Filho de uma Mulher Chamada Hilda – Mulher Guerreira

Data de publicação: 26/11/2012
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Edição 73 e Revista Impacto - 1998 a 2014.

Por: Abnério Mello Cabral

Devo minha criação e formação nos caminhos de Deus à minha mãe. Como meu pai faleceu antes de eu completar 2 anos de idade, coube à minha mãe cuidar sozinha de todos os aspectos de provisão, disciplina e formação.

Entretanto, antes de descrever melhor como ela fez isso, é importante ressaltar um fato. Em certa ocasião, meu pai disse à minha mãe que se, um dia, ele viesse a morrer sem voltar para Jesus, ela deveria procurar uma igreja para que seus filhos ouvissem a Palavra de Deus, pois todos deveriam servir a Deus. Meses depois desse conselho, ele sofreu um acidente de trabalho e veio a falecer em 13 de fevereiro de 1969.

Minha mãe, de fato, seguiu a orientação dada e, algum tempo depois da morte do marido, partiu em busca de uma igreja. Chegando à Igreja Presbiteriana, do Bairro Galo Branco em São Gonçalo, RJ, ela já foi dizendo que queria aceitar Jesus e tornar-se crente; estava decidida. Aquela era uma pecadora rendida ao Senhor, sem passar por nenhum tipo de reunião evangelística ou abordagem pessoal de evangelização. Ela estava decidida; queria virar crente.

Deus responde a orações

O primeiro grande choque, ao fazer parte da igreja, foi deixar de cumprir uma promessa que havia feito a dois “santos”: Cosme e Damião. Como uma das minhas pernas parecia ser menor do que a outra, ela havia feito uma promessa que, se eu começasse a andar direito, ela daria doces por sete anos seguidos em uma data determinada. Ela foi instruída a pedir perdão a Deus e a me entregar em suas mãos. Com isso, minha irmã e eu fomos apresentados ao Senhor como futuros candidatos para o serviço do Rei. Para surpresa da minha mãe, depois de algum tempo, passei a andar e correr normalmente, sem nenhum tipo de problema na perna.

A partir dessa experiência, para ela tudo deveria passar pela oração, antes de qualquer coisa. Posso dizer que a pessoa que mais influenciou minha vida de oração foi minha mãe. Ela orava até para ir ao mercado. Naquele tempo, não existia supermercado em nossa cidade, muito menos nos bairros. Nossa vida financeira não era das mais folgadas, e ela submetia ao Senhor todas as contas normais que uma casa tem. Não me lembro de minha mãe pagando contas em atraso ou recebendo cobranças em nossa casa. A oração permeava nossas visitas a parentes e a qualquer outro lugar que fôssemos ao sair de casa. Eu, particularmente, era o que mais reclamava. Se para tomar café da manhã ou almoçar tinha de orar, eu dizia que estava com fome, queria comer.

Em uma das pregações de nosso pastor nos domingos pela manhã, ele falou sobre a importância do culto doméstico, de a família ler a Bíblia e orar reunida nas primeiras horas do dia. Quando ela ouviu aquilo, não perdeu tempo e logo colocou em prática o ensinamento. Ela tinha muita disposição de obedecer à Palavra de Deus. Para mim, era um sacrifício porque, além de esperar a leitura da Bíblia, eu tinha de orar. Normalmente, eu dava trabalho para levantar, mas ela avisava: se eu não me levantasse e fosse para a mesa, também não iria comer. Esta era a palavra chave para mim – comer!

A insistência de minha mãe deu resultados: normalmente eu era envolvido pela leitura e pelo compartilhar e me quebrantava, orando no final como ela queria e lendo a Bíblia como ela queria. Não tinha essa de ler de qualquer jeito ou de orar de qualquer jeito; era a Palavra de Deus que estávamos lendo e era com Deus que estávamos falando.

Havia uma reunião de mulheres na nossa casa, em que várias mulheres de igrejas diferentes encontravam-se para orar, todas com necessidade de buscar ao Senhor por suas causas. Eu era o único menino naquela sala. Adivinhe! Eu só poderia sair para brincar depois que eu orasse com elas; era com os joelhos no chão, e a oração obedecia a uma ordem. Eu ficava tentando adivinhar quem iria começar a orar para eu ser o próximo. Não tinha jeito; eu sempre ficava no meio. Mas o que mais lembro é que o Espírito Santo vinha, e eu era envolvido. Eu tinha 12 anos e, no final da oração, algumas mulheres diziam para minha mãe que logo eu seria batizado no Espírito Santo.

