História da Igreja – Parte 13 – Grandes Exemplos e Conselhos Sábios do Passado

Data de publicação: 08/11/2011
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Edição 25 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 25

 RAÍZES: Lições da História da Igreja Para os Nossos Dias
Grandes Exemplos e Conselhos Sábios do Passado:

MARTINHO LUTERO
(1483-1546)

Geralmente quando pensamos na Reforma do cristianismo do século XVI, lembramos da grande mudança doutrinária da justificação pela fé, e da desvinculação da autoridade central de Roma. Poucos sabem, talvez, de como a Reforma mudou a atitude dos cristãos em relação ao dinheiro.

Na época, dois extremos eram valorizados: por um lado, a pobreza e a renúncia ao mundo e ao materialismo eram vistos como o supremo caminho para santificação e espiritualidade; por outro, aqueles que acumulavam riquezas e propriedades ocupavam as posições mais respeitadas e prestigiosas na sociedade e na igreja também. Martinho Lutero trouxe as boas novas de que o valor da pessoa era totalmente independente do seu sucesso, quer no seu grau de renúncia ao mundo, quer na quantidade de bens materiais adquiridos. Com isto passou a travar uma batalha dupla, uma mais conhecida contra o ascetismo monástico, e outra menos famosa contra o emergente capitalismo.

Por mais opostos que fossem os dois extremos, na verdade eram dois lados da mesma moeda, salvação por obras e esforço humano. Os pobres ganhavam mérito pela sua pobreza e humildade, enquanto os ricos o ganhavam por contribuírem generosamente aos necessitados. Os gananciosos usavam mal as coisas materiais no seu desejo de adquirir posses e bens; os ascetas se relacionavam mal com o mundo no seu esforço de abandoná-lo. O resultado final em ambos os casos era insegurança pessoal, já que se colocava confiança na realização pessoal, e não em Deus.

Os princípios capitalistas, como a idéia de ganhar dinheiro usando o próprio dinheiro, ainda estavam muito incipientes no tempo de Lutero, mas já estavam ganhando força e influência. Lutero abominava os capitalistas calculistas, pois percebia que sua prática divorciava o dinheiro de finalidades humanitárias e criava uma economia de aquisição. Ele pregava continuamente contra a crescente economia de créditos e empréstimos, e identificava os avarentos e agiotas como os maiores inimigos da humanidade, depois do próprio diabo.

A fim de aumentar sua renda, dizia Lutero, o agiota deseja que o mundo inteiro se arruine, e que assim haja fome, sede, miséria e necessidade; desta forma, todos dependerão dele, e serão seus escravos, como se ele fosse o próprio Deus.

Esta cobiça por lucros, segundo ele, tinha diversas e engenhosas expressões: vendas a prazo, empréstimos, manipulação do mercado através de reter ou despejar mercadorias, criação de cartéis e monopólios, falsificação de falências, comércio de futuros, e falsificação de bens. Estas maneiras de disfarçar a prática de juros abusivos (usura) afetavam a todos, e principalmente aos pobres. Por isso, Lutero exortava aos pastores que condenassem a usura na mesma classe de roubo e homicídio, e que não aceitassem agiotas na comunhão, a menos que se arrependessem.

É importante observar que a preocupação de Lutero não era somente com relação ao uso individual do dinheiro, mas principalmente quanto ao sério dano social inerente na idolatria das “leis” do mercado. A idéia de um “mercado impessoal” e de “leis autônomas da economia” era repugnante para ele, pois a percebia como idólatra e socialmente destrutiva. Considerava que a sociedade inteira seria ameaçada pelo poder financeiro de um pequeno número de grandes centros econômicos. A emergente economia mundial já estava começando a engolir as economias locais e urbanas, e logo haveria uma força econômica imune a outras leis ou princípios, que destruiria o etos (natureza moral e princípios governantes) da comunidade local.

