História da Igreja – Parte 12 – Durante a História, Como se Definia a Igreja?

Data de publicação: 18/11/2011
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Edição 20 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 20

Raízes: Lições da História da Igreja Para os Nossos Dias.
Durante a História, Como se Definia a Igreja?

Se quisermos voltar à essência da igreja, conforme concebida por Jesus e revelada aos seus apóstolos, devemos examinar as Escrituras do Novo Testamento. Porém, se quisermos entender como a igreja chegou ao estado em que está hoje, e as diferentes etapas da sua “evolução”, que poderia ser chamada com mais propriedade de “degeneração”, devemos examinar a história.

Na verdade, a história não mostra somente o declínio da igreja, mas também o processo contínuo de restauração em que Deus sempre levantou indivíduos e grupos desejosos de reencontrar a essência perdida pelo homem no meio das suas filosofias e instituições.

Sem querer de modo algum apresentar um estudo exaustivo sobre este assunto, oferecemos a seguir os conceitos que alguns líderes e pioneiros espirituais tiveram a respeito da igreja, durante as diferentes fases da história.

Agostinho

Embora nem todos o admirem ou aceitem muitas das suas idéias, Agostinho (354-430)  é considerado pela maioria dos estudiosos como o filósofo e teólogo mais influente da igreja. Sem dúvida alguma, foi ponto de referência para quase todos os grandes pensadores e teólogos que vieram depois dele, tanto católicos e ortodoxos, como reformadores protestantes e pioneiros evangélicos. Mesmo discordando ou combatendo algumas das suas idéias, todos voltavam aos seus conceitos fundamentais para se posicionarem. Em praticamente todos os assuntos e controvérsias doutrinárias do cristianismo, ele explorou o campo, mostrou as alternativas e desenvolveu argumentos que vieram a ser considerados, em grande parte, como ortodoxia cristã.

Muitos aspectos da teologia de Agostinho foram forjados no calor de conflitos com grupos heréticos ou separatistas. Seu conceito da igreja nasceu da controvérsia com os donatistas, um grupo que não aceitava bispos ou ministros que tivessem sido infiéis durante períodos de perseguição. Como tantos outros grupos e igrejas que surgiriam posteriormente, e como muitos que existem hoje, os donatistas criam que não se podia encontrar Deus numa igreja impura, e por isso se dividiram da Igreja Católica. Fundaram uma igreja separada, onde só se aceitavam pessoas consideradas puras, ou verdadeiramente convertidas. Só eles constituíam a igreja verdadeira, e somente o seu batismo, e a sua celebração da ceia do Senhor, eram válidos.

Em contraste a eles, Agostinho cria que a igreja é universal, e indivisível;  que a essência da igreja está na sua união como um todo com Cristo, não no caráter pessoal de alguns cristãos especiais, como bispos ou membros do clero; que dentro da igreja visível, unida e universal, há uma mistura, pois só Deus pode saber dentre as pessoas batizadas quais foram realmente regeneradas; e que pior do que tolerar impurezas dentro da igreja é o pecado de dividir a igreja.

Muitos estariam prontos hoje para condenar a presunção daqueles grupos eclesiásticos ou instituições que se acham a única igreja visível e pura de Jesus. Desde a Reforma, os protestantes “protestam” a afirmação que a Igreja “Católica”, ou Universal, sempre fez a respeito de si mesma neste sentido; porém de forma explícita ou implícita, muitas das novas “igrejas” dissidentes fizeram afirmações idênticas, pensando que detinham um monopólio sobre a graça de Deus. Por outro lado, no meio da cristandade dividida e esfacelada de hoje, é considerado perfeitamente “normal” um grupo dissidente sair de uma “igreja” e formar outra.

Apesar de todas as aplicações erradas da teologia de Agostinho no passado e no presente, faríamos bem em reexaminar o propósito de Deus de ter uma igreja unida e indivisível, onde a graça de Deus pudesse operar de fato através dos canais que ele estabeleceu, como o batismo e a ceia do Senhor, e onde houvesse autoridade e autorização de Deus através de um testemunho unido na terra. Se concordamos que Deus não pode habitar, nem colocar a autoridade do seu nome, numa igreja que tolera e aceita o pecado, devemos também ter uma nova convicção a respeito do terrível mal que é dividir o corpo de Cristo, em nome de preferências, partidarismos, exclusivismos e desejos de conduzir o rebanho a nosso próprio modo.

E finalmente, apesar da ênfase importante da Reforma Protestante sobre a Palavra escrita, devemos colocar em equilíbrio o entendimento que Agostinho tinha sobre o papel da igreja na revelação e confirmação da verdade. Outra vez, tendemos a rejeitar esta idéia por causa da forma como a igreja como instituição a aplicou na história, mas continua como requisito bíblico para uma plena revelação da verdade, compreendê-la “com todos os santos” (Ef 3.19).

