História da Igreja – Parte 9 – A Pregação da Palavra na Igreja Apostólica

Data de publicação: 06/12/2011
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Edição 10 e Revista Impacto - 1998 a 2014.

Por: Christopher Walker

RAÍZES – LIÇÕES DA HISTÓRIA DA IGREJA PARA OS NOSSOS DIAS
A Pregação da Palavra na Igreja Apostólica

Já tivemos oportunidade de examinar diversos aspectos da igreja primitiva, com o objetivo de conhecer melhor nossas raízes como igreja, e descobrir de onde viemos, para onde vamos, e se estamos longe ou perto do caminho certo e do alvo certo. Entre estes aspectos, vimos algo sobre adoração na igreja primitiva (Impacto nº 6), e sobre as práticas centrais do batismo e da ceia do Senhor (Impacto nº 8).

Neste artigo, queremos falar sobre um dos elementos mais importantes da reunião da igreja: a pregação da palavra. Que lugar davam ao ministério da palavra nos cultos apostólicos, e de que natureza era? Será que era o elemento central da reunião, ou, como em tantas igrejas hoje, ocupava um lugar insignificante na última meia hora de um culto de mais de duas horas, quando o povo já se cansou tanto que sua receptividade e atenção praticamente se esgotaram? Será que era mais uma exposição sistemática e teológica, ou um discurso eloqüente e carismático, cheio de estórias dramaticamente contadas, e frases de impacto, para deixar os ouvintes maravilhados, contudo sem acrescentar nada à sua vida espiritual? Quem eram os pregadores, quais eram suas qualificações, e de onde tiravam suas mensagens?

É óbvio que não temos documentos históricos para fornecer respostas para todas estas perguntas. Nossa melhor fonte de informação ainda é o livro de Atos dos Apóstolos, e as cartas do Novo Testamento, pois depois do período apostólico houve perto de cinqüenta anos sem documentação, e as evidências da igreja do segundo século apontam para práticas drasticamente diferentes daquelas que havia nos seus primeiros anos.

KERIGMA E DIDAQUÊ

No livro de Atos, os relatos são basicamente de pregações públicas, ou kerigma, em que o evangelho era anunciado. Sabemos que esta palavra viva, sempre focalizando a ressurreição de Jesus, era a semente poderosa que gerava fé e arrependimento nos ouvintes, e que produzia tantos convertidos. Tanto era a palavra responsável pela vida e multiplicação da igreja, que a Escritura diz que “crescia a palavra de Deus” para se referir ao crescimento fenomenal nos primeiros anos (Atos 6.7; 12.24; 19.20).

Mas existem referências também a um outro aspecto do ministério da palavra, que era o ministério de ensino, ou didaquê. Estes eram os ensinamentos que os recém-convertidos recebiam, e que os alicerçavam na vida e graça de Jesus. Lemos que eles perseveraram “na doutrina dos apóstolos” (Atos 2.42); Barnabé e Saulo ensinaram os novos cristãos gentios em Antioquia durante um ano, pelo menos, antes de serem enviados como apóstolos (Atos 11.26); Paulo ficou um ano e seis meses ensinando a palavra de Deus em Corinto (Atos 18.11) e dois anos em Éfeso na escola de Tirano, todos os dias (Atos 19.9,10).

Tanto na proclamação, ou kerigma, como no ensino, ou didaquê, a ênfase sempre era na palavra como a expressão de uma pessoa viva e ressurreta, com quem se pode ter um relacionamento, e não na sistematização de um credo, uma doutrina, uma série de regras ou dogmas. Era a verbalização de algo vivo, de que todos que o anunciavam eram participantes e testemunhas.

Não era necessário ser culto ou formado, nem ter passado por um curso sistematizado, para ser um ministro da palavra; era necessário, pelo contrário, ter uma experiência viva, e ser testemunha deste relacionamento. Quem ouvia e cria, passava por uma revolução total na sua vida, e saía falando com a mesma convicção. Não se transmitia uma teoria, uma fórmula, um raciocínio, ou uma filosofia; a palavra que tinham, na verdade, era o próprio Verbo em carne, de quem eram testemunhas, e com quem estavam se relacionando pessoalmente. (Ver 1 João 1.1-3.)

