Entrevista: Eugene Peterson – Fazendo a Obra de Jesus Sem os Métodos de Jesus

Data de publicação: 03/09/2011
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Edição 42 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 42

Eugene Peterson foi pastor presbiteriano durante muitos anos num subúrbio de Baltimore, no estado de Maryland, EUA. É autor de muitos livros (Corra com os Cavalos, Transpondo Muralhas, O Pastor Contemplativo, entre outros), a maioria voltada para a renovação da espiritualidade entre pastores e cristãos em geral. A seguir, trechos selecionados de uma entrevista dada a Mark Galli, um dos redatores do periódico em inglês, Christianity Today, e publicada em março de 2005.

Muitas pessoas acham que espiritualidade significa ser emocionalmente íntimo de Deus.

Essa é uma visão ingênua de espiritualidade. Estamos falando da vida cristã, de seguir a Jesus. A promessa de intimidade tem um aspecto certo e outro errado. Existe, de fato, uma intimidade com Deus; entretanto, é como outra intimidade qualquer: faz parte do tecido da própria vida. No casamento, você não se sente íntimo durante a maior parte do tempo. Nem com um amigo. A intimidade não é, essencialmente, uma emoção mística. É um modo de vida, um estilo de abertura, honestidade, transparência.

Os evangélicos não estão certos, porém, quando prometem às pessoas que podem ter “um relacionamento pessoal” com Deus? Isso sugere uma espécie de intimidade espiritual.

Essas palavras ficam tão desvirtuadas na nossa sociedade. Se intimidade significa ser aberto, honesto e autêntico, de forma que eu não tenha de usar máscaras nem me tornar defensivo ou falso, isso é maravilhoso. Porém, na nossa cultura, a intimidade geralmente tem conotações sexuais, um desejo de ser completado. Quero intimidade porque quero tirar mais proveito da vida. Raramente contém a idéia de sacrifício, doação ou vulnerabilidade. São duas formas totalmente diferentes de encontrar intimidade. No nosso vocabulário ocidental, intimidade geralmente significa obter algo de outra pessoa. Isso desvirtua o conceito completamente.

É muito perigoso usar a linguagem da cultura para interpretar o evangelho. Nosso vocabulário precisa ser disciplinado e testado pela revelação, pelas Escrituras. A forma como nos apegamos a certas palavras isoladas e as usamos para atrair os não convertidos não é muito correta.

Quando divulgamos o evangelho em termos dos valores do mundo, estamos mentindo às pessoas. São afirmações falsas, porque o evangelho fala de uma nova vida. Envolve seguir a Jesus. Envolve a cruz, um sacrifício aceitável. Entregamos nossas vidas.

O Evangelho de Marcos é tão expressivo sobre isso. Na primeira metade do Evangelho, Jesus mostra para as pessoas como devem viver. Ele cura a todos. De repente, a ênfase muda. Ele começa a mostrar como morrer. “Agora que receberam a vida, vou mostrar-lhes como entregá-la.” Esse é o significado da vida espiritual. É aprender como morrer. E, ao aprender a morrer, você perde todas suas ilusões e começa a ser capaz agora de viver verdadeira intimidade e amor.

Arrependimento, morrer para si mesmo, submissão – essas coisas não são ganchos muito atraentes para trazer pessoas à fé.

No momento em que define a questão dessa forma, você está em problemas. É como se tudo fizesse parte do mundo consumidor e fosse um produto planejado para oferecer algo às pessoas. Não precisamos de algo mais, nem algo melhor. Precisamos buscar a vida. Precisamos aprender a viver.

Creio que as pessoas estão saturadas com as metodologias de consumo, mesmo estando viciadas nelas. Mas se oferecermos o evangelho em termos de benefícios, estaremos encaminhando as pessoas para o desapontamento. Estaremos contando-lhes mentiras.

Não foi assim que nossas Escrituras foram escritas. Não foi assim que Jesus veio entre nós. Não foi assim que Paulo pregou. De onde pegamos tudo isso? As Escrituras nos dizem continuamente: “Vocês estão andando no sentido contrário. Virem-se. A cultura em sua volta os está envenenando.”

Então como deveríamos visualizar a vida cristã?

Domingo passado, na igreja, havia um casal à nossa frente com dois filhos malcriados, perturbando o culto. É uma congregação composta, na maioria, de pessoas idosas. São casais que já criaram seus filhos e que geralmente são bem determinados em seus costumes. Não foi um culto muito bom; o louvor não fluiu e não alcançamos um bom ambiente. No entanto, no final do culto, vi uma porção dessas pessoas idosas se aproximarem da mãe para a abraçarem, para mostrar compaixão e solidariedade. Poderiam ter ficado irritadas.

A mesma igreja recentemente recebeu uma jovem mãe solteira, com seus dois filhos, cada qual de pai diferente. Ela queria dedicar os filhos para que pudessem seguir a Jesus também. Um casal da igreja se ofereceu como padrinhos e todo domingo alguém procura convidá-la para sua casa.