Por isto, Lutero acreditava que a igreja tinha de assumir uma posição fundamental contrária ao capitalismo. Não só devia publicamente rejeitar e condenar tais sistemas econômicos, mas tinha obrigação também de desenvolver uma ética social construtiva como resposta a eles. Esta ética social incluiria políticas de bem-estar social, legislação, e maior prestação de contas das empresas ao público através de regulamentos do governo.

Na prática, Lutero instituiu diversas ordenanças como parte da sua convicção de que políticas sociais para prevenir e remediar a pobreza eram uma responsabilidade cristã. No sentido de criar uma nova consciência e responsabilidade dentro das igrejas, ele conseguiu “desespiritualizar” a pobreza, e levantar diversas soluções práticas para erradicá-la. Começando em Wittenburg, criou um “caixa comum” para o trabalho social, com fundos de doações, e complementado depois por impostos. Mendigar era proibido; empréstimos sem juros eram oferecidos a artesãos que podiam pagar de volta da forma que pudessem; havia provisões para órfãos sem recursos, filhos de famílias pobres, dotes para o casamento de moças pobres; para quem já tivesse tomado um empréstimo a juros altos, o caixa comum o refinanciaria por apenas 4% por ano; havia também auxílio para educação ou treinamento vocacional de crianças pobres. A idéia espalhou rapidamente, e logo muitas outras cidades implantaram o mesmo tipo de fundo social.

Porém, como bem sabemos pela história, a tentativa de combater a expansão da economia capitalista pelo mundo inteiro não foi bem-sucedida. Os banqueiros que cobravam até 50% de juro por ano, se fizeram de surdos diante dos apelos de Lutero para que estabelecessem um teto de 5%. Sua crítica ao capitalismo ia muito além da cobrança de juros exorbitantes. Para ele, a necessidade social sempre deveria prevalecer sobre ganho pessoal. As dívidas dos pobres deviam ser canceladas, e ajuda lhes ser oferecida para que pudessem se levantar.

Obviamente, foi mais fácil levantar auxílio a indivíduos do que frear as práticas econômicas do sistema que gera a pobreza. As condições lamentáveis da miséria clamam por ação, enquanto que os apetrechos atraentes do capitalismo abafam o sentimento de crítica.

Porém, os efeitos deste capitalismo primitivo já se fizeram sentir naquela época. Em Wittenberg, entre 1520 e 1538, os preços dobraram enquanto os salários permaneceram inalterados. Lutero chamava isso de homicídio e roubo disfarçados.

Lutero achou que seria possível implantar a justiça, combatendo práticas erradas, e estabelecendo leis baseadas nos princípios de Deus, através de uma igreja fundamentada na Palavra de Deus dirigindo a sociedade em conjunto com as autoridades civis. Em outras palavras, ele manteve a idéia da igreja estatal à semelhança da Igreja Católica, tentando mudar apenas os princípios bíblicos e o tipo de estrutura desta igreja.

Apesar do seu fracasso em mudar a sociedade civil, muitas pessoas em gerações posteriores continuaram tentando, dedicando seus esforços em direções totalmente erradas. Esta idéia ainda existe até hoje entre diversos grupos e movimentos (veja Impacto, edição n.º 24, que explora em mais profundidade este tema).

Entretanto, é extremamente esclarecedor notar a percepção de Lutero quanto às falhas inerentes no capitalismo, e à incompatibilidade que deve existir entre a igreja e este sistema opressor e maligno. Durante toda sua carreira, Lutero lutou contra aquilo que identificou como as duas faces de Mamom: a fuga ascética do dinheiro, e o impulso ganancioso de adquiri-lo. Assim, não devemos aceitar o dinheiro como senhor da vida, mas considerá-lo como dom de Deus para servir ao próximo e edificar a comunidade.

JOHN WESLEY
(1703-1791)

John Wesley é conhecido como um pregador que revolucionou a Inglaterra do século XVIII, um instrumento de avivamento, e alguém que influenciou profundamente a igreja com seus ensinos sobre santificação. Poucos talvez saibam que ele ganhou muito dinheiro com a venda de seus livros e panfletos, e que sua renda o classificava como um dos homens mais ricos da Inglaterra do seu tempo.