CENTRO DA IGREJA

Assim, apesar de não terem um padrão de culto ou pregação, nem  uma estrutura ou sistema de treinamento ou preparação dos pregadores, a palavra transmitida com vida e revelação era de fato o centro da igreja emergente, e a chave do seu vigor e poder. A palavra não só cortava os corações (Atos 2.37; 5.33; 7.54; nota: a palavra grega traduzida por “enfureceram” nas duas últimas referências, significa cortar ou rasgar), mas trazia o Espírito Santo sobre os ouvintes que criam (Atos 10.44). E esta união dinâmica entre a palavra e o Espírito, que resultava também em sinais e prodígios, nada mais era que a presença de Jesus, vivo e atuante no meio dos seus discípulos.

Os apóstolos reconheciam a importância desta fonte de vida, e recusaram-se a cair na armadilha de cuidar de problemas práticos e questões administrativas, que aparecem junto com o crescimento da igreja (Atos 6.1-4). “Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra”, eles afirmaram. Como vemos tão freqüentemente hoje, quando homens ungidos abandonam suas verdadeiras prioridades para acudir à multidão de problemas e desafios administrativos, os problemas até podem ser resolvidos, e tudo passa a funcionar com eficiência e sucesso – porém a verdadeira fonte de vida espiritual começará a secar-se e a igreja passará a ser cada vez mais uma mera organização humana.

Esta prioridade que os apóstolos definiram como a oração e o ministério da palavra, não era um estudo teológico ou intelectual. Era a dedicação ao seu relacionamento com o Cristo vivo, e era exatamente isto que transmitia graça. O conhecimento de teorias, padrões de santidade, ou regras de conduta, mesmo que sejam do Novo Testamento, não gera graça; gera frustração, legalismo, falsa santidade e morte espiritual.

Assim os apóstolos indicaram os diáconos para cuidar dos problemas administrativos, a fim de se dedicarem exclusivamente às suas prioridades, e a palavra de Deus começou a se multiplicar mais ainda (Atos 6.7). Os próprios diáconos ficaram tão cheios de vida que não conseguiram se ater só às ministrações práticas, e anunciavam a palavra também, inclusive com sinais e prodígios (Atos 6.8). Como conseqüência da palavra anunciada por Estêvão, Deus começou a alcançar a vida de Saulo, que seria o apóstolo para os gentios, e também desencadeou a perseguição em Jerusalém, que espalhou os cristãos de lá para outros lugares. Assim, a palavra se multiplicou ainda mais, pois estes anunciavam a palavra em todos os lugares aonde iam (Atos 8.4).

Em Antioquia, onde surgiu a primeira igreja de gentios, Barnabé buscou Saulo em Tarso para fundamentar estes cristãos no alicerce certo. Saulo, que estivera por algum tempo no deserto da Arábia, e recebera uma revelação de Cristo e do mistério da sua graça para os gentios, independentemente dos outros apóstolos (Gálatas 1.15-20), ficou ali durante um ano com Barnabé ensinando a palavra (Atos 11.26). Foi neste contexto de dedicação primordial à palavra como fonte de vida para a igreja, junto com outros profetas e mestres (Atos 13.1-3), que Paulo e Barnabé foram enviados para levar a graça de Jesus ao resto do mundo.

E A REUNIÃO LOCAL?

Não temos praticamente nenhuma descrição de reunião de igreja local no livro de Atos. Só temos uma poderosa reunião de oração em Atos 4.24-31, e um discurso de despedida de Paulo em Trôade, no primeiro dia da semana, quando se reuniam normalmente para partir o pão.

Certamente acabou não sendo uma reunião normal, pois Paulo “prolongou seu discurso até a meia-noite”, quando houve um intervalo para ressuscitar o jovem que caiu do terceiro andar, e depois do qual, ele continuou falando até o amanhecer. No capítulo do Novo Testamento que mais trata sobre reuniões da igreja local, em 1 Coríntios 14, o assunto gira praticamente só em torno dos dons espirituais, e não diz nada sobre como era o ministério da palavra.

Mas o aspecto litúrgico do ministério da palavra nas reuniões da igreja não era importante para eles. Não era necessário definir como seria dada a palavra, por quem, ou por quanto tempo. A mesma palavra que saía nas pregações públicas era dada nas pequenas reuniões nas casas, através de leituras e explicações das Escrituras do Velho Testamento, de leituras ou citações de memória das palavras do Mestre, ou de exortações inspiradas dadas pelo Espírito Santo em forma de profecia. Era a autoridade e poder da pessoa de Cristo no meio deles.