Orando pelos enfermos

Quando minha mãe se encontrava enferma, ela chamava a mim e a minha irmã para que orássemos por ela. Pelo fato de minha mãe ter sido uma mulher sozinha, ela procurava canalizar toda a sua energia em buscar ao Senhor. Ela nos levava a várias campanhas de cura das Assembleias de Deus e de outras igrejas pentecostais daquela época. Eu mesmo presenciei muitos milagres. Minha mãe sempre estava envolvida nessas campanhas.

Por isso, na nossa casa, se alguém ficasse doente, a primeira coisa que minha mãe fazia era orar. Quando eu orava por minha mãe, eu fazia exatamente como via nas campanhas: “Pronto, agora levante! Jesus já a curou!” Minha mãe contou que, várias vezes, ela viu o poder de Deus operando nela, na minha irmã ou em mim.

Até hoje, na minha casa, a oração pelos enfermos é levada muito a sério. Primeiro, nós oramos e confiamos que Jesus vai operar. Até aqui, temos visto o poder de Deus operando. Minhas filhas nunca tomaram qualquer tipo de antibiótico. Temos experimentado o poder de Deus. Foi algo que aprendi com minha mãe.

Aprendendo a evangelizar e alcançar necessitados

Minha mãe tinha por hábito comprar mil folhetos de evangelização de vez em quando. Não bastava evangelizar com os irmãos da igreja e participar de cultos ao ar livre, como os chamávamos naquela época. Ela nos pegava em um dia da semana qualquer e nos ensinava a subir os morros entregando folhetos e dizendo para as pessoas que Jesus as amava. Se, porventura, fôssemos colocar um folheto embaixo de uma porta, antes tínhamos de orar para Deus abençoar a pessoa que achasse aquele folheto.

Minha mãe também tinha peso pelas crianças que haviam sido abandonadas pelos pais ou perdido os pais em acidentes. Muitas crianças não tinham parentes que quisessem ficar com elas. Dar comida, água e roupas a pessoas que pediam ajuda era lei; ninguém podia bater no nosso portão e sair com as mãos vazias.

Uma vez, ela trouxe para dentro de nossa casa uma criança que estava na rua, suja e com fome. Ela deu banho, trocou a roupa daquela criança, deu comida, deixou-nos brincar com ela e, depois, saiu para procurar os pais. Quando achou a mãe, chamou sua atenção, devolveu a filha e falou de Jesus para ela!

Confiança no Senhor

Minha mãe havia tomado outra decisão na sua vida: confiar em Deus para criar seus dois filhos. Experimentamos muitos milagres de Deus em nossa vida. Numa das ocasiões em que saímos para visitar o orfanato, a Casa do Garoto, choveu muito. Como acontecia sempre que chovia forte, entrou água em nossa casa. Quando voltamos para casa, a geladeira estava com o motor debaixo d’água, mas estava funcionando. Ela não queimou, e ficamos com ela por mais de 30 anos. Minha mãe dizia que, quando a gente faz a obra de Deus, ele cuida do que é nosso; isso ficou no meu coração.

Em outra ocasião, ela não tinha o que fazer para o almoço. Enquanto trabalhava em sua máquina de costura, ela falou com Deus sobre a situação. Eu já havia questionado se ela não iria fazer comida, pois logo teria de ir para a escola; porém, não obtive nenhuma resposta. Pouco depois da minha pergunta, chegou uma amiga e irmã da igreja com três sacolas de compras. Ela comprara aquelas coisas no mercado para levar para uma filha, mas no meio do caminho ficou com medo que o genro não gostasse e, também, não quis levar à própria casa para que o marido não reclamasse do gasto desnecessário.

Só depois de a amiga ter ido embora é que fiquei sabendo de tudo isso. Glória a Deus! A pensão de minha mãe só sairia no dia seguinte, e ela não gostava de pedir dinheiro emprestado. Mesmo sendo viúva e ganhando pouco, era ela que emprestava ou dava aos outros.

Ainda em outra ocasião, só tínhamos feijão e arroz para comer, sem qualquer mistura. Minha mãe pediu a Deus que lhe respondesse. Um irmão muito querido nosso chamado Sr. Hélio, que já está com o Senhor, chegou à nossa casa com sardinha e camarão. Ele nos disse que estava na peixaria e sentiu que deveria comprar para nós. Eu só soube de tudo depois que ele foi embora.

