História da Igreja – Parte 15 – Vozes Proféticas do Passado

Data de publicação: 19/10/2011
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Edição 29 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 29

Por: Christopher Walker

RaízesLições da História da Igreja Para os Nossos Dias

GIROLAMO SAVONAROLA
1452-1498

Desde garoto, Savonarola era uma pessoa marcada por Deus. Era muito contemplativo e passava horas em oração. A Itália do seu tempo era dominada por pequenos tiranos e sacerdotes corruptos, e pelas lutas políticas entre duques e papas. Sua alma se entristecia com a maldade, com o luxo e desperdício de uns em contraste com a extrema pobreza da maioria. Emoções fortes já ferviam no seu interior. A oração era seu único consolo.

Um dia, ele viu uma visão do céu aberto, e todas as futuras calamidades da igreja passaram diante de seus olhos. A voz de Deus depois o encarregou de advertir o povo. Daquele momento em diante, sentiu profunda convicção de seu chamado profético.

Embora tivesse fortes feições físicas, Savonarola não tinha boa aparência e era desajeitado em postura e gestos. Quando começou a pregar em Florença, inicialmente não teve muito impacto. Nesta cidade capital da Renascença, ele se opunha com grande energia à vida pagã e imoral prevalecente na sociedade e, especialmente, na corte de Lorenzo de Médici. Seu método e modo de falar eram repulsivos aos florentinos, mas isto não o deteve. De 1485 a 1489, pregou em várias outras cidades da Itália, onde começou a expor o livro do Apocalipse e a se empolgar cada vez mais com a mensagem do iminente juízo de Deus.

Em essência, ele anunciava três simples proposições: a igreja será disciplinada; a igreja será renovada; isto acontecerá em breve.
Com esta palavra e suas exposições do livro do Apocalipse, aplicadas para sua própria época, o povo começou a afluir para ouvi-lo. Suas pregações não foram caracterizadas por defesas doutrinárias ou teológicas, mas por chamados claros e apaixonados ao arrependimento e a mudanças morais na sociedade.

Sua voz, antes hesitante e falha, agora era como trovão, e suas advertências contra o pecado eram tão aterradoras que seus ouvintes freqüentemente andavam pelas ruas atordoados, desnorteados e sem palavras. Durante os sermões, freqüentemente a catedral inteira ressoava com sons de soluços e choro. Operários, poetas e filósofos, todos caíam em prantos; ficavam pálidos, estremeciam, seus olhos ficavam envidraçados de terror, lágrimas jorravam; batiam no peito e clamavam a Deus por misericórdia.

Em pelo menos uma ocasião, o rosto de Savonarola brilhou a ponto de todos o notarem. Apesar de todas as tentativas do corrupto regente da cidade de impedi-lo de pregar contra o pecado, ele continuava. O povo levantava, às vezes, à meia noite e esperava na rua até a hora de abrir a catedral para ouvi-lo pregar.

Houve vários efeitos destas pregações. O maior deles foi a mudança de comportamento na cidade de Florença. Livros de feitiçaria e magia negra, vaidades e objetos obscenos ou impuros eram recolhidos e queimados em enormes fogueiras em praça pública. Comerciantes devolviam ganhos desonestos; os pobres eram amparados, todos oravam e buscavam a Deus. Jovens e crianças marchavam nas ruas e visitavam as pessoas de casa em casa, implorando que todas abandonassem o pecado, e coletando recursos para ajudar os pobres.

Vários acontecimentos específicos foram profetizados por Savonarola. Sua mensagem de juízo vindouro incluiu a previsão da morte do papa Inocêncio VIII, a morte do rei de Nápoles, a vinda de um poder estrangeiro com grande exército como castigo de Deus e o colapso do governo da família Médici em Florença. Todos aconteceram com precisão surpreendente. Além disso, ele não poupava palavras de advertência e censura direta às classes sociais mais elevadas, aos governantes e ao clero da Igreja Católica, incluindo o papa.

Entretanto, incorreu em alguns erros próprios do ministério profético. Foi além da sua unção de advertir o povo contra o pecado, e tentou implantar uma teocracia em Florença. Achou que seria possível trazer santidade e o reino de Deus através de estabelecer leis justas e derrubar governantes injustos. Inicialmente, contou com grande apoio da população de Florença e parecia que as circunstâncias e acontecimentos o estavam ajudando. Quando o rei da França invadiu a Itália e a família Médici fugiu de Florença, o caminho ficou aberto para o novo regime cristão. Savonarola introduziu uma nova constituição e ajudou a organizar um conselho para governar a cidade de acordo com princípios bíblicos.

Como sempre acontece com tais tentativas de implantar o reino de Deus através de leis, de governantes justos e de policiamento para punir os infratores, depois de pouco tempo o experimento fracassou. Quando Savonarola foi excomungado pelo papa e o cerco contra ele estava ameaçando a vida econômica da cidade, a maioria do povo, que antes o apoiava apaixonadamente, de repente virou-se contra ele.

Conclui-se, portanto, que conformidade com padrões morais através de sistemas de governo ou leis justas não resulta em conversão ou mudança permanente de vida. Mais do que isto, elevados efeitos emotivos causados pela pregação, ainda que divinamente inspirada, se não forem canalizados e edificados dentro de princípios sólidos das Escrituras, podem dissipar-se e perder-se totalmente. Mesmo com Jesus, as multidões maravilhadas, que proclamaram louvores durante sua entrada triunfal em Jerusalém, poucos dias depois ajudaram a pedir sua crucificação.

