Série “Preparando a Família”-Parte I-Família Como Base no Plano de Deus

Data de publicação: 28/04/2011
Categorias da Biblioteca:
Edição 66 e Revista Impacto - 1998 a 2014.

Por Pedro Arruda

Somos acostumados a preferir a rotina e descartar o inédito, pois gostamos de deter o controle das coisas. Isso também se aplica ao nosso encontro com o Senhor por meio da morte, ainda que não tenhamos controle sobre ela. Por ser inexorável e aplicável a todos, é também previsível, o que nos permite certa preparação. Contudo, temos de considerar que existe, além de passar pela morte, outro evento que pode levar-nos ao encontro com Deus: a volta de Jesus. É chegada a hora de inserir essa alternativa muito real em nossa agenda e ver como devemos preparar-nos para ela.

É exatamente sobre isso que queremos refletir nessa nova série de artigos.

Deus propôs o cumprimento da história em etapas conexas. Assim foi a criação, o dilúvio, a formação da nação de Israel, a encarnação de Jesus e o surgimento da igreja. O próximo grande evento que teremos pela frente é o retorno de Jesus, tão factual quanto foi sua encarnação.

Se, de fato, cremos na Bíblia como Palavra de Deus, devemos considerar a profecia como história a se cumprir com a mesma credibilidade que damos à história já realizada. Assim como Deus prometeu enviar-nos o Messias e o recebemos na encarnação, nascido de Maria em Belém há dois mil anos, do mesmo modo haveremos de recebê-lo em regresso.

Do ponto de vista da fé, não há como separar um evento do outro, pois crer no primeiro implica também crer no segundo, pois são indissociáveis. Costumo recorrer ao exemplo dos dois tempos de uma partida de futebol que, embora separados por um intervalo, fazem parte de uma mesma partida. Assim, agora estamos no intervalo entre a encarnação e o retorno de Jesus, que fazem parte, na realidade, de um mesmo evento: o da presença de Jesus aqui na Terra.

Todos os eventos significativos de intervenção divina na história aconteceram com base na família. Do princípio ao fim, ela está presente na estratégia de Deus para levar a cabo o seu propósito. Só para lembrar, vamos rever a sequência histórica.

Na criação, o plano divino exposto a Adão seria totalmente inviável sem a família para levá-lo adiante. O mesmo se aplica a Noé após sua preservação, com a família, no dilúvio. Posteriormente, Deus chamou Abrão, que formou uma família com Sara a partir da qual vieram Isaque e todos os patriarcas que deram origem à nação de Israel. A organização da nação se baseou em famílias, o que ficou notório por ocasião da saída do Egito, quando se reuniram na noite pascal para partirem em direção à Terra Prometida. Uma vez lá, distribuíram-se em uma federação de famílias como se fossem os estados modernos daquele território. Depois do exílio na Babilônia, o regresso de lá também se deu por meio da organização em famílias, que ainda serviu de base ao trabalho de reconstrução dos muros e restauração da cidade.

Quando chegou, posteriormente, o tempo da encarnação, não poderia ser diferente: o caminho também foi escolhido por meio da família. Chama a atenção que Deus só se dirige à Maria, por intermédio do anjo, para anunciar-lhe a própria gravidez, mas depois trata diretamente com José, reconhecendo a estrutura familiar e a autoridade patriarcal para todas as demais orientações.

Quando da vinda do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, a profecia escolhida para explicar o que estava acontecendo foi a de Joel, que salienta os papéis familiares: “[Pais] vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias…” (At 2.17,18). Vemos aqui a descrição da família. Dentre as muitas profecias que há sobre a vinda do Espírito Santo, essa foi escolhida de propósito para anunciar o inicio da Igreja, pois apenas ela alude com clareza à família. Em seguida, vemos que a Igreja se expandiu levando em consideração a família, tendo nos lares sua base operacional missionária. Até mesmo o vocabulário para descrever as relações pessoais afetivas de fé é importado da família, como irmão, pai, mãe, etc.

O próximo grande evento que aguardamos na história é a volta de Jesus. Se em todas as outras ocasiões, Deus interveio usando a família para dar sequência ao seu plano, seria coerente que agora escolhesse o mesmo instrumento para isso. É assim que as profecias relatam esse evento.

Haverá uma preparação anterior à volta de Jesus que se entende como restauração. Em Atos 3.21, por exemplo, lemos que os céus estão retendo ou impedindo a volta de Jesus até a restauração de todas as coisas. O próprio Jesus também mencionou a restauração vinculada a um ministério precursor à semelhança de João Batista. Fazendo uma releitura ampliada da profecia de Malaquias (4.4-6), associando o ministério de Elias ao de João Batista, ele chamou a restauração do coração dos pais aos filhos e dos filhos aos pais de restauração de todas as coisas.

Juntando essas três passagens, é razoável pensar que a volta de Jesus será precedida pela restauração de todas as coisas, que inclui a Igreja. Contudo, ela se inicia pela família, cujo ponto de partida se dá na restauração de paternidade e filiação. A restauração da família precede a da Igreja. Portanto, não haverá Igreja restaurada sem que antes haja famílias restauradas que a possam abrigar, como foi no início pós-Pentecostes.

Uma figura que pode ilustrar essa situação é a ostra e a pérola. A pérola natural é formada no interior de uma ostra, produzida a partir de um ferimento. Fora da ostra, qualquer pérola é fruto de produção humana e artificial. De igual modo, a Igreja precisa nascer da família e ser protegida por ela. Ao contrário do pensamento de que a família precisa da Igreja, na verdade, é a Igreja que precisa, em primeiro lugar, da família.

Nos próximos artigos da série, queremos examinar com mais detalhes esses aspectos da intervenção de Deus por meio da família em cada etapa da história, abordados de maneira resumida nesta introdução.