História da Igreja – Parte 7 – O Dinheiro na Igreja Apostólica

Data de publicação: 08/12/2011
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Edição 07 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 07

Raízes – Lições da História da Igreja Para os Nossos Dias
O Dinheiro na Igreja Apostólica

Por: Harold Walker

Pode não parecer a primeira vista, mas dinheiro é um assunto altamente espiritual. O grande reformador protestante, Lutero, disse que o crente precisa de três conversões: do coração, da mente e do bolso. Na verdade, a Reforma Protestante, que foi um dos maiores acontecimentos espirituais na história da igreja, foi deflagrada por uma questão financeira – a venda de indulgências para financiar a construção da Basílica de São Pedro.

Hoje, mais do que nunca, a questão do dinheiro está no centro de grande parte das pregações, reuniões e divisões da igreja. Se pudéssemos analisar a porcentagem do tempo que os pastores em geral gastam com questões financeiras como – levantar fundos, administrá-los e preocupar-se com a falta deles – ficaríamos horrorizados ao constatar que ultrapassa em muito o tempo gasto com oração, estudo da Palavra e aconselhamento. Há momentos em que parece que o grande problema da igreja é financeiro. A impressão que se tem é que se houvesse dinheiro suficiente, a obra de Deus estaria progredindo muito melhor.

Se além do problema do dinheiro na administração da igreja em si, somássemos o tempo gasto em pregações, orações e  aconselhamento destinado a resolver e melhorar a situação financeira de todos os membros, o quadro acima se agravaria mais ainda. Diante desta situação só podemos concluir que a maneira como o cristão se relaciona com o dinheiro é um fator extremamente importante na sua vida espiritual individual e coletiva.

O DINHEIRO E A BÍBLIA

Qualquer cristão sincero reconhece que todos os aspectos da sua vida devem estar debaixo do senhorio de Jesus Cristo, e isto inclui o dinheiro. Não é de se admirar, portanto, que assuntos econômicos ocupem uma posição de destaque nos ensinamentos da Palavra de Deus.

Encontramos na Bíblia, entretanto, enfoques bem diferentes sobre este assunto no Velho e Novo Testamentos. No Velho Testamento dinheiro e riquezas são apresentados positivamente como provas da bênção de Deus (Gn 13.2; Dt 8.18; 1 Rs 3.13; Pr 10.22) e resultados do trabalho diligente (Pr 10.4) e de ser fiel a Deus nos dízimos e ofertas (Ml 3.10-12). É claro que também encontramos alertas sobre os perigos de confiar nas riquezas (SI 52.7) e a obrigação de ajudar os necessitados (Pr 19.17), mas o enfoque é basicamente positivo.

Já no Novo Testamento, com a vinda de Jesus, o quadro muda e o aspecto negativo do dinheiro é mais enfatizado. Jesus falou muito sobre o dinheiro, quase sempre negativamente. Na parábola do rico néscio (Lc 12.19), ele mostrou a tolice de ser rico materialmente e pobre para com Deus. Em outra ocasião, condenou a atitude idolatra de servir ao dinheiro como um deus (Mamom) (Lc 16.13). Falou que as riquezas podem sufocar a palavra e torná-la infrutífera (Mt 13.22) e que por isso os ricos dificilmente se convertem (Mt 19.23). O resto do Novo Testamento reflete esta ênfase de Jesus que talvez possa ser melhor sintetizada pela frase “porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males”(1 Tm 6.10).
É importante ressaltar, porém, que Jesus não considerou o dinheiro em si como diabólico ou intrinsecamente mau. Nem tampouco disse que pobreza é sinônimo de espiritualidade ou que possuir riquezas é  pecaminoso.

Ele disse que nosso Pai sabe que precisamos das coisas materiais e que no-las concederá à medida que buscamos o seu reino e a sua justiça em primeiro lugar (Mt 6.32,33). O que Jesus combateu com rigor foi o apego ao dinheiro e às possessões, pois isto torna impossível o cumprimento do maior mandamento: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração…” (Mt 22.36,37). Além disso, condenou todo luxo e acúmulo de riquezas (Mt 6.19-21), exortando-nos a contentar-nos com o suprimento das nossas necessidades básicas (Mt 6.11; 1 Tm 6.8) e a ajudar os pobres (Mt 6.2-4; 19.21).

Podemos concluir, então, que assim como várias outras coisas mudaram na virada do Velho para o Novo Testamento, o conceito sobre dinheiro e riquezas também mudou. Assim como ninguém prega hoje que é lícito possuir mais de uma mulher ou que é necessário oferecer sacrifícios de animais, só porque encontramos estas práticas no Velho Testamento, também é errado ensinar os cristãos sobre a prosperidade econômica usando princípios do Velho Testamento não confirmados pelo Novo.

O DINHEIRO NA IGREJA APOSTÓLICA

Encontramos novamente uma ligação estreita entre o dinheiro e a vida espiritual na ocasião do nascimento da igreja. No mesmo capítulo de Atos onde vemos o poderoso derramamento do Espírito com manifestações de línguas de fogo, vento impetuoso, o dom de línguas, o poderoso discurso de Pedro e a conversão de milhares de pessoas, vemos logo em seguida as conseqüências deste furacão espiritual na vida financeira dos cristãos: “Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade” (At 2.44,45).

Assim como ninguém prega hoje que é lícito possuir mais de uma mulher ou que é necessário oferecer sacrifícios de animais, só porque encontramos estas práticas no Velho Testamento, também é errado ensinar os cristãos sobre a prosperidade econômica usando princípios do Velho Testamento não confirmados pelo Novo.