Apesar deste desvio do verdadeiro alvo da pregação, Savonarola se manteve isento de ambições e da mistura com o sistema corrupto até o fim. Resistiu a todas as tentativas da família Médici de suborná-lo para não continuar expondo seus erros. Tampouco aceitou quando o papa lhe ofereceu uma posição de cardeal, a fim de induzi-lo a não combater as imoralidades e irregularidades do sistema eclesiástico. Não usou da sua popularidade para tornar-se governante da cidade, nem fez parte do conselho organizado para este fim. Porém, como um verdadeiro João Batista, Savonarola continuou na sua posição e denunciou os pecados, sem se intimidar até o fim. Mesmo depois de ser excomungado, continuou pregando. Acabou sendo preso pelas autoridades papais, condenado num julgamento forjado, torturado e morto por enforcamento, junto com outros dois companheiros. Seus corpos foram queimados.

A seguir, um pequeno trecho de uma de suas pregações:

“Nestes dias, prelados e pregadores estão acorrentados à terra pelo amor às coisas terrenas. O cuidado pelas almas não é mais sua preocupação. Estão contentes com sua renda financeira. Os pregadores pregam para agradar os príncipes e serem louvados por eles. Fizeram pior que isso. Não só destruíram a igreja de Deus, mas construíram uma nova igreja segundo seu próprio padrão. Vá a Roma e veja! Nas mansões dos grandes prelados, não há interesse senão por poesia e oratória. Vá até lá e veja! Verá todos com seus livros de ciências humanas, dizendo uns aos outros que podem guiar as almas dos homens por meio de Virgílio, Horácio e Cícero… Os prelados antigos tinham muito menos mitras e cálices de ouro, e os que possuíam eram quebrados e repartidos para aliviar as necessidades dos pobres. Mas nossos prelados, a fim de obter tais cálices, roubam os pobres do seu único meio de sustento. Não sabem já o que lhes relato? O que fazes, ó Senhor? Levanta-te e vem para libertar tua igreja das mãos de demônios, das mãos de tiranos, das mãos de prelados iníquos.”

MARTINHO LUTERO
(1483 – 1546)

Não precisamos falar aqui sobre a importância de Lutero como profeta, no sentido de abrir um novo passo para a igreja no plano de Deus, restaurando a firme base de justificação pela fé, sem apoio algum em obras humanas. É bem conhecido também que tinha um “temperamento profético”, e que costumava expor os pecados e erros de pessoas, sistemas eclesiásticos e raças em termos nem um pouco diplomáticos ou conciliadores! Sabemos que nem todos os seus ataques eram uma representação fiel da justa ira de Deus, como quando falava contra anabatistas e judeus, e até os perseguia.

Lutero cria fortemente no poder de Deus através da palavra pregada. A seguir, algumas de suas afirmações sobre a pregação:

“A pregação do evangelho é um meio, como se fosse um tubo, pelo qual o Espírito Santo flui e entra nos nossos corações.”
“A palavra proclamada é o veículo do Espírito Santo.”
“A voz é do ministro, mas meu Deus está falando a palavra que ele prega.”
“O sermão faz parte de uma guerra cósmica pelas vidas das pessoas. É uma espécie de acontecimento apocalíptico, que coloca a vida da pessoa em movimento – ou na direção do céu ou do inferno. Ninguém pode ouvir em fria apatia.”
“Quando elaboro um sermão, elaboro uma antítese. Deus e Satanás estão lutando nas mentes. É a luta entre o Deus que os homens buscam através de razão e especulação humana, e o Deus que se revela na Palavra por meio de Jesus. A razão separada de Deus é a meretriz do diabo.”
“O conteúdo da pregação não deve ser de sutilezas filosóficas, mas a promessa que gera confiança.”
“A pregação do evangelho nada mais é do que Cristo chegando a nós, ou de nós sendo levados a ele.”
“Nada além de Cristo deve ser pregado.”
“A realidade do Deus a quem nos devemos curvar em fé é realmente muito simples.”
“Ninguém deve pensar que é tão sábio ou tão espiritual que pode desprezar ou perder o mais insignificante sermão, pois não sabe qual a hora em que Deus fará sua obra nele.”

A leitura de seus sermões, com certeza, nos fará sentir a unção verdadeira que trazia, tanto em falar fortemente contra a confiança em obras humanas, como em advertir a igreja e a sociedade sobre o juízo vindouro de Deus.

A seguir, dois trechos extraídos de suas pregações:

Trecho do Sermão: “Inimigos da Cruz de Cristo”, onde Lutero mostra que os maiores inimigos são aqueles que mais confiam em suas próprias obras.

“Pois muitos andam entre nós, dos quais repetidas vezes eu vos dizia e agora vos digo até chorando que são inimigos da cruz de Cristo” (Fp 3.18).
Parece inacreditável, e eu mesmo não acreditaria nisto nem compreenderia as palavras de Paulo, se não tivesse testemunhado com meus próprios olhos e experimentado pessoalmente. Se o apóstolo repetisse a acusação hoje, quem imaginaria que as pessoas mais nobres entre nós, as mais respeitáveis, piedosas e santas, aquelas que esperaríamos, acima de todas as outras, que aceitassem a Palavra de Deus – que estas pessoas, digo, fossem inimigas da doutrina cristã? Mas os exemplos diante de nós testificam claramente que os “inimigos” a quem o apóstolo se refere só podem ser os indivíduos conhecidos como dignos e piedosos nobres e príncipes, cidadãos honrados, pessoas cultas, sábias e inteligentes. Pois se estes pudessem devorar, com uma só mordida, aqueles que são conhecidos como “evangélicos”, certamente o fariam.

Se você perguntar: “De onde tal disposição contrária?”, responderei que procede naturalmente da justiça humana. Pois todo indivíduo que professa justiça humana, e não conhece nada de Cristo, mantém a eficácia de suas próprias obras diante de Deus. Ele confia nisto e se satisfaz assim, presumindo desta forma apresentar uma aparência louvável aos olhos de Deus e tornar-se especialmente aceitável a ele. Deixando de ser soberbo e arrogante para com Deus, passa a rejeitar aqueles que não são justos segundo a lei, conforme ilustrado no exemplo do fariseu (Lc 18.11,12). Entretanto, maior se torna sua aversão e mais amarga sua ira em relação à pregação que ousa censurar a justiça que vem pela lei e que afirma sua inutilidade para obter a graça de Deus e a vida eterna.

