Impacto 10 Anos-Evangelho sem Pão – Boas Novas?

Data de publicação: 29/04/2011
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Edição 61 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 61

Por Liza Fels

Ombros curvados, cabisbaixa… A cada encontro, seu olhar de compaixão fita o olhar do próximo diretamente sem medo do verá a seguir: seja enfermidade, fome ou morte. Ela trabalha em silêncio, mas sorri o tempo todo. Com um andar lento, mas firme, ela se abaixa o suficiente para alcançar a altura de uma menina quase de seu tamanho, mas de bem menos idade. A menina de talvez 8 ou 9 anos estende as mãos, recebe o pedaço de pão e sorri ao ouvir a bênção e a promessa: “Deus te abençoe, filha; volte amanhã para pegar mais pão”.

Foi assim que, em 1993, vi Madre Teresa distribuindo pão para centenas de crianças e adultos em uma das vielas de Calcutá e aprendi sobre tantos aspectos da salvação do ser humano.

Decisão só na esfera espiritual

Um pouco mais de dez anos antes disso, vi um homem de meia-idade, alto, vestido de terno e gravata, bem à minha frente. Eu falei: “Estou aqui, porque o senhor perguntou quem gostaria de receber Jesus e conhecer Deus como Pai…”

A testa do homem, antes franzida como se não entendesse, então se abriu com espanto. Ele havia feito o apelo aos mais de 300 adultos presentes, e uma única criança de 9 anos, mas de franzina aparência de 7, respondeu SIM.

Eu havia tomado uma decisão limitada apenas à esfera espiritual, sem qualquer compreensão da dimensão social à qual aqueles primeiros passos me levariam.

A princípio, os passos que tomei a seguir levaram-me somente de volta para casa – uma realidade sombria, de escassez. Saí daquela igreja, com um livro em uma das mãos, enquanto a outra era conduzida por uma vizinha até chegar a um pequeno barraco de madeira e forro de plástico onde eu morava com meus pais e mais cinco irmãos.

Minha mãe esperava irritada do lado de fora, perguntando o porquê da demora. Respondi que eu era uma crente agora e mostrei, orgulhosa, a Bíblia que segurava em uma das mãos.

Furiosa, ela só esperou a vizinha ir embora para arrancar o livro de minha mão e jogá-lo no fogo do pequeno fogão à lenha. “Já que esse livro de crente não vai trazer comida pra nenhuma panela aqui de casa, pelo menos serve para aumentar o fogo e cozinhar esse angu pra você e seus irmãos…”

Choraminguei enquanto via as últimas letras da capa envergando-se no fogo: Evangelho de João. Era tarde; lá se foi o livro que me ensinaria sobre um Pai celestial, e lá se foi a oportunidade de voltar a um local de culto para adultos de pouca decisão.

Somente anos mais tarde, compreendi que minha mãe tinha “socialmente razão” para agir daquela forma. Revoltada contra todo o sistema da sociedade, por não conseguir emprego nem vaga nas escolas para os filhos estudarem, era analfabeta de letras (embora não de experiências) e ainda incrédula na fé e esperança.

Não acreditava em promessas, quer fossem faladas quer escritas, num livro entregue de graça. O que ela queria era ver um “pedaço de pão” e a promessa de que, no dia seguinte, poderia receber mais. E, bem lá no fundo de sua alma, a necessidade que realmente clamava era de receber um anzol e uma isca para ela mesma pescar e alimentar a família.

Êxodo rural e explosão da igreja evangélica

A mudança de minha família do interior do Espírito Santo para uma área pobre, quase favela do Rio de Janeiro, foi fruto do êxodo rural. A industrialização forçou a economia agrária no Brasil a aumentar a produção, adquirindo maquinários e deixando centenas de milhares de trabalhadores rurais sem emprego. A sombra desse progresso empurrou famílias inteiras, de números incalculáveis, às grandes metrópoles nas décadas de 60 e 70. Os centros urbanos não comportavam estruturalmente essa mudança, e as multidões que chegavam viviam à margem da sociedade, dando origem a novas favelas como consequência do êxodo rural e do desemprego.

Ainda hoje, décadas depois, podemos acompanhar o reflexo de mudanças que nos separaram em classes sociais e empurraram uma grande massa, cada vez menos favorecida, para a marginalização.

A igreja evangélica passou, paralelamente aos reflexos do êxodo rural, por uma explosão de crescimento nos centros urbanos na década de 70. Ondas de avivamento sacudiram as igrejas, apontando para o surgimento de novas denominações a partir da década de 80. Saltando em números e atingindo status surpreendente, alojaram-se em catedrais, batizaram linhas completas no mercado gospel de alimentos, estética, automóveis, turismo e outros, projetaram-se na mídia, popularizaram o “evangeliquês”, e fundaram uma nova classe social – “os evangélicos emergentes”.