PALAVRA VIVA OU AUTORIDADE HUMANA?

Na verdade, foi por causa desta presença viva de Jesus que a igreja daquela época não precisou, nem de uma figura humana com palavra final para governá-la (como pastor, bispo, ou papa), nem de uma estrutura eclesiástica, e nem de um cânon formalizado das Escrituras do Novo Testamento. Hoje seria impossível conceber a igreja sem alguma forma dessas proteções ou bases de organização, liderança e autoridade. E, infelizmente, a primeira igreja também não continuou por muito tempo assim. À medida que o tempo foi passando, e a igreja foi se espalhando para lugares geográficos cada vez mais distantes, o elo que alguém tinha com Jesus, ou com alguém que estivera com Jesus, ou com alguém que foi discípulo de um discípulo de Jesus ou dos apóstolos, era cada vez mais importante. Mas aquilo que no início era a autoridade de quem conhecia a Jesus e podia expressar a sua palavra, logo começou a ser uma espécie de prestígio humano, e a autoridade espiritual de Cristo no meio da sua igreja começou a ser substituída pela autoridade de ofícios e cargos hierárquicos.

Quando encontramos documentos da igreja do segundo século, após o período de silêncio, encontramos reuniões bem mais formais com liturgias mais definidas. O Didaquê, um dos documentos mais antigos que temos sobre a igreja, descreve e define formas de oração, de batismo, da ceia do Senhor, e outros aspectos, mostrando que já não havia a mesma espontaneidade inicial, nem a presença marcante do Espírito Santo. Numa descrição de culto feito por Justino, o Mártir, em meados do segundo século, encontramos o seguinte: “Lê-se das memórias dos apóstolos e nos livros dos profetas, tanto quanto o tempo permite. Acabada a leitura, o presidente num discurso exorta e admoesta para que todos imitem estas boas coisas.”

O culto cristão já havia se formalizado em algo que se assemelhava em alguns aspectos com o ritual das sinagogas, que evidentemente influenciou bastante as práticas da igreja desde o princípio, mas que agora não tinha mais a mesma espontaneidade, a mesma vida que fluía de um relacionamento vivo com Jesus. A palavra que antes gerava vida pelo Espírito, agora servia mais para mostrar o padrão divino, e para incentivar as tentativas humanas para alcançar este padrão. Um outro documento que sobreviveu como o sermão mais antigo fora do Novo Testamento, atribuído a Clemente por volta do ano 125, também traz mais um tom de exortação ao arrependimento e obediência do que a qualidade de graça e revelação que sentimos nas palavras apostólicas. Enfim, apesar dos evangelhos e cartas dos apóstolos que já circulavam em forma escrita entre eles, e do culto a Deus que incluía vários elementos que as sinagogas não tinham, a igreja já estava perdendo a sua fonte essencial, que era a manifestação viva de Jesus pela sua palavra.

Assim, embora o processo de degeneração e declínio da igreja ainda continuaria por vários séculos até chegar ao seu ponto mais baixo e escuro na Idade Média, o desvio fundamental ocorreu dentro do primeiro século da sua história. Quando a igreja perdeu o fundamento dos apóstolos,perdeu a centralidade da palavra e da presença viva de Jesus. Agora, depois de dois mil anos de história, estamos tentando descobrir como nos distanciamos tanto do poder e da graça de Jesus em nossas vidas, apesar de todos os instrumentos e recursos, de todos os dons e talentos, de toda a eloqüência e sabedoria de que nos dispomos no ministério da palavra na igreja hoje.

Mais uma vez, o caminho de volta exige um reconhecimento do que realmente falta na palavra que é pregada hoje, e da importância que deve ser dada à sua restauração. Se as pessoas que Deus chamou para comunicar sua palavra nesta geração colocarem suas prioridades no lugar certo, como aconteceu em Atos 6 e em Atos 13, certamente Jesus voltará a aparecer entre nós e a se manifestar pela sua palavra (ver 1 Samuel 3.21).

Fonte de pesquisa: Christian History Magazine, Issue 37, da Christianity Today, Inc.