Eu mesmo, e outros comigo, éramos dominados por tais sentimentos quando, sob a igreja de Roma, afirmávamos ser santos e piedosos. Se, há trinta anos, quando eu era um monge devoto e santo, celebrando a missa todos os dias e sem pensar outra coisa, senão que estava no caminho direto para o céu – se naquela época alguém me houvesse acusado – se houvesse pregado este texto e declarado que nossa justiça (que nem era estritamente de acordo com a lei de Deus e, sim, conforme a doutrina humana…) era ineficaz e que eu era um inimigo da cruz de Cristo, servindo aos meus próprios apetites sensuais – eu imediatamente teria pelo menos ajudado a encontrar pedras para levar à morte tal Estêvão ou a ajuntar lenha para queimar este tão blasfemo herege.

Assim sempre age a natureza humana. O mundo não pode se comportar de outra forma, quando vem a declaração do céu, dizendo: “É verdade, você é um homem santo, um grande e erudito jurista, um regente de caráter, um príncipe digno, um cidadão honrado, e assim por diante – mas com toda sua autoridade e seu caráter reto você vai para o inferno; cada um de seus atos é ofensivo e condenado aos olhos de Deus. Se quiser ser salvo, precisa ser uma pessoa totalmente diferente; sua mente e seu coração precisam ser transformados.” Anuncie isso e o fogo se acende… pois os justos por obras próprias consideram uma idéia intolerável que vidas tão exemplares, tão dedicadas a vocações louváveis, sejam publicamente censuradas e condenadas pela pregação desagradável de um pequeno número de indivíduos insignificantes…

Trecho do Sermão: “Profecia da Destruição de Jerusalém” Lutero aqui aplica a profecia sobre a destruição de Jerusalém à situação da Alemanha, que estava com uma revolta de camponeses, onde cem mil pessoas já haviam morrido.

Há dois métodos de pregação contra aqueles que desprezam a Palavra de Deus. O primeiro é através de ameaças, como quando Cristo falou com as cidades que não se arrependeram: “Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida!…” (Mt 11.21-24). Com isto, ele desejou chocá-las e trazê-las à realidade, para que não lançassem aos ventos as palavras que Deus lhes enviou.

O outro método é o que o Senhor usa em Lucas 19.41-44, onde chora e demonstra sua compaixão pelo pobre povo cego; aqui, ele os repreende e adverte, não como se fossem cegos obstinados e endurecidos, mas, derretendo-se em amor e compaixão por seus inimigos; junto com clamores e um profundo pesar que partia seu coração, ele revela o que lhes havia de suceder e que tanto queria impedir – porém, não podia! (…)

Primeiro, enquanto aproximava-se da cidade, o povo ia adiante e atrás dele com cânticos de grande alegria, dizendo: “Hosana ao Filho de Davi!” Estendiam suas vestes pelo caminho e cortavam galhos das árvores, espalhando-os diante dele. Era uma cena muito gloriosa. Porém, no meio de todo este júbilo, ele começa a chorar. Deixou o mundo todo celebrar com regozijo, enquanto ele próprio se encurvava com pesar e tristeza. Contemplando a cidade, ele disse: “Ah! Se conheceras por ti mesma ainda hoje o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos” (Lc 19.41). (…)

É como se dissesse à Jerusalém: “Aqui está, solidamente edificada, com homens fortes e valorosos no seu interior, que, sentindo-se seguros e contentes, pensam que não há perigo. Entretanto, em mais quarenta anos será totalmente destruída”. Isto ele disse claramente em Lucas 19.43,44: “Teus inimigos te cercarão de trincheiras… e te arrasarão… Não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste a oportunidade da tua visitação”.

Mas os judeus foram obstinados e dependiam das promessas de Deus, que pensavam significar simplesmente que permaneceriam para sempre. Eram seguros e pensavam inutilmente: “Deus não faria tal coisa a nós. Temos o templo; aqui o próprio Deus habita; além disso, temos homens valorosos, dinheiro e tesouros suficientes para desafiar todos nossos inimigos!” (…) Assim, confiavam em sua própria glória e edificavam sua confiança numa falsa ilusão, que no fim os enganou. (…)

Assim os judeus foram espalhados pelo mundo inteiro e desprezados como o povo mais vil sobre a face da terra… sem uma cidade ou país próprios… Desta forma, Deus vingou a morte de Cristo e de todos seus profetas, porque não reconheceram o dia da sua visitação.
Aqui devemos aprender uma lição, pois isto afeta a todos nós, não só aos que estão aqui presentes, mas a todo o país da Alemanha. (…) Deus também nos visitou agora e abriu os preciosos tesouros do seu santo evangelho para nós, pelos quais podemos aprender a vontade de Deus e ver como éramos dominados pelo poder do diabo. Entretanto, ninguém acredita seriamente nisto, antes, ainda mais o desprezamos e o tratamos levianamente. (…)

Deveríamos perceber que Deus está permitindo o nosso endurecimento. (…) Receio que o tempo virá quando a Alemanha será um montão de ruínas. Os ventos do mal já começaram a trazer destruição através da nossa guerra de camponeses. Já perdemos muitas pessoas. Quase cem mil homens, só entre a Páscoa e o Pentecostes! É uma obra terrível que Deus tem feito, e temo que não parará aí. Este foi apenas um prenúncio, uma advertência, para nos assustar a fim de que pudéssemos nos preparar para a angústia vindoura. (…)

Mas permitimos que um dia após outro passe, um ano depois do outro, e fazemos menos ainda que antes. Ninguém ora agora, ninguém está em apuros. Quando o tempo tiver passado, orações não terão mais eficácia. Não levamos a sério, achamos que estamos seguros; não vemos a horrível calamidade que já começou e não percebemos que Deus nos pune de forma tão severa através de falsos profetas e seitas, que estão por toda parte e que pregam com tanta segurança como se fossem a própria encarnação do Espírito Santo.