John Wesley viu o movimento de Metodismo que fundou crescer de dois irmãos para uma sociedade de quase um milhão de pessoas durante o período da sua vida. Porém, nos seus últimos anos, ele ficou triste e pessimista com relação ao movimento. Os seguidores não tinham mais fervor e amor pelo Senhor, o que se demonstrava de diversas maneiras, entre as quais a indisposição de visitar e ajudar os pobres e necessitados. Wesley temia que o Senhor não estivesse mais no meio deles, que o povo tivesse abandonado seu “primeiro amor”, e que talvez seus labores de uma vida inteira tivessem sido desperdiçados.

Wesley atribuiu esta frieza espiritual e afastamento de Deus principalmente ao crescimento de riquezas e possessões. Notou que o nível econômico médio dos metodistas havia melhorado mais de dez vezes em relação ao princípio do movimento. Parecia-lhe que quanto mais dinheiro tinham, menos amavam ao Senhor, menos disposição tinham, entre outras coisas, para auxiliar os necessitados.

Wesley pregava muito sobre o uso correto do dinheiro, e de como somos apenas despenseiros de Deus. O propósito de Deus em nos abençoar financeiramente é para podermos compartilhar com aqueles que não têm. Gastar em coisas supérfluas ou além do básico necessário é, por isso, roubar de Deus.

É difícil imaginar este grande pregador, que falava tanto sobre o amor, ficando irado ou expressando ódio para alguma coisa. Ele até ensinava que o amor de Deus pode encher de tal forma nosso coração que seremos capazes de amar perfeitamente a Deus e ao nosso próximo. Mas havia uma palavra que Wesley realmente detestava. Era a palavra que as pessoas usavam para justificar gastos extravagantes ou um estilo de vida materialista. Diziam: “Mas tenho condições de comprar aquilo ou de viver assim”. Para ele esta expressão “tenho condições” era vil, miserável, imbecil e diabólica, pois nada do que temos pode ser considerado nosso. Nenhum cristão verdadeiro jamais deveria usá-la.

Ele não só pregou mas viveu este princípio na prática. Numa época em que uma pessoa podia viver tranqüilamente com £30,00 (trinta libras) por ano, Wesley ganhava mais ou menos isto no início de sua carreira de professor da universidade.

Um dia, porém, notou uma empregada doméstica que não tinha agasalho suficiente no inverno, e que ele não tinha nada para lhe dar, pois já gastara todo seu dinheiro para si mesmo. Sentiu-se fortemente repreendido por Deus por ter sido mau despenseiro dos seus recursos. Daí em diante, reduziu ao máximo suas despesas para poder ter mais para distribuir.

Com o tempo, sua renda anual passou de £30,00 por ano a £90,00, depois a £120,00 e anos mais tarde chegou a £1400,00. Entretanto, nunca deixou de viver com os mesmos £30,00, e de dar embora todo o restante. Segundo seu próprio testemunho, nunca teve mais que £100,00 no bolso ou nas suas reservas. Ensinou que quando a renda do cristão aumentasse, devia aumentar seu nível de ofertas, não seu nível de vida.

Quando morreu, deixou apenas algumas moedas nos bolsos e nas gavetas, e os livros que possuía. A maior parte das £30.000,00 que ganhou durante sua vida (com panfletos e livros) foi doada a pobres e necessitados.

Wesley baseava sua prática em cinco pontos fundamentais:

1- Deus é a fonte de todos os recursos do cristão. Ninguém realmente ganha dinheiro por sua própria esperteza ou diligência. Deus é fonte de toda energia e inteligência.

2- Os cristãos terão de prestar contas a Deus pela forma como usaram o dinheiro. Em qualquer momento, podemos ter de prestar contas a Deus. Por isto, nunca devemos desperdiçar o dinheiro agora, pensando em compensar futuramente.

3- Os cristãos são mordomos do dinheiro do Senhor. Somos apenas agentes dele para distribuí-lo de acordo com sua direção. Portanto, não temos condições de fazer algo contrário aos seus desejos.

