das igrejas hoje, 99% das atividades continuariam normalmente. Porque? Por que a igreja tem vivido muito tempo com seus substitutos. Não precisamos do Espírito Santo para dividir alma e espírito e nos convencer do pecado porque temos o legalismo que ensina o que é certo e errado e a Bíblia que nos mostra toda a verdade. Não precisamos do Espírito na reunião porque temos seminários e sermões bem preparados com ilustrações que fazem o povo rir e chorar nos momentos certos (racionalismo). Não precisamos do Espírito Santo para designar os líderes e dirigi-los, pois temos a organização denominacional que emite todas as ordens e direções. Se o Espírito começasse a dirigir tudo, causaria confusão na nossa máquina tão bem organizada (institucionalismo).

Espiritismo

O espiritismo entra e permeia qualquer cultura que se desvia da verdade. Se cremos na verdade (revelada a nós pela palavra viva de Deus) recebemos o Espírito da verdade. Mas se desviarmos da verdade e acreditarmos no erro, receberemos os espíritos do erro, espíritos enganadores. Portanto, quando a igreja perdeu a revelação viva de Jesus, a doutrina apostólica, e colocou em seu lugar os elementos humanos de legalismo, racionalismo e institucionalismo, o Espírito Santo saiu e outros espíritos começaram a atuar. Os falsos mestres (que ensinam o erro) são sempre seguidos de perto por falsos profetas (que fazem sinais e milagres para confirmar o erro). Veja as seguintes passagens: 1 Jo4.1-3; 2 Pe 2.1-3; 1 Co 12.1-3; 1 Tm 4.1.

Um exemplo bíblico marcante deste fenômeno é o rei Saul. Quando foi ungido rei de Israel pelo profeta Samuel, o Espírito de Deus se apoderou dele (1 Sm 10.10) e ele profetizou. Isto aconteceu com ele em várias ocasiões. Quando porém ele desobedeceu a Deus e quis preservar sua imagem diante do povo mais do que se consertar diante de Deus, este o rejeitou e mandou que Samuel ungisse a Davi. Quando Samuel fez isto, a Palavra diz que “daquele dia em diante o Espírito do Senhor se apoderou de Davi” e que “o Espírito do Senhor retirou-se de Saul e o atormentava um espírito maligno” (1 Sm 16.13,14).

Na história da igreja, acabamos de ver como o gnosticismo misturava o racionalismo dos gregos com os ritos pagãos esotéricos existentes na época. Na verdade, a lógica pura de Platão não era tão “pura” assim porque levou-o a discorrer sobre a transmigração da alma e a reencarnação. O homem não agüenta ficar só na razão. É por isto que os gregos, apesar de tão racionais e centrados no homem, consultavam oráculos para receber orientação para suas vidas. É por isto que apesar de ter havido na sua história mentes brilhantes como Agostinho e Tomás de Aquino e tantos outros, a Igreja Católica logo se embrenhou no espiritismo através da adoração de imagens, veneração a santos, aparições de “Nossa Senhora” e valorização de relíquias. É por isto que no nosso mundo ocidental tão “científico”, “tecnológico” e materialista, as religiões orientais estão crescendo a largos passos. É por isto que anos atrás numa igreja tradicional como a Episcopal, um bispo que passava por angustiosas experiências pessoais afirmou ter conversado com seu filho morto, e que muitos outros intelectuais da mesma denominação começaram a buscar contato com o mundo espiritual. O homem não consegue viver só de pão, só de coisas materiais, nem de pensamentos e teorias. Se não tiver contato com o Espírito de Deus, no fim ele sempre vai acabar procurando contato com outros espíritos.

