História da Igreja – Parte 6 – A Adoração na Igreja Primitiva

Data de publicação: 09/12/2011
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Edição 06 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 06

Raízes – Lições da História da Igreja Para os Nossos Dias
A Adoração na Igreja Primitiva

Uma das coisas que mais gostaríamos de saber sobre nossos irmãos das primeiras igrejas é como adoravam a Deus. Como eram os seus cultos? Será que nos sentiríamos confortáveis se pudéssemos dar uma espiadinha ou mesmo participar com eles de uma das suas reuniões? Será que sentiríamos identificação?

Na verdade, não temos muitos detalhes nem sobre a igreja do Novo Testamento, nem sobre a igreja dos anos pós-apostólicos. Praticamente nossas únicas informações sobre procedimentos e práticas de culto do Novo Testamento estão em 1 Coríntios 14, e isso graças a uma igreja que já apresentava muitos desvios e exageros, necessitando assim da admoestação apostólica. Através destes conselhos e advertências, descobrimos que o culto era caracterizado por manifestações dos dons do Espírito Santo, que foi enviado para trazer a presença do Senhor Jesus ressuscitado e glorificado, não só para o interior do cristão individual, mas para a expressão visível do seu corpo na terra, que é a igreja. Vemos também que cada membro funcionava e contribuía na reunião, não só através de dons, mas oferecendo espontaneamente salmos, hinos e exortações. Não ouvimos falar de dirigentes de reuniões, como pouco ouvimos sobre a estrutura de liderança, pois a função destes era mais para presidir sobre o funcionamento espontâneo e dinâmico dos membros do que para agir no lugar deles.

Transcrevemos a seguir uma descrição do culto apostólico por um historiador e filósofo cristão, Rufus M. Jones, extraída do livro de história da igreja, Raiz em Uma Terra Seca, a ser publicado em breve por Worship Produções:

“Enquanto esta fase mística do Cristianismo primitivo durou, a comunidade era um organismo e não uma organização. Os membros tinham uma experiência comum. Eles se fundiram. Foram batizados em um Espírito, comiam uma refeição comunitária, participando todos juntos do mesmo pão, e bebendo todos juntos do mesmo cálice… Não havia nenhum sistema rígido. Os ‘costumes’ ainda não pesavam sua mão sobre ninguém. A rotina e os ritos sagrados não haviam surgido ainda. Havia muito espaço para a espontaneidade e a iniciativa pessoal. As pessoas e os dons eram a base de tudo. Os procedimentos eram flexíveis, pois ainda não havia um padrão preestabelecido. Havia lugar para a diversidade. A comunidade era mais um grupo familiar do que uma igreja como a conhecemos hoje. O amor, ao invés de regras, a guiava. Tudo era um acontecimento singular e nada se repetia… Nenhum líder dominava as reuniões. Nenhum programa era essencial. O pequeno corpo se reunia como uma comunidade do Espírito; e, como Paulo disse, onde há o Espírito, aí há liberdade – e não escravidão ou rotina. As práticas eram carismáticas, isto é, eram conduzidas por manifestação de ‘dons espirituais’ dos que estivessem presentes. O dom principal era a profecia, que consistia na declaração espontânea de uma mensagem considerada inspirada pelo Espírito por alguém que tivesse um bom depósito interior de vida; era freqüentemente esclarecedora e construtiva – edificante, como diria Paulo… Havia também outra característica constantemente presente: um poder moral muito elevado. Eles andavam no Espírito e possuíam os frutos do Espírito: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio… que, como uma força interior construtiva, os transformavam em um só corpo, uma comunidade unificada.”

Apesar da perseguição que cooperou para manter um grande grau de pureza e simplicidade na igreja dos primeiros séculos, muitas mudanças logo começaram a se evidenciar, e o processo inevitável de organização, estruturação e padronização foi substituindo a espontaneidade e liberdade no Espírito.

O Didaquê, um dos documentos mais antigos da igreja, depois do Novo Testamento, com ensinamentos e instruções, já continha roteiros para o culto, com modelos de oração, e ordens para a celebração da eucaristia, ou ceia do Senhor, e outras partes das reuniões. Claramente, embora fosse uma liturgia “boa”, e resultado de momentos de inspiração do Espírito Santo em cultos anteriores, já se tornava necessário estabelecer uma liturgia para garantir o bom andamento no culto mesmo quando o Espírito Santo não se fizesse presente.