4- Deus concede dinheiro aos cristãos para que o repassem àqueles que têm necessidade. Usar este dinheiro para nós mesmos é roubar de Deus.

5- O cristão não tem mais direito de comprar algo supérfluo para si mesmo do que teria para jogar o dinheiro fora.

Com isto em mente, Wesley dava quatro conselhos quanto às prioridades de Deus para o uso da renda individual do cristão:

1- Suprir todo o necessário para si mesmo e a família (1 Tm 5.8).

2- “Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes” (1 Tm 6.8).

3- “Procurai as coisas honestas, perante todos os homens” (Rm 12.17), e “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma” (Rm 13.8). Depois de cuidar das necessidades básicas, a próxima prioridade é pagar os credores, ou providenciar para que todos os negócios sejam feitos de forma honesta, sem incorrer em dívidas.

4- “Façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé” (Gl 6.10). Depois de prover para família, credores, e negócios, Deus espera que todo o restante lhe seja devolvido através de doar aos necessitados.

Para ajudar a discernir em situações não muito claras se está tomando a direção certa diante de Deus, Wesley sugeria que o cristão fizesse a si mesmo as seguintes perguntas em relação a algum bem que quisesse adquirir:

1- Em gastar este dinheiro, estou agindo como se eu fosse dono dele, ou como despenseiro de Deus?

2- Que Escritura me orienta a gastar dinheiro desta forma?

3- Posso oferecer esta aquisição como oferta ao Senhor?

4- Deus haverá de me elogiar na ressurreição dos justos por este dispêndio?

CHARLES FINNEY
(1792-1875)

Charles Finney, avivalista norte-americano, impactou profundamente comunidades inteiras com suas pregações. Ele se preocupava muito com o discipulado daqueles que se convertiam. A seguir, um trecho de seu livro, Lectures on Revivals, (Palestras sobre Avivamentos), 1835:

Novos convertidos devem ser ensinados que já renunciaram o direito sobre todas suas possessões e sobre si mesmos.  Se não o fizeram, não são verdadeiros cristãos. Não devem pensar que coisa alguma lhes pertence, seja seu tempo, sua propriedade, sua influência, suas faculdades, seus corpos ou suas almas. “Não sois de vós mesmos”; tudo pertence a Deus, e quando se entregaram a Deus, entregaram livremente tudo que tinham para ser governado e administrado pela vontade divina. Não têm o direito de passar uma hora sequer como se fosse propriedade pessoal. Nem têm direito de ir a algum lugar, ou fazer qualquer coisa, em favor de si mesmos, mas tudo deve estar à disposição de Deus, para sua glória.

Se não for assim, não devem nem se chamar de cristãos, pois a essência de ser cristão é renunciar a si mesmo e se consagrar totalmente a Deus.

Reter algo de Deus é o mesmo que roubar ou furtar. É roubo do mais alto grau; é muito pior do que um funcionário de loja pegar dinheiro do seu patrão, e gastá-lo nos seus próprios desejos e prazeres, já que Deus é proprietário de todas as coisas num sentido muito mais alto e completo do que um ser humano possa se dizer dono de alguma coisa. Se Deus nos chamar para utilizar qualquer coisa que tivermos, seja dinheiro, tempo, filhos, ou carreira, para avançar seu reino, e nos recusarmos, estaremos agindo de forma muito pior que um funcionário que rouba recursos do patrão e os aplica para lucro pessoal.

A igreja nunca alcançará um patamar superior, nem deixará de sofrer constantes declínios com este grande número de desviados que temos até hoje, enquanto não se conscientizar que um membro negar na prática sua responsabilidade de despenseiro de Deus é assunto tão sério quanto negar a divindade de Cristo. Avareza e ganância material são tão motivos de excluir alguém da comunhão cristã quanto o adultério.