Esta é uma igreja luterana, considerada fria e institucional. As pessoas, talvez, não demonstrem muita emoção ou alegria efusiva na adoração, mas existe alegria e vida abundante, só que não nos moldes da cultura atual.

Desde Lutero, temos defendido a idéia de que a Igreja precisa passar continuamente por reforma.

Creio que o erro mais característico dos pastores é o da impaciência. Temos um alvo, uma missão. Queremos salvar o mundo. Pretendemos evangelizar o mundo inteiro, realizar uma série de projetos tremendos e encher nossas igrejas. Isso é maravilhoso. Os alvos estão todos corretos. Mas é um processo muito, muito lento lidar com pessoas, trazê-las a uma vida de obediência, amor e alegria diante de Deus.

Aí ficamos impacientes e começamos a escolher atalhos e a usar qualquer meio disponível. Falamos sobre benefícios. Manipulamos as pessoas. Intimidamo-las. Usamos linguagem incrivelmente impessoal.

Normalmente não pensamos em linguagem evangélica como uma forma de intimidar as pessoas.

Sempre que se usa a culpa como instrumento de levar as pessoas a fazer qualquer coisa – boa, má, indiferente – é uma forma de intimidação. Ou, então, usamos linguagem de manipulação para convencer as pessoas a participarem de programas e a se envolverem, geralmente através de prometer-lhes alguma coisa.

Tenho um amigo que é perito nesse tipo de coisa. Ele sempre diz: “Você precisa identificar as necessidades das pessoas. Depois, você monta um programa para suprir essas necessidades”. Não é difícil manipular as pessoas. Estamos tão acostumados a ser manipulados pelas indústrias da imagem e da publicidade e pelos políticos que quase nem percebemos o que estão fazendo conosco.

A impaciência que faz abandonar os métodos de Jesus a fim de realizar a obra de Jesus é o que destrói a espiritualidade. Usamos um meio que não é bíblico e que não é o caminho de Jesus para tentar fazer o que Jesus fazia. É por isso que a espiritualidade está tão desvirtuada hoje.

Mas muitos pastores vêem pessoas sofrendo com casamentos arruinados, com dependência em drogas, com ganância. E querem, com razão, ajudá-las através de qualquer método que funcione.

Sim, só que o tiro sai pela culatra quando se é impaciente. Como vamos suprir as necessidades? Do jeito de Jesus ou do jeito mercadológico?

Espiritualidade não é uma questão de alvos, benefícios ou coisas; é uma questão dos meios. Depende de como você faz as coisas. Como vamos ajudar todas essas pessoas? As necessidades são enormes.

Bem, devemos ajudar do jeito que Jesus fazia: uma pessoa por vez. Não se pode fazer a obra do evangelho, a obra do Reino, de um jeito impessoal.

Vivemos na Trindade. Tudo que fazemos deve ser feito no contexto da Trindade, o que significa de modo pessoal, através de relacionamentos. No momento em que começar a fazer coisas impessoalmente, de forma mais funcional, operação em massa, você está negando o evangelho. No entanto, é exatamente isso que estamos fazendo.

Jesus é a Verdade e a Vida, mas primeiro ele é o Caminho. Não podemos fazer a obra de Jesus com o método do diabo.

Fico agitado sobre este assunto, porque há tantos pastores sendo castrados por essas metodologias impessoais. Não existe relacionamento nelas. E acabam vivendo em função do desempenho e do sucesso. Não é muito difícil na nossa cultura, principalmente se você for alto e tiver um grande sorriso. Mas aí perde-se a alma. Depois de vinte anos, a pessoa não possui substância interior alguma. Ou, então, naufraga. Tenta todas essas técnicas e não funcionam; aí desiste, ou tenta começar outra coisa.

Quando se começa a adaptar o evangelho à cultura, seja uma cultura jovem, uma cultura da geração ou qualquer outro tipo de cultura, você tira a própria essência do evangelho. O evangelho de Jesus Cristo não é o reino deste mundo. É um reino diferente.

Acho que a relevância é uma tolice. As pessoas não se importam tanto com o tipo de música que você tem ou com a estrutura do culto. Querem um lugar onde se leva Deus a sério, onde serão levadas a sério, onde não se manipulam suas emoções ou necessidades de consumo.

Mas será que as pessoas não precisam se sentir confortáveis para poderem ouvir o evangelho?

Não é o ponto mais importante. Pense no caso que relatei acima, em que os filhos estavam perturbando o culto. Ninguém estava confortável. A igreja inteira estava se sentindo mal.

No entanto, as pessoas que foram abraçar aquela mãe envergonhada experimentaram o evangelho de forma mais real do que se tivessem participado de um culto extraordinário.

Como podemos saber se, ao tentarmos adaptar o ministério à cultura, estamos na verdade sacrificando o evangelho?

Um dos testes é este: Estou trabalhando dentro da história de Jesus, dos métodos de Jesus, do jeito de Jesus? Ou estou sacrificando relacionamentos e atenção pessoais por um atalho, um programa que me levará a realizar mais? Não dá para fazer a obra de Jesus com um método que não seja dele – mesmo que se obtenha muito “sucesso” fazendo isso.

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