Do Didaquê também descobrimos que continuavam celebrando a ceia do Senhor no dia do Senhor (domingo), “com ações de graça, depois de primeiro confessar os pecados, para que o sacrifício pudesse ser puro”. O trecho contínua a instruir para que “ninguém que tivesse uma disputa ou desentendimento com outro cristão participasse junto com os demais até que fossem reconciliados, para que o sacrifício não fosse contaminado”.

Um documento precioso com data em torno de 150, de Justino, o Mártir, relata como era o culto no tempo dele. “No dia chamado domingo (dia do sol, como em inglês ‘Sunday’, e que os cristãos preferiam chamar de dia do Senhor), reúnem-se no mesmo lugar todos que moram numa determinada cidade ou distrito rural. Lê-se das memórias dos apóstolos (ainda não havia o cânon do Novo Testamento) e nos livros dos profetas, tanto quanto o tempo permite. Acabada a leitura, o presidente num discurso exorta e admoesta para que todos imitem estas boas coisas. Em seguida, todos se levantam e enviamos orações ao céu. Terminada a oração, traz-se pão, vinho e água, e o presidente faz oração e dá graças conforme a sua habilidade, e todos demonstram seu assentimento, clamando em coro: ‘Amém’. Faz-se então a distribuição dos elementos abençoa dos a todos os presentes, que participam, e aos ausentes manda-se pelos diáconos.

“Aqueles que têm recursos, e são voluntários, cada um segundo sua própria escolha, contribui o que deseja, e a oferta recolhida é entregue ao presidente, que a distribui cuidadosamente para os órfãos e as viúvas, e para aqueles que por doença ou outro motivo estão necessitados, e também aos que se acham presos, e aos estrangeiros que residem conosco, e em suma, ele se torna protetor a todos aqueles que precisam de auxílio.” (Primeira Apologia, 67)

Notamos aqui que já não há toda aquela espontaneidade descrita no início da igreja, mas ainda existem várias características do culto primitivo: a centralidade da observação da ceia do Senhor todos os domingos, e a doação de bens materiais, não para a manutenção de uma grande estrutura eclesiástica que ainda não existia, mas para o alívio do sofrimento das pessoas necessitadas. Já existia a figura mais predominante de um presidente ou líder nas reuniões, e uma liturgia mais definida a ser seguida.

Esta liturgia continha dois pares equilibrados de atividade. Primeiro, tinha a Palavra de Deus, em que Deus fala aos homens, e a oração, em que os homens falam a Deus. A Palavra de Deus sempre pede uma resposta do homem para Deus. Segundo, tinha a eucaristia,

que representa a dádiva de Deus para nós, a vida espiritual através de Cristo que fez o sacrifício supremo. A oferta ou contribuição de bens materiais representa as doações do povo sendo devolvidas a Deus. Deus dá, e nós devolvemos o que temos como expressão de gratidão e entrega.

Um aspecto do culto a Deus que é pouco mencionado, tanto no Novo Testamento como nos documentos primitivos, é a prática de cantar hinos. Entretanto, era comum na época adorar divindades através de melodias ou canções. As orações da sinagoga, cujo culto serviu de modelo para as reuniões primitivas dos cristãos, eram recitadas num cantochão, e possivelmente os cristãos seguiam este costume. Existem em documentos primitivos algumas poesias cristãs, que também podem representar alguns dos seus cânticos.

Três Áreas de Desvio do Culto Original

Podemos identificar pelo menos três áreas do culto primitivo que foram distanciando da prática original, mesmo nos primeiros séculos, antes de Constantino. Primeiro, temos a área de liturgia e condução do culto, que começou com um modelo de participação espontânea de todos através de dons carismáticos do Espírito. Com o tempo, por ter menos vitalidade espiritual ou talvez por causa de excessos ou desvios nos dons, surgiu uma liderança mais forte para conduzir a reunião e uma liturgia mais segura para seguir, na ausência da operação tão marcante do Espírito Santo. No segundo século, esta situação já estava tão visível que surgiram os primeiros movimentos de renovação da igreja, entre os quais o montanismo, que se destacou pelo retorno da manifestação dos dons carismáticos nas reuniões, e também por excessos e ênfase demasiada em visões e revelações. Parece que não podemos ter tudo: ou aceitamos a manifestação do Espírito em cada membro, entendendo que junto virão erros e desvios a serem tratados – ou rejeitamos o verdadeiro junto com o falso, e nos contentamos com um roteiro mais seguro mas sem a vitalidade da manifestação de Deus no nosso meio.

