Entre Extremos

Data de publicação: 07/09/2014
Este artigo pertence a: Edição 78

Três temas para 12 líderes: como manter o equilíbrio entre posições que geram polêmica e discussão dentro das igrejas

Por Carolina Sotero Bazzo

Não importa o ambiente: grupos de estudo, reuniões de líderes ou conversas informais durante um café. Há certos assuntos frequentemente levantados nas comunidades cristãs que são verdadeiros rastilhos para discussões acaloradas e extremadas. Quem não tem a receita perfeita do tipo ideal de autoridade a ser exercida na igreja, por exemplo? Ou o que deve ser priorizado, entre sair e evangelizar ou ficar e preparar o rebanho?

São assuntos e questionamentos importantes que afetam diretamente a maneira como a fé cristã é vivida. E, embora tenhamos opiniões diferentes baseadas em diversas confissões de fé e posições teológicas, é possível perceber verdades inspiradoras em opiniões aparentemente contraditórias.

Durante o 10º Encontro Impacto de Reflexão Profética para Líderes, realizado em Sorocaba em fevereiro, 12 líderes de diversas tradições trocaram experiências. Confira os melhores momentos das palestras sobre alguns assuntos que costumam levar cristãos aos extremos:

MISSÕES X DISCIPULADO
Sair para evangelizar ou ficar para edificar a igreja?

“Você já parou para pensar por que, quando somos salvos, não vamos direto para o céu? É porque ainda há algo para fazer. Cada um que se converte e se torna um filho de Deus é chamado para levar o evangelho. Jesus não nos mandou construir templos, fazer corais ou seminários. Eu não sou contra nenhuma dessas coisas, mas elas não devem ser a prioridade da igreja. Quando Jesus esteve na Terra, ele deixou uma ordem bem específica a seus discípulos: ‘ide e fazei discípulos’. Devemos tomar muito cuidado, porque, se estivermos negligenciando isso, estaremos em desobediência. Tudo o que fazemos deve estar direcionado, primeiramente, a ganhar vidas.”
Francisco Almeida (Quico) | diretor da Escola de Missões Maanaim, em Curitiba

“Apesar de missões ser algo importante, acima de tudo precisamos restaurar o conceito do que é ser um discípulo, do que é ter uma vida com Cristo. Temos muitas pessoas que se dizem cristãs, mas não são. E precisamos cuidar disso. Ser discípulo é ser como Jesus. E você não vai conseguir fazer discípulos ou evangelizar se você não for, verdadeiramente, um discípulo. Eu creio que Jesus se preocupa com os perdidos que estão no mundo, assim como os que estão ‘perdidos’ dentro das igrejas.”
Ronaldo Roenick |pastor da Comunidade Evangélica do Rio de Janeiro, em Quintino (RJ)

“Quando Jesus disse: ‘Erguei os olhos e vede os campos, pois já branquejam para a ceifa’ (Jo 4.35), houve ali uma convocação. Erguer os olhos e ver os campos é uma ordem de Jesus para nós. O chamado da Igreja é movimentar-se rumo aos campos. E, mesmo que evangelismo nos lembre da necessidade de irmos a outras nações, não é tão importante aonde nós vamos, porque onde houver alguém que ainda não se tenha apaixonado pelo Filho de Deus, esse alguém é campo missionário. E se estou diante dele, sou um missionário em potencial. A evangelização é tarefa da Igreja, e, se a Igreja falhar, Deus não tem um plano B.”
Ariadna Faleiro | pastora, conferencista e ex-missionária na Albânia

“Em um casamento, ter filhos é algo natural, mas não é o que vem primeiro. O propósito do casamento é relacionamento, e só se ele existir de forma saudável é que vai produzir filhos. O mesmo acontece com a Igreja. A questão não é se devemos evangelizar ou não – é claro que é algo importante –, mas é recuperar a saúde da Igreja para gerar novos convertidos. Nós ainda estamos vivendo o desafio de ser um reino de sacerdotes, de nossa prioridade ser o relacionamento com Deus. Esse deve ser o maior e principal desafio da Igreja: amadurecer o relacionamento com Deus, levar nossos irmãos a isso. Só depois vêm todas as outras tarefas.”
Robert Walker | pastor e conferencista 

UNIDADE X VERDADE
Investir na coesão entre cristãos ou defender a verdade mesmo que a consequência sejam as divisões?

“Por muito tempo, nós compramos um pacote único, no qual reforma e divisão eram similares; no entanto, são duas coisas muito distintas. Em tese, a Reforma do século 16 poderia ter acontecido sem divisão. “Divisão” e “diabo” têm a mesma origem etimológica. Portanto, divisão é de natureza diabólica. Já unidade é de natureza divina. A maioria das questões que geram divisão, na prática, não são questões de fé, mas de conhecimentos e doutrinas. Jesus não voltará para várias noivas, mas para uma só noiva – uma só igreja.”
Pedro Arruda | Conferencista e líder de grupos caseiros, tem atuado no diálogo entre católicos e protestantes

“Em Romanos 16.17, o apóstolo Paulo diz: ‘Irmãos, exorto-vos que tenhais cuidado com os que causam divisões e colocam obstáculos ao ensino que aprendestes; afastai-vos deles’. A divisão é uma preocupação apostólica. E qual a atitude que Paulo nos chama para ter em relação às divisões? O versículo diz: ‘afastai-vos deles’. É algo interessante, porque Paulo está mandando dividir em relação àqueles que dividem. E o fundamento da divisão é por causa do ensino da verdade. A unidade para Paulo é algo importante, porém mais importante ainda é que não haja obstáculo ao ensino. Então, vemos o quanto o ensino (neste caso, doutrina) deve estar em primeiro lugar. Se priorizarmos a unidade acima da verdade, facilmente teremos uma unidade falsa.”
Angelo Bazzo | pregador e professor do Curso de Preparação Profética (Monte Mor, SP)

“O sangue derramado na cruz nos liga a Deus, mas também nos liga aos irmãos. A partir do momento em que estamos em Cristo, passamos a ter todas as barreiras de inimizade derrubadas por ele. O sonho de Deus é que o mundo saiba que Jesus Cristo foi enviado. Mas isso só é possível à medida que a Igreja for uma como Jesus disse em João 17: ‘que todos sejam um […] para que o mundo creia que tu me enviaste’. Então, eu vejo a unidade como uma forma de evangelismo para o final dos tempos. E temos de tomar cuidado para que não sejamos nós o obstáculo à resposta dessa oração de Jesus.”

José Carlos Marion | é escritor, conferencista e pastor (Jundiaí, SP)

“Tenho visto muita confusão sobre como lidar com a unidade e as diferenças doutrinárias. Eu costumo classificar a unidade na Igreja em dois aspectos: unidade essencial e unidade periférica. A unidade essencial tem a ver com as doutrinas fundamentais que, basicamente, são as verdades sobre Deus e seu evangelho. Se não somos unos nessas verdades básicas e fundamentais, então não há o fundamento básico da Igreja, e assim é impossível que haja comunhão e unidade. Mas existem outras doutrinas, geralmente mais práticas, que se encaixam em aspectos secundários a respeito dos quais não precisamos estar em pleno acordo para sermos Corpo de Cristo. Como disse Richard Baxter: ‘Nas coisas essenciais, unidade; nas não essenciais; liberdade’.”
Gerson Lima | Conferencista e editor-chefe da Editora dos Clássicos

AUTORIDADE X LIBERDADE
Liderar com “rédea curta” ou apostar na independência?

“Autoridade é fundamental para avançarmos em um propósito comum. Muita gente costuma dizer: ‘Eu sou livre, submeto-me só a Deus e não aos homens’. Isso é um engano. É impossível servir e submeter-se a Deus e não se submeter a absolutamente ninguém. Claro que existem muitos desvios no meio da igreja, mas autoridade existe e não deve ser imposta, mas reconhecida. A realidade de Igreja, como Corpo de Cristo, é contrária à independência. A autoridade deve acontecer por meio de relacionamentos de aliança. Devemos chegar ao ponto de concluir individualmente: ‘Eu preciso submeter minha vida a esse irmão ou não poderei alcançar meu destino sem a maturidade dele’.”

João Staub |fundador e pastor do Ministério Verbo Vivo, em Guarulhos (SP)

“Liberdade é agir espontaneamente, sem medo de regras e consequências. No reino das trevas, as pessoas agem porque são escravizadas por vícios e compulsões; no reino de Deus, as pessoas fazem tudo por alegria. Não há poder maior do que alguém se sacrificar voluntariamente. Mas essa voluntariedade só acontece quando temos a experiência de ouvir a voz de Deus, o que faz com que amemos os seus mandamentos e tenhamos graça e motivação para obedecê-los. Exigir obediência a mandamentos sem ouvir a voz de Deus é algo fadado ao fracasso antes mesmo de ser iniciado. A autoridade na igreja deve ser exercida por irmãos mais velhos (sentido da palavra ‘presbíteros’), não por pais (pessoas com status de superioridade). Esses irmãos nos ajudarão a ouvir a voz do único Pai pessoalmente e entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus.”
Harold Walker | pastor, conferencista e diretor da revista IMPACTO

“Jesus não era alguém que vivia solto. Ele constantemente dizia: ‘Eu só faço o que vejo o meu Pai fazer’ e procurava fazer a vontade do Pai em tudo. Todos nós precisamos estar submissos a Deus. E a minha submissão a Deus é manifesta também em minha submissão às pessoas. Quando Paulo, por exemplo, teve sua experiência de conversão, Jesus o orientou a ir até determinada cidade porque lá encontraria pessoas que lhe diriam o que deveria fazer. O Senhor poderia ter dito tudo a Paulo, mas preferiu que ele fosse até pessoas que lhe dissessem o que deveria ser feito. Isso mostra que é preciso submeter-se a Deus por intermédio de pessoas.”
Jamê Nobre |pastor, conferencista e apoiador de diversos ministérios no Brasil e no mundo

“O que vemos hoje em muitas igrejas é que se parecem muito mais com as pirâmides empresariais que evidenciam poder e visibilidade humana do que com o estilo de governo neotestamentário. Eu vejo, na igreja de Atos, por exemplo, muito mais liberdade do que autoridade. A autoridade está lá, é forte, mas também é discreta e sutil. Os líderes de Atos conseguiram cuidar de um povo de uma maneira que houve liberdade, espontaneidade e criatividade – e esse foi o segredo do sucesso da igreja nos primeiros séculos. Eu não sou contra autoridade, sou apenas contra uma autoridade que sacrifique a liberdade. Nunca podemos esquecer que não há mais mediador entre nós e Deus.”

Eliasaf Assis | é pregador e professor universitário; trabalha especialmente com jovens e casais

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