GEORGE FOX
(1624 – 1691)

George Fox, sem dúvida alguma, foi uma das figuras proféticas mais claras na história da igreja. Viveu numa época especialmente tempestuosa e crucial na Inglaterra, tanto na esfera política como na religiosa, as quais, na verdade, eram muito interligadas. Guerra civil (quando Oliver Cromwell interrompeu a monarquia inglesa durante onze anos) e muita agitação religiosa (envolvendo a igreja anglicana oficial, o crescimento do movimento presbiteriano – também muito institucionalizada – e uma série de grupos independentes, como batistas, puritanos e vários outros) marcavam o cenário.

Embora fosse uma época em que imperavam conflitos, turbulência, confusão e um sentimento generalizado de mal-estar e incômodo, era ao mesmo tempo – e justamente por estas características – um tempo de incubação e gestação de novas idéias ou novos aspectos da verdade. Uma das principais manifestações de tais épocas é o irrompimento simultâneo de novas revelações da verdade, em diversos lugares e através de instrumentos totalmente independentes, como se o sopro de um novo Pentecostes tivesse sido liberado.

Esses tempos são marcados na história como novos avanços, como períodos que influenciaram todo o curso posterior da humanidade; porém, não são nada calmos ou tranqüilos para quem está vivendo dentre deles. Os novos passos ainda não são claros, os representantes do sistema atual lutam até a última instância para não perder seu poder e controle, e até as diversas correntes da nova vida que está prestes a nascer lutam entre si.

Normalmente, no meio destes períodos agitados e férteis surge alguém que demonstra a capacidade de ser expoente daquilo que muitos outros já estavam sentindo vaga ou inconscientemente e, no entanto, não conseguiam exprimir claramente. Esta pessoa recebe o encargo divino de ser um profeta da época, pois sabe como interpretar suas idéias com força tão contagiosa que compele as pessoas a se mobilizarem, ou para ação ou para perpetuar a verdade.

O dom especial do profeta é descobrir em toda esta massa de idéias, de descontentamento e de turbulência, aquilo que é vital e essencial, a linha do plano eterno no meio de todas as conflitantes opiniões e acontecimentos, um conjunto claro de pensamentos usando todas as peças miscelâneas e desconexas já existentes.

George Fox era este tipo de profeta. Sua mensagem não tinha praticamente um elemento que não fosse defendido por pelo menos uma das seitas ou grupos da sua época. Mas ele viu o que era espiritual e eterno, perdido no caos de meias verdades e erros, fundiu tudo em um novo conteúdo e injetou vida nova por meio da sua revelação central.

Desde o início da Reforma, nenhum profeta deste calibre havia surgido ainda na Inglaterra. Ninguém havia se levantado com uma visão da verdade num novo nível, ou que tivesse uma personalidade ou mensagem pessoal que compelisse a nação inteira a dar ouvidos. A prova de que George Fox realmente tinha esta função não foi apenas por causa dos frutos que apareceram durante sua própria geração, mas através do tipo de influência que sua mensagem e exemplo exerceriam nas gerações posteriores.

A seguir, uma síntese muito abreviada da sua ênfase e ministério.

Desde sua juventude, ainda sem uma experiência pessoal com Deus, Fox começou a sentir profunda angústia e desespero, causados não tanto pela intensa consciência de pecado pessoal, mas por uma grande sensibilidade de alma à maldade à sua volta. A percepção de que o mundo e até a igreja estavam tão carregados de impiedade e pecado o esmagava. Nada parecia ser tão real quanto esta visão que tinha do estado das coisas.

Com dezenove anos, foi convidado por alguns cristãos nominais (a quem, posteriormente, costumava chamar de cristãos professos) a uma reunião para beber, e ficou tão escandalizado com sua total falta de vida espiritual e temor de Deus que entrou em uma verdadeira crise pessoal para buscar a solução. Quando procurou ajuda de líderes eclesiásticos, descobriu que eles também não conheciam a Deus, mas eram “cascas vazias e ocas”. A religião, até onde podia ver, era fraca e ineficaz, sem qualquer dinamismo ou poder vivo de Deus.

Sua experiência com Deus foi sozinho, com uma “abertura” espiritual em que viu que Cristo não era uma mera figura histórica – que veio ao mundo e depois foi embora para sempre – mas que é a contínua presença divina, Deus manifesto aos homens, e que este Cristo podia “falar à sua condição”.

Como um novo apóstolo Paulo, que não ouviu de homem algum, mas diretamente de Deus, George Fox levou esta simples e poderosa mensagem da “luz interior”, pela qual Deus pode falar com qualquer pessoa hoje, por toda a Inglaterra e alguns outros países. Sua missão era tirar as pessoas de engenhosos substitutos religiosos e sem vida, da dependência de mediadores humanos e de sistemas eclesiásticos – e apontá-las ao próprio Cristo, à luz verdadeira. As Escrituras eram muito importantes, mas também apontavam para a luz, pois não eram a luz em si. O importante era ser direcionado ao mesmo Espírito que deu as Escrituras, pois assim elas se tornariam vivas e eficazes na própria vida da pessoa.

Sozinho, andando a pé, enfrentando o tempo, muitas vezes rejeitado e perseguido, ele foi levando esta mensagem. Como o apóstolo Paulo, quando possível, entrava nas “sinagogas”, ou seja, nos templos religiosos que chamava de “torres” (steeple houses), já que “igreja” era uma realidade espiritual e não física. Lá pedia licença para falar, e anunciava a verdadeira fonte de vida, denunciando todos os substitutos errados.