Além desta necessidade intrínseca por contato com o mundo espiritual, o homem também é atraído ao espiritismo pela mesma sede de poder que o leva ao institucio- nalismo. Ele sente necessidade de manipular as pessoas e as coisas através de meios espirituais. Se não fosse isso, o homem jamais se renderia ao encanto da idolatria. Por que um homem inteligente e lúcido adoraria e veneraria um pedaço de argila, madeira ou porcelana? Como multidões de pessoas cultas podem se abaixar a tal ridículo? (Estes não são meus argumentos contra a idolatria e sim as de Deus. Veja Isaías 44.9-20) Sabe por quê? Porque o homem sente profundamente que o mundo espiritual existe e exerce influência sobre ele e o mundo ao seu redor. Como ele não conhece este mundo, sente temor e insegurança. Quando adora uma imagem, ele está dando uma forma e nome a este mundo espiritual e desta maneira, apesar dele se prostrar diante da imagem, não sente que está sendo humilhado e sim que está alcançando um poder superior para manipular este mundo a seu favor.

Dito isto, é necessário, entretanto, ressaltar que um grande processo de engano em nossos dias está acontecendo justamente no meio dos pentecostais e carismáticos que tanto abominam a idolatria e atacam os católicos por causa disto. Apesar de condenarem as imagens do catolicismo, o mesmo princípio está presente no meio deles quando procuram usar os dons do Espírito (profecias, visões, sinais e milagres) para ganhar proveito próprio ou para manipular as vidas de outras pessoas. Uma preciosa serva de Deus disse certa vez que se a pessoa receber o batismo no Espírito Santo e não entrar logo no processo de santificação, torna-se presa fácil de outros espíritos. Assim como aconteceu com Saul, se não obedecer à voz do Espírito e começar a procurar poder político, posses materiais e fama diante do povo, o Espírito de Deus será afastado, outros espíritos virão e muitas vezes a pessoa ou igreja está tão enganada que nem percebe a diferença! “Porque a rebelião é como o pecado de adivinhação, e a obstinação é como a iniqüidade de idolatria” (1 Sm 15.23).

Conclusão

Para terminar, é importante ressaltar que assim como o espírito de engano não tem local ou forma definida também não existe uma fórmula ou local seguro para evitá- lo. Segundo Jesus e os apóstolos, nossa segurança contra o engano não consiste em fórmulas ou estratégias, mas em algo bem menos complicado: o amor apaixonado pela verdade e por Jesus, que são a mesma coisa, porque Jesus é a verdade. É importante, porém, enfatizar o amor pelos dois aspectos. Não é um amor pela verdade intelectual que satisfaz a curiosidade. É um amor pessoal por Jesus que é a verdade em pessoa. Mas também não é um amor meloso, sentimental, por Jesus, que não enfrenta a verdade nas questões práticas do dia-a-dia, principalmente a verdade muitas vezes dolorosa sobre nós mesmos. Se amamos mesmo à pessoa de Jesus, amaremos também suas palavras e mandamentos e as cumpriremos em nossas vidas.

Em João 10.5, quando Jesus fala sobre o perigo dos ladrões e salteadores, ele diz que suas ovelhas “…de modo algum seguirão o estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos”. Em João 7.17, ele diz que “se alguém quiser fazer a vontade de Deus, há de saber se a doutrina é dele, ou se eu falo por mim mesmo”. Como saber se uma doutrina é de Deus ou não? Seria através de muito estudo ou pesquisa? De acordo com Jesus, não é tanto uma questão intelectual quanto prática— se quer saber tem que realmente querer fazer1 E Paulo diz em 2 Ts 2.9-12 que nos últimos dias certamente serão enganados os “que não receberam o amor da verdade” e que Deus enviará a operação do erro para aqueles “que não creram na verdade, antes tiveram prazer na injustiça”.

No Sermão da Montanha Jesus alerta contra os falsos profetas e avisa que é através dos seus frutos, e não através dos seus sinais ou ensinamentos, que se sabe se são falsos ou não (Mt 7.15-23). Em outras palavras, podemos ser enganados por doutrinas ou milagres, mas as ações de um caráter sólido produzido pelo Espírito de Cristo são inconfundíveis. E ao terminar o Sermão, ele conta a famosa parábola sobre as duas casas, uma construída na areia e a outra na rocha. Moral da parábola? Sem praticar a palavra, nada feito. Teoria e sinais não resolvem. Somente aqueles que amam a verdade tanto que a praticam no seu dia-a-dia serão imunes ao engano. Que Deus nos ajude!

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