A igreja é extremamente ortodoxa no que se refere a conceitos, mas muito herética na sua prática. A hora precisa chegar em que há de usar a mesma vigilância em guardar sua ortodoxia na prática que usa para proteger sua ortodoxia em doutrina. Na verdade, a prática é vastamente mais importante. O único propósito de doutrina é produzir prática, mas parece que a igreja não entende que a verdadeira fé opera pelo amor e purifica o coração. Assim sendo, heresia na prática da igreja é prova conclusiva de heresia no sentimento. É absurdo exigir pureza na confissão doutrinária, e ser permissivo na vida prática dos cristãos. Será que chegamos a isto, que a igreja de Jesus Cristo se satisfará com conceitos corretos em alguns pontos abstratos, que nunca levam sua ortodoxia à prática? Que não seja mais desta forma.

Já está passando de hora para estes assuntos serem corrigidos. E a única maneira de corrigi-los é começar com aqueles que estão entrando agora. Os novos convertidos precisam saber que serão considerados tão dignos de juízo, e estarão tão longe da verdadeira comunhão da igreja, quando demonstrarem um espírito de cobiça ou se fizerem de surdos ao clamor do mundo, como se estivessem vivendo em adultério ou adorando a ídolos.

GEORGE MULLER
(1805-1898)

O gigante da fé, George Müller, nasceu na Alemanha, e converteu-se com idade de 20 anos numa missão morávia. Foi para a Inglaterra em 1829, onde trabalhou para o Senhor até o final de sua vida.

Em 1830, três semanas depois de seu casamento, Müller e sua esposa decidiram abrir mão de seu salário como pastor de uma pequena congregação, e depender exclusivamente de Deus para todas suas necessidades. Já desde o início, ele tomou a posição que manteria durante todo o seu ministério, de nunca revelar suas necessidades às pessoas, e de nunca pedir dinheiro de ninguém, somente de Deus. Ao mesmo tempo, decidiu que também nunca entraria em dívida por motivo algum, e que não faria reservas, nem guardaria dinheiro para seu próprio futuro.

Durante mais de sessenta anos de ministério, Müller iniciou 117 escolas que educaram mais de 120.000 jovens e órfãos; distribuiu 275.000 Bíblias completas em diferentes idiomas além de grande quantidade de porções menores; sustentou 189 missionários em outros países; e sua equipe de assistentes chegou a contar com 112 pessoas.

Seu maior trabalho foi dos orfanatos em Bristol, na Inglaterra. Começando com duas crianças, o trabalho foi crescendo com o passar dos anos, e chegou a incluir cinco prédios construídos por ele mesmo, com nada menos que 2000 órfãos sendo alimentados, vestidos, educados e treinados para o trabalho. Ao todo, pelo menos dez mil órfãos passaram por estes orfanatos durante sua vida. Só a manutenção deste ministério custava 26 mil libras por ano. Os órfãos nunca ficaram sem uma refeição, mas muitas vezes a resposta chegava na última hora. Às vezes sentavam à mesa com pratos vazios, mas a resposta de Deus nunca falhava.

No decorrer da sua vida, Müller recebeu o equivalente a sete milhões e meio de dólares, como resposta de Deus. Além de nunca divulgar suas necessidades, ele tinha um critério muito rigoroso para receber ofertas. Por mais que estivesse precisando (pois em milhares de ocasiões não havia recursos nem para a próxima refeição), se o doador tivesse outras dívidas, se houvesse evidência de alguma atitude errada, ou condição imprópria, a oferta não era aceita.

E mesmo quando tinha certeza de que Deus estava dirigindo para ampliar o trabalho, começar uma outra casa, ou aceitar mais órfãos, ele nunca incorria em dívidas. Aquilo que Deus confirmava como sua vontade certamente receberia os recursos necessários, e por isto nunca emprestava nem contraía obrigações sem ter o necessário para pagar.

A seguir um trecho da sua autobiografia, onde define sua posição com relação a dívidas:

Minha esposa e eu nunca entramos em dívidas porque acreditávamos que era contrário às Escrituras (Rm 13.8). Por isto, nunca tivemos crediário em lojas, açougue, padaria ou mercado. Pagamos por tudo em dinheiro. Preferimos passar necessidade do que contrair dívidas. Desta forma, sempre sabíamos quanto tínhamos, e quanto podíamos dar aos outros. Muitas provações vêm sobre os filhos de Deus por não agirem de acordo com Romanos 13.8.