Alguns sacerdotes ficavam perplexos, porém sem palavras; outros mandavam que se calasse, outros o expulsavam, às vezes com violência. Quando as portas dos templos ficavam fechadas, ele pregava nos cemitérios ou outras áreas do lado de fora dos templos, em casas onde era convidado ou em praças e feiras.

Nos tribunais e cortes da lei, ele falava pessoalmente, ou enviava cartas, conclamando os juízes e oficiais a agir com justiça, advertia contra práticas corruptas e contra dissolução, embriaguez e imoralidade. Nas feiras e centros comerciais, denunciava a desonestidade, mercadorias enganosas, e trapaças, advertindo sobre o grande e terrível dia do Senhor, que logo viria sobre todos.

Enfim, não havia uma área da sociedade para quem Fox não tivesse uma mensagem específica, mostrando como seus caminhos estavam longe do padrão da santidade de Deus. Mas a classe de pessoas que mais afetava seu espírito era a dos sacerdotes ou clérigos das igrejas oficiais. Quando ele ouvia o sino da igreja chamando os fiéis aos cultos nas “torres”, era como se algo estivesse ferindo-o profundamente. Era como se fosse um sino comercial, onde o povo seria congregado para ser explorado e onde os bens espirituais seriam expostos como mercadorias.

Os resultados de suas pregações muitas vezes poderiam ser interpretados como perturbação da paz, mas Fox diria que paz falsa precisa ser perturbada. Em suas próprias palavras, a descrição de uma dessas ocasiões:

“Fui movido a abrir minha boca e levantar minha voz na poderosa força do Senhor e dizer-lhes que o grande dia do Senhor em breve chegaria sobre todos os caminhos enganosos e comércio desonesto, e a chamar a todos ao arrependimento; que se voltassem ao Senhor Deus e ao seu Espírito dentro deles, que lhes havia de ensinar; que tremessem diante do poderoso Deus dos céus e da terra, pois seu grande dia estava chegando. Assim passei pelas ruas da cidade. Muitas pessoas me apoiaram e várias foram convencidas. Quando cheguei no final da cidade, subi num toco de árvore e falei com o povo, que logo começou a lutar entre si, alguns a meu favor, outros contra mim…”

A seguir um trecho de um de seus sermões:

“Anunciem, anunciem por toda parte, fiéis servos do Senhor, e testemunhas no seu nome… profetas do Altíssimo e anjos do Senhor! Anunciem e façam ouvir em todo o mundo, para despertar e levantar os mortos, para que sejam acordados e despertados da sua sepultura, para ouvir a voz que é viva. Pois os mortos há muito só ouvem os mortos, os cegos andam perdidos no meio de cegos, e os surdos entre os surdos. Portanto, anunciem, proclamem, servos e profetas e anjos do Senhor, vocês que são trombetas do Senhor, para acordarem os mortos e despertar os que dormem nas suas sepulturas de pecado, morte e inferno, a fim de que os mortos ouçam a voz do Filho de Deus, a voz do segundo Adão que nunca caiu; a voz da Luz e a voz da Vida; a voz do Poder e a voz da Verdade; a voz da Justiça e a voz do Justo. Anunciem, proclamem o som agradável e melodioso; soem as trombetas, o som melodioso em toda parte, para que todos os ouvidos surdos sejam abertos para ouvir o agradável som da trombeta, chamando para juízo e Vida, para condenação e Vida.”

Em outro paralelo ao apóstolo Paulo, George Fox passou por toda espécie de perseguição, prisão, rejeição, apedrejamento, e desconforto imaginável ao viajar pregando. Passou alguns períodos mais extensos na prisão, mas escrevia cartas enquanto pôde, não só a irmãos e grupos de Amigos (seus seguidores), mas a autoridades, juízes e líderes eclesiásticos. Os pregadores e Amigos ou Quakers, que surgiram como resultado do seu ministério, seguiram seus passos. Milhares foram presos, algumas centenas chegaram a morrer na prisão, inclusive alguns nas colônias do Novo Mundo foram enforcados.

Os resultados da sua mensagem também foram extensos, muito além do período em que viveu. Não foram sentidos apenas na Sociedade de Amigos. Sua luta por condições mais humanas nas prisões, por igualdade de todos diante da lei, por respeito e igualdade de tratamento para as mulheres, contra a escravidão (especialmente na América), por educação, caráter e honestidade, se fez sentir em toda a sociedade, e alguns dos frutos só apareceram depois da sua morte.

JOHN WESLEY
(1703 – 1791)

A importância da vida e mensagem de John Wesley é bem conhecida. Não é exagero dizer que impactou profundamente a história da Inglaterra e da América, com efeitos diversos em toda a sociedade, sem falar da revolução no cristianismo frio e formal da Igreja Anglicana.

Porém, no final do seu ministério, Wesley não estava muito satisfeito com os próprios seguidores metodistas. Seu coração ardente e radical já percebia os sinais de acomodação e adaptação do novo movimento.

A seguir, um trecho de um dos seus sermões, onde exerce sua função de despertar e alertar aqueles que deveriam estar na vanguarda do mover de Deus:

“Acaso não há bálsamo em Gileade? Ou não há lá médico? Por que, pois, não se realizou a cura da filha do meu povo?” (Jr 8.22).

Por que o cristianismo tem feito tão pouco bem no mundo? … Não foi designado, por nosso todo sábio e todo-poderoso Criador, para ser o remédio para o mal da corrupção universal da natureza humana? … Entretanto, a doença ainda permanece com pleno vigor: maldade de toda espécie, vícios e hábitos impuros, interiores e exteriores, em todas as suas manifestações, ainda dominam por toda a face da terra.