Segundo, a prática central da adoração dos cristãos no primeiro dia da semana era a celebração da ceia do Senhor, ou da eucaristia. Através de comer juntos (era uma refeição),os cristãos demonstravam os pontos essenciais da vida da igreja, incluindo a vida nova proporcionada pelo sacrifício de Jesus, e a alegria da comunhão com Deus e uns com os outros. Mas os exageros e desvios começaram já no Novo Testamento, como os que apareceram na igreja em Corinto; a refeição foi se reduzindo para pão e vinho, a revelação de vida e comunhão foi se apagando, e a liturgia passou a focalizar mais o arrependimento e o conserto da vida. Isto já se evidenciou nos primeiros séculos através das exigências que a igreja passou a fazer para que se participasse da ceia, mas foi um processo que levou séculos para chegar nas diversas formas e rituais que existem hoje.

Terceiro, temos as mudanças que ocorreram no local onde os crentes se reuniam para adorar. No princípio, os seguidores de Jesus cultuavam a Deus e praticavam a vida da igreja nas casas, conforme vemos no livro de Atos e nas epístolas. A utilização de prédios ou locais públicos era para anunciar o evangelho, como no templo (Atos 3), nas sinagogas (Atos 13.14,15; 17.1,2, etc), numa escola (Atos 19.9), praças (Atos 17.19-22) etc. As casas continuaram durante os primeiros séculos como principal local de culto especialmente por causa da perseguição, mas seu papel de favorecer o ambiente íntimo e espontâneo da igreja era essencial às características do culto primitivo. Com a multiplicação numérica, especialmente nas cidades maiores, a igreja continuou nos lares, mas muitas vezes nos lares mais espaçosos de membros mais privilegiados. O átrio numa casa romana, ou a sala de jantar numa casa grega, acomodava talvez de cinqüenta a setenta pessoas, e era apropriada também para a refeição ágape da eucaristia.

No terceiro século, a transição para templos especiais foi se acelerando. Numa cidade perto do rio Eufrates, foi encontrada uma casa particular que foi reformada para servir como igreja. Paredes foram tiradas para formar um salão maior; havia uma pequena plataforma numa extremidade do salão; numa outra sala, havia um local especial para batismos; e afrescos de Adão e Eva, e do Bom Pastor nas paredes. Esta casa é o templo mais antigo ainda existente e mostra o que talvez já acontecia em muitos lugares naquela época (por volta de 240).

Depois de 260, num período de tranqüilidade para a igreja e descanso das perseguições, houve uma multiplicação grande do número de cristãos, e templos começaram a ser construídos por toda parte. O cristianismo começava a ser mais e mais proeminente no Império Romano. Na última grande onda de perseguição antes de Constantino (303 – 311), estes templos foram em grande parte destruídos ou desapropriados. Somente depois de Constantino é que a construção de templos cristãos foi realmente liberado, e o centro do culto cristão institucional foi definitivamente deslocado dos lares para os templos cada vez maiores e mais suntuosos que temos até hoje.

Conclusões

Por um lado, podemos traçar a linha de queda da igreja da sua pureza e poder apostólicos em paralelo exato com seu desvio da forma de culto e adoração original. A estruturação das reuniões, com líderes e liturgias mais definidos, a desvirtuação da refeição ágape e da centralidade da eucaristia, e a transição para prédios especiais para o culto foram sintomas claros de uma igreja que perdia cada vez mais a essência da presença viva de Jesus através do Espírito Santo nos seus membros. Na falta disto, os substitutos garantiram a continuidade da igreja, mas com mudanças fundamentais, que foram dando origem à instituição como a conhecemos hoje.

Por outro lado, a volta a qualquer uma das formas originais de culto, como reuniões sem líderes definidos, a prática de dons espirituais, a celebração de refeições ágape, a observação semanal da ceia do Senhor, ou a saída dos prédios para fazer os cultos nos lares, não trará em si a restauração da vida e poder da igreja primitiva. Isto tem sido amplamente demonstrado durante a história da igreja, e especialmente no século XX. A igreja que tem a vida autêntica de Jesus operando através dela terá estas características, mas as características não trazem a vida de Jesus!