Wycliffe

Enquanto Agostinho cria numa igreja visível, que apesar da mistura de pessoas não regeneradas no seu meio, era a expressão divinamente autorizada da igreja invisível e espiritual, outros homens em outras épocas chegaram a conclusões um pouco diferentes. Em grande parte, pela própria condição degenerada da igreja institucional e visível, os reformadores tiveram de pensar na igreja verdadeira como algo invisível, que não possuía uma manifestação clara, única ou unida na terra.

John Wycliffe, conhecido como a estrela-d’alva da Reforma, por ter pregado muitas das mesmas verdades na Inglaterra pelo menos 150 anos antes de Lutero (principalmente nos anos de 1370-1384), defendia a idéia de que a igreja verdadeira é composta pela “congregação dos predestinados”, que era diferente da igreja visível ou militante. Embora permanecesse na igreja institucional até sua morte, Wycliffe defendia abertamente que a igreja visível não era a igreja verdadeira, pois havia muitos dentro da igreja visível que não eram realmente convertidos. Nesta classe de “hipócritas” poderiam estar inclusive sacerdotes, bispos e o próprio papa.

Neste momento de decadência na história da cristandade, o foco principal era a base das Escrituras, e um relacionamento direto com Deus através de Jesus. Assim, Wycliffe não chegou nem a tratar ou a buscar uma manifestação mais pura da igreja visível. Era mais uma questão de renovação e arrependimento individual, onde cada um procurava fazer parte da igreja invisível através de se ligar ao único verdadeiro Cabeça do corpo, que é Cristo. Para ele, se a igreja era a “congregação dos predestinados”, era impossível saber quem fazia parte da igreja, pois era impossível saber com certeza se alguém era um dos eleitos ou não. Só era possível cada um saber sobre sua condição atual de relacionamento com Deus.

Lutero

Martinho Lutero, o famoso reformador alemão, apesar de ter rompido com a Igreja Católica, também via a igreja verdadeira e invisível como constituída daqueles que eram genuinamente convertidos em qualquer uma das diversas igrejas visíveis existentes, inclusive na Igreja Católica. Assim qualquer uma das igrejas visíveis tinha uma mistura de cristãos verdadeiros e não verdadeiros. Entretanto, para definir as características de uma igreja visível que considerava mais “verdadeira”, Lutero colocou duas marcas: a pregação certa do evangelho (a justificação pela fé) e a administração certa dos sacramentos (que foi um dos pontos onde se separou de outros reformadores). Sua visão do sacerdócio de todos os cristãos também trouxe um conceito totalmente diferente da igreja, trazendo de volta o entendimento apostólico da igreja como a comunhão dos santos ao invés de ser representada basicamente pelo clero e a hierarquia.

Anabatistas

Ao mesmo tempo que Lutero e outros reformadores reconheciam que a igreja verdadeira era invisível, e que ninguém sabia exatamente quem fazia parte dela, entendiam que a igreja visível englobava toda a sociedade, e que a igreja se unia com o estado para governar a sociedade. Assim todos os reformadores acabaram criando igrejas estatais (na Alemanha, na Inglaterra, na Suíça, etc.). Os anabatistas, que eram contemporâneos destes reformadores, tinham uma visão totalmente diferente da igreja. Para eles a igreja era a congregação daqueles que se comprometiam consciente e voluntariamente com Cristo, numa vida de discipulado e comunidade. Entendiam que a ênfase sobre graça pregada por Lutero representava uma despreocupação com a vida cristã de pureza e santidade, enquanto Lutero os via como defensores de um novo sistema de justiça por meio de obras. Para eles, não havia nenhuma ligação entre a igreja e o estado, e também não se podia viver uma verdadeira vida de discipulado a Jesus, sem se comprometer com uma vida de interligação e comunidade com outros que tinham o mesmo compromisso.

Em outras palavras, não era suficiente acreditar que faziam parte de uma igreja invisível; tinha de ter uma forma de manifestar a vida cristã visivelmente em conjunto com outros. Neste caso, a tendência humana e comum neste tipo de ênfase era pensar que eram os únicos verdadeiros e fiéis, a única igreja visível genuína. Mas inquestionavelmente alcançaram uma prática notável de comunidade e testemunho diante de terríveis perseguições, inclusive por parte dos outros protestantes!

Comenius e Zinzendorf

Finalmente encontramos uma outra perspectiva da igreja numa outra fase da história. No início do século XVIII, um grupo de morávios fugindo de perseguição se estabeleceu na propriedade do Conde Zinzendorf, na região de Dresden, que atualmente fica na parte oriental da Alemanha. Junto com outros refugiados e membros de várias outras igrejas e denominações, formaram a comunidade Herrnhut, onde Deus os visitou poderosamente em 1727, iniciando um dos acontecimentos mais significativos de toda a história da igreja.

Zinzendorf não foi um teólogo, nem deixou escritos ou novos avanços doutrinários para a posteridade. Nunca foi seu desejo criar uma nova “igreja” ou movimento, e por um bom tempo conseguiu evitar que isto acontecesse. Ele permaneceu dentro da Igreja Luterana, e os refugiados continuaram como sucessores de John Hus, e Jan Comenius, no movimento morávio, mas sempre se consideravam missionários de Cristo, e instrumentos de unidade para todo o seu corpo. Ainda jovem, Zinzendorf fundou uma sociedade, chamada Semente de Mostarda, onde entre outras coisas se comprometera com seus parceiros a ser fermento entre todos os cristãos, e a trabalhar para a salvação e comunhão de todos, indiferente da sua denominação.