A seguir, Wesley discorre sobre as áreas do mundo ainda não alcançadas pelo cristianismo, sobre as regiões islâmicas e pagãs, mostrando que lá o cristianismo ainda não pôde influenciar as pessoas e transformá-las. Mas, ele pergunta, e quanto aos países “cristãos”? Certamente ali encontraremos uma situação diferente. Infelizmente, não é o que se pode constatar. Teremos sorte se não descobrirmos que o comportamento geral nestes países é pior do que naqueles onde ninguém conhece o cristianismo. A massa da população é cristã apenas no nome, não conhece realmente o cristianismo, nem sabe o que é. Pelo contato pessoal que teve, na Inglaterra e em outros países, com católicos, protestantes ou ortodoxos, Wesley afirma que a maioria é totalmente ignorante, tanto em relação à teoria, como à prática, do cristianismo; sem conhecer, nem ao menos os primeiros princípios, perecem por falta de conhecimento. Mesmo nos países mais afetados pela Reforma, naqueles onde se esperaria achar grandes números de cristãos praticantes e bíblicos, entre dez freqüentadores de igrejas, entre dez pessoas fiéis e assíduas, nove, com certeza, não saberiam explicar coisa alguma dos princípios básicos da vida cristã, da redenção, da ação do Espírito Santo, da justificação, do novo nascimento, da santificação interior ou exterior. E como o cristianismo poderia trazer algum bem, alguma transformação, para pessoas neste estado de ignorância?

Vamos trazer a questão ainda mais próxima. O cristianismo bíblico não é pregado e bem conhecido entre o povo comumente conhecido como metodista? Observadores imparciais admitem que é. E não se pratica entre eles, não só a doutrina, mas a disciplina também, em todas as suas ramificações essenciais, sendo exercitada regular e constantemente? Por que, então, estes não são totalmente cristãos, já que tanto têm doutrina como disciplina cristã? Por que a saúde espiritual do povo chamado metodista não foi recuperada? Por que não temos todos nós “o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”? Por que não aprendemos dele nossa primeira lição, tornando-nos mansos e humildes de coração? Por que não dizemos junto com ele, em todas as circunstâncias da vida: “Não minha vontade, mas a tua; não vim para fazer a minha vontade e, sim, a vontade daquele que me enviou”? Por que não fomos “crucificados para o mundo e o mundo para nós” – mortos para os “desejos impuros da carne, os desejos dos olhos e a soberba da vida”? Por que todos nós não vivemos a vida que está “escondida com Cristo em Deus”?

Para dar exemplo em apenas uma área: quem atende a estas palavras solenes: “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra”? Das três regras que se estabelecem a este respeito, … você pode encontrar muitos que observam a primeira: “Ganhem o quanto puderem”. Ainda encontrará alguns poucos que observam a segunda: “Economizem o quanto puderem”. Mas quantos poderá achar que praticam a terceira: “Dêem o quanto puderem”? Será que entre cinqüenta mil metodistas haverá quinhentos que o façam? E, no entanto, nada pode ser mais claro do que a conclusão de que todo aquele que guardar as primeiras duas regras sem a terceira será ainda duas vezes mais filho do inferno do que antes!

Ó que Deus me capacitasse mais uma vez, antes que eu seja levado para nunca mais ser visto, a levantar minha voz como trombeta e falar com aqueles que ganham e economizam tudo que podem, mas não contribuem tudo que podem! Vocês são as pessoas, talvez as principais, que continuamente entristecem o Espírito Santo de Deus e, em grande medida, impedem sua influência graciosa de descer sobre nossas assembléias. Muitos dos seus irmãos, amados de Deus, não têm alimento, não têm vestimentas, não têm lugar para inclinar suas cabeças. E por que são assim angustiadas? Por que vocês estão ímpia, injusta e cruelmente retendo deles aquilo que o Mestre, tanto seu quanto deles, colocou em suas mãos com o propósito expresso de suprir as necessidades deles! (…)

Naquilo que está gastando, Deus o recomenda? Ele o louva por aquilo que fez? Ele não lhe confiou os bens dele (e não os seus) para este fim? E agora lhe dirá: “Muito bem, servo de Deus”? Você sabe muito bem que não. Aquela despesa inútil não tem aprovação, nem da parte de Deus, nem da sua consciência.

Mas você diz que tem condições de comprar! Que vergonha deve sentir por ter pronunciado bobagem tão desprezível com sua boca! Nunca mais deve admitir tamanha tolice, absurdo tão palpável! Um administrador tem condições de ser um fraudador descarado? De desperdiçar os bens do seu Senhor? Algum servo tem condições de fazer compromissos com o dinheiro do seu Mestre, além daquilo que este lhe ordenou? (…)
Mas, para voltar à nossa pergunta inicial. Por que o cristianismo fez tão pouco bem, mesmo entre nós? (…) Claramente, porque nos esquecemos, ou pelo menos não atendemos devidamente, às solenes palavras do nosso Senhor: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz, dia a dia, e siga-me”. Um homem de Deus comentou, já há alguns anos: “Nunca antes houve um povo na igreja cristã que tivesse tanto poder de Deus no meio deles e, ao mesmo tempo, tão pouca abnegação”. De fato, a obra de Deus realmente vai avançando de forma surpreendente, apesar desse defeito capital; entretanto, não será na intensidade que teria de outra forma, nem a Palavra de Deus terá todo seu efeito, a não ser que os ouvintes “neguem-se a si mesmos e tomem suas cruzes diariamente”.  (…)

Quanto mais observo e considero estas coisas, mais claro está:  … os metodistas ficam mais e mais indulgentes para consigo mesmos, porque estão ficando mais ricos. Embora ainda haja muitos em miséria deplorável…, tantos e tantos outros, no espaço de vinte, trinta ou quarenta anos, ficaram vinte, trinta, até cem vezes mais ricos do que eram quando primeiro ingressaram na sociedade [metodista]. E é uma observação que admite poucas exceções: nove entre dez destas pessoas diminuíram na graça na mesma proporção em que aumentaram suas riquezas. De fato, de acordo com a tendência natural das riquezas, não poderíamos esperar outra coisa.