Vemos desta forma que o ideal vivido e ensinado por Jesus foi encarnado nos cristãos primitivos pelo Espírito Santo. Não era comunismo, pois a propriedade privada era mantida, mas também não era capitalismo, pois toda sobra ou acúmulo de bens (capital) era vendido e doado aos necessitados. Apesar de radicalíssimo, era totalmente voluntário. A chave foi que a pessoa do Espírito Santo não apenas tocou as emoções e as línguas das pessoas mas atingiu em cheio o egocentrismo inerente dos seus corações.

Á medida que acompanhamos a história posterior da igreja relatada no resto do Novo Testamento percebemos que este despojamento total do início logo desvaneceu e a igreja passou a viver uma realidade econômica mais “normal”. Entretanto, por alguns anos, na verdade, por alguns séculos, os cristãos continuaram a impressionar a sociedade pagã com seu estilo de vida abnegado, fraterno e generoso.

Apesar de não encontrarmos qualquer menção de dízimo nas exortações apostólicas, há muita ênfase sobre a ajuda aos pobres e necessitados. De fato, foi a necessidade de administrar melhor este serviço da igreja que produziu a separação dos primeiros oficiais reconhecidos na igreja – os diáconos (At 6.1-7).

Paulo continuou esta ênfase em todas as igrejas que fundou entre os gentios, especialmente devido à crise por que passava a igreja na Judéia naquela época (At 11.27-30; 2 Co 8,9;1 Co 16.1-4). Tiago chega a afirmar que este ministério aos pobres faz parte da essência da verdadeira religião (Tg 1.27).

É importante ressaltar que nos primeiros séculos, a igreja tinha uma organização muito simples e informal, sofria forte perseguição e era de modo geral muito pobre. Tudo isso fazia com que a maioria dos recursos doados fossem direcionados ás viúvas, órfãos e necessitados, não só da igreja mas da comunidade onde esta se encontrava. Sem templos para construir ou manter, e sem um ministério de tempo integral, nem havia muita necessidade de fundos para o funcionamento da igreja.

Um fator muito importante em todo este quadro é a expectativa escatológica da igreja primitiva. Eles realmente criam na iminente volta de Jesus e viviam de acordo com esta fé. Diante desta realidade, as coisas materiais perdiam sua atração e as prioridades eram outras. Se tinham tanta disposição para morrer por amor a Cristo e ao evangelho, quanto mais estavam livres para doar ou perder suas possessões terrenas. Tão grande era esta expectativa da vinda de Jesus que em alguns lugares as pessoas iam a extremos imprudentes, deixando de trabalhar, e Paulo teve que exortar a igreja em Tessalônica a acertar esta situação sem, contudo, perder sua esperança viva na volta do Senhor (2 Ts 3.6-12).

Finalmente, vale lembrar que Paulo defendia o princípio do sustento financeiro dos ministérios, dizendo que quem semeia coisas espirituais merece receber coisas materiais das pessoas a quem ministra (1 Co 9.6-14). Também afirma que especialmente os presbíteros que estudam e ensinam a Palavra devem ser remunerados (1 Tm 5.17,18) e o próprio Paulo, apesar de trabalhar para seu sustento, às vezes recebia ajuda financeira das igrejas (Fp 4.15-19).

Não devemos, entretanto, entender este princípio no contexto de uma organização bem montada que mantém uma classe privilegiada, o clero. Ao contrário, Paulo estava pensando em termos da igreja da sua época que era um organismo vivo e dinâmico onde as pessoas contribuíam espontânea e voluntariamente e os ministros dependiam de Deus para seu sustento e não tinham um salário pré- estabelecido. Assim como é errado aplicar os princípios financeiros do Velho Testamento fora do contexto do Novo, é errado aplicar os ensinamentos de Paulo num contexto de igreja totalmente diferente, como é feito comumente hoje.

Quantas pregações eloqüentes e acaloradas hoje procuram colocar o povo de Deus sob o jugo da obrigação de contribuir, usando textos tanto do Velho quanto do Novo Testamentos, totalmente fora dos seus contextos! Que grande diferença há na proporção de dinheiro gasto na manutenção de uma grande máquina eclesiástica em relação ao dinheiro dedicado aos pobres! Que discrepância horrível entre a atitude de muitos ministros do evangelho atuais que não fazem nada para Deus sem saber quanto irão receber e a atitude simples e despojada dos ministros do evangelho no primeiro século! Que enorme hipocrisia a nossa como protestantes quando ridicularizamos e criticamos a pompa e riqueza da Igreja Católica e do papa e não olhamos para a ostentação, luxo e pregação de prosperidade no meio evangélico hoje! Que cegueira monstruosa a nossa de apontar o dedo em horror à venda de indulgências no tempo de Lutero e de não condenar com a mesma veemência as técnicas de pesquisa e marketing evangélicas que levantam fundos baseadas em manipulação emocional e psicológica ao invés da espontaneidade produzida pelo Espírito!

Sim, dinheiro é um assunto espiritual. E se isto é verdade, o uso dele reflete a condição espiritual do nosso coração e da nossa igreja. Diante de tais reflexões, só podemos prostrar-nos com os rostos em terra e clamar a Deus por misericórdia. Que ele nos conceda um arrependimento genuíno e abertura de olhos para enxergarmos nossa real situação. Que o Espírito Santo seja derramado novamente com tal poder e impacto que nosso egocentrismo seja aniquilado e a comunidade de amor espontâneo e radical apareça novamente na terra!

Fonte de pesquisa: Christian History Magazine, Issue 14, da Christianity Today; Inc.

Uma resposta para “História da Igreja – Parte 7 – O Dinheiro na Igreja Apostólica”

  1. Gostei muito do ponto de vista teológico, exegético, pastoral do Pr. Harold, muito equilíbrio e excelente fundamentação biblica tanto no AT como no NT, PARABÉNS!

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