Uma jornada em direção ao evangelho integral

Minha família foi fruto do abandono social, mas não do abandono do Criador. De forma sobrenatural e bondosa, as mãos do Autor da Vida, nosso Deus e Pai, conduziram minha mãe a trabalhar em uma escola, sem receber salário por longos anos, para que meus irmãos e eu pudéssemos estudar. Aquela vizinha não pôde mais me levar ao templo, mas me conduziu à leitura da Bíblia em sua casa. Minha mãe logo aprendeu a crer e ter esperança em um Deus que não aprovava o sistema social e religioso que ela tanto repudiava, mas que podia nos amparar e nos usar como igreja ativa em meio aos pobres.

Aqueles primeiros ousados passos, que, aos 9 anos, dei em direção a meu Pai Celestial, alinharam minha vida com o coração de Deus. Na época, eu não entendia a dimensão espiritual daquela decisão.

Anos depois, acompanhar alguns dos passos de Madre Teresa na Índia ampliou a dimensão espiritual e social de minha vida no sentido de dar alguns passos também em direção ao meu próximo.

Quando solteira, trabalhei ativamente, durante seis anos, em ONGs e ajudei a fundar uma organização para triagem e reintegração de crianças de rua no Rio de Janeiro. Depois de casada, há 13 anos, tenho ajudado meu esposo a implantar igrejas que oferecem o pão espiritual, mas também o pão natural, no mesmo lugar. O prédio recebe as reuniões da igreja e, ao mesmo tempo, funciona como Projeto Social, oferecendo diversas oportunidades de apoio às comunidades adjacentes. Um dos nossos alvos é que cada vida que recebe a Palavra nunca precise queimar as letras do evangelho para se alimentar.

Um desafio

A cada dia, ainda vejo que é tão pouco o que fazemos diante da calamidade e do abandono social. Sinto-me uma criança apresentando ao Mestre apenas cinco pães e dois peixinhos. O que me encoraja é crer no milagre da multiplicação não somente de pães, mas também de doadores.

Creio que o comprometimento social ainda precisa ser avivado no coração dos líderes evangélicos de nossa nação. De maneira alguma, sou contra a prosperidade de um cristão. Creio plenamente que nosso Deus é um Deus de abundância que se alegra em fazer seus filhos prosperarem; seu propósito, porém, é sempre maior e mais amplo do que torná-los autossuficientes, prósperos e abundantes. Prosperidade desfocada pode resultar em desperdícios, escândalos, trevas, conformidade ao pecado e afastamento do Provedor e Pai.

Você já observou que toda pessoa que realmente procura aproximar-se de Deus voluntariamente se reaproxima do próximo? Não parece que, quando enxergamos Deus mais de perto, ele está apontando, com compaixão, para alguém perto de nós?

Certa vez, ouvi uma expressão impactante: “Quando Deus salvou você, ele também estava de olho em seu vizinho!” Ampliando essa expressão, eu diria: “Deus salvou você (fazendo-o prosperar em todos os sentidos) porque queria usá-lo para ajudar seu próximo a prosperar também”.

Será que sua vida, incluindo suas finanças, reflete esse olhar e comprometimento com o ser humano, ou sua visão está embaçada e comprometida com novas aquisições pessoais?

A Bíblia, do Antigo ao Novo Testamento, é impregnada de ensinamentos sobre o amparo aos órfãos, viúvas e necessitados. A Igreja Primitiva, segundo relata o doutor Lucas no livro dos Atos dos Apóstolos, é conhecida como uma igreja totalmente envolvida com a seguridade social dos menos favorecidos. O próprio Senhor Jesus desenvolveu, em todo o seu ministério, um evangelho social. Palavra + pão = evangelho (literalmente, boas-novas de salvação).

Visitando a Alemanha, a Suíça e a Áustria, berços da Reforma Protestante, pude observar que, perto de cada igreja protestante que surgia, eram construídos prédios utilizados para escolas, hospitais e atendimento social. Foi assim também que agiam os missionários que chegavam ao Brasil: ao implantarem igrejas protestantes, estabeleciam paralelamente escolas, hospitais e até mesmo universidades.

Atualmente, podemos visitar entidades evangélicas filantrópicas centenárias; mas onde estão os marcos sociais de nossa geração?

Minha bandeira não é transferir responsabilidades do Estado para a Igreja. Nossos governantes podem e devem realmente “dar uma grande mão”. Porém, somente a Igreja, e mais precisamente o cristão, pode “abrir os braços” e praticar o evangelho genuíno e completo de nosso Mestre Jesus.

Liza Rodrigues Fels é pastora e trabalha juntamente com seu esposo Ralf na plantação de igrejas. É presidente do Projeto Social VALORIZE.COM. Reside em Cabo Frio, RJ.

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