Mas que fato extraordinário este! Como podemos entendê-lo? Não parece (embora não possa ser assim) que o cristianismo, o verdadeiro cristianismo bíblico, tem uma tendência, com o passar do tempo, de minar e destruir a si mesmo? Pois em todo lugar onde o verdadeiro cristianismo chega, produz diligência e frugalidade, que, no curso natural das coisas, acaba gerando riquezas! E riquezas têm o efeito de gerar soberba, amor ao mundo, e toda atitude que é destrutiva ao próprio cristianismo. Agora, se não houver meio de evitar isso, o cristianismo seria incoerente consigo mesmo e, conseqüentemente, não poderia subsistir…

Mas não há como evitar isso? (…) Admitindo que diligência e frugalidade produzem riquezas, não há um meio de impedir as riquezas de destruir a religião de quem passa a possuí-las? Só vejo um caminho possível; que descubra outro quem puder. Você está fazendo tudo para ganhar o quanto puder e economizar o quanto puder? Então, como resultado natural, você está no caminho de enriquecer-se. Porém, se tiver algum desejo de escapar à condenação do inferno, dê o quanto puder; de outra forma, não tenho mais esperança para sua salvação do que a de Judas Iscariotes.

Do sermão 116, Causas da Ineficácia do Cristianismo, Dublin, 2 de julho de 1789.

JONATHAN EDWARDS
(1703 – 1758)

Jonathan Edwards é conhecido, talvez, mais do que tudo por causa de um sermão que pregou em 1741, Pecadores nas Mãos de um Deus Irado. Em 1734, alguns anos depois de assumir o pastorado da igreja do seu avô em Northampton, estado de Massachusetts, EUA, suas pregações foram usadas por Deus para iniciar o Grande Despertamento naquela igreja e região. Posteriormente, o famoso pregador George Whitefield foi o instrumento que ampliou e estendeu este mover em outras partes das colônias norte-americanas.

Na verdade, a grande contribuição de Edwards não foi tanto através de suas pregações. Seu sermão famoso nem foi muito típico da maioria das suas mensagens. Geralmente, falava em tom baixo, com dignidade, porém, com grande ênfase. Sua voz não era muito apropriada para pregar a grandes multidões. Nunca utilizava tons altos ou gestos exagerados para comunicar suas idéias, mas dependia de figuras dramáticas de linguagem e argumentação lógica para convencer seus ouvintes.

Sua grande preocupação durante o Grande Despertamento era mostrar o equilíbrio certo entre a razão e as emoções na experiência com Deus. Apesar da sua formação e tradição que favoreciam mais os aspectos lógico e racional da apresentação da verdade, ele compreendeu e defendeu a importância dos sentimentos e das emoções na conversão e nas outras experiências com Deus. Ao mesmo tempo, também advertiu contra os excessos e perigos das emoções quando estas se tornam o objetivo principal da pessoa ou do movimento.

Acima de tudo, para Edwards e para os grandes pregadores contemporâneos (John Wesley e George Whitefield), o que trazia o mover e o poder de Deus era a pregação inspirada pelo Espírito. Ao ler algumas das pregações destes homens, talvez não sintamos hoje o mesmo efeito que causavam nos seus ouvintes quando foram pregadas originalmente. Em parte, isto é porque não estamos acostumados com o estilo lógico e detalhado que usavam naquela época, quando a pregação mais parecia um tratado teológico. Segundo um relato, uma das mensagens do pai de Jonathan Edwards continha nada menos que 66 pontos!

Qual a explicação, então, para a fantástica reação emocional que ocorreu durante a pregação de Pecadores nas Mãos de um Deus Irado? Na ocasião, havia pessoas gritando e gemendo, sentindo quase que literalmente as chamas do inferno, caindo no chão, desmaiando, incomodadas e extremamente angustiadas enquanto não encontrassem paz com Deus. A cena era como se um furacão tivesse passado no meio de uma floresta. Durante toda a noite seguinte, a convicção de pecados continuou nos lares, onde pessoas buscavam um verdadeiro encontro com Deus. Era como se o dia do Senhor já tivesse chegado.

Uma das chaves, sem dúvida, foi a estratégia inspirada que Edwards usou. Para começar, o sermão foi uma obra-prima de retórica e seqüência lógica, em que todas as saídas naturais para o homem foram metodicamente destruídas, e a pessoa se via sem qualquer chance de escapar da ira de Deus. Entretanto, mais do que isto, Edwards lançou mão de um estilo que era usado com criminosos condenados, logo antes da sua execução, em que o ministro enfatizava seu iminente encontro com Deus e os chamava ao arrependimento. Tais sermões freqüentemente eram publicados e, assim, o povo sabia identificar o estilo com facilidade.

Numa aplicação ousada e chocante, Edwards se dirigiu à sociedade respeitável de uma congregação em Enfield com este tipo de sermão. Enfatizando a vida pecaminosa daqueles que se consideravam membros fiéis da igreja, martelando em seus ouvidos a insegurança de sua posição diante de Deus, que só não os tinha julgado antes por pura misericórdia, ele os estava comparando, com efeito, a criminosos condenados.

Mas embora esta fosse uma estratégia poderosa e eficaz, não era em si a explicação mais importante. Isto fica ainda mais claro quando descobrimos que poucas semanas antes de pregar em Enfield com aqueles tremendos resultados, Edwards pregou a mesma mensagem em sua própria paróquia em Northampton. Pelo que sabemos, a única reação que obteve lá foi que o povo o cumprimentou à porta para dizer-lhe: “Bela pregação, pastor”, antes de ir para casa almoçar.