Batismo no Espírito Santo – no meio da água

No dia 12 de dezembro de 1981, caiu uma tromba d’água no nosso bairro. Era tanta água que até em casas que nunca haviam sido inundadas a água entrou. O dia estava escuro, muros estavam caindo e ondas se formavam a cada muro que caía. Caíram dois muros no nosso quintal, um lateral e outro da frente. Quando o da frente caiu, formou-se uma onda que arrombou a porta dos fundos da nossa casa. Minha mãe, desesperada, chamou a minha irmã que estava sentada em uma cadeira dentro do quarto. A onda entrou e derrubou o guarda-roupa duplex em cima da cadeira em que minha irmã estava sentada.

Nesse momento, quando minha mãe começou a chorar de tristeza e desespero, eu lhe disse: “Mãe, Deus está aqui, ele está vendo tudo!” No mesmo instante, o Espírito Santo desceu, e eu comecei a falar em línguas dentro daquelas águas, na mesma sala onde as irmãs disseram, dois anos antes, que logo eu seria batizado. Eu já estava com 14 anos. Minha mãe ficou radiante, cheia de alegria. No fim, basicamente todos os móveis que foram perdidos naquela enchente foram repostos pela igreja.

A bênção para os filhos

Mesmo não tendo sequer o primário completo, minha mãe era uma estudiosa da Bíblia. Prestava atenção para sempre conciliar a prática da Palavra com a pregação. Certa vez, lendo a Bíblia, ficou intrigada com a bênção de Jacó para seus filhos. Ela orou a Deus e ficou meditando sobre como faria isso conosco. Depois, chamou-nos, leu a bênção de Jacó e nos instruiu para que orássemos com ela a fim de que Deus lhe dissesse como faria para nos abençoar.

Nós oramos, e ela abriu a Bíblia, pôs o dedo num texto e leu para minha irmã. Em seguida, fez a mesma coisa comigo. Nesse dia, ela nos revelou o pacto que havia feito com Cosme e Damião e, antes de me abençoar, orou para quebrar qualquer influência que aquilo pudesse ter sobre a minha vida (eu tinha 13 anos na época).

Ao abrir a Bíblia, ela colocou e dedo e leu: “… para fazê-lo sentar-se com os príncipes, sim, com os príncipes do seu povo” (Sl 113.8). Eu ouvi isso, guardei no meu coração e passei muito tempo sem entender essa bênção. Alguns anos mais tarde, entendi que Deus estava me separando para trabalhar no governo de sua casa, em parceria com Jesus. Aos 16 anos, liderei o primeiro grupo familiar na minha vida. Mesmo sendo um jovem, trabalhava em conjunto com outro casal.

Casamento

Antes que eu me casasse, minha mãe me chamou para uma das conversas que mais marcaram a minha vida como homem, como pessoa, como futuro pai. Ela sentou-se comigo e me disse como um homem deveria tratar uma mulher. Talvez para escândalo de alguns, ela me falou como deveria ser uma relação sexual entre um homem e uma mulher, como um homem deveria tratar uma mulher na cama. Confesso que até hoje, dentre os conselhos que já li em livros, o único que se assemelha ao que ela me passou é o Ato Conjugal de Tim LaHaye. Os conselhos dela servem de diretrizes para mim até hoje.

Conclusão

Eu não aconselho a nenhuma mulher tentar uma produção independente. Essa é uma história real de um menino que se tornou homem porque uma mulher resolveu seguir o conselho de um marido falecido. Uma mulher que decidiu confiar totalmente em Deus para a criação de seus filhos. Ela não era perfeita, mas foi santa, separada por Deus. Criar dois filhos sozinha não foi tarefa fácil. Passamos por humilhações e privações, tivemos momentos em que choramos juntos, mas sempre aprendemos a confiar em Deus.

Para mim, o que permaneceu foram os princípios, o treinamento, as lições aplicadas, os muitos momentos de oração que passei com ela, tentando entender esse negócio de ouvir de Deus, ouvir Deus falar conosco. Ela havia lido que Deus fala com o homem. Eu aprendi a prática disso em casa. A melhor coisa foi aprender que Deus era meu pai. Eu cresci dizendo para meus amigos que Deus era meu pai e, muitas vezes, precisei explicar como era isso, pois alguns não conseguiam entender.

Minha mãe faleceu em abril de 2004. Tive a honra de poder sepultar uma mulher guerreira, que é o significado de seu nome. Viveu seus dias em muitas lutas, mas deixou um homem e uma mulher nesta Terra para honrar e glorificar o nome de Deus.

Estamos passando a mesma fé para os nossos filhos, com a graça de Deus!

Abnério Mello Cabral é pastor de uma das quatro comunidades em Jundiaí que estão num processo de união há alguns anos. É casado com Keila e tem três filhas.