Alguns podem perguntar: “Por que você não compra o pão, ou os alimentos do mercado, para pagar depois? Que diferença faz se paga em dinheiro no ato, ou somente no fim do mês? Já que os Orfanatos são obra do Senhor, você não pode confiar que ele suprirá o dinheiro para pagar as contas da padaria, do açougue, e do mercado? Afinal, todas estas coisas são necessárias para a continuidade da obra.”

Minha resposta é a seguinte: “Se esta obra é de Deus, certamente ele tanto quer como é capaz de suprir todo o necessário. Ele não vai necessariamente prover na hora que nós achamos que deve. Mas quando há necessidade, ele nunca falha. Podemos e devemos confiar no Senhor para suprir-nos com o que precisamos no momento, de forma que nunca tenhamos que entrar em dívida.”

Eu poderia comprar um bom estoque de mantimentos no crediário, mas da próxima vez que estivéssemos em necessidade, eu usaria o crediário novamente, ao invés de buscar o Senhor. A fé, que somente se mantém e se fortalece através de exercitar, ficaria mais e mais fraca. No fim, provavelmente acabaria atolado em grandes dívidas, sem perspectiva de sair delas.

A fé se apoia na Palavra Escrita de Deus, mas não temos nenhuma promessa de que ele pagará nossas dívidas. A Palavra diz: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma” (Rm 13.8), e: “Quem nele crer não será de modo algum envergonhado” (1 Pe 2.6). Não temos nenhuma base bíblica para entrar em dívidas.

Nosso alvo é mostrar ao mundo e à igreja que mesmo nestes dias maus do tempo do fim, Deus está pronto para ajudar, consolar, e responder às orações daqueles que confiam nele. Não precisamos recorrer a outras pessoas, nem seguir os caminhos do mundo. Deus tanto é poderoso, como ansioso, por suprir todas nossas necessidades no seu serviço.

Consideramos um precioso privilégio continuar a esperar somente no Senhor, ao invés de comprar mantimentos no crediário, ou de emprestar de bondosos amigos. Enquanto Deus nos der graça, olharemos somente para ele, mesmo que de uma refeição para a próxima tivermos que depender do seu suprimento milagroso. Já faz dez anos que trabalhamos com estes órfãos, e ele nunca permitiu que passassem fome. Ele continuará a cuidar deles no futuro também.

Estou profundamente consciente da minha própria incapacidade e dependência no Senhor. Pela graça de Deus, minha alma está em paz, embora dia após dia tenhamos que esperar a provisão sobrenatural do Senhor para nosso pão diário.

Fontes de pesquiza: Christian History nº 14

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Uma Oração

“Senhor Deus,
Sou possuída por legiões de bens, assim como o gadareno era possuído.
Digo que meus bens são minhas posses, mas eu é que sou possuída por eles.
Estou acorrentada, presa à rotina de dias estruturados, pela tirania dos bens.
Deveria visitar os doentes, mas ainda não acabei de limpar meus badulaques.
Preciso alimentar os famintos, mas tenho que ficar em casa e molhar a grama.
Os que não tem o que vestir esperam que eu os vista, mas preciso levar o aparelho de som para o conserto.
Permiti que minha vida ficasse tão cheia de posses que me tornei ineficaz… Esqueço-me das pessoas.
Não tenho tempo para preocupar-me com elas.
Pouco a pouco, traiçoeiramente, os bens passaram a ser o proprietário, e eu a propriedade.
Os bens materiais não são ruins por eles mesmos. Podem ser instrumentos, ajudando-me naquilo que preciso fazer.
Mas minhas prioridades estão erradas quando enfoco as coisas por elas mesmas, e não por aquilo que elas me capacitam a fazer.
Querido Senhor, liberta-me da tirania das coisas.
Restaura minha perspectiva: Tua perspectiva.
Amém.”

Joe Carr e Imogene Sorley
(Extraído do livro: “Meditações Para a Vida”)

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