Assim, na própria análise de Edwards, a palavra pregada é o instrumento essencial que Deus usa para trazer despertamento; porém, é o Espírito que faz a obra e ele sopra aonde quer. Quando ele visita um lugar, entretanto, os efeitos são duradouros. As pessoas se tornam humildes, fiéis, santas e dispostas a orar. As igrejas passam a ser mais intensas na adoração e mais famintas pela Palavra.

De qualquer forma, por mais que a linguagem não nos seja comum e apesar da nossa dificuldade em nos identificar com a cultura da sua época, vale a pena reler este poderoso sermão, pois contém verdades que ainda precisamos ouvir, visto que a mesma situação continua nas igrejas hoje. Assim como lemos as profecias de Jeremias, Ezequiel e outros, podemos ainda ouvir a voz profética de Deus nestas palavras. Talvez, ao ler estas palavras, você fique aflito pensando: “Chega de palavras pesadas! Será que ele não vai mostrar a graça e o perdão?” Mas este, possivelmente, seja nosso problema hoje: Oferecemos a solução para pessoas que ainda não se convenceram do seu fracasso e condenação.

Alguns trechos do sermão Pecadores nas Mãos de um Deus Irado, de Jonathan Edwards, 1741:

Deus não colocou nenhuma obrigação sobre si mesmo, nem fez qualquer promessa de preservar o homem natural do inferno por um momento sequer. (…) De forma que, indiferente daquilo que alguns imaginam ou interpretam a respeito das promessas feitas ao homem natural.., está claro e manifesto que, sejam quais forem os esforços que o homem natural dedicar à religião e sejam quais forem suas orações, enquanto ele não crer em Cristo, Deus não tem obrigação nenhuma de preservá-lo por um instante da destruição eterna.

Portanto, Deus segura os homens naturais em sua mão, suspensos, por assim dizer, sobre o abismo do inferno; eles merecem o abismo de fogo e para lá já foram condenados. Deus foi extremamente provocado, está tão irado para com eles quanto está em relação àqueles que já estão sofrendo a sentença do ardor da sua ira no inferno. Não fizeram nada, por mínimo que fosse, para abater ou aplacar esta ira, nem Deus se obrigou por qualquer promessa a preservá-los por um instante. O diabo aguarda por eles, o inferno está com sua boca escancarada, as chamas crescem e reluzem à sua volta, querendo devorá-los; o fogo reprimido nos seus próprios peitos tenta irromper para fora e, como não têm qualquer interesse em seu Mediador, não há meios ao seu alcance para que obtenham segurança. Em síntese, não há refúgio, nada a que se possam ater – a única coisa que os preserva, de momento a momento, é a mera vontade arbitrária e a tolerância não obrigatória e não comprometida de um Deus inflamado.

A aplicação deste terrível assunto poderá servir para o despertamento de pessoas não convertidas nesta congregação. Isto que acabaram de ouvir é o caso de cada um de vocês que está fora de Cristo. Este universo de miséria, este lago de fogo e enxofre, estende-se ilimitadamente abaixo de você. Lá está o horrível abismo das chamas cada vez maiores da ira de Deus; lá está a boca escancarada do inferno; e você nada tem em que se apoiar, nada em que se possa agarrar, nada entre si e o inferno, a não ser a atmosfera; é apenas o poder e o mero prazer de Deus que o mantém livre disso até o presente momento.

Você provavelmente não está consciente disso; percebe que foi preservado do inferno, mas não vê nisso a mão de Deus; talvez o atribua a outras coisas, como o bom estado do seu corpo, o cuidado que toma da sua própria vida, e os meios que usa para preservar a si mesmo. Mas, de fato, tudo isto é nada; se Deus retirasse sua mão, a proteção humana, que o impede de cair no abismo, não seria maior do que o vazio do ar para sustentar uma pessoa suspensa nele. (…)

A ira de Deus é como muitas águas represadas durante um determinado tempo; aumentam cada vez mais e sobem a níveis progressivamente mais elevados, até que encontrem um lugar de vazão. Quanto mais tempo o ribeiro é represado, mais rápido e poderoso será seu fluxo, no momento em que for liberado. É verdade que o juízo contra suas obras malignas ainda não foi executado; as torrentes da vingança de Deus estão retidas; enquanto isso, sua culpa vem constantemente aumentando, e todos os dias está entesourando mais ira para si mesmo; as águas não param de subir, tornando-se um potencial mais e mais ameaçador…  Se Deus somente retirasse sua mão da comporta da represa, ela se abriria com ímpeto e as torrentes inflamadas do ardor e da ira de Deus irromperiam com fúria indescritível, e o inundariam com poder onipotente; e se sua força fosse dez mil vezes maior do que é, sim, dez mil vezes maior que a força do demônio mais robusto e resistente do inferno, não seria nada diante da força desta inundação. (..)

Assim, todos vocês que nunca passaram por uma grande mudança de coração, pelo grande poder do Espírito de Deus sobre suas almas; vocês, que nunca nasceram de novo para se tornarem novas criaturas, e para serem levantados da morte no pecado para o estado de novidade de vida; vocês, que não experimentaram, portanto, a luz nem o fogo do Senhor – sim, todos vocês estão nas mãos de um Deus irado. Não importa que tenham reformado sua vida em muitos aspectos, que tenham sentido emoções religiosas, ou que mantenham atualmente uma forma de religião em suas famílias, em seus aposentos particulares ou na casa de Deus – nada além do mero prazer de Deus o protege de ser neste momento engolido pela destruição eterna.

Não importa que você não tenha convicção agora desta verdade que está ouvindo. Em breve, se convencerá plenamente. Aqueles que foram levados anteriormente em circunstâncias semelhantes às suas já descobriram esta verdade, pois a destruição veio repentinamente sobre a maioria; quando não esperavam nada disso, enquanto diziam: “Paz e segurança”; agora constataram que aquelas coisas das quais dependiam para obter paz e segurança nada mais eram senão ar e sombras vazias. 

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