Logo antes da visitação de Deus em Herrnhut, em agosto de 1727, Zinzendorf descobriu os escritos de Comenius, líder morávio do século anterior, e que deixou, além de outras tremendas contribuições na área de educação cristã, um legado precioso de visão de unidade da igreja. Ao fugir da Morávia, por causa de perseguição, Comenius profetizou que o depósito de verdades que guardavam de John Hus, que as recebera por sua vez de John Wycliffe, e pelas quais dera a própria vida, seria uma “semente escondida” que daria fruto muito tempo depois.

Mas diferentemente da maioria dos grupos que buscam a essência perdida da igreja verdadeira, e que geralmente são expulsos ou se separam das outras representações da igreja institucional, Comenius e os morávios não defendiam que eram a única verdadeira expressão da igreja, nem que a salvação só pudesse ser obtida através deles. Não só isto, mas numa época em que a fidelidade às Escrituras Sagradas, restaurada na Reforma, significava que união numa igreja visível só era possível na base de concordância doutrinária, os morávios enfatizavam pureza de vida e comunhão acima das disputas sobre a ceia do Senhor e predestinação. Embora sem alcançar muito sucesso, Comenius batalhou muito em favor de abertura e comunhão entre todas as alas cristãs, e sugeriu que todas abandonassem seus rótulos para se denominarem simplesmente “cristãos”.

Entendendo que os morávios poderiam deixar de existir como grupo, ele deixou escritos onde pediu que seus sucessores continuassem a buscar unanimidade de opinião, reconciliação entre si, união da fé, e amor pela unidade do espírito entre todos que clamassem pelo nome de Cristo em verdade.

Foram estes escritos que Zinzendorf descobriu e que contribuíram grandemente para acender a tocha em Herrnhut e para consolidar a identidade do mover de Deus naquele lugar como mais um elo na sua corrente invisível mas contínua de conduzir a igreja de volta para seu propósito original.

Durante a tremenda expansão missionária que resultou da visitação de Deus em Herrnhut, os morávios não se preocuparam em criar uma forte estrutura ou movimento próprio, apenas em oferecer ao Cordeiro os frutos do seu grande sofrimento na cruz.

Desta forma, o avivamento morávio representou um verdadeiro retorno à essência da igreja, onde acima de estruturas ou doutrinas, encontraram a própria presença de Jesus na celebração da ceia do Senhor. Sem discutir mais sobre a doutrina da ceia, encontraram a vida através da comunhão com ele. Pessoas de todas as seitas e denominações existentes naquela época se uniram, esqueceram-se das suas diferenças, e deixaram o Espírito acender o fogo da paixão pelo Salvador.

Hoje estamos em outra fase da história e num outro contexto eclesiástico. A expressão e a ênfase que o Espírito Santo dará hoje com certeza terão um cunho peculiar, apropriado justamente para esta hora em que estamos. Mas para isto teremos de voltar a buscar como em todas as outras épocas a verdadeira essência da igreja, a fim de cumprir o propósito que Deus colocou diante dela, de expressar plenamente sua natureza aqui na terra, e de tornar conhecida diante de principados e potestades nos lugares celestiais sua multiforme sabedoria (Ef 3.9-11).

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Existe Igreja Pequena?

Muitas vezes, imperceptivelmente, desenvolvemos hábitos e costumes que não são compatíveis com a Palavra de Deus, e que geralmente demonstramos pela nossa maneira de falar. Isto acontecia comigo quando me referia a uma igreja com poucas pessoas como uma igreja “pequena”, insignificante, de pouco valor.

Foi quando chegou em minhas mãos o livro “A Tragédia da Igreja – Ausência de Dons”, de A.W.Tozer, onde encontrei o seguinte:
“Será que cremos ser verdade, e declaramos, como deveríamos faze-lo, que a verdadeira igreja, ao se reunir no Nome, para adorar a Presença, depara-se com Cristo ainda se dando na vida da comunhão? Não é a forma que faz a igreja ou o seu culto. A Presença e o Nome – estes são os que fazem a igreja. Onde quer que pessoas estejam reunidas no Nome, também há a Presença. A Presença e o Nome constituem a verdadeira assembléia de crentes.

“Isto traz à luz uma verdade por demais maravilhosa. No corpo de Cristo não há congregações sem importância! Cada uma delas tem o Nome dele e cada uma é honrada pela presença dele…

“Mas as pessoas insistem em fazer perguntas quanto ao tamanho e ao número de membros por serem carnais… ‘Esta é uma igrejinha bem pequena’, ou ‘aquela é uma igreja pobre e desconhecida’. Entretanto, Deus está dizendo: ‘É minha igreja – elas são minhas igrejas e todas têm todo o direito a tudo o que eu concedo!’”

Contribuição do leitor Durval R. Garcia.
*Para adquirir este livro, ligue (19) 3462-9893

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