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VOCÊ SABIA?

• Que o arrependimento do pecado era um processo sério, pois o pecado destruia a unidade da igreja; que os penitentes jejuavam, pediam perdão pelos pecados, e faziam confissão pública diante da igreja, sendo barrados da Ceia do Senhor até que demonstrassem mudança de coração e fossem perdoados?

• Que a primeira parte do culto de adoração era aberta a todos, pois os estranhos poderiam se converter através da pregação; mas que a segunda parte, com a celebração da Ceia do Senhor, só era aberta aos batizados, momento em que todos os não batizados se retiravam?

• Que no primeiro século, a Ceia do Senhor incluía não só o Pão e o Cálice, mas uma refeição inteira; e que durante as refeições os que haviam discutido ou se desentendido faziam as pazes?

• Que a primeira menção do dia 25 de dezembro como data do nascimento de Jesus aparece num calendário composto em Roma em 336?

• Que a primeira festa cristã (depois da Páscoa e do Pentecoste) era uma festa em memória do batismo de Jesus, celebrada no dia 6 de janeiro, ou as vezes no dia 10 de janeiro, chamada festa da Epifania, ou “manifestação”?

• Que os cristãos que comemoravam a ressurreição de Jesus no primeiro dia da semana se reuniam no sábado à noite depois das 18 horas, e no início do segundo século, antes do amanhecer no domingo?

• Que os cristãos primitivos continuavam a celebrar a Páscoa dos judeus, mas não em memória da libertação do Egito; e que eles jejuavam para comemorar os sofrimentos de Jesus, o verdadeiro Cordeiro Pascal?

6 respostas para “História da Igreja – Parte 6 – A Adoração na Igreja Primitiva”

  1. Arylton disse:

    Gosto muito desse tipo de assunto, sonho q breve retornaremos a pratica d um culto a Deus totalmente dirigido pelo Espirito, sem programa.

  2. VALDIR NERES DOS SANTOS disse:

    como eu queria uma igreja primitiva hoje, será que tem como abrir uma assim?

  3. aloisio david de oliveira disse:

    Graças a Deus por tudo, porém o que vemos nas cartas às igrejas, é a profecia do que iria acontecer com a mesma no decorrer dos séculos, o que realmente o foi, e que, depois de passar os tempos de obscuridade, os quais, imprimidos pela igreja líder nestes tempos, aos poucos Deus foi liberando a volta ao conhecimento das escrituras, porém, muitas igrejas ainda não tinham voltado a atenção para os cultos com as liberdades primitivas e na doutrina apostólica, o que se pode observar na carta à igreja de Filadélfia, a qual não contem obras em si, mas a palavra, simplesmente a palavra, nos dando a impressão da simplicidade que iria voltar ao convívio nos membros, sem pastor, sem dízimos, sem lideranças imperiais como hoje os temos, onde a liberdade da palavra é dada àquele que sentir do espírito, onde a liberdade do agradecer e testemunhar é de quem se sentisse para assim o fazer, não havia o pastor que indicava quem leria a palavra, mas a liberdade estava para todos e todos eram irmãos, e o dinheiro não era de dízimos e sim de coletas para a manutenção. Esta igreja existe, pela revelação do senhor, após muitos anos de falta de entendimento perdido, o senhor a trouxe através da profecia cumprida em Filadélfia, e agora e só dizer “quem tem ouvidos que ouça”. Deus abençoe a todos. Amém.

  4. samuel cabral ribeiro disse:

    É verdade, se não temos a igreja ideal, ao menos deveríamos estar predispostos a reconhecer que nós e nossos pais temos pecado e nos desviado da verdade. Cerca de trinta mil “chamadas” igrejas evangélicas hoje não nos dão a entender nada! Se isso não for pecado de divisão, Lucifer é amistoso ao criar o seu próprio império ou reino.

  5. Marta Souza disse:

    Eu tbem gosto muito desse artigo

  6. Eu gostei muito deste artigo. Eu nasci em Cristo,no ano de 1967, faço parte de uma igreja que busca,com muitas lutas, aproximar o máximo possível da igreja primitiva, principalmente, na doutrina bíblica,na comunhão,na unidade da igreja,mas como diz em determinada parte deste artigo com o passar dos séculos muitas coisas foram se distanciando e perderam a essência da ação do Espírito Santo.

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