Desprendimento do Mundo

Data de publicação: 08/11/2011
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Edição 25 e Revista Impacto - 1998 a 2014.
Este artigo pertence a: Edição 25

Por: Watchman Nee

Apesar de estar no mundo, a igreja não só se recusa a colaborar para a edificação do seu sistema, mas também insiste em pronunciar julgamento sobre ele. Mas, ao mesmo tempo que a igreja é uma fonte de irritação para o mundo, o mundo também é uma fonte de constante dor para a igreja.

Como o mundo está em constante desenvolvimento, seu poder para afligir o povo de Deus está sempre aumentando. Hoje, de fato, a igreja enfrenta um força no mundo que jamais conhecia nos tempos primitivos. Naquela época, os filhos de Deus tinham de passar por perseguição aberta, através de violência física (At 12; 2 Co 11). Estavam sempre colidindo com oposição tangível, material.

Agora a principal dificuldade que encontramos no mundo é mais sutil, uma força intangível por trás de coisas materiais, uma força impura, totalmente maligna. O impacto dessa força espiritual hoje não só é maior do que naquela época, mas há um elemento presente agora que não havia anteriormente.

Lemos em Apocalipse 9.1-4 a respeito de gafanhotos que saem do abismo para a terra, e da estrela que caiu do céu. Isto fala de Satanás, e das forças que ele irá soltar sobre o mundo no final dos tempos. Portanto, as últimas gerações enfrentarão poderes espirituais que não estavam soltos anteriormente.

Ao mesmo tempo, a Palavra de Deus revela que nos últimos dias uma grande parte da batalha espiritual da igreja não será especificamente com pecado e violência, embora estes sem dúvida se multiplicarão cada vez mais. Sua luta principal será com a fascinação espiritual de coisas aparentemente cotidianas: comer, beber, comprar, vender, plantar, edificar, casar-se e dar-se em casamento (Lc 17.26-30). Estas coisas não são inerentemente pecaminosas, são simplesmente coisas do mundo. São assuntos que passam cada vez mais a dominar nossa atenção, nossa conversa, nossos pensamentos. Há uma força que obriga a considerar estes assuntos; a nossa própria existência requer que nossa atenção se focalize neles.

Contudo a Escritura adverte-nos que “o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). Ordena que busquemos em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça, assegurando-nos de que quando o fizermos, todas essas coisas nos serão acrescentadas (Mt 6.32). Ordena- nos a estar despreocupados com comida e vestuário, pois se Deus cuida das flores do campo e dos pássaros, não cuidará muito mais de nós, que pertencemos a ele (Mt 6.25-32)? No entanto, a julgar por nossa ansiedade, parece que Deus cuida somente deles, e não de nós!

Agora este é o ponto que requer ênfase especial. Este estado de coisas não é normal. A atenção indevida dada ao comer e beber e à sobrevivência, e as pressões sobre nosso tempo, que caracterizam a vida de praticamente todos atualmente, estão longe de serem normais. Não estamos entrando em contato apenas com necessidades materiais; estamos tocando em demônios. Satanás concebeu a ordem mundial, e a controla; e está preparado para usar seus poderes demoníacos através das coisas do mundo, para atrair-nos para o seu sistema.

O presente estado de coisas não pode ser considerado separadamente disso.

Oh, que os filhos de Deus possam despertar-se para este fato! No passado os santos de Deus encontraram toda sorte de dificuldades; contudo, em meio às dificuldades, podiam olhar para cima e confiar em Deus. Nas pressões de hoje, contudo, estão tão confusos e desnorteados que parecem incapazes de confiar nele. Oh, vamos compreender a origem satânica de toda esta pressão e confusão!

O mesmo se aplica em relação ao restante da lista em Lucas 17. Casar-se e dar-se em casamento é algo sadio e normal em qualquer época; mas hoje há um elemento introduzindo-se nessas coisas que não é natural. Plantar, edificar, comprar e vender – tudo é perfeitamente legítimo e benéfico, mas há um poder por trás dessas coisas que pressiona os homens até que fiquem desnorteados e desequilibrados. A força maligna que dá energia ao sistema mundial precipitou uma condição em que vemos dois extremos: por um lado, a total incapacidade de se viver dentro do seu orçamento; por outro, oportunidades extraordinárias para acumular riquezas. Ambas as condições são anormais.

Você percebe como as pessoas estão correndo para cá e para lá? Como vários membros da família precisam trabalhar para suprir todas as “necessidades” do mundo atual? Como se sentem obrigados a fazer cursos de aperfeiçoamento e especialização a fim de manter o emprego, ou para se conseguir um outro que seja melhor? Fomos apanhados num redemoinho de trabalhar, estudar, adquirir, contrair compromissos, e dar conta deles. Você não percebe que este estado de coisas não é apenas algo natural? Não vê que há uma força aqui que está cativando os homens?

As pessoas não estão agindo sensatamente; estão fora de si. Não estamos meramente em contato com o mundo, estamos nos relacionando com um sistema satânico. Estamos vivendo no fim dos tempos, uma época em que um poder especial foi liberado e está impelindo os homens nesta direção, quer queiram quer não.

Assim, a questão não é tanto de pecaminosidade, mas de mundanismo. Quem ousaria dizer que você erra por comer e beber? Quem ousaria desaprovar o casar-se ou dar em casamento? Quem questionaria o seu direito de comprar ou vender? Oh, que possamos acordar para a realidade de que estas coisas simples e comuns estão sendo usadas por Satanás para aprisionar os filhos de Deus na grande rede de sua ordem mundial!

“Acautelai-vos por vós mesmos, para que nunca vos suceda que os vossos corações fiquem sobrecarregados com as conseqüências da orgia, da embriaguez e das preocupações deste mundo, e para que aquele dia não venha sobre vós repentinamente, como um laço”(Lc 21.34).

A expressão “preocupações deste mundo” seria melhor traduzida como “cuidados desta vida”. A palavra usada no grego aqui é bios, ou vida biológica, e não zoe, ou vida espiritual. O Senhor está nos advertindo aqui para que não sejamos excessivamente pressionados pelos cuidados desta vida, ou seja, com ansiedades referentes a assuntos bem comuns, como alimento e vestuário, que pertencem à nossa presente existência sobre a terra. É por causa de tais assuntos corriqueiros que muitos negligenciam o chamado de Deus para suas vidas. Pois é sempre uma questão de onde está o coração. Nosso coração não deve estar “sobrecarregado”. Em outras palavras, não devemos carregar um fardo com relação a estes assuntos, que nos abateria. Temos que ser na verdade desprendidos em espírito de nossos bens, na casa ou no campo (Lc 17.31).

Houve um tempo em que a igreja rejeitou os caminhos do mundo. Agora, não apenas os usa, mas também abusa deles. Naturalmente, devemos usar o mundo, porque vivemos nele; mas não vamos desejar, nem ansiar por ele. “Vigiai, pois, a todo tempo, orando, para que possais escapar de todas estas coisas que tem de suceder, e estar (literalmente, ‘ser postos’) em pé na presença do Filho do homem” (Lc 21.36).

Iria Deus instar-nos a vigiar e orar, se não houvesse uma força espiritual contra a qual devemos guardar-nos? Não ousemos aceitar nosso destino como fato lógico, mas procuremos estar constantemente alertas para que fiquemos verdadeiramente desprendidos em espírito dos elementos deste mundo. Há coisas que são do mundo e que são essenciais à nossa própria existência. Estar preocupados com elas é legítimo, mas estarmos oprimidos por elas é ilegítimo, e poderá causar a perda do melhor que Deus tem para nós.

O livro do Apocalipse sugere que Satanás estabelecerá seu reino do anticristo no mundo político (cap. 13), religioso (cap. 17), e comercial (cap. 18). Sobre esta base tríplice, seu reino encontrará sua última expressão violenta. Nos últimos dois capítulos mencionados, esse reino surge sob a figura de Babilônia, o instrumento especial de Satanás. Babilônia tem ligação com o cristianismo corrupto (a meretriz, que inclui todos os falsos sistemas religiosos que substituem a verdadeira noiva de Jesus), mas o seu julgamento é por causa do comércio que faz. O capítulo 18 gira em torno de mercadores e mercadoria. Aqueles que lamentam a queda da grande cidade, desde o rei até o timoneiro do navio, deploram a idéia de que seu florescente comércio cessou repentinamente. Não estamos afirmando que o simples comércio está errado, mas podemos declarar com base na Palavra de Deus que o seu princípio está ligado a Satanás (Ez 28), e o seu fim à Babilônia (Ap 18). E a isto acrescentamos por dura experiência própria que o comércio é o campo em que, mais do que em qualquer outro, a “corrupção das paixões que há no mundo” (2 Pe 1.4) persegue incansavelmente até mesmo o cristão de princípios mais elevados, podendo facilmente o surpreender e arruinar, não fosse a infinita graça de Deus.

Nossos olhos estão abertos para a Babilônia? Em Apocalipse 18, os mercadores prantearam, mas os céus gritaram “Aleluia” (19.1). Esta passagem (Ap 19.1-6) contém os únicos “aleluias” registrados no Novo Testamento. Acaso fazemos eco a eles?

Pois estamos em um campo perigoso quando entramos em contato com o comércio. Se devido à nossa profissão temos obrigação de nos envolver com isto, e se o fizermos com temor e tremor, poderemos com ajuda de Deus escapar à cilada do diabo. Mas se estivermos demasiadamente confiantes, então não há esperança de escaparmos do inescrupuloso egoísmo que tal comércio gera. Portanto, não precisamos descobrir como deixar de comprar e vender, comer e beber, casar e dar em casamento; o problema é fugir do poder que está por trás dessas coisas, pois não podemos permitir que esse poder triunfe sobre nós.

Qual é, então, o segredo de conservarmos nossos bens materiais dentro da vontade de Deus? Certamente é conservá-los para Deus, isto é, saber que não estamos armazenando valores inúteis, ou acumulando vastos depósitos bancários, mas economizando tesouros para sua conta. Devemos estar perfeitamente dispostos a nos separar de qualquer coisa, a qualquer momento. Não importa se vou deixar dois mil reais ou apenas dois. O que importa é se posso deixar qualquer bem que possuo sem o mínimo pesar.

Não estou dizendo que é necessário dispor de tudo que temos; não é esse o ponto. O ponto é que, como filhos de Deus, não podemos acumular coisas para nós mesmos. Se guardo algo, é porque Deus falou ao meu coração; se me separo dele, é pelo mesmo motivo. Conservo a mim mesmo dentro da vontade de Deus, e não tenho receio de dar, se Deus assim o pedir. Não guardo nada porque o amo, e assim posso também deixá-lo se Deus assim mandar, sem qualquer pesar no coração. Isto é o que significa ser desprendido, livre, separado para Deus.

Este texto foi extraído e adaptado do livro “Não Ameis o Mundo”, de Watchman Nee, capítulo 7. Aguarde em breve o relançamento deste livro em português pela Editora